Nossa Senhora em seu manto azul
16/11/2017 | 20h56
Nossa senhora e seu manto azul
Nossa senhora e seu manto azul
Éramos vizinhas e quase todos os dias quando saía de casa, me encontrava com ela nas ladeiras que dão acesso ao meu prédio. Eu, desleixada e distraída, quase sempre sem batom, quase sempre com o celular nas mãos. Descia a rua feito um foguete, atrasada para compromissos sem importância e com os olhos na tela e a cabeça nas mensagens e curtidas virtuais.
Diferente de mim, ela estava sempre impecavelmente maquiada. Como se acordasse e a primeira coisa que fizesse, fosse colocar um sonho no rosto em forma de cor. Igualmente a mim, ela vivia absorta ao cotidiano. Com seu olhar longe, pouco ou quase nada interagia com os transeuntes.
Sua atenção era para os perigos da rua. O resto, todo o resto, podia esperar.
Nunca soube seu nome. Nunca lembrei de perguntá-lo.
Fernanda. Hoje eu sei. Preferia nunca ter sabido.
Por poucas vezes, tentei puxar uma conversa. Saber porque estava na rua, se tinha família próxima. Se estava com fome. Uma dessas vezes, dei a ela um batom que vivia há muitos perdido na minha bolsa.
Ela sorriu. Ela sempre sorria e logo depois, sumia do rosto deixando apenas o sorriso congelado em forma de disfarce. Para voar bem longe das questões terrenas de Copacabana.
Um dia ela sumiu de verdade. De sorriso e corpo. Não dormia na ladeira da Coelho Cintra, nem no matagal próximo ao Rio Sul. Achei que tivesse morrido. Ou reencontrado a família.
Depois de um bom tempo, apareceu barriguda. Estava arredia. Não deixava a gente se aproximar. Conversava sozinha com a veemência dos que carregam a dor. Tinha parado de sorrir, mas ainda usava maquiagem. Ainda se vestia do sonho diário para enfrentar a vida.
E eu, sempre distraída, sempre preocupada com reuniões e encontros sem importância, desencontrei do tempo que nos afastou.
Não sei o que foi feito daquele feto. Não sei o que foi feito daquele corpo. Daquele sorriso. E eu só me importava com isso, nos breves instantes em que cruzávamos uma com a outra, quando eu abria mão de olhar para o meu celular para fitá-la.
Ela já não dormia mais nos arredores. E de pouco em pouco, de quando em quando, vi sua barriga crescer e decrescer.
Agora, só encontrávamos quando eu passava próximo à Duvivier. Ficava por ali, na Nossa Senhora de Copacabana, com sacolas de panelas bem ariadas, suas roupas e maquiagens.
Um dia, dirigia meu carro quando parei no sinal. Olhei para o lado. Estava ela. No meio da calçada, na Nossa Senhora de Copacabana, enrolada num manto azul com uma touca branca na cabeça e um batom vermelho, que jurava ser o que eu tinha lhe dado. Os lábios cerrados não sorriam. E ela olhava para o horizonte como se esperasse a volta do seu pensamento.
E eu, que sou descrente de deus, vi Nossa Senhora. Majestosa Nossa Senhora num manto azul na Copacabana.
Saquei aquilo que tinha nas mãos e tirei-lhe uma foto. Digna de um altar.
Hoje descobri que ela foi assassinada por dois marginais. E por causa deles, descobri seu nome estampado nas manchetes.
Agora eu choro pelas poucas vezes que insisti na conversa, por não saber por Fernanda, quem era a Fernanda, e principalmente, por não ter voado com ela pela estratosfera de Copacabana.
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Filmes, Catástrofes e Tecnologia
06/11/2017 | 16h04
A primeira, das sete profecias Maias, destina o fim do mundo para o dia 21 de Dezembro de 2012. Astrólogos, tarólogos e até Hollywood já deram suas versões para o fato. Místicos, mães de santo e videntes profetizam catástrofes naturais ao longo dos anos como uma forma de preparação da terra para o grande dia. As previsões são divergentes, mas todos concordam com uma coisa: o mundo não irá acabar como no filme 2012. 
O que acontecerá no dia 21 de Dezembro será o início de uma nova era. Um novo tempo onde o materialismo e a dor estarão banidos do universo, e a convivência harmônica entre os seres humanos e o planeta será definitivamente estabelecida. É o que dizem. Confesso que eu nunca acreditei na profecia Maia, nem em São Malaquias, Nostradamus ou nos três milagres de Fátima. Atualmente, o único presságio que ponho fé é o de minha mãe, que sempre disse ser a tecnologia a grande responsável pelo fim do mundo. Minha mãe, que temeu o bug do milênio, por diversas vezes, profetizou que o fim dos tempos viria na velocidade catastrófica das inovações tecnológicas e principalmente da internet. Seríamos, num futuro próximo, dominados e massacrados pelas máquinas que criamos, dizia ela. Os prognósticos de mamãe nunca chegaram aos pés de James Cameron e seus Exterminadores do Futuro. Ela, diferente do cineasta, acredita que a vitória das máquinas sobre os homens será bem mais sutil. Os homens tornarão escravos das máquinas que criaram, vendendo seu tempo e convívio com o presente em troca das alegrias fugazes de "likes" nas redes sociais. Verão o nível de stress e a velocidade do tempo aumentar incontrolavelmente a medida que se preocupam com a aprovação de desconhecidos. As relações humanas estarão cada vez mais dependentes da internet e da tecnologia. E o lançamento veloz e constante de produtos será o grande responsável pelo aumento do lixo de obsoletos. Sempre tive ressalvas à teoria apocalíptica de dona Suzy. Demorei a acreditar que ela pudesse estar certa. Achava que em parte ela tinha razão. Principalmente no que diz respeito à quantidade de lixos e obsoletos que produzimos diariamente, por conseqüência das inovações tecnológica. Mas, eu nunca acreditei que a internet seria a responsável pelo fim do mundo. Nem que este fim, assim como os Maias profetizam, estaria tão próximo. Muito próximo. E se muitos acreditam que os Maias acertaram a data do juízo final, eu acredito que minha mãe prenunciou como deus fará o acerto de contas. Faz um ano que o site WikiLeaks ficou famoso ao publicar uma série de documentos sobre possíveis crimes de guerra cometido pelo exército dos Estados Unidos nas guerras do Afeganistão e Iraque. Julian Assenge, o fundador do website, foi, logo em seguida, acusado de crimes sexuais. O WikiLeaks sofreu pressões e sanções financeiras. Em retaliação, o grupo de hackers Anonymous, atacou as empresas Visa, Mastercard, Amazon e PayPal, além do site da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte). Segundo a OTAN, o Anonymous é uma ameaça ao mundo. A publicação, também no WikiLeaks, dos telegramas da embaixada norte-americana sobre os abusos de corrupção e nepotismo envolvendo o governo da Tunísia foi a gota d’água para que a população se revoltasse e derrubasse o poder ditatorial de Bem Ali, no início deste ano. Estava inaugurada a Primavera Árabe, que só em 2011 derrubaria mais dois governos ditatoriais. O Egito e a Líbia. Além do website, as redes sociais, Facebook e Twitter se tornaram fundamentais na organização e sensibilização da população para a derrubada do governo no Egito e a disseminação dos descontentamentos mundo afora. Manifestações na Líbia, Argélia, Iêmen e vários outros países do Oriente Médio e Norte da África também foram organizadas pelas mídias sociais. Greves, comícios e motins, como o ocorrido na Tailândia em abril deste ano, igualmente se beneficiaram das facilidades da tecnologia. A velocidade e o alcance da internet foram essenciais para que movimentos como o Occupy Wall Street , em Nova York, ganhasse notoriedade e a adesão mundial. Ottawa, Berlim, Roma, Londres, Hong Kong, Sydney e Tóquio criaram suas versões para os protestos contra as ganâncias corporativas e as injustiças em geral.   O poder da tecnologia e a da internet é tamanho, que na semana passada, a CIA - agência de inteligência norte-americana – admitiu monitorar as redes sociais no mundo todo em busca de ameaças à segurança do país e informações da opinião pública sobre o governo americano. Não há como negar: O fim do mundo, assim como o conhecemos, está mesmo próximo. Não sei se 2012 será a data certa para a extinção destes tempos de corrupção, abusos de poder e ganância, mas acredito que estamos vivendo o início do fim e que a minha mãe, a internet e a tecnologia têm muito a ver com isso.
 
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Se a praia fosse de Quixote...
06/11/2017 | 14h53
 Era uma travessia, a nado, de ponta a ponta da praia do Sancho. A chance derradeira de provar às cinco amigas que eu não era tão covarde quanto parecia naqueles quatro dias em que viajávamos juntas pelo arquipélago de Noronha. Já havia fracassado no mergulho com cilindro e sofrido um ataque de histeria ao topar com uma saparia no banheiro do hotel. As cinco amigas se diferenciavam de mim em algumas coisas cruciais para a viagem: nadavam como atletas e gostavam de batráquios. A mais mística delas, colecionava porcelanas sapais que beirando a perfeição, faltavam só coaxar na estante da sala. O guia, que nos acompanhava no passeio à praia, prometeu um mergulho com os golfinhos, que segundo seus cálculos, cruzariam a baía dentro de uma hora. Era esse o tempo que eu tinha para vencer o meu medo de mar, e acompanhar as meninas na travessia marítima. Ao sinal do guia, as cinco destemidas, correram para a rebentação. Eu hesitei no primeiro momento. Ofereci-me a tomar conta de nossas carteiras e roupas que ficariam sozinhas na areia, mas não tive muita persuasão, uma vez que a praia estava deserta, seu acesso era difícil e a luz do dia começava a cair. Provavelmente não apareceria mais ninguém para se banhar ou simplesmente pegar nossas coisas.
A areia era um lugar seguro, tanto para as carteiras, quanto para mim. As meninas, além quebra mar, insistiam e eu, com os pés enterrados na areia movediça, pensava que agora não me restaria outra alternativa a encarar o mar aberto. O guia percebendo o tamanho do meu medo e o quanto ele poderia atrapalhar o passeio do grupo, se ofereceu a me acompanhar, segurando a minha mão, durante toda a travessia. Aceitei de prontidão, afinal eu tinha um pequeno e pesado problema e dividi-lo, facilitaria por demais no cumprimento da minha incumbência. Ninguém na praia tinha percebido, mas eu carregava nas costas toda a gordura de Sancho Pança, que, aliás, não era pouca. Sancho tinha uma missão: Precisava levar umas encomendas para Dom Quixote, do outro lado da praia, e quando me viu relutante na areia, pediu para ajudá-lo. O guia me dizia para ficar esperta. Não podíamos dar bobeira com as ondas cada vez mais altas. Era preciso esperar o recuo do mar, mergulhar bem fundo, prender a respiração e avançar assim que a onda gigante passasse por nós. Foram duas ondas. O Sancho até que colaborou no primeiro mergulho porque ele ainda conseguia ficar de pé. Mas no segundo, aquele homenzinho pesado pulou das minhas costas e nadou de volta pra areia. Eu soltei a mão do guia e fui em direção à areia, como fazem os amigos leais. Não sei se o guia conhecia Sancho Pança, nem muito menos Dom Quixote, mas seguindo os passos de um fiel escudeiro, ele nadou de volta a areia e juntou-se a nós. As meninas já estavam em alto mar acenando com ansiedade. Foi quando o guia me olhou nos olhos, repetiu as orientações e perguntou se poderíamos tentar novamente. “Claro que sim!”. Respondi sem hesitar e lá fomos nós mar adentro. Passada a rebentação, alcançamos as meninas e começamos a trajetória. Todos juntos. O guia de mãos dadas, e Sancho Pança se equilibrando nas minhas costas. Ele não podia se molhar porque carregava uma bolsa cheia de roupas, comidas e remédios de Quixote, o que o deixava ainda mais pesado. Por um instante, me esqueci onde estava e nadei com a felicidade daqueles que estão prestes a cumprir a mais importante e honrada de todas as tarefas. Debaixo de mim, tubarões lixa nadavam a uma curta distância, mas eu não me incomodei. A alegria em acompanhar Pança a uma missão dada por Quixote