Troca de cartas ao longo de 500 anos
20/05/2020 | 13h56
Um janeiro qualquer de 1817.
Minha malunga,
Hoje passei o dia a pensar no provérbio que me ensinaste durante a travessia. “Dyodyo kuzeye ko i mputu – O que tu não sabes é Europa”. Creio que estavas certa. Os mortos, todos eles, vêm para o Novo Mundo. Caminhando pela rua do Valongo, recordei do dia em que desembarcamos neste Brasil, o lugar de onde não se retorna. Tumbeiros ainda cruzam o oceano transportando mais e mais almas pelas águas agitadas. Nós não sabíamos o que nos esperava. Nós não esperávamos por nada. Mas você já dizia que o Novo Mundo era um preâmbulo de mortos.
Um abril qualquer de 2017.
Irmã,
Outro dia li na internet que a Terra Papagalli fora batizada de Brasil em homenagem a sua mais valiosa commodity da época. A árvore de pigmento vermelho que coloriu os tecidos europeus de sangue indígena e inaugurou uma tendência fashionista da elite da época. O pigmento extraído do Pau Brasil, que no passado tingiu roupas abastadas, hoje é associado aos comunistas e matiza bandeiras dos desprovidos de terra e de teto. Isto porque graças a abundância arbórea, a tintura rara tornou-se comum na Europa, fazendo que o que a aristocracia buscasse outro pigmento mais raro na natureza que representasse seu distanciamento do povo: o azul. Talvez por isso o sangue da realeza seja azul e não vermelho como o plasma indígena exportado nas caravelas ou como a seiva que corria em veias negras vindas da África. Os tumbeiros brasileiros, transportaram sangue por mais de 400 anos, tingindo de escarlate a rota naval. A água azul que vemos é uma ilusão de ótica. A mesma ilusão criada pela aristocracia que nos faz crer que basta perseverar para conquistar nossos sonhos. Que sonhos? Nossos sonhos foram diluídos nessa grande kalunga. Ou seria kalunga pequena? O mar, este elo de ligação entre o Velho Mundo e um Grande Cemitério continua até hoje a transportar sangue sob forma de commodities. Que nome teria esta terra, em que se plantando tudo dá, se a cada nova matéria prima, ela assim fosse rebatizada. O Brasil teria sido Cana, sido Ouro, sido Café. O país contemporâneo chamaria Soja. Nome curto e singelo. Cujos descendentes se denominam “Sojeiro”. Um povo de sangue ralo e amarelo, cuja aparência ictérica se disfarça quando observamos de perto suas mãos, pés e os cascos de seus navios cargueiros cobertos pela mesma seiva indígena e negra do país colonial.
Um agosto qualquer de 1817.
Minha malunga,
Escrevo-te do passado para que no inexistente futuro possas recordar de nossas palavras. Duzentos anos de português apaga qualquer resquício de nossa sabedoria. É esta a sina de nossos filhos da diáspora. A morte pelo esquecimento. Esquecemos de nossa língua, de nossos costumes, esquecemos até de quem somos e quem são os nossos. E vivemos como os outros (brancos) determinam. Cerceando nossos corpos e moldando nossos comportamentos para caber na mediocridade deles.Tenho refletido sobre o que li em vossa última carta e me é quase impossível imaginar que praias como Santa Luzia, Gamboa e Lazarento já não existam. Onde quebram as ondas destes mares sepultados? Mputu, esta terra dos brancos e das águas agitadas por onde não se pode navegar de volta, tem agora passagens subterrâneas onde correm os rios ladeados aos inúmeros corpos dos nossos. Corpos pretos enterrados sem direito a identidade. Rios turvos que um dia, cristalinos, demarcavam a geografia da cidade margeando as construções que crescem em torno das águas. Uma tragédia. O Rio de Janeiro é um imenso cemitério de águas e corpos negros. Uma grande kalunga pequena.
2 de Setembro de 2018.
Irmã,
Neste exato momento em que te escrevo, labaredas de fogo devoram, sem piedade, grande parte do pouco que restou de nossa memória na diáspora. O fogo consome o telhado daquilo que um dia foi residência real, mas engana-se aquele que pensa que este incêndio é um simulacro tupiniquim da tomada da Bastilha. Não há nada de revolucionário em queimar museus. Explico-te pois deves me ler com duzentos anos de atraso e tampouco entender esta missiva. O palácio real, residência de Dom João VI, tornou-se um museu onde residiam artefatos egípcios, ameríndios e de outras civilizações africanas. O fogo consumiu o trono de Adandozan, do reino de Daomé e 5 milhões de exemplares de insetos. Borboletas mortas voavam numa sala do museu pouco antes de serem consumidas pelo fogo. Em alguns dias, o mundo saberá do pouco que sobreviveu às chamas. Pouparam Luzia e o Bendegó. Luzia mulher negra, o fóssil mais antigo da América, que tem a aparência de nossos ancestrais. Resistir à travessias, pelas águas ou pelas chamas, parece-me ser nosso destino. Encontraram nas cinzas um casco de tartaruga marinha. Lembrei dos tempos de colônia em que os nossos desenhavam nos cascos das tartarugas marinhas o cosmograma Bakongo na intenção de comunicar com aqueles que ficaram em África. Se vivemos no lugar donde não se retornas, porque insistimos em lançar nos mares e nos céus, pássaros e tartarugas cujos corpos carregam mensagens aos ancestrais?Seria alimentar falsas esperanças? Não, irmã. Isso é resistir. Mandar à África notícias de nossos lugares de desterro neste longínquo território americano que atravessa os hemisférios sendo a morada possível para os eternos exilados.
 
 
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O Mar
15/05/2020 | 18h17
Eu estava sentada de olho nas ondas quando ele chegou. Parecia íntimo do mar. Era marinheiro ou pescador. Talvez um filho de Yemanjá. Chegou e foi logo entrando de roupa e tudo. Sem cerimônia. Sem parcimônia. Aflito pela chegada do novo ano. Sem pedir licença às ondas, colocou sobre as águas um barquinho de madeira azul e um punhado de rosas brancas. Eu não consegui ver o que tinha dentro do barco. Supus que eram presentes para Odoyá. Para as sereias. Saudações do novo ciclo. O marinheiro pescador sussurrava a cada flor que lançava no mar. Se eram pedidos ou agradecimentos, não consegui ouvir. Mas pelo semblante de tristeza, ele deixava no barco mais mágoas do que conquistas. As ondas se encarregaram de levar o barco para fora do nosso alcance. Algumas das rosas foram devolvidas na areia. Nem tudo a rainha aceita. Nem tudo o mar engole. O senhor catou uma por uma das flores rejeitadas forçando o presente mal recebido. O mar não estava nem aí, devolveu-lhe novamente, e novamente e novamente até o pescador marinheiro desistir da insistência. Ele se banhou nas águas deixando que o sal levasse para o fundo todas as mazelas daquele ano. Esfregava o corpo com a água salgada como se quisesse lavar o que tinha de mais dolorido na pele e no coração. Levar para longe, para o fundo do mar toda desesperança. Bem nas profundezas do oceano, onde a luz do sol não chega, descansam tesouros naufragados, barcos de madeira, mágoas e tristezas de corações aflitos que sempre recorrem ao mar, ao sal, as sereias por um novo recomeçar.  
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Semiologia médica: COVID-19
16/04/2020 | 00h01
Coronavírus: Também conhecido como COVID-19 é, provavelmente, o vocábulo mais falado e pesquisado, em 2020, no mundo. O vírus que gosta de gente e contato, é transmitido pelo toque e aperto de mãos, carícias, abraços e beijos além do contato direto com perdigotos propelidos por espirros e tosses.
Por se tratar de uma pandemia mundial, de modo a não ser prolixo, este artigo irá se deter aos efeitos colaterais do confinamento (quarentena/lockdown),  entendendo que as formas de contágio e prevenção já estão sendo amplamente divulgadas pela OMS.
Os efeitos colaterais e efeitos secundários das práticas de quarentena apontam o surgimento de novas endemias como a depressão e ansiedade, mas revelam também possíveis caminhos de cura para outras doenças que assolam a humanidade. Por esta razão, a COVID-19 é denominada nesta semiologia poética como "O vírus da contradição". A reclusão humana é essencial e indispensável para impedir a rápida proliferação do vírus, mas têm reações adversas que não podem ser negligenciadas.
Estas reações, muitas vezes contraditórias às razões do confinamento, podem ser classificadas como:
Depressão - Para evitar a falta de ar e a obstrução dos pulmões - principal consequência da ação do vírus no corpo humano - recomenda-se o confinamento. A reclusão, por sua vez, coloca o paciente em auto-exílio, podendo levá-lo a uma profunda clausura em seus próprios pensamentos. Pensamentos ansiosos e depressivos poderão provocar enfermidades respiratórias como a (DPOC) - doença pulmonar obstrutiva crônica. É preciso ter pulmões sadios para lidar com o confinamento imaginário.
Hipersensibilidade - Anafilaxia - Resposta súbita e potencialmente fatal provocada pelo consumo excessivo de subjetividades e narrativas alheias por meio da internet, streaming e Lives de Instagram. As principais características incluem: Ansiedade, irritabilidade, pensamentos obsessivos e sensação constante de falta de ar e de tempo.
Idiossincrasia – Predisposição particular do organismo para:
        Compartilhar momentos íntimos de desinteresse público – como a divulgação de produtividade ou fotografias de quitutes preparados durante o confinamento.
        Participar e disseminar correntes que revelam gostos e hábitos particulares também desinteressantes.
        Protagonizar Lives verborrágicas de pouca ou nenhuma relevância pública.
Superdosagem relativa – A convivência única, exclusiva e intensa com seus pares de residência poderá desencadear em crises conjugais ou intermináveis conflitos familiares resultando à divórcios, separações e até mesmo óbitos.
Para as reações adversas acima, recomenda-se exercícios físicos e práticas corporais/mentais que estimulem seu sistema respiratório colocando-o em contato com o presente – Yoga, Meditação e o Tai Chi Chuan são práticas que podem ser feitas em espaços confinados. Terapias individuais ou de casal podem trazer bons resultados no curto e longo prazo.
Recomenda-se também cuidado redobrado com a digitalização. O excesso de mundo virtual pode levar o paciente a eliminar sua percepção da realidade, ocasionando exageradas reações de pânico e comoções.
Efeitos secundários – Algumas das consequência do efeito farmacológico já evidenciados pela quarentena:
O vírus que ataca o sistema respiratório proporciona em países como China, Índia, Estados Unidos e Brasil uma redução significativa dos níveis de dióxido de nitrogênio (NO2), gás emitido por veículos motorizados, termelétricas e indústrias – ironicamente, responsável pelo agravamento de quadros respiratórios - proporcionando como consequência uma melhora efetiva e visual da qualidade do ar. A imprensa registrou a visibilidade da cordilheira do Himalaia, há 200km do Norte da índia, antes apagado pelas fumaças tóxicas das regiões industrias. Também foram registradas imagens de constelações anteriormente varridas do céu de São Paulo. O vírus que nos tira a capacidade de respirar, nos devolve um ar puro que há muito não sentíamos.
