A sinusite que não me deixa ter saudades
03/06/2013 | 07h01
<div><tinymce class="clickTinyMCE" title="{'nm_midia_inter_thumb1':'http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2017/12/19/170x96/1_dsc_0565_283x300-929433.jpg', 'id_midia_tipo':'2', 'id_tetag_galer':'', 'id_midia':'5a39b9c8da4bd', 'cd_midia':929433, 'ds_midia_link': 'http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2017/12/19/dsc_0565_283x300-929433.jpg', 'ds_midia': '', 'ds_midia_credi': '', 'ds_midia_titlo': '', 'cd_tetag': '1', 'cd_midia_w': '283', 'cd_midia_h': '300', 'align': 'Left'}"><figure class="Left" style="width:283px;height:300px;"> <img src="http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2017/12/19/dsc_0565_283x300-929433.jpg" alt="" width="283" height="300"> <figcaption> </figcaption> </figure></tinymce>O que dizer da vida quando n&atilde;o se pode sentir os gostos e os cheios do mundo?</div> <div>Uma crise de sinusite inaugurou a semana me privando de sentir o gosto do chocolate e o cheiro do amaciante nas roupas. Tomei banho de mar para lavar o nariz, comi acaraj&eacute; com muita pimenta para desobstruir as vias respirat&oacute;rias, mas nada adiantou. Pus-me ent&atilde;o, a planejar o que seria uma vida sem gostos e cheiros. E a pensar&nbsp;nos sabores e cheiros que encantaram-me a vida.&nbsp;Lembrei&nbsp;de uma viagem que fiz com um namorado a Burgazada, a terceira maior das Ilhas do Pr&iacute;ncipe, no Mar de M&aacute;rmara, pr&oacute;ximo a Istambul. Era a minha &uacute;ltima semana na Turquia e ele me levou a ilha para uma tarde intitulada por ele como inesquec&iacute;vel. Quando chegamos &agrave; Burgazada caminhamos por uma ladeira pouco &iacute;ngreme, rumo a uma igreja cat&oacute;lica ortodoxa chamada Aya Yani. A igreja grega estava fechada. Batemos na porta. Tentamos uma entrada lateral e depois a entrada pelos fundos. Todas as portas estavam trancadas.&nbsp; O buraco da fechadura foi o &uacute;nico contato que tive com o interior da igreja. