Presente!
17/03/2018 | 10h09
Vazio que sufoca.
O ar que me deixa sem ar.
Vácuo?
Vá-se!
E deixe voltar à luz que preenche o sentido que já não encontro.
Vácuo.
Vá.
Vá-se!
Existe luz no vácuo.
Mas existe lucidez?
Eu não sei descrever o que sinto.
Mas SINTO MUITO.
Uma nuvem no plexo solar. Uma complexa dor que não sei como explicar.
Uma agonia do agora.
Agouros.
Ago.
Go.
Go agonia.
Vá-se propagar no vácuo.
Onde o som não chega.
Onde não escuto as palavras de repúdio, de ódio, de ignorância em torno de sua morte.
Go agonia. Vá se propagar no vácuo onde só entra a luz.
Mas o vácuo mora no meu peito.
Eu vejo a luz. O calor do final de verão frita a minha pele e o meu juízo.
Esqueço de comer. Esqueço de beber água. Esqueço de respirar. Me falta ar. Mas sobram os abraços e as lágrimas.
Encontro força nos braços de amigos e desconhecidos que esbarro Cinelândia afora.
Encontrei um braço cujo dono não falava há muitos meses. Continuamos sem nos falar.
O abraço por si só falou muito.
E o som... a palavra. Essa não se propaga no vácuo. Só a luz, lembra?
Eu vejo os faróis do carro. A faísca dos nove projéteis.
Vejo a dor nos rostos daqueles que acompanham a descida dos caixões sob um sol escaldante e reluzente.
Um homem e uma mulher negra. Corpos encarcerados em caixas de madeira.
Eu vejo tudo isto, mas não escuto a minha dor. Não ouço o clamor por sua presença.
Minha agonia não me deixa esperançar.
Eu sinto, eu vejo o tremor do corpo, mas não escuto o PRESENTE! Não escuto os tiros, não escuto os gritos. Eu não estava lá.
Eu mal sabia quem você era.
Eu não sei quem são os homens, as mulheres e as crianças negras baleadas em Acari, na Maré, no Alemão.
Eu não escuto as suas vozes.
Porque o som não se propaga no vácuo, lembra?
Eu tento respirar fundo. Expiro para expulsar a dor.
Para esvaziar o vazio do peito.
Mas a minha dor está no vácuo. No buraco.
No Buraco Branco. No Buraco Negro.
Eu quero vomitar. Mas colocar o que pra fora?
Muitos postaram pêsames, mensagens de dor, condolências.
O mundo compartilhou a indignação da sua morte e da morte de seu parceiro.
O “mito” foi o único presidenciável que não se manifestou.
Vômito.
Vou mitar. Vá mito.
Vá se propagar no vácuo onde ninguém possa ouvir suas mazelas.
Eu respiro fundo na tentativa de encontrar o presente.
De preencher o vazio. De evacuar meu vácuo.
Evacue. Vácuo.
Mas eu ainda não escuto o barulho da rua. O som das pessoas. As música entoada por uma poeta ao microfone nas escadarias da câmara.
Eu só ouço a minha agonia. A minha dor.
E ela fala:
PULA, PULA, PULA.
Pula pra onde? Eu me pergunto.
FUJA, FUJA, FUJA, FUJA.
Fugir pra onde? Eu me questiono?
Minha agonia é covarde.
Covarde e companheira. Ela virou companhia quase eterna. Indesejada e insiste na visita.
Se faz presente e constante no plexo solar cada vez mais anuviado. Cada vez mais desesperançoso.
Existe um buraco no meio dos meus seios. Entre os seios. Sei-o bem.
Me falam para respirar. Me oferecem um copo de água. Um gole de cerveja.
Eu inspiro. Prendo a respiração. E caminho rua adentro rumo a estátua de Tiradentes.
Liberdade ainda que tardia!
Quando seremos livres?
Eu respiro forte, respiro fundo. Depois de tantas horas ouvindo o clamor por sua presença começo a querer esperançar.
O ar toma conta desse buraco varrendo por um instante a agonia que me assola.
Respiração funda.
Um choro desesperado e gritos, gritos e gritos altos e cada vez mais altos.
Mulheres negras levantam seus punhos cerrados nas escadarias da Alerj. São cartazes, faixas, palavras que gritam seu nome, que clamam sua presença.
Eu me dou conta que a minha agonia é pouca demais, é pequena demais pra Maré de dor que tomou conta da avenida. E que ela se alimenta do silêncio, do meu silêncio.
Da minha calma. Da minha apatia.
Do meu luto. Você nem o seu parceiro precisam do meu luto.
Eu entendo isso. Ainda que tardiamente. Já escureceu. Eu ainda estou de estômago vazio. De peito vazio. De corpo preenchido pela agonia silenciosa.
Mas eu começo a gritar.
E a cada grito por sua presença, uma calma.
A minha agonia se acalma no grito.
Descoberto isso. Eu grito alto, e mais alto, e mais alto. Pelo seu nome, pelo nome de seu companheiro. Pelas mulheres negras. Pelas mães cujos filhos estão mortos. Eu grito para preencher o vazio do luto de luta.
A agonia continua feito visita indesejada. Mas agora, ela vai ter que conviver com a luta diária por sua presença.
Marielle, Anderson, PRESENTE!