Efeitos colaterais – O mais forte efeito colateral sentido em alguns países, é a consolidação do capitalismo em conjunto à desesperadas tentativas de um exercício em vão de soberania de Estado. Mesmo diante de uma drástica recessão econômica, o capitalismo parece não se abalar e busca meios de se fortalecer com a presença do vírus. Vide guerras comerciais para adquirir máscaras de proteção facial, alta dos alimentos e ofertas remédios falsamente milagrosos.
Pacientes harebôs e hipsters fantasiam uma revolução coronoviral. Pacientes céticos na ciência, pouco informados ou bastante mal intencionados – acreditam que sairemos ilesos dos efeitos deste vírus em 3 ou 4 meses. Pacientes realistas percebem que o vírus da contradição, clama pelo fim do capitalismo ao passo que nos isola, nos enclausura na individualidade do consumo exagerado preocupado somente e unicamente com a própria existência. O vírus não veio para nos ensinar nada do que não sabíamos. Não deixemos nas mãos dele (que ironicamente se espalha através de nossas mãos) o fim do capitalismo destrutivo.
Para os efeitos colaterais e secundários, recomenda-se refletir: Voltar à normalidade é retornar ao problema. O pior que podemos desejar. Precisamos nos reinventar com habitantes do planeta. Rever nossas posturas e valores, repensar a maneira com que consumimos nosso tempo e dinheiro.
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Quarentena
30/03/2020 | 11h23
Quando eu era criança, ao meio dia da quarta-feira de Cinzas, minha avó, mãe do meu pai, iniciava seu ostracismo de quaresma. Durante os quarenta dias que antecediam o Domingo de Ramos, ela se recolhia em casa, prendia os cabelos, se desnudava de qualquer vaidade usando uma túnica roxa horrorosa. Maria não fazia quase nada além de rezar e preparar as refeições da família, sem carne – extremamente proibida durante o chamado jejum da quarentena. A casa não arrumava, o chão não varria.O bordado postergava. Doces não comia. Qualquer forma de prazer, mesmo que mínima, era completamente condenada. Tudo isso em penitência Cristã. Uma espera de quarenta dias para livrar o corpo dos pecados mundanos devidamente bem compensada com os ovos e chocolates de Páscoa.
Até hoje, algumas igrejas de cidades muito católicas, como São João Del Rey e Tiradentes, cobrem seus pisos com flores de alfazema deixando um perfume hipnótico que atrai até pagãos – como eu. Segundo a tradição, a alfazema perfuma a igreja disfarçando o cheiro ruim da falta de limpeza e afasta as traças e baratas. 
Esses dias, conversando com minha mãe sobre a reclusão imposta pelo Covid-19, recebo dela a pergunta “Até quando vai durar esta quarentena?”.Minha mãe estava completamente agoniada com as incertezas do futuro – como se futuro houvesse certeza alguma - e da extensão desta quarentena que poderia durar bem mais do que quarenta dias.
"Quando voltaremos a ter uma vida normal?"
Em quase duas semanas de reclusão pego-me a pensar se realmente desejo voltar à vida “normal” que tinha. Enquanto empresários mostram suas garras selvagens destilando prognósticos de “5.000, 7.000 ou 12.000 velhinhos mortos”, moradores da Baixada Santista enxergam um céu azul não visto na cidade desde a década de 70. No céu de Santos ressurgiu aos olhos dos moradores, um aglomerado de estrelas Ômega Centauri, antes cobertas pelo céu marrom da polução. É para essa vida normal que queremos retornar?
É este o país que não pode parar?
João Guimarães Rosa escreveu: “A traça não pode com a alfazema.” Sejamos então as flores que combaterão o vírus da intolerância, do individualismo, e do capitalismo exacerbado e inconsequente que nos move em alta velocidade rumo ao fim do mundo.
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A oração em sua melhor forma
24/02/2020 | 16h40
Ontem, a Estação Primeira de Mangueira entrou na avenida para contar a história de Jesus Cristo. Uma das mais, talvez a mais famosa biografia do mundo, narrada por um ponto e vista crítico e contemporâneo. Na Apoteose, Jesus foi homem negro, periférico. Foi gay, foi indígena e foi mulher. Uma mulher, rainha da bateria, que em respeito ao tema de sua fantasia cobriu todo o corpo e atravessou a avenida sem sambar.
Mas o samba não é uma forma de oração?
Na versão etimológica oficial, a palavra “samba” se origina de uma corruptela da palavra “semba”, que significa “umbigada”, movimento corporal praticado pelo ato religioso, no idioma quimbundo. Porém, alguns linguistas apontam que a etimologia da palavra é “samba” mesmo e não “semba”. E que o idioma quimbundo tem os dois vocábulos distintos, assim como seus distintos significados. Segundo estes estudiosos, “samba” em quimbundo, significa orar, rezar.
A Igreja Católica e seu líder na época (1452), o Papa Nicolau V, autorizou aos portugueses, por meio da bula papal Dum Diversas, a conquistar territórios não cristianizados e escravizar perpetuamente os sarracenos e pagãos que capturassem naquele que hoje conhecemos como continente africano. Inaugurava-se a escravidão mercantilista.