era maior do que qualquer boca dentada de um tubarão. O guia me olhava a toda hora fazendo um sinal de "ok" com os dedos. Eu estava confiante, e percebendo minha calma, o guia soltou minha mão. Na hora não me importei. Afinal tinha a companhia de Pança. Eu usava uma máscara e um snorkel, só olhava para baixo e nadava muito forte. E assim prossegui por alguns minutos. Num momento da trajetória, levantei a cabeça para fora d’água e percebi que as meninas se afastavam vertiginosamente a cada braçada e que o guia já tinha desaparecido no horizonte. “Calma, está tudo sob controle!” Eu pensava em não pensar. Mas como é difícil a proeza de esvair da cabeça o peso do pensamento. Sancho se equilibrando em minhas costas também incomodava um pouco. Ele estava bem acima do peso para sua pouca estatura e ainda por cima, carregava consigo as comidas, os remédios e as roupas de Quixote. Ah, e claro, o mais pesado de tudo: sua adarga de ferro maciço. Eu ainda não tinha me dado conta de quanto pesava aquele escudo, que não podia tocar o mar a fim de evitar o sal corrosivo. E ao contabilizar o peso que carregava nos ombros gritei: “SOCORRO!!!!” Somente minha amiga Natália ouviu nosso apelo e nadou em nossa direção. Eu disse a ela que precisava voltar pra areia. Ela nadou depressa até alcançar o guia que veio nos salvar. Era o fim da missão de Pança. As meninas continuaram na água e o guia me deu novas instruções para passar a rebentação sem levar um caldo. As ondas estavam bem mais altas do que quando entramos no mar. Sancho se agarrou nas minhas costas com firmeza. Esperamos alguns minutos por uma onda mais fraca. Mergulhamos fundo, e nadamos depressa até a beira d’água. O guia voltou para trazer as minhas amigas. Era o fim da missão delas também. Não tinha mais Dom Quixote, nem mergulho com os golfinhos. E como fazem os bons amigos, ninguém tocou mais nesse assunto até o fim da viagem. Sancho Pança tinha os pés no chão e a realidade na cabeça. Por isso, ele pesava feito chumbo. Carregá-lo nas costas foi uma impossível tentativa de esquecer o meu medo de mar e nadar com os golfinhos. O bom disso tudo é que assim como Pança, eu tenho fiéis escudeiras. Amigas com a leveza dos sonhos de Quixote, que apesar de conseguirem nadar, não se importaram com o peso da minha realidade. Quem sabe noutra praia, com outro nome.
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Solidão
24/07/2017 | 22h24
casca de ovo
casca de ovo / MLM
A casca do ovo, de tão grande, grudou na embalagem. Não saiu nem por reza. O ovo gigante destoava dos outros pela casca mais clara e claro, pelo tamanho. A tampa de isopor ficava com uma pequena protuberância no lugar onde o ovão bravamente resistia a se tornar ingrediente de um bolo de cenoura ou omelete. O menu não passava muito disso, e como eu não faço bolo e não gosto de omelete, ele viveu por mais de um mês na geladeira. Ao longo do tempo, Consumi os outros 11. Ora mexidos com salsa e manjericão, ora pincelados por cima de uma massa de pão de batata doce. Todas as vezes que precisei de ovos, tentei usá-lo, mas ele permanecia grudado feito dedos de criança quando brinca com super bonder. Então, eu fui deixando o teimoso, no solitário castigo da geladeira escura e fria. Achei que tivesse passado do tempo. Não faz só um mês, faz quase dois que comprei esta caixa. Deve estar podre, quebrado por baixo ou algo parecido. Antes de jogar o ovo no lixo, resolvi aproveitar, ao menos, a generosa quantidade de cálcio disponível naquele baita para adubar as plantas. Quando eu quebrei a casca, me dei conta que sozinha estava eu. Sobrando num apartamento de 100m2 enquanto dois dividiam o cubículo. Chorei.