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De encontro ao meu vermelho
29/01/2018 | 15h03
mariana
Hoje, faz dois meses, que pisei em solo cabo-verdiano. Lembro que antes da viagem, uma amiga repetiu por inúmeras vezes que sua ida à ilha de Santigo fora uma experiência aa transformadora. Eu, que naquele momento mudava de corpo, de ânsias e perenidades, não me interessei em perguntar quão e nem como aquela viagem fora de fato importante para Aline. Confesso até que dei de ombros às suas palavras e intenções em me preparar para o encontro. É que eu vinha de muitos desencontros comigo e com outros. Estava incapaz de ouvir algo além das minhas próprias e pulsantes agonias e palavras de confluência não me alcançavam. O ansioso ocupava um vazio conscientemente necessário que eu, inconscientemente, teimava em preencher. E assim, preenchendo espaços na agenda decidi ir à Cabo Verde em cima da hora sem visto, sem câmbio, sem planos.
Meu filme seria exibido no festival de cinema da Praia, o Cine Plateau. E munida da minha ignorância completa sobre as ilhas parti em busca de Cesária Évora.
Desembarquei no aeroporto Nelson Mandela. Era 4 horas da madrugada. O sol ainda não dava sinal. Na imigração, a policial do aeroporto me encaminhou para a fila dos cabo-verdianos e quando cheguei ao guichê, nos demos conta que embora eu parecesse dali, era apenas uma parecença física. Eu ainda não pertencia aquele lugar.
mariana
Peguei um taxi para o hotel, o dia já tinha amanhecido. A primeira coisa que vi quando saí do aeroporto, foi o adesivo de uma van que andava acelerada a nossa frente. "Deus é maior" estampado em letras grossas e pretas. O carro seguiu por uma estrada rodeada de montanhas rochosas da cor de tijolos de concreto. No meio às rochas e à terra seca, casas e pequenos edifícios da mesma cor de cimento passavam desapercebidos na paisagem. Seguimos pela estrada. No camuflado das construções, um prédio imponente que ocupava uma vasta área de planície, chamou minha atenção. Primeiro por seu tamanho desproporcional à paisagem e às edificações ao redor, também por suas paredes brancas diferente da grande maioria, mas principalmente por sua logomarca estampada na laje superior do edifício. Uma pomba branca dentro de um coração vermelho. A igreja universal se fazia presente em Praia. E pela segunda vez, num mesmo dia, eu tive medo do tamanho de deus. A van sumiu pela estrada enquanto o táxi virou para a esquerda. Logo avistei o mar, de um azul de tantos tons capazes de confundir a escala Pantone.
E eu, já seduzida pelo azul em movimento, me esqueci de deus e da universal. Mal cheguei no hotel e pouco tempo tive para descansar. Logo cedo, uma mesa com realizadores de outros países discutia o audiovisual em Cabo Verde e uma senhora simpática chamada Osvaldina telefonou ao meu quarto me convidando para acompanhar os debates. No almoço, comi atum fresco com banana frita, arroz e feijão carioquinha. A banana derretia na boca quando eu lembrei de minha avó, fritando a fruta na beira do fogão, virando bananas cortadas ao meio, numa frigideira cheia de gordura. E eu, ao lado dela, metendo o dedo num prato fundo com uma mistura de açúcar e canela. As minhas parecenças com a Ilha e com aquele povo não era somente física e eu começava a me dar conta disso.
mariana
À tarde, senti o mar na praia de Kebra Canela. No meu primeiro mergulho, um cardume com dezenas de pequenos peixes, todos transparentes, ia e vinha na minha direção junto ao movimento do mar. Um dos peixes se destacava do resto do grupo. Era grande. Tinha o tamanho do meu dedo médio. Eu pude ver por dentro dele, por sua pele translúcida, um fio vermelho que lhe corria da cabeça a ao início do rabo. Fiquei atraída pelo vermelho de dentro, e ele talvez curioso sem ver o meu vermelho, me seguiu enquanto eu dava umas braçadas mar adentro. Não demorou muito para eu me cansar do pouco exercício. Olhei para meus pés debaixo d’água e lá estava o peixe transparente a quase encostar na minha perna.
Meu corpo, se acostumando à nova vida, estava no limite da rebentação. E o peixe de pele translúcida e fio vermelho me acompanhava no perigoso quebrar das ondas. Ele corria um perigo medido, consciente do seu limite, sabedor do recuar. Ao contrário de mim, que afoita com a novidade e liberdade recente, me deixava tomar caldos distraída pelo vermelho debaixo daquela pele que se confundia com as águas.
mariana
Dias depois, fui ao Tarrafal, uma praia na outra ponta da ilha de Santiago. Nadava num mar de surfistas com ondas revoltas e turistas calmos. Estava concentrada nas violentas ondas quando senti pequenas mordidas próximas ao meu umbigo. Era um novo peixe, bem menor do que o translúcido, com uma boca, sempre aberta, desproporcional ao resto do corpo. O peixe tinha a cor do mar num tom que não se deixava camuflar, nem se perder. Ele era um destaque brilhante no topo da sequência de ondas que quebravam sem parar. Eu não vi o seu vermelho. Ele tampouco, embora me desse pequenas mordidas talvez certo de provocar-me uma rubro ferida. Eu sangrava. Mas ele não via. Não era sangue de se ver. E o meu vermelho continuou camuflado pelos próximos dias que passei rodeada de azul, embora de alguma forma inexplicável eu já o desejava misturado às águas de Tarrafal e Kebra Canela.
mariana
Os dias correram com muitas novidades. Rodeada de azul pelo céu e pelas águas vi chegar a areia do Saara que embranqueceu a paisagem e deixou Cabo Verde com a estranha sensação visual de um típico nublado e abafado dia de verão carioca. A diferença é que os ventos continuavam a cruzar a ilha em todas as direções trazendo o frescor contrário ao que eu conhecia daquela estética branca do céu.Viajamos, eu e Iyalê, uma amiga recifense, pelo interior da ilha. As construções cinzentas camufladas na árida paisagem acompanhavam nosso percurso. A falta de água afastava o verde dos arbustos, emagrecia os galhos das árvores que se contorciam e reclinavam moldadas pelo vento. A seca acinzentava as magras folhas da babosa que se espalhavam por todo o canto da ilha. Onde quer que eu andasse me deparava com plantações da suculenta. Nos canteiros, nas frestas entre o asfalto e a calçada, nos jardins das casas, lá estavam elas. Não verdes, não gordas, nem cheias de seiva. Magras, mas populosas, elas resistiam ao árido, reinando no horizonte.