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O colonialismo mercantil e patriarcal atacou os corpos negros desde sua concepção. Domesticados pelo trabalho forçado, pela violência dos castigos aos que se rebelavam e violados pelos estupros, o corpo negro foi dominado não somente pelo físico, mas também simbolicamente. A mesma igreja que permitiu a escravidão espalhou pelo Novo Mundo sua ideologia da superioridade da cabeça sobre o corpo. Segundo o Cristianismo, o corpo é profano e é por meio dele que pecamos. Por isso Jesus não samba. Por isso ele nasceu de um corpo virgem, de uma mulher que não pecou. Para ascender e evoluir espiritualmente, primeiro precisamos dominar a carne. Escondê-las com roupas. Privá-las dos movimentos. Não há sacralidade possível quando o corpo é livre. Não há sacralidade possível quando o corpo samba, quando a cabeça se rende aos desejos carnais.
Para os povos Bantu, Nagô, Gegê, Fanti-Ashanti e outras culturas de transe, o corpo é a ponte para o sagrado. É preciso dançar, movimentos de rotações anti-horários, espiralares, para conectar aos seus antepassados. Só pelo corpo é possível alcançar o divino.A Festa da Carne, uma brecha pagã do calendário cristão foi aproveitada pelos negros para iludir a perspicácia dos brancos opressores e festejar seus reis, suas religiões e instituições.
Os maracatus, o samba, a congada e tantas outras expressões culturais negras assimiladas pelo carnaval cristão eram, na sua essência, um festejo cultural e religioso de diferentes povos de origens e etnias diversas que acreditavam num deus que soubesse dançar.
O sábio Zaratrusta, talvez mais sábio fosse, ou quem sabe seria menos descrente na vida e nos homens, se conhecesse o samba e as religiões que cultuam o corpo como sagrado. Onde os deuses só existem porque dançam.
A mangueira trouxe para a passarela do samba, um Jesus contemporâneo, um Jesus “possível”.
Mas POSSÍVEL para quem?
Não penso que os indígenas, massacrados pela Companhia de Jesus desde as missões de 1500, precisassem de tal Cristo. Não penso que o Cristo neopentecostal que hoje leva a "salvação" às aldeias seja-lhes necessário. Esta mudança, apenas estética de quem foi Jesus não significa nada para povos que acreditam no coletivo. Que não vêem como imagem e semelhança divina, porque o divino é a natureza e o indígena é a natureza assim como as águas, os pássaros, os mamíferos. Não há superioridade. 
Concordo que Jesus pode não ter sido um homem branco. Se nasceu mesmo em Belém como diz a bíblia, era um homem mouro. Mas nesse Cristianismo tal qual o conhecemos e tal qual a História construiu - usado como instrumento de conquista e dominação de um povo sobre outros povos, a única imagem possível de Jesus é esta imagem oficial. Um homem loiro e de olhos azuis. Um Europeu, desbravador do Novo Mundo - que é novo apenas para ele.
Esse Cristianismo que autorizou a dominação, o epistemicídio e o massacre físico de povos indígenas e negros não pode ser feminino, nem afro-descendente, muito menos indígena. Jesus Cristo só importa aos cristãos e a mais ninguém. E é este o Cristo possível. Aquele que não é hegemônico. 
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Semiótica da Escravidão
19/01/2020 | 20h02
Em 2017, fiz uma viagem à Valença durante as festas do quilombo São José. Foi meu namorado quem organizou a viagem e reservou o hotel: uma antiga estalagem colonial. Chegamos de madrugada, o estacionamento lotado. Depois do check-in, caminhamos, num silêncio sepulcral, por um largo corredor de numerosas portas e janelas de peroba de rigor simétrico típico da arquitetura das fazendas de café. Na manhã seguinte, a euforia das crianças misturadas ao som de talheres e copos de vidro nos indicava o local do café da manhã. Um salão quadrado, com 20 metros de largura, e um pé direito de 6 metros, cuja parede lateral, bem ao lado da porta de entrada, adornava um imenso painel fotográfico com 120 metros quadrados de extensão.
Ao fundo da fotografia, ainda em foco, o casarão, ao qual habitávamos. Poucos metros à frente, em destaque, o barão e sua senhora sentados num banco de madeira, debaixo do abano de um leque de plumas agitado por mãos negras. Ao chão, duas crianças brancas brincavam enquanto a ama de leite observava atenta. Do lado direito da fotografia, um grupo de dezenas de escravizados trabalhavam na lavoura de café debaixo de um calor escaldante que eu poderia sentir mesmo dentro daquele salão devidamente climatizado.
Aquela foto era um dos signos do inferno. 
Debaixo da imagem dos escravizados, próximo a porta de entrada do salão, uma pequena fila de hóspedes se formava: uma mulher com duas crianças pequenas, um casal de namorados e uma senhora aposentada aguardavam a vez de serem fotografados ao lado da família do Barão. O registro da imortalidade era feito pelo único negro vivo, além de mim, naquele ambiente: o garçom. Das inúmeras iconografias que já vi sobre a escravidão no Brasil nada me impressionou tanto quanto aquela. Não era apenas o tamanho da reprodução, nem a proximidade geográfica e temporal do objeto retratado. Mas tudo isso, somado à violência simbólica de um país que se representa ao lado dos barões.