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Espólios
30/06/2017 | 10h50
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"Rogério me deve R$120,00, 3 doses de proteína e um pote de plástico." "Anderson nunca me devolveu a camiseta que eu comprei numa lojinha de um cinema em Rabat." "Foram um edredom, algumas roupas e uma conta na padaria de R$500,00. Ele se mandou deixando na porta da minha casa, um fusquinha azul que de tão velho não deu nem pra pagar a conta da padaria." Durante um período na minha vida, colecionei espólios do fim de relacionamentos alheios. Perguntava a amigos, conhecidos e pessoas que dificilmente encontraria novamente, qual a dívida deixada pelo ex-amor. Restos de sentenças, frases não ditas e coisas. Interessavam-me as coisas. Objetos que o outro se apossou e nunca devolveu me diziam muito mais sobre aquele relacionamento do que os sentimentos e as promessas feitas, jamais cumpridas, guardadas com todos os detalhes na última instância do rancor do entrevistado. A caneca do Fluminense que o parceiro “roubou”e nunca devolveu. A assadeira de alumínio do último frango com batatas. O conjunto de chaves de fenda que pendurou o quadro estopim do término. Para escrever esta crônica, me pus a pensar nas minhas próprias pequenezas e nos espólios dos meus ex-amores. Lembrei de um shampoo importado que ganhei de uma amiga, que me trouxe de Paris naquela época em que pouquíssimas pessoas, pelo menos das que eu conhecia, passava férias em Paris. O shampoo ficou perdido na casa dos pais do desafeto que por motivo contundente fiz questão de nunca mais falar. Hoje, o desafeto mal é lembrado. Mas o shampoo, este me faz falta. O cheiro, a textura dos cabelos, o toque sedoso depois da lavagem. Lembro como se fosse hoje. Posso e acredito que devo estar mesmo supervalorizando sabão de lavar cabelos. Vai ver o shampoo nem era tão bom assim. Mas em se tratando de fins, vale mais uma malquerença bem valorizada do que um aprendizado isento de mágoa.
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30!
27/06/2017 | 17h41
Em Janeiro deste ano, li uma crônica de Affonso Romano de Sant’Anna com o título Fazer 30 anos. Sant’Anna começava o texto contando que naquela semana, quatro conhecidos entrariam na fase balzaquiana. Todos eles estavam extremamente preocupados com isso. No dia 17 do mês passado, foi a minha vez de celebrar os 30 anos e sentir a tal gravidade no falar que Sant’Anna escreveu. Quase todos os amigos e conhecidos que encontrei naquela semana, comentavam com pesar na voz sobre o fardo da passagem de ano. “Você vai ver, é uma mudança e tanto. Você dorme com 29 e acorda bem diferente no dia seguinte”.
Eu não sentia nada tão significativo assim. Na verdade, até poucos dias antes da celebração, não dava a mínima para opiniões sobre o assunto. Achava que fazer 30 anos era o mesmo que celebrar 29 ou 28. Apenas mais um dia para comemorar, mais um ano de vida. Esse discurso desencanado mudou no exato momento em que ao me olhar no espelho, às vésperas do meu aniversário, encontrei um fio de cabelo branco bem perto da testa. Aquele não era o primeiro.Já havia aparecido uns poucos outros, alguns anos antes.
Mas a diferença é que os fios anteriores foram encontrados na parte traseira da cabeça e por um cabeleireiro que cortava meu cabelo. Pode parecer um pouco dramático tudo isso que estou narrando, mas só quem já tem cabelos brancos entende a problemática de descobrir por si só, um fio branco NA TESTA. É uma invasão de privacidade sem tamanho. Corri imediatamente para o salão e eliminei o inimigo que poderia arruinar a minha entrada triunfal na casa dos 30. E quando acreditava ter vencido um princípio de crise, fui novamente desafiada pelo espelho do banheiro. No dia 17 de agosto, enquanto passava filtro solar no rosto percebi uma leve linha, ainda tímida surgindo entre as sobrancelhas. Não tem jeito. Pensei. Estou ficando velha. Naquele instante, a crise dos 30 que eu acreditava estar imune, surgiu como um raio emergindo do reflexo da ruga recém nascida direto para lobo frontal do cérebro. Comecei a pensar em todos os comentários e pressões sociais que havia ouvido durante as semanas que anteciparam ao dia 17.