Na volta para o hotel, a repetida paisagem de montanhas cor de pedra, casas camufladas, babosas magras e cinzentas debaixo de um céu todo branco, me lembravam a todo instante que a cor da ilha estava nas pessoas.
mariana
No corpo de vestes coloridas, no varal denunciante que no meio do cinza e da seca existem vida e alegria.
Numa noite em Praia, saímos com um grupo do festival para ouvir a música do arquipélago. Dancei o funaná até doerem as batatas das pernas enquanto duas senhoras comiam um prato de búzios. Elas flertavam comigo enquanto eu dançava. Devolvi o olhar com um sorriso e uma delas me ofereceu uma colherada da iguaria. Era uma senhora bem gorda, nos seus quase cinquenta anos. Usava um vestido vermelho colado no corpo que lhe ressaltava as mamas grandes e o excesso de peso. O vestido estampava uma caricatura do rosto de Marilyn Monroe, que quando ela se debruçava sobre o prato, rapidamente se transformava na fisionomia de Karl Marx. E entre uma colherada e outra, Marylin e Marx ouviam o funaná e me viam dançar.A mulher me ofereceu, pela segunda vez, um pouco de búzios e para me convencer da prova disse: Coma! Búzios dá tesão!
Eu me aproximei e ela já foi metendo a colher com búzios apimentados na minha boca. Era a mesma colher que ela comia. E sem cerimônias, compartilhamos as salivas, o molho, os búzios e o tesão da ilha de Santiago. Eu já pertencia aquele lugar por todos os meus seis sentidos. Encantada com as cores nas pessoas e nos varais, com a música das ilhas, com o sabor fresco do atum e da banana, com o compartilhar das colheres e dos abraços e com o cheiro de mar misturado ao das pessoas. O sexto sentido, o do gozo, eu tive quando comi búzios na comunhão do capital de Marx, Marilyn e o funaná. Mas apesar do encontro consumado, eu ainda pensava que o meu fascínio por Cabo Verde não passava de uma paixão efêmera. Não sabia, mas meu vermelho estava prestes a transparecer para fazer de mim, mais uma dos milhões de cabo-verdianos que vagam por terras em continentes a sentir saudades das ilhas.
mariana
Numa visita à Cidade Velha experimentei o estranho sentimento de um vazio e preenchimento num mesmo tempo e espaço. Primeiro, a consciência de estar num lugar cuja história é tão dolorosamente conectada à minha própria história. Depois, o deslumbramento de ali, naquele mesmo lugar, me maravilhar com um mergulho num pequeno saco de mar escondido entre as falésias do litoral. Foi difícil acharmos o lugar exato em que Jorge, um novo amigo que fiz na Ilha, costumava nadar na sua adolescência há mais de 20 anos. Procuramos por alguns minutos dirigindo ao norte da Cidade Velha. Quando quase desistíamos, Jorge encontrou tal pedaço de mar. E eu, encontrei um búzio morto nas rochas enquanto descíamos as falésias para o mergulho. Nadamos num mar azul royal junto a cardumes de peixes grandes que não ousaram se aproximar.
Eu mergulhava o mais profundo que conseguia e abria os olhos na tentativa do meu vermelho se misturar aquele azul e me fazer pertencer aquele lugar, que segundo historiadores nunca fora habitado por pessoas até a chegada dos portugueses em meados do século XV.
mariana
É estranho pensar que a vida humana originária da ilha chegou pelo mar, por embarcações transeuntes, com ideal de não pertencimento. Estranho pensar que centenas de âncoras destas embarcações estão hoje presas no fundo do mar atraindo mergulhadores à procura de objetos transitórios entranhados nas rochas. Mas ainda assim eu mergulhava profundo. Na tentativa rasa de enraizar numa ilha sem raízes.
Almoçamos um filé de atum fresco, cozido na brasa. Eu o vi ainda inteiro, chegando nos braços do pescador que saía de um pequeno barco atracado às pedras. O peixe estava fechado e brilhante, sem revelar o seu vermelho. Esperamos bons minutos pelo almoço, e enquanto aguardávamos, ouvi histórias sobre a cidade mais antiga fundada pelos colonizadores portugueses. Histórias de escravidão. De números inimagináveis, de difícil visualização. De 20 milhões de homens e mulheres comercializados no Pelourinho localizado há uns trinta metros do restaurante em que aguardávamos o almoço. Histórias que expuseram o meu vermelho. Fazendo-me jorrar de dor e tristeza. Fazendo-me conectar e, finalmente, pertencer aquele lugar, não no gozo, nem no prazer. Não pelas cores, nem pela música. Não pela língua, nem pelo tato. Mas na dor. A dor é também uma forma de pertencimento. Talvez a mais potente delas.
Me pus a pensar no desencontro do tempo. Nos tubarões, nas passarinhas, atuns e moréias que reinavam em absoluto antes da chegada de Colombo, Cabral e Vasco da Gama e que hoje, tentam sobreviver à pesca predatória dos pesqueiros japoneses e europeus.
mariana
Me pus a pensar nas mulheres, que carregavam sobre as cabeças bacias com peixes trazidos por seus homens. E que na escassez do atum, enchem as bacias de areia da praia, para vendê-las a indústria imobiliária que constrói um cassino-hotel num litoral privado em frente ao farol. Mulheres que carregam pedras, no lugar de peixes. Me pus a pensar numa das histórias que ouvi sobre a ilha do Fogo, onde há milhões de anos, houve uma tsunami depois da queda da parede de um vulcão. Ondas com mais de 20 metros se formaram levando lavas e rochas para a Ilha de Santiago. Há poucos anos, um geólogo cabo-verdiano comprovou com um exame de carbono, que as rochas que formavam algumas praias de Santiago não pertenciam àquela ilha.Mais uma vez, o mar levava e trazia à Cidade Velha aquilo que não lhe era nativo. Nossa Senhora da Penha da França, Socorro, Voadora, Secours e Nove de Março. Cinco navios negreiros transportaram africanos capturados no continente, que partindo de Cabo Verde chegaram ao norte do Brasil. Enquanto fazia o mesmo trajeto numa rota aérea, eu pensava, sobrevoando o azul, que talvez, alguns de nós, do lado de cá, traga no seu vermelho, um pouco do vermelho da ilha de Santiago Uma quantidade inexpressível comparada aos cinco milhões de negros que abarcaram terras do Pau Brasil. Números e dados imprecisos de pessoas cuja história e origem foi cruelmente apagada pela colonização portuguesa.
De volta ao Rio de Janeiro, na terra em que chamo de casa mas não sinto pertencer, mergulhei no mar de Copacabana. Não havia cardumes, nem peixes translúcidos. Não vi o vermelho de ninguém. Também não vi o meu próprio. O dia estava nublado, a praia estava vazia. E sentada na areia de frente ao mar me pus, novamente, a pensar na vontade inexplicável de me encontrar justamente numa terra de tantos desencontros. Num lugar da passagem dos ventos e das pessoas.
“Há mais cabo-verdianos fora das ilhas do que os que vivem no arquipélago.” Me disse Samira, cineasta que conheci durante o festival.Cabo Verde é um arquipélago de encruzilhadas.
Há correntes marítimas por todos os cantos. Ventos e águas que trazem lavas, rochas, embarcações, âncoras, areias do Saara, pessoas e atuns. Ventos e águas que levam bens, posses, pertences, pessoas, minerais, fortuna, capital e acervos, mas são incapazes de levar a pungente a saudade que sinto daquele lugar, e que agora trago no meu vermelho.
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Divina lua
24/01/2018 | 12h59
Eu tomei mamadeira até os meus 9 anos. Culpa da minha avó que fazia uma deliciosa vitamina de mamão, banana e maçã. Ela me acordava, todas as manhãs, trazendo nas mãos aquele desjejum delicioso. O néctar dos deuses para um digno despertar pueril. A mistura das três frutas é um dos sabores da minha infância e uma das muitas saudades que sinto de Dona Diva. O ritual da mamadeira na cama foi repetido diariamente por nove anos e não me recordo do motivo, nem do dia que parei de tomar mamadeira, mas posso garantir que não foi por vontade da minha avó. Foi minha avó Diva quem me ensinou a gostar da lua. A fazer pedidos e chamar por ela como lobos nas noites mais brancas. A gente ficava debruçada na grade da janela de um terceiro andar num apartamento na Tijuca, chamando, chamando... Pedindo pra lua nos levar pra bem perto dela. Foi minha avó quem me ensinou a amar os brigadeiros. Desde a adolescência, me fazia de presente de aniversário a minha idade multiplicada por dez em quantidade de docinhos. Parou lá pelos vinte e poucos anos quando descobriu que eu comia tudo sozinha, sem nem ao menos, dividir com meu irmão. Este ano seriam 330 brigadeiros e uma provável e descomunal dor de barriga. Seriam. Hoje faz quinze dias que minha avó morreu com o desejo de não viver. “Pede pra Mariana rezar pra mim porque oração de criança tem mais força.” Disse ela pra minha mãe numa das poucas e últimas lúcidas frases.
Quando eu ganhei meu primeiro prêmio de literatura, mais ou menos na mesma época em que ela parou de me fazer brigadeiros, confessei a minha avó que sonhava em ser escritora. Ela prontamente me recomendou que lesse o livro Vidas Esparsas, que acredito ter sido escrito por Maria Amália, a quem sempre se referia como autora favorita. Quando minha avó ficou de cama por conta de um fêmur fraturado, voltou a perguntar se eu havia lido o tal livro e me disse que quando eu tivesse dificuldade para escrever era só pedir à Maria Amália que iluminasse meus pensamentos. Eu menti dizendo que havia lido o livro. E menti outra vez dizendo que tinha adorado a leitura. Mas fui obediente quando ela me pediu uma oração que a levasse até a lua. Mesmo não acreditando mais em deus e nas orações, rezei com todo o respeito que ela merecia. Não pedi a deus. Nem a Maria Amália. Pedi a Lua e a sua luz branca roubada do sol, que atendesse ao desejo da minha avó de ter sua luz roubada da terra. 
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Semiologia Médica 4 - Doenças por uma nova ótica
24/12/2017 | 21h30
No último domingo do mês, publico no blog verbetes de um dicionário médico-poético.
Havana, 2016
Havana, 2016 / Mariana Luiza
Ansiedade: É o desespero da espera. O precipitar do precipício. Uma respiração que não cabe no pulmão. O excesso de medos e futuros. A falta de ar e do presente. Recomenda-se colocar os pés no chão, sentir o hoje e respirar mais e mais e mais até que o pulmão retome seu tamanho.
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Caxumba: Também conhecida como parótide ou papeira, a caxumba é uma infecção viral que inflama as glândulas salivares e sublinguais. As pessoas que não têm papas na língua e falam o que pensam sem medir consequências, são as mais propensas a se infectar com o vírus.
Os sintomas são inchaço e dor na região das papadas. Além das comuns dores ao mastigar e engolir aquilo que não deveria ter sido dito. Uma das complicações da caxumba é a meningite, que causa fortes dores de cabeça. Ela acontece quando o indivíduo, impossibilitado de falar sem limites, devido a complicações da doença, tenta transmitir seus comentários grosseiros e indelicados pela força do pensamento.
Em homens, o vírus da caxumba também pode infectar a região dos testículos, uma vez que alguns indivíduos do gênero também pensam grosserias e indelicadezas com a cabeça de baixo.
Como tratar: A caxumba é como a palavra grosseira depois de proferida. Não tem atenuantes. Recomenda-se apenas repouso e alimentação leve com poucos ou total ausência de ácido para não irritar as glândulas salivares, não incitando-as a proferir palavras que possam agravar e postergar a permanência do vírus no corpo do individuo. Como forma de prevenção existem alguns tratamentos como o tele transporte que leva o paciente a se colocar no lugar do outro, com o ouvido e pensamento, antes de proferir as palavras pensadas.
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Cálculos renais: São as pedras no meio do caminho. A maior parte dos cálculos se forma sem manifestar qualquer sintoma. Instalam-se sorrateiramente nos rins, nos pensamentos ou nas vias urinárias, provocando o desvio de percursos ou a paralisação total de um projeto ou plano. As pedras, assim como a maioria dos problemas e dos medos, começam pequenas. Encontram no corpo um lugar de repouso e desenvolvimento e crescem ao encontrar alimento naquilo que deveria ser excretado pelas vias urinárias e/ou imaginárias.
Diz-se que a cólica renal é uma das dores mais lancinantes, intoleráveis e desumanas sentida por um corpo. Não é pra menos. A interrupção desistência de um desejo é verdadeiramente atroz com qualquer corpo.
A remoção dos cálculos se dá por cirurgia ou eliminação natural pela uretra com consumo excessivo de água. O solvente universal dos problemas e das pedras nos caminhos chega como enxurradas ou tsunamis carregando pra longe o que impede o sonho.
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Congestão alimentar: Mal estar súbito provocado pelo acúmulo excessivo de presentes e comidas na noite de natal. O corpo entra em estado de congestão porque o consumo desenfreado muda a direção do fluxo sanguíneo para irrigação do estômago e intestino quando deveria na verdade irrigar o coração e o cérebro.
Chás digestivos como o de simancol ajudam a processar com consciência o sentido do nascimento do símbolo do natal. Jesus Cristo.
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Semiologia Médica 3 - Doenças por uma nova ótica
21/12/2017 | 13h01
No último domingo do mês, publico no blog verbetes de um dicionário médico-poético.
Formigamento: Locomoção de um grupo de formigas debaixo do tecido epitelial em busca de alimento. As formigas existem há 100 milhões de anos e constituem a maior população de insetos do planeta. Fora do corpo humano, são conhecidas por consumirem diversos tipos de alimento, tendo preferência por substâncias adocicadas como açúcar, mel, bolos. Dentro do corpo humano, a base alimentar do inseto varia de acordo com sua espécie. Entre as mais comuns estão:
Formiga fantasma (Tapinoma Melanocephalum): Esta espécie se alimenta basicamente de medos e acontecimentos passados não digeridos pelo corpo do paciente. Pessoas pretéritas, presas à saudades, com tendências à alucinações e pensamentos ilusórios são mais propensas a hospedar o formigueiro fantasma, sofrendo por consequência constantes formigamentos em diversas partes do corpo. Estas formigas fazem trilhas irregulares, andam em ziguezague e não se fixam em um lugar por muito tempo.
Recomenda-se exposição do tecido epitelial ao frescor do vento e das chuvas e infinitas sessões de drenagem linfática.
Formiga louca (Paratrechina Longicornis): O nome “louca” é devido ao andar irregular e em semicírculos dessa espécie. A sensação do formigamento é sentida da mesma forma pelo paciente hospedeiro. A formiga louca se alimenta da realidade do paciente. Ela pode desencadear reações variadas como devaneios, arrepios, pirações e delírios.
Se o paciente for cuidadoso e consciente da existência deste tipo de formigueiro, ele poderá fazer bom uso da loucura proporcionada pelas formigas.
Formiga –faraó (Monomorium Pharaonis): Os faraós eram os reis do Egito Antigo. Possuíam poderes absolutos na sociedade decidindo sobre a vida política, religiosa, econômica e militar. Eram considerados filhos diretos do deus Osíris. Portanto, os faraós eram, consequentemente, deuses vivos. A formiga faraó se alimenta de ideias de grandeza, autoritarismo e prepotência. Geralmente se hospedam em corpos adultos com mais de 12 anos, portadores de complexo de superioridade, e com grande necessidade de controle daquilo que é incontrolável, como por exemplo o tempo cronológico, os fenômenos meteorológicos e as vidas alheias.
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Edemas periféricos: Inchaços dos tornozelos, pés e pernas. A acumulação anormal do peso da vida nos membros inferiores. Excesso de caminhos e falta de caminhadas.
Recomenda-se exercícios físicos e drenagens das preocupações. 
 
 
 
 
 
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Sacudida hipnal: Sacudida forte e breve que a vida dá enquanto dormimos. Muitas pessoas sentem os espasmos enquanto acordadas, uma grande maioria relaciona os mesmos a passagem de algum anjo ou espírito. A escassez de literatura científica a respeito alimenta os mistérios sobre a causa.
Embora muito comum e aparentemente inofensiva, a sacudida hipnal requer cuidados: vale prestar atenção e manter os olhos abertos para os acontecimentos da vida. Principalmente enquanto sonhamos acordados.
 
 
 
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Dermatite de contato: reação inflamatória da pele devido à exposição a um componente que causa irritação ou alergia. Erupção cutânea (ou dos nervos), coceira, vermelhidão e descamação são sintomas comuns.
A dermatite de contato irritativa é o tipo mais comum. Essa reação ocorre quando a pele entra em contato com uma substância que desencadeia irritação por ação direta. Além da irritabilidade, principal sintoma da patologia, o paciente poderá sofrer de mau humor, desânimo, alterações de apetite e do sono. Fissuras podem se formar nas mãos e no comportamento.
Os agentes causadores mais comuns são pessoas ou atividades preservadas por formaldeído (componente químico utilizado para conservação de cadáveres). Podemos destacar chefes arrogantes, trabalhos não prazerosos, colegas invejosos, problemas de família e relações amorosas com componentes tóxicos.
A gravidade da dermatite de contato irritativa depende do tempo e intensidade de exposição e da capacidade agressora da substância. Se no primeiro contato, a pele apresentar lesão, denomina-se dermatite de contato por irritante primário. Pacientes com sensibilidade à flor da pele apresentam vantagens na identificação imediata do agente causador da irritabilidade (quando o santo não bate).
Para os casos em que são necessárias mais de uma exposição para manifestação da patologia, denomina-se dermatite de contato alérgica. É muito comum o paciente apresentar dificuldades para associar a dermatite ao seu componente causador e por conta disso, pode ao longo da vida, submeter a tratamentos paliativos como antialérgicos, práticas de respiração, meditação e yoga, massagens e cremes com propriedades calmantes e anti-inflamatórias. Estas medidas adiam a possibilidade de cura e mascaram os sintomas da doença.
O tratamento da dermatite de contato bem sucedido consiste basicamente em identificar o que está causando a reação e se manter distante. Se você pode evitar o agente agressor, a erupção geralmente se resolve.
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Semiologia Médica 2 - Doenças por uma nova ótica
21/12/2017 | 12h47
No último domingo do mês, publico no blog verbetes de um dicionário médico-poético.
Nevos melanocíticos cogênitos: lesões (conhecidas como marcas de nascença) que representam pequenos tumores das células pigmentadas. Aparentemente inofensivas, podem causar graves transtornos na fase adulta do indivíduo. É nesta fase que as marcas de nascença ficam mais latentes.
De difícil remoção recomendam-se longos anos de análise. Para pacientes afoitos, a remoção por incisão é recomendada.
Há também tratamentos com o uso de ácidos ou por criocirurgia, que consiste no esfriamento do trauma pela aplicação de nitrogênio líquido.
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Apneia do sono: Mergulho profundo dentro de si. Interrupções de respiração e sensação de sufocamento são comuns a medida que o mergulho se torna mais profundo.
Recomenda-se o experimento por completo da apneia. Sem fuga, nem interrupção. Melhor fazê-lo abraçando o próprio corpo contra o peito. Esta posição melhora o atrito com o externo.
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Leuconíquia: Pequenas nuvens brancas no interior das unhas.
Materialização do vazio.
Aparentemente inofensivas, as manchas localizadas entre a unha e o leito epidérmico (vulgo unha e carne), são fruto de um processo inflamatório, ou traumatismo, ocorrido na matriz das unhas.
Não há tratamento para traumas ocorridos na raiz de um relacionamento. Recomenda-se uso excessivo de tempo e sessões semanais de terapia para amenizar os danos.
Cuidado com os espaços vazios nas relações de afeto é uma excelente prática preventiva.
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Agripnia: Ausência de sossego. Excesso de pensamentos, perturbações, emoções e estímulos.
Recomenda-se inalações de paciência, exalações de angústias e altas doses de vento na região craniana.
Muito vento aplicado diretamente nas narinas, ouvidos, bocas e orifícios cutâneos.
 
 
 
 
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Fotofobia: Aversão à fotografia pela dor que ela produz em caso de afecções oculares ou neurológicas. Acontece devido à recusa da imagem pelas células fotorreceptoras da retina e do sistema límbico, mais precisamente o hipocampo. A sensação resultante tem diversos graus de intensidade e é caracterizada por lacrimejamento, tristeza, angústia e saudade.
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semiologia Médica 1 - Doenças por uma nova ótica
21/12/2017 | 12h22
No último domingo do mês, publico no blog verbetes de um dicionário médico-poético.
Oxiurose: Infecção causada por excesso de oxitocina liberada pelo oxiúrus (verme nematódeo com menos de 15mm de comprimento que parasitam corações, cerebelos, cérebros e intestino dos apaixonados).
É uma das doenças parasitárias mais comuns do mundo, atingindo certa de 11-21% da população por ano. A doença é frequente mesmo em países desenvolvidos. Afinal, apaixonar-se não é sinônimo de subdesenvolvimento.
O enterobius vermicularis causa coceira na região retal. Vulgarmente conhecido pelo fogo no rabicó ou paixonite aguda. Não tem cura. Ainda bem!
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Joelhos Valgos: Joelhos que se encontram. Excessos de caminhos sinuosos na infância. Constantes obstáculos que não permitiram que o indivíduo traçasse sua trajetória de vida em linha reta.
Recomenda-se seguir em frente. Não interessa quão sinuoso o caminho.