Três anos depois daquele episódio em Valença, estava eu, numa fila de cinema, assistindo ao vídeo em que Roberto Alvim parafraseava um discurso do ministro da propaganda nazista, Joseph Goebbels. A estética e semiótica nazista já não usavam disfarces num governo que sempre flertou com o regime desde a época da campanha eleitoral. Mas será mesmo que Bolsonaro e seus asseclas, algum dia, precisaram ou tiveram ao menos a intensão de dissimular tamanha proximidade ideológica e simbólica?
Desde a campanha eleitoral, os preceitos da Propaganda Nazista foram adequados à nossa realidade e disparados por robôs que invadiram milhares de celulares brasileiros. A imprensa, o congresso, a justiça eleitoral, todos nós, sabíamos que o crime cometido pelo PSL era suficiente para impugnar a campanha. Mas nada foi feito. Quando ainda era candidato, Bolsonaro e seu vice proferiram inúmeras declarações que demonstravam o apreço pelas teorias de darwinismo social e hierarquia racial, o cerne do ideial da superioridade ariana.
"Mourão tem um neto bonito devido ao branqueamento da raça."
"Os quilombolas são animais sem utilidade nem para procriação."
"Herdamos a indolência dos indígenas e a malandragem dos negros."
Nem o presidente, muito menos seu vice se sentiram ameaçados pelo crime inafiançável e imprescritível que cometeram.
Bolsonaro, em entrevista ao Roda Viva, chegou a questionar a dívida histórica do país com os 400 anos de escravidão seguidos de um epistemicídio e genocídio ainda vigente.
Mourão foi além, fez uma homenagem em seu Twitter ao sistema das capitanias hereditárias, que dividiu este país, de dimensões continentais, em 15 partes para apenas 12 famílias. Uma concessão passada de pai para filho, onde os donos nem sequer calejavam as mãos lavrando as terras, tampouco pagavam salários aos trabalhadores. É isso que o vice presidente chama em seu Twitter de EMPREENDEDORISMO. Mourão termina o post com a seguinte frase "é hora de resgatar a melhor de nossas origens". Reafirmando a política genocida de governo para o qual foi eleito. A violência física e simbólica que forjou a nação brasileira há mais de 500 anos está mais do que vigente e presente neste desgoverno atual. Seja no genocídio dos povos indígenas do centro-oeste e Amazônia, na derrubada das florestas para a exploração completa de suas capitanias, ou no programa de segurança do Ministro Sérgio Moro.
O presidente e o vice se sentem confortáveis em fazer tais declarações, sem medo algum de punição. Tampouco se incomoda o dono do hotel que deve achar bonito decorar seu salão com um retrato de um dos crimes mais devastadores contra a humanidade. Tal conforto ainda perdura na postura do casal de namorados, da mãe com seus filhos, da senhora idosa que posam ao lado de criminosos. Será que a foto também vai pro Twitter?
O racismo não é crime nem uma ameaça em um país que ainda romantiza 400 anos escravidão reproduzindo a violência e o holocausto de mais de 5 milhões de africanos em cartões postais, artigos de decoração e painéis ornamentais nos refeitórios de hotéis coloniais.
Nós não reconhecemos nossa história. Não tratamos das nossas feridas. E reproduzimos sem questionar os signos do nefasto regime colonial. Mas parafraseando a manchete da Folha de São Paulo, do dia 17 de Janeiro, “Citação nazista na cultura e agenda econômica não se misturam, dizem analistas” e a bolsa de valores subiu 1,5% se aproximando de mais um recorde histórico.
O governo de Bolsonaro, apesar de ser o que é, se faz necessário para que Guedes possa, com calma, executar seu plano econômico de prosperidade para os somente 12 capitães hereditários.
Eu poderia passar o dia justificando minha tese de que o presidente nunca disfarçou suas ideologias sanguinárias. A estética nazista se faz presente neste governo desde uma simples ida ao barbeiro para cortar os cabelos penteados para o mesmo lado de uma famosa foto do führer, até no slogan nacionalista “Brasil acima de tudo”.
Nada é gratuito. E nem sempre é sutil.
Inúmeras vezes Bolsonaro e sua turma escancararam a semiótica nazista em seus discursos e atitudes. Os signos da superioridade de raça estão presente até mesmo nos silêncios, nos abandonos das entrevistas. Nas perguntas sem respostas:
Quem mandou matar Marielle Franco?
Mas como diz nossa suposta futura secretária da pasta de cultura essas semelhâncias simbólicas são bobagens. Bolsonaro é um homem doce, com bom coração, que faz brincadeiras homofóbicas e racistas apenas da boca pra fora.
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Uma obra inacabada
04/07/2019 | 14h50
Na fila do embarque para um vôo rumo à Espanha, duas amigas conversam sobre as vantagens da eletroestimulação muscular associadas à malhação. Uma roupa de neoprene com 20 eletrodos conectados a um equipamento geram impulsos elétricos em diferentes partes da musculatura humana. Segundo a amiga, 20 minutos de eletrochoque equivalem a duas horas de malhação.
- Na hora do almoço, miga. 20 minutinhos... Depois engulo um sanduíche, e já tô pronta para voltar ao batente.