A sociedade espera que você chegue aos trinta anos casada, com pelo menos um filho, e intenções de encomendar o segundo. Sua carreira deverá estar consolidada e você precisará ter ao menos entrado num financiamento para a compra da casa própria. E quando você tem o "agravante" de ter nascido mulher, ainda temos o peso de realizar tudo isso exibindo cabelos lindamente coloridos e botox para esticar as rugas. Eu não tinha e não queria ter, nenhum dos requisitos merecedores para o upgrade na idade. E embora me preocupasse com os cabelos brancos e as rugas, sabia que demasiada preocupação só ajudaria a fortalecer o estereótipo feminino da mulher extremamente objetificada. Eu estava longe, bem longe do que a sociedade esperava de mim aos 30 anos e mesmo sem "merecer", me tornei uma balzaquiana. Sempre ouvi que fazer 30 anos era bem diferente de fazer 15, 18 ou 21. Uma tia de Belo Horizonte dizia: "aos quinze você é apresentada a sociedade. Aos dezoito é introduzida ao mundo das quatro ou duas rodas. Aos 21, as verdadeiras responsabilidades se apresentam", mas é aos 30 que a sociedade a qual, segundo a lógica da minha tia, você foi introduzida há 15 anos, começa a te cobrar uma série de realizações e expectativas. E é por isso, que muita gente pira! A minha fulgaz crise dos 30 durou bem menos que um minuto. O tempo que usei para espalhar o filtro solar. Embora estivesse me tornando uma trintona naquele dia, não me sentia uma velha frustrada por não ter realizado nenhuma das expectativas alheias. Na verdade, eu estava muito feliz com as minhas realizações e desejos. O que me salvou do desespero foi relembrar o texto de Sant’Anna. O autor concorda que os 30 anos são uma idade de um início de maturidade. Ele também espera que, aos trinta anos, já se tenha tido filhos, marido casa própria e carreira próspera. Só que a diferença é que para o cronista, há quem faz 30 anos aos 30, há quem faz aos 40, há quem morra sem nunca ter feito trinta anos (espero ser este o meu caso). A idade da realização, assim como a sociedade a conceitua, é muito relativa. As realizações, assim como a queremos, também é bem relativa. O que não se pode, é deixar-se levar pelas expectativas alheias e esquecer-se das próprias. A velhice não chega necessariamente aos 30 anos, nem aos 70 anos. Para muitas pessoas, ela vêm bem antes. Foi aí que ainda espalhando o filtro solar e brigando com a ruguinha recém nascida eu pensei: É bem provável que este cabelo branco já estivesse aí faz tempo, assim como a ruga. E eu ainda me considerava jovem, sem tê-las visto. Foram as expectativas alheias que me fizeram vê-las só agora. Menos mal.
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Amor e Dor
11/04/2017 | 15h31
mariana luiza
amor e dor / mariana luiza
Toda dor é um processo inflamatório
Todo amor é um processo flamatório
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Tão perto, tão distante
02/04/2017 | 21h58
Luz no fim do túnel
Luz no fim do túnel / Mariana Luiza
Tão perto, tão distante
A Nasa descobriu um novo sistema. Sete planetas na órbita de uma estrela vizinha à 39 anos-luz da terra.
Há quantos milênios estes sete planetas e tantos outros orbitam estrelas desconhecidas?
O que mais menosprezamos por nossa escassez tecnológica?
Por nossos telescópicos limitados?
Arqueólogos descobriram uma estátua de um faraó soterrada por lama, esgoto, palafitas e favelados.
Quantas outras riquezas arqueológicas estão sepultadas mundo afora porque não temos um equipamento ultrassônico capaz de revelá-las?