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Se todos fôssemos no mundo iguais a você
20/12/2017 | 11h53
A primeira vez que eu me apaixonei de verdade foi por um menino que eu vi na praia, numa tarde ensolarada de um domingo de verão. Ele era surfista e passou por mim carregando uma prancha de bodyboard enquanto eu esturricava sob o sol sem nem um pingo de filtro solar. No segundo seguinte eu já estava apaixonada. Não sabia onde ele morava, nem quantos anos ele tinha. Não sabia nem o seu nome, mas eu o amava e só esse amor já me bastou para o resto do dia. Alguns meses se passaram e eu revi o surfista plantado num ponto de ônibus a esperar. Eu passei de carro e meu pai dirigia tão rápido que mal deu tempo de pensar em lhe oferecer uma carona. Também, naquela época, me faltava tal audácia. Meu pai me levava pro curso de inglês, era o meu primeiro dia de aula e eu que já pensava em ser escritora, mentalizei a cena da carona durante todo o trajeto para o curso. Cheguei até a pensar que ele estivesse indo para o mesmo lugar que eu. Quem sabe não era meu colega de turma? Sentei na primeira fila, abri o caderno e o livro. Quando um quarto da aula já tinha se passado eis que a porta se abriu e quem entrou? Ele mesmo. O surfista, que não posso revelar o nome por questões éticas. O fato é que se antes, eu já achava que ele era o homem da minha vida, agora então, eu tinha certeza. Meu inglês que nunca foi bom ficou pior ainda. Eu não concentrava nas aulas e tinha vergonha de pronunciar as palavras erroneamente. Daí, entrava muda e saía calada. O surfista me intimidava pela sua presença e pelo impecável inglês californiano. Eu ia de mal a pior no curso. Até hoje tenho certo bloqueio para a língua. Estudamos por longos 8 semestres. Ele se formou com louvor e eu como se fosse uma aluna mediana. Justo eu que sempre fui nerd. Ao longo desses oito semestres, eu me aproximei um pouco, mas nunca tive coragem de me declarar. Nesse meio tempo, ele me convidou para surfar, eu planejei uma festa surpresa num dia de aula para celebrar o seu aniversário e ele teve um namoro relâmpago com uma das minhas melhores amiga da época. Ela, claro, não fazia idéia do amor que só eu sentia e ninguém mais sabia. Levei dez anos pra beijá-lo na boca. Mas aí, já não era mais amor, já não era mais platônico e eu não era mais a mesma menina que acreditava na eternidade de um sentimento. Beijei por curiosidade e tesão mesmo e contei pra ele do amor platônico que eu senti no passado. Ele achou graça, eu também e nós ficamos amigos. E eu nunca mais o vi desde então, mas até hoje eu tenho as boas vibrações que este amor me trouxe. Hoje comemora-se o centenário de Vinícius de Moraes, o homem que amou eternamente todas as mulheres que se relacionou. Com a mesma intensidade, com a mesma entrega e sem medo do inevitável - até para os mais precavidos - sofrimento do fim.  Há quem diga que Vinícius era um mulherengo, um inconsequente. "Como pode um homem amar tantas vezes à tantas mulheres?". Há quem pense que ao contrário de um amante intenso, Vinícius era um sem vergonha, um colecionador de corações partidos. Afinal, "O amor verdadeiro só acontece uma vez." Eu acho que Vinícius era apenas o portador de um coração imaturo. Um coração que não aprende com o sofrimento de experiências anteriores, que ingenuamente repete sempre a mesma história sem guardar rancor, remorso ou arrependimento.  Que se apaixona, se joga na relação como como se aquela fosse a primeira. Um coração de criança esperta, que sabe bem que não se sai imune nem da vida nem do amor. Que bom que existiu um Vinícius porque os corações maduros são chatos demais e não têm boas histórias pra contar.  
Amor - Vinícius de Moares
Vamos brincar, amor? vamos jogar peteca
Vamos atrapalhar os outros, amor, vamos sair correndo
Vamos subir no elevador, vamos sofrer calmamente e sem precipitação?
Vamos sofrer, amor? males da alma, perigos
Dores de má fama íntimas como as chagas de Cristo
Vamos, amor? vamos tomar porre de absinto
Vamos tomar porre de coisa bem esquisita, vamos
Fingir que hoje é domingo, vamos ver
O afogado na praia, vamos correr atrás do batalhão?
Vamos,amor, tomar thé na Cavé com madame Sevignée
Vamos roubar laranja, falar nome, vamos inventar
Vamos criar beijo novo, carinho novo, vamos visitar N. S. do Parto?
Vamos, amor? vamos nos persuadir imensamente dos acontecimentos
Vamos fazer neném dormir, botar ele no urinol
Vamos, amor?
Porque excessivamente grave é a Vida.
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Rain drops keep falling on my head, e eu amo isso...
18/12/2017 | 18h05
Durante boa parte da minha infância, eu dividi o quarto de dormir com a minha avó materna. As camas eram colocadas contra a parede. Minha avó na parede esquerda, eu na direita e entre nós, a janela gradeada. Antes de deitar, todas as noites, ficávamos as duas, por alguns minutos, observando a lua. Dependendo da época do ano, ela aparecia bem de frente à janela, exatamente na fresta entre os dois prédios da rua de trás. Mas havia um período, não sei se inverno ou verão, em que podíamos ver apenas a luz da lua cheia refletida na parede da cama da minha avó. Era nessa época, que nós nos debruçávamos na grade chamando pela lua na esperança dela nos libertar da monotonia das noites tijucanas.