Na primeira noite em Barcelona, caminhei até a Sagrada Família. Estava cansada da viagem, faminta e tentando acostumar meu corpo ao fuso. Jantei uns tapas num bar de frente à catedral. Na minha frente, uma mulher com uma Cannon e um conjunto de lentes que avolumava sua mochila, se ajoelhava, contorcendo em diferentes posições, que mais pareciam yoga, na busca da foto ideal. Ela abriu a mochila inúmeras vezes, trocando de lentes e voltando a contorcendo o corpo. Passou mais de 20 minutos se ajoelhando em frente à catedral como se pagasse promessa. Eu comi as tapas. Tomei duas taças de sangria enquanto a moça ainda se contorcia na frente do monumento. Ela repetia os movimentos como num ritual. Sacava as fotos, olhava o resultado no visor, expressava descontentamento, trocava a lente, se ajoelhava, contorcia, quase se deitava no chão. Sacava novas fotos e repetia o movimento de olhar, desgostar e trocar lentes.
Quando me preparava para beber a terceira taça de vinho, vi a moça desistir ao passar por mim falando em inglês:
- Estes guindastes! Vou ter que comprar um postal.
A mulher se referia aos três guindastes plantados no entorno da catedral que auxiliam na construção das últimas torres da igreja. Saí do bar um pouco tonta, mas passei na loja de suvenir para conferir os postais de Barcelona. Para meu espanto, encontrei dois que exibiam as 18 torres da catedral finalizadas. Uma projeção do que talvez vejamos pronto em 2026. O ano de centenário da morte de Gaudí, será também o ano de finalização da catedral – segundo a prefeitura da cidade.
Alguns dias depois, conversava com um amigo, que fumava na calçada de uma rua distante da catedral, quando um repórter da Globo nos pediu para conceder uma entrevista. A pauta da semana era a Sagrada Família, devido a uma recente descoberta de que a catedral não tinha alvará de construção. Aquele dia, era o dia seguinte da primeira publicação do Intercept sobre as mensagens trocadas entre Moro e Dallagnol. Eu, que estava fora do Brasil há três semanas, perguntei ao repórter sobre a repercussão dos fatos. Ele disse não saber muito. Era residente em Lisboa e as publicações ainda eram recentes. Falamos sobre política e desesperança. Falamos sobre Moro, Lula e Bolsonaro.
O repórter insistia na entrevista mesmo diante da minha refuta. Ele me passou o microfone e perguntou sobre o alvará de construção recém emitido pela prefeitura de Barcelona. Quis saber minha opinião sobre a conclusão de um projeto iniciado há 137 anos. O tom de sua pergunta entregava uma certa dúvida sobre os cálculos estruturais das torres mais altas da cidade. Eu não lembro o que respondi. Mas lembro o que pensava enquanto respondia. Gaudí é conhecido por se inspirar nos elementos da natureza. As colunas da Sagrada Família são frondosos troncos de árvore que se ramificam formando um teto abobadado. Lá dentro, na casa de deus e debaixo das copas das árvores, estamos protegidos pelas intempéries da natureza.
Eu pensava nisso, tentando me convencer da existência da proteção divina.
O repórter perguntou sobre minha expectativa para 2026. Queria saber se em 7 anos eu retornaria à capital da Catalunha para ver a inauguração daquele monumento. Não disse nem que sim, nem que não. Mas respondi em tom autoritário que, se poderes tivesse, jamais deixaria finalizar a construção da Sagrada Família. O eterno canteiro de obras cercado de guindastes é também cartão postal. E apagá-lo do registro só reforça a ideia de uma sociedade que mira no futuro sem se dar conta do presente.
Como se isso fosse possível.
O repórter estranhou minha resposta e palpitou que talvez o editor não a colocasse na edição do jornal. A reportagem era para promover a conclusão da obra e eu dava ideias contrárias. Respondi citando a frase de um escritor português que gosto muito: “O caminho também é lugar” escreveu José Luiz Peixoto no livro Caminho imperfeito.
No vôo de volta não reencontrei as amigas marombeiras. Mas lembrei delas ao passar por uma loja repleta de artigos esportivos e facilitadores de dieta.
A vida, a política e a saúde de um corpo são obras inacabadas. E na construção da democracia, o caminho é o único lugar possível. 
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Tirando a poeira dos porões
21/03/2019 | 17h03
Eu me chamo Mariana Luiza por escolha de minha mãe. Luiza com Z, “Igual a música do Tom” dizia ela. Foi ela quem me ensinou a gostar do maestro, e de Chico, de Milton, de Clara, Paulinho e tantos outros. Mas desde pequena, desde muito pequena, nenhuma música me causa mais arrepio do que um samba enredo. Minha avó Diva, a mãe de minha mãe, foi quem me apresentou o carnaval com suas baterias pujantes. Era ao lado dela e escondida dos meus pais, que eu acompanhava os desfiles madrugada adentro na pequena televisão do seu quarto. Uma aventura pueril algumas vezes rodeada de doces que eu só encontrava nos saquinhos de Cosme e Damião. Minha avó era uma senhora de pequenas atitudes transgressoras. Cheirava rapé, escrevia e postava cartas para o Jaspion e deixava os netos passar madrugadas em claro assistindo TV. Tudo isso longe dos olhos e da fiscalização dos meus pais. Um convite de Diva para assistir às duas noites de desfile do grupo especial do carnaval do Rio de Janeiro, soava para mim como uma espécie de contravenção.
Na minha casa, sempre se falou sobre tudo. Principalmente durante os intervalos do Jornal Nacional. Era entre uma matéria e outra que eu sabia a opinião dos meus pais sobre a inflação, o governo, o preço da gasolina e atuação da Glória Pires na novela.