Quantas vidas invisíveis perseveram precariamente por cima de um monumento faraônico?
Um antiquário antiquado. Tão perto, tão longe.
Nossa vista alcança pouco além do estratosférico, nada além a camada do solo. Quase nada do que lhe é adverso.
O que mais preterimos por nossa cegueira?
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Homem do Saco
21/02/2017 | 18h15
Minha avó morou na casa dos meus pais desde que eu nasci. Era ela quem cuidava de mim e do meu irmão enquanto os dois trabalhavam. Quase todas as minhas memórias de comida durante a infância têm o dedo da dela. O cheiro do alho socado torrando na panela para fazer o arroz. O bolo de laranja que perfumava toda a casa. Vários cheiros e sabores da minha infância que me remetem imediatamente a minha avó.
Dona Diva cozinhava brilhantemente. Fazia uma carne moída com batata que ninguém faz igual. Uma receita simples, sem segredos ou temperos extravagantes. Um tradicional refogado de carne moída com batatas cortadas bem pequeninas de sabor, textura e formato diferente de todas as carnes moídas com batata que já provei na vida.
Ninguém que eu conheça sabe cortas as batatas em formas triangulares tão perfeitas e proporcionais ao moído das carnes como a minha avó Diva. Acho que esse era o segredo.
Ela tinha um caderno de culinária onde anotava as receitas do manjar de côco e pavê de biscoito champanhe que ela sempre fazia pro natal. Eu adorava folheá-lo, muito mais interessada na sua grafia, que era linda, e nas figuras que ela recortava das revistas para ilustrar as anotações, do que nas próprias receitas.
Cresci gostando de escrever e sem saber cozinhar.
Nas manhãs, de segunda a sexta, minha avó repetia a rotina de preparar o arroz fresquinho. Eu contava as horas, e sentava na mesa da cozinha fingindo fazer companhia, quando o que me interessava mesmo era comer o arroz torrado. Antes de colocar a água fervendo, ela passava uns bons minutos torrando o arroz numa panela cheia de alho amassado. E eu, ansiosa, esperava na beira do fogão, mendigando uma colherzinha de chá que fosse daquele arroz antes da água. Minha avó era uma senhora bem mesquinha. Dessas que esconde moedas e nega colher de chá de arroz pros netos. Muitas vezes, eu precisava roubar escondido quando quisesse alguma quantidade satisfatória. E para evitar que eu comesse demais, ela sempre contava uma história de uma vizinha que por comer muito arroz cru, teve os ouvidos e orifícios do nariz tomados por chumaços de brotos de arroz que germinavam pelo estômago e saiam pelos buracos do rosto. Outra vez contou algo semelhante sobre um ramo de feijão que nasceu no umbigo da neta de uma colega. Eu não ligava muito e continuava a praticar minhas artimanhas para roubar um pouco do arroz torrado. Minha vontade era maior do que o medo. Mas tinha uma outra história, contada por minha avó e também relacionada com comida, que me assombrou por muito tempo. 
Fui uma criança que nunca comeu cachorro quente. Provei já adulta, mas até hoje tenho ressalvas.
Para evitar que eu e meu irmão brigássemos, a gente brigava de se espancar, dona Diva nos ameaçava dizendo conhecer o homem do saco. A briga começava e lá ia ela em direção ao telefone, dizendo que ia ligar para o tal colega. O homem do saco perambulava pela cidade catando crianças desobedientes para fazer salsicha.
Conclusão: Desistir de brigar? Nunca.
Eu e meu irmão sabíamos que a avó não teria coragem de ver seus netos transformados em em salsichas... mas daí a comer coleguinhas nas festinhas de aniversário... Nem pensar.
Eu lembro que nas festas de aniversário dos amiguinhos de colégio, quando os pais serviam cachorro quente, eu ficava horrorizada com tamanho descaso e falta de amor com às crianças desconhecidas. "O homem é o lobo do homem" já dizia Thomas Hobbes...
