Se todos fôssemos no mundo iguais a você
19/10/2013 | 00h01
<div><tinymce class="clickTinyMCE" title="{'nm_midia_inter_thumb1':'http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2017/12/20/170x96/1_photo_188x300-929976.jpg', 'id_midia_tipo':'2', 'id_tetag_galer':'', 'id_midia':'5a3a697641c07', 'cd_midia':929976, 'ds_midia_link': 'http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2017/12/20/photo_188x300-929976.jpg', 'ds_midia': '', 'ds_midia_credi': '', 'ds_midia_titlo': '', 'cd_tetag': '1', 'cd_midia_w': '188', 'cd_midia_h': '300', 'align': 'Left'}"><figure class="Left" style="width:188px;height:300px;"> <img src="http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2017/12/20/photo_188x300-929976.jpg" alt="" width="188" height="300"> <figcaption> </figcaption> </figure></tinymce>A primeira vez que eu me apaixonei de verdade foi por um menino que eu vi na praia, numa tarde ensolarada de um domingo de ver&atilde;o. Ele era surfista e passou por mim carregando uma prancha de<em> bodyboard</em> enquanto eu esturricava sob o sol sem nem um pingo de filtro solar. No segundo seguinte eu j&aacute; estava apaixonada. N&atilde;o sabia onde ele morava, nem quantos anos ele tinha. N&atilde;o sabia nem o seu nome, mas eu o amava e s&oacute; esse amor j&aacute; me bastou para o resto do dia. Alguns meses se passaram e eu revi o surfista plantado num ponto de &ocirc;nibus a esperar. Eu passei de carro e meu pai dirigia t&atilde;o r&aacute;pido que mal deu tempo de pensar em lhe oferecer uma carona. Tamb&eacute;m, naquela &eacute;poca, me faltava tal aud&aacute;cia. Meu pai me levava pro curso de ingl&ecirc;s, era o meu primeiro dia de aula e eu que j&aacute; pensava em ser escritora, mentalizei a cena da carona durante todo o trajeto para o curso. Cheguei at&eacute; a pensar que ele estivesse indo para o mesmo lugar que eu. Quem sabe n&atilde;o era meu colega de turma?</div> <div>Sentei na primeira fila, abri o caderno e o livro. Quando um quarto da aula j&aacute; tinha se passado eis que a porta se abriu e quem entrou? Ele mesmo. O surfista do ponto de &ocirc;nibus. O fato &eacute; que se antes, eu j&aacute; achava que ele era o homem da minha vida, agora ent&atilde;o, eu tinha certeza. Meu ingl&ecirc;s que nunca foi bom ficou pior ainda. Eu n&atilde;o concentrava nas aulas e tinha vergonha de pronunciar as palavras erroneamente. Da&iacute;, por perfeccionismo, eu entrava muda e sa&iacute;a calada. O surfista me intimidava pela sua presen&ccedil;a e pelo impec&aacute;vel ingl&ecirc;s californiano. Eu ia de mal a pior no curso. At&eacute; hoje tenho certo bloqueio para a l&iacute;ngua. Estudamos por longos 8 semestres. Ele se formou com louvor e eu como se fosse uma aluna mediana. Justo eu que sempre fui a aluna destaque de todas as classes que estudei.&nbsp;Ao longo desses oito semestres, eu me aproximei um pouco, mas nunca tive coragem de me declarar. Nesse meio tempo, ele me convidou para surfar, eu planejei uma festa surpresa num dia de aula para celebrar o seu anivers&aacute;rio e ele teve um namoro rel&acirc;mpago com uma das minhas melhores amiga da &eacute;poca. Ela, claro, n&atilde;o fazia id&eacute;ia do amor que s&oacute; eu sentia e ningu&eacute;m mais sabia. Levei dez anos pra beij&aacute;-lo na boca. Mas a&iacute;, j&aacute; n&atilde;o era mais amor, j&aacute; n&atilde;o era mais plat&ocirc;nico e eu n&atilde;o era mais a mesma menina que acreditava na eternidade de um sentimento. Beijei por curiosidade e tes&atilde;o mesmo e contei pra ele do amor plat&ocirc;nico que eu senti no passado. Ele achou gra&ccedil;a, eu tamb&eacute;m e n&oacute;s ficamos amigos. Eu nunca mais o vi desde ent&atilde;o, mas at&eacute; hoje eu tenho as boas vibra&ccedil;&otilde;es que este amor me trouxe. Hoje comemora-se o centen&aacute;rio de Vin&iacute;cius de Moraes, o homem que amou eternamente todas as mulheres que se relacionou. Com a mesma intensidade, com a mesma entrega e sem medo do inevit&aacute;vel - at&eacute; para os mais precavidos - sofrimento do fim.&nbsp; H&aacute; quem diga que Vin&iacute;cius era um mulherengo, um inconsequente. "Como pode um homem amar tantas vezes &agrave; tantas mulheres?". H&aacute; quem pense que ao contr&aacute;rio de um amante intenso, Vin&iacute;cius era um sem vergonha, um colecionador de cora&ccedil;&otilde;es partidos. Afinal, "O amor verdadeiro s&oacute; acontece uma vez." Eu acho que Vin&iacute;cius era apenas o portador de um cora&ccedil;&atilde;o imaturo. Um cora&ccedil;&atilde;o que n&atilde;o aprende com o sofrimento de experi&ecirc;ncias anteriores, que ingenuamente repete sempre a mesma hist&oacute;ria sem guardar rancor, remorso ou arrependimento. Que se apaixona, se joga na rela&ccedil;&atilde;o como como se aquela fosse a primeira. Um cora&ccedil;&atilde;o de crian&ccedil;a esperta, que sabe bem que n&atilde;o se sai imune nem da vida nem do amor. Que bom que existiu um Vin&iacute;cius porque os cora&ccedil;&otilde;es maduros s&atilde;o chatos demais e n&atilde;o t&ecirc;m boas hist&oacute;rias pra contar. &nbsp;</div> <div><em><span style="text-decoration: underline;">Amor - Vin&iacute;cius de Moares</span></em></div> <div><em>Vamos brincar, amor? vamos jogar peteca</em></div> <div><em>Vamos atrapalhar os outros, amor, vamos sair correndo</em></div> <div><em>Vamos subir no elevador, vamos sofrer calmamente e sem precipita&ccedil;&atilde;o?</em></div> <div><em>Vamos sofrer, amor? males da alma, perigos</em></div> <div><em>Dores de m&aacute; fama &iacute;ntimas como as chagas de Cristo</em></div> <div><em>Vamos, amor? vamos tomar porre de absinto</em></div> <div><em>Vamos tomar porre de coisa bem esquisita, vamos</em></div> <div><em>Fingir que hoje &eacute; domingo, vamos ver</em></div> <div><em>O afogado na praia, vamos correr atr&aacute;s do batalh&atilde;o?</em></div> <div><em>Vamos,amor, tomar th&eacute; na Cav&eacute; com madame Sevign&eacute;e</em></div> <div><em>Vamos roubar laranja, falar nome, vamos inventar</em></div> <div><em>Vamos criar beijo novo, carinho novo, vamos visitar N. S. do Parto?</em></div> <div><em>Vamos, amor? vamos nos persuadir imensamente dos acontecimentos</em></div> <div><em>Vamos fazer nen&eacute;m dormir, botar ele no urinol</em></div> <div><em>Vamos, amor?</em></div> <div><em>Porque excessivamente grave &eacute; a Vida.</em></div>
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Sobre o autor

Mariana Luiza

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