Nem meu pai, nem me minha mãe, falavam abertamente sobre ser contra o carnaval. A condenação da festa pagã morava nos longos silêncios que sucediam as reportagens jornalísticas que mostravam os barracões das escolas. A ausência de conversa a cada matéria sobre o carnaval dizia muito mais do que as curtas frases de efeito proferidas por meu pai associando subdesenvolvimento do Brasil a alienação momesca. Meu pai ainda costumava censurar com veemência a improdutividade dos dias de folga que diminuía ainda mais um mês originalmente curto para seus negócios. “Fevereiro é o terror do comerciante”.
Passados quase trinta anos, não sei se por respeito, ou por um resquício de culpa cristã, não costumo conversar com meu pai sobre minhas incursões pelos blocos de rua. O assunto carnaval é, assim como na minha infância, tratado ainda com bom e costumaz silêncio mineiro. Mas o fato é que por responsabilidade da minha avó materna, tornei-me uma devota de Momo.
Porém, há mais de um ano, ando imbuída por uma fiel letargia. Um cansaço inabalável, que se manteve incurado mesmo após uma semana de completo ócio nas águas da Bahia. Eu passei janeiro e fevereiro acreditando que minha inércia teria fim com a proximidade do carnaval. Mas meu desinteresse era tamanho que só no domingo, às 7 da manhã, quando amigos me ligavam para o cortejo do Boitatá, eu me dei conta de que o carnaval havia chegado enquanto eu abandonara minhas fantasias imaginárias e materiais. Forcei-me a vencer o desânimo inventando personagens a poucos dias que antecediam a festa. Fui a alguns blocos, encontrei amigos, mas eu sentia que ainda não havia vivenciado minha a apoteose carnavalesca de 2019. Foi quando, na segunda-feira de carnaval, depois de me arrastar pelo rio de esgoto e sujeira que o dilúvio de verão transformou o bairro de Botafogo, me senti intimada a assistir ao desfile da Mangueira. Eu havia escutado alguns trechos do samba, mas meu cansaço eterno me impedira de ouvir o samba completo. Logo eu, neta de dona Diva.
Compramos ingressos em cima da hora pelas mãos de cambistas afoitos. Acreditávamos seguir para o setor 10, quando na verdade havíamos adquirido ingressos para o último setor. O recuado 13. A arquibancada popular. Único setor privado de assistir a totalidade da escola na passarela. O lugar onde o desfile chega de surpresa, depois de quase 40 minutos, e no seu mal chegar já se aligeira, muitas vezes com pressa do cronômetro e fechamento dos portões. O lugar onde vemos o dispersar dos foliões e dos carros alegóricos. A despedida. O fim do carnaval. E era, no início do fim, onde aguardávamos a minha apoteose.
Já passava das 3 da manhã quando a Mangueira iniciou seu desfile. A escola ainda demoraria uns trinta minutos até a chegada dos primeiros membros da diretoria. A nós, reles pagantes de ingressos populares, restava apenas o som do samba ecoado pelas caixas. Alguns turistas estrangeiros descansavam sentados a espera da chegada da comissão de frente. Outros tiravam uma soneca. Mas na minha frente, uma família negra, composta por uma mãe, um filho adolescente e duas meninas entre seus 8 e 10 anos cantavam o samba de cor enquanto eu e meus amigos líamos as partes mais difíceis não decoradas. Mesmo sem ver nada do desfile, a menina mais nova erguia os braços quando o samba falava de um Brasil real e possível não contado pelos livros de História. Enquanto eu me debulhava em lágrimas.
Mil novecentos e noventa e poucos. Eu tinha um pouco mais do que a idade da menina, era aula de história do Brasil. Meu professor justificava a escravidão dos africanos como uma forma de compensar a preguiça e indolência dos indígenas. Eu, uma dos poucos estudantes negros, - 2 numa turma de 34 - me senti extremamente envergonhada ao aprender que éramos feitos para o trabalho, para a força e para a servidão sem contestação ou resistência. A falsa subserviência a qual os escravizados eram retratados se comparara a minha letargia atual em assistir, de camarote do conforto da timeline do meu Facebook, as publicações indignadas de amigos contra esse desgoverno que reverencia torturadores, saqueia terras indígenas, libera armas para a população e envenena nossos alimentos.
A HISTÓRIA PARA NINAR GENTE GRANDE passou como um rolo compressor por cima de toda minha letargia e exaustão. O samba da Mangueira, já tão debatido pela imprensa, atravessou a avenida devagar, sem pressa, como se quisesse me ensinar aquilo que eu me negava a entender. Não que eu ignorasse Luiz Gama, os caboclos de Julho ou o Dragão do Mar. Não que eu não soubesse quem foi Mahin e os Malês. Embora aprendesse tardiamente, eu conhecia suas histórias, mas desde outubro de 2018, havia me esquecido que é na luta que a gente se encontra e que a alegria é a arma mais poderosa para vencer a onda de ódio, ignorância e retrocesso.
Há um ano, a senhora vereadora Rute Costa, apresentou um projeto de lei a câmara dos vereadores de São Paulo – a ser votado ontem - que visava proibir que crianças e adolescentes participem do desfile das escolas de samba do município. Tal qual as leis que criminalizaram o samba e a capoeira no passado e que tentaram fazer o mesmo com funk recentemente, o projeto é mais uma tentativa de calar a voz do morro. De apagar as expressões culturais que escrevem na História a História de um povo.