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Dois de Fevereiro
02/02/2017 | 12h21
Fazia um tempo que já não acreditava em deus. Fora devota de Santo Antônio e São José. Dessas de fazer promessas mirabolantes como caminhar 100 quilômetros a pé ou distribuir 50.0000 folhinhas com orações do santo. Levava a sério suas promessas. Tratava os santos com respeito e admiração. Nunca colocara um santo de cabeça para baixo ou dentro do congelador. Reservava apenas para si penitências astronômicas e por muitas vezes, dolorosas, física ou financeiramente. Tudo que pedira, fora realizado. E a cada nova promessa, aumentava o número de folhinhas para o devoto e dificuldade da penitência a ser cumprida.
Um dia, sem explicação, num movimento rápido e seco como são as notícias inesperadas que mudam o rumo das vidas, ela acordou não acreditando mais em deus e nos santos. Acordou sem fé. Arrumou as gavetas e o armário. Jogou fora todos os santinhos. Resquícios de promessas atendidas no passado. Levou todas as imagens que tinha para a igreja de São José. Tinha uma coleção de imagens respeitável. Um oratório para cada santo dispostos lado a lado num aparador de 3 metros. São Francisco de Assis, São Benedito, São José, Nossa Senhora Aparecida e Santa Teresa reinavam na antessala que agora parecia abandonada. 
O mar estava calmo, a casa arrumada, os filhos encaminhados, o marido feliz no emprego. Tudo parecia na mais perfeita harmonia e organização. Como ela sempre sonhara a até então não havia conseguido. Sempre lhe faltava algum detalhe para alcançar o tão sonhado equilíbrio na vida familiar. O marido ser promovido, o filho decidir pelo curso do vestibular, o dinheiro para comprar aquele sofá igualzinho ao da novela.
Agora, nada lhe faltava. A vida estava enfim do jeito que ela planejara. Era motivo para ir a igreja, agradecer aos santos, mandar rodar 5000.0000 santinhos de cada santo de devoção. Mas o invés disso, ela acordou descrente. O sofá estava comprado, o filho inscrito na faculdade de medicina e o marido ganhado 20% a mais de promoção e ela acordara cética. Saiu de casa cedo para trabalhar, dentro do ônibus passou pela igreja da Candelária, e pela primeira vez desde a primeira comunhão, não fez o sinal da cruz. Não bateu na madeira quando uma colega de trabalho disse que o salário poderia atrasar naquele mês. Não rezou para agradecer pelo almoço daquele dia. Nunca deu explicações sobre essa mudança repentina de comportamento. Simplesmente, porque as tinha. A fé é exatamente igual ao ceticismo. Não há explicação racional ou lógica. E assim, descrente, foi levando a vida. Histórias de fé não a comoviam mais. Nem na sorte de um cílio caído na maçã do rosto ela acreditava.
O filho agora clinica em consultório próprio. O sofá já fora trocado por um modelo de couro caramelo. O marido estava prestes a aposentar. E ela continuava descrente. Pegou um ônibus para o centro da cidade. Era Dois de Fevereiro e isso não lhe dizia muita coisa. Desceu próximo ao cais do porto e cruzou por uma procissão de devotos, filhos de santo e curiosos. Todos saldando a rainha do mar. De repente, ela se viu rodeada de um azul celeste que ornamentava o céu, as roupas, os barquinhos da procissão, as contas do colar da menina, o mar. O mar da Baía de Guanabara, bem próximo a Praça XV, na concentração das barcas, aquele mar escuro, preto de dejetos e esgoto lançados, sujo de óleo das embarcações, estava inacreditavelmente azul. E lindo. 
Foi naquele instante, brusco e inesperado, assim como os instantes em que nos apaixonamos, que ela se enamorou por Iemanjá. Não virou devota, não retomou sua fé. Continuou cética com a vida, com os santos, com os deuses e orixás. Não comprovou imagens da rainha, não fez Bori, nem oferenda. Nunca lhe fez uma prece. Mas todo Dois de Fevereiro ela não abre mão de ir junto ao mar e molhar os pés nas águas celestes ou escuras da Baía de Guanabara.
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Sobre o autor

Mariana Luiza

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