"Lua, oh Lua... minha avó cantava". Eu me sentava com as pernas por entre as grades de alumínio contorcendo meu corpo e esticando ao máximo meu pescoço para alcançar a lua com os olhos.
Passados quase 25 anos, eu e minha avó ainda fazemos o mesmo ritual. Já não dividimos o quarto, as janelas não tem mais grades e o chamar pela lua não me faz o mesmo sentido que fizera na minha infância. Mas onde quer que estejamos, sempre quando anoitece olhamos a leste a procura da lua. E se é dia e há nuvens, desvendamos suas formas e intenções. E se chove, procuramos uma janela para ouvir o som do choro do céu. Se é alegre, se é triste. Qual música a garoa toca? 
Se o dia é branco pensamos no azul da melancolia e no que se pode cair daquele céu contínuo, sem intervalo nem espaços de luz vazante. Disco voador? Pipa perdida? sacolas plásticas de super mercado?
Se o dia é azulado de sol quente, sem nuvens, rezamos pelo cinza refrescante e para que caia algo além dos pára quedas.
E sempre quando faz sol, quando a lua nasce, quando o dia está nublado ou quando chove, eu tenho lembranças da minha avó. Do cheiro das primeiras gotas de chuva caindo no calçamento quente e evaporando até a minha janela. Do dia em que eu e ela voltámos a pé da escola, estava quente, céu limpo, mas no meio da caminhada, que não durava mais de 20 minutos, o céu enegreceu e chorou por todo o caminho restante, encharcando nossas roupas e minha mochila. Naquela tarde, chegamos em casa ensopadas, mas antes de entrar no prédio, minha avó sugeriu que eu abrisse a a boca o máximo que eu pudesse, colocasse a língua para fora para beber o choro do céu. Eu me surpreendi porque as lágrimas não eram salgadas e fiquei pensando se quem bebe chuva ácida, daquelas que caem no Japão, precisa tomar um antiácido logo em seguida.
O céu me traz memórias dos cinco sentidos e do que me faz mais sentido na vida: o amor (da minha avó).
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Nossa Senhora em seu manto azul
16/11/2017 | 20h56
Nossa senhora e seu manto azul
Nossa senhora e seu manto azul
Éramos vizinhas e quase todos os dias quando saía de casa, me encontrava com ela nas ladeiras que dão acesso ao meu prédio. Eu, desleixada e distraída, quase sempre sem batom, quase sempre com o celular nas mãos. Descia a rua feito um foguete, atrasada para compromissos sem importância e com os olhos na tela e a cabeça nas mensagens e curtidas virtuais.
Diferente de mim, ela estava sempre impecavelmente maquiada. Como se acordasse e a primeira coisa que fizesse, fosse colocar um sonho no rosto em forma de cor. Igualmente a mim, ela vivia absorta ao cotidiano. Com seu olhar longe, pouco ou quase nada interagia com os transeuntes.
Sua atenção era para os perigos da rua. O resto, todo o resto, podia esperar.
Nunca soube seu nome. Nunca lembrei de perguntá-lo.
Fernanda. Hoje eu sei. Preferia nunca ter sabido.
Por poucas vezes, tentei puxar uma conversa. Saber porque estava na rua, se tinha família próxima. Se estava com fome. Uma dessas vezes, dei a ela um batom que vivia há muitos perdido na minha bolsa.
Ela sorriu. Ela sempre sorria e logo depois, sumia do rosto deixando apenas o sorriso congelado em forma de disfarce. Para voar bem longe das questões terrenas de Copacabana.
Um dia ela sumiu de verdade. De sorriso e corpo. Não dormia na ladeira da Coelho Cintra, nem no matagal próximo ao Rio Sul. Achei que tivesse morrido. Ou reencontrado a família.
Depois de um bom tempo, apareceu barriguda. Estava arredia. Não deixava a gente se aproximar. Conversava sozinha com a veemência dos que carregam a dor. Tinha parado de sorrir, mas ainda usava maquiagem. Ainda se vestia do sonho diário para enfrentar a vida.
E eu, sempre distraída, sempre preocupada com reuniões e encontros sem importância, desencontrei do tempo que nos afastou.
Não sei o que foi feito daquele feto. Não sei o que foi feito daquele corpo. Daquele sorriso. E eu só me importava com isso, nos breves instantes em que cruzávamos uma com a outra, quando eu abria mão de olhar para o meu celular para fitá-la.
Ela já não dormia mais nos arredores. E de pouco em pouco, de quando em quando, vi sua barriga crescer e decrescer.
Agora, só encontrávamos quando eu passava próximo à Duvivier. Ficava por ali, na Nossa Senhora de Copacabana, com sacolas de panelas bem ariadas, suas roupas e maquiagens.
Um dia, dirigia meu carro quando parei no sinal. Olhei para o lado. Estava ela. No meio da calçada, na Nossa Senhora de Copacabana, enrolada num manto azul com uma touca branca na cabeça e um batom vermelho, que jurava ser o que eu tinha lhe dado. Os lábios cerrados não sorriam. E ela olhava para o horizonte como se esperasse a volta do seu pensamento.
E eu, que sou descrente de deus, vi Nossa Senhora. Majestosa Nossa Senhora num manto azul na Copacabana.
Saquei aquilo que tinha nas mãos e tirei-lhe uma foto. Digna de um altar.
Hoje descobri que ela foi assassinada por dois marginais. E por causa deles, descobri seu nome estampado nas manchetes.
Agora eu choro pelas poucas vezes que insisti na conversa, por não saber por Fernanda, quem era a Fernanda, e principalmente, por não ter voado com ela pela estratosfera de Copacabana.
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Sobre o autor

Mariana Luiza

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