Eu, ao contrário da menininha de 8 anos que sambou alegremente todo o desfile da escola, chorei o tempo perdido da minha criação não racializada. Eu demorei para entender quem eu era. Assim como minha mãe, assim como minha avó Diva – que viveu uma vida embranquecida de costumes e cultura e morreu sem conhecer seu passado. Se eu, quando criança soubesse quem de fato sou, ensinaria a meu professor que desde o primeiro navio negreiro aportou nestas terras que pisamos, há resistência e quilombos. Passaria o desfile da Mangueira sambando alegre como fez a pequena. E escutaria de minha mãe, que meu nome é Luiza com Z. Tal qual Luiza Mahin.
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Causava-lhe náuseas
28/01/2019 | 21h26
ML
Causava-lhe náuseas caminhar pelos calçamentos de pedras irregulares do centro histórico de Paraty. Nem sempre suas passadas de perna cabiam num mesmo bloco e diante de qualquer distração, ela afundava o salto da bota no encontro de areia que juntava uma pedra a outra.
Ora compridas, ora arredondadas, as pedra eram quase que sempre escorregadias o que demandava muita atenção aos que desejavam caminhar incólume sobre elas. Nossa protagonista era um tipo desses.
Ela andava cuidadosamente, olhando sempre para o encontro das pedras, com medo de pisar em falso nos restos de areia trazidos pela maré alta que invadia algumas ruas do centro histórico, todos os dias, sem cerimônia.Por todo o tempo em que ficou na cidade, carregava consigo sua câmera Nikon e um par de lentes pesado e volumoso. Interessava-lhe a arquitetura.
No primeiro dia, saiu bem cedo para fotografar as eiras e beiras das telhas de porcelana branca com detalhes floridos pintados à mão com tinta azul Royal. Cruzou toda Comendador José Luiz debaixo do sol quente de um dia de janeiro, mas caminhar sobre as pedras redondas olhando ao mesmo tempo para o céu a procura dos telhados, causava-lhe náuseas e ela voltou ao hotel sem registros da arquitetura colonial.
No dia seguinte, escolheu Da. Maria Jácome de Mello desejando fotografar as minúcias das largas portas coloridas com molduras de madeira do estilo português. Procurou pelas cortinas de renda de Bilro que enfeitavam os vidros das janelas também largas, também coloridas, também coloniais. Queria fotografar os desenhos geométricos em relevo que enfeitavam as fachadas das casas dos antigos maçons. Mas ela estava nauseada de caminhar por ruas tortas feitas de pedras irregulares.
Por um breve instante pensou na maravilha que seria se o calçamento pé-de-moleque fosse um pouco mais obediente. Mais uniforme. Mais padronizado. E enquanto caminhava de cabeça e olhos baixos fitando com atenção o encontro das pedras ela se lembrava de uma lenda que ouvira da boca da recepcionista do hotel onde se hospedava. “As telhas coloniais eram feitas nas coxas das escravas, por isso, não há uma sequer igual a outra”. As pedras do calçamento também foram moldadas pelas mãos distintas dos escravizados.
Mãos singulares. Identidades singulares sequestradas de reinos distintos e amontoadas como mercadorias feitas em série nos porões de navios negreiros. Malditas pedras irregulares que a forçavam a olhar sempre para o chão. Que a impediam de contemplar para as claraboias e o peitoril do casarão, os balcões de ferro forjado enfeitados com pinhas e abacaxis de linhagem nobre. Malditas pedras irregulares que dificultaram seu equilíbrio e levaram seu corpo sempre esguio e imponente de encontro ao chão. No exato momento em que ela fazia o foco da lente e se abaixava a procura do ângulo certo para fotografar crianças indígenas que entoavam cânticos guaranis em troca de esmolas enquanto suas mães vendiam arcos, flechas e cocares sob os olhares exóticos dos conterrâneos brasileiros disfarçados de turistas estrangeiros.
Ainda nauseada, com dor no corpo mal acostumado a tombos e tomada por um calor infernal do verão tropical ela passou por uma sorveteria para comprar uma bola de chocolate belga produzida com cacau cuja procedência nem ela, muito menos o dono da loja, imaginavam origem tão familiar. Cacau do sul da Bahia. Enquanto o atendente lhe servia uma bola, a televisão mostrava uma entrevista antiga do presidente, quando ainda era candidato profetizando palavras de igualdade e a padronização do ser humano. “Gays, homens, negros, indígenas, somos todos iguais”.
Distintas são as coxas das escravizadas e as pedras irregulares. Ora pontudas, ora arredondados, ora grandes, ora pequenas. Não há como caminhar sem sair ileso deste calçamento, deste país tão desigual e culturalmente distinto. Talvez o melhor fosse cobrir o passado colonial com o negro betume do asfalto superfaturado. Isso apagaria parte da história que muitos de nós se recusa a ver e preservaria nossa ignorância insular de ser brasileiro.
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Semiologia médica 5 - Doenças por uma nova ótica
27/01/2019 | 15h44
brumadinho
brumadinho / ML
Lama Biliar: Também conhecida como barro biliar ou areia na vesícula é causada pela ganância capitalista e o consumo exagerado de colesterol. A inflamação e obstrução dos canais biliares pode causar um rompimento das barreiras emocionais espalhando por todo corpo uma lama espessa e contaminada de excessos e negligências. Esta lama em contato com o tecido sanguíneo e epitelial causa a perda do viço e o frescor dos olhares e transmuda mucosas rosadas em sorrisos amarelados.
O olhar esperançoso se torna ictérico e o que resta é um corpo enlameado de dor e descasos alheios.
Não há cura.
Nem há corpo que aguente quando a gula do paciente é maior do que seus limites.
 
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Sobre o autor

Mariana Luiza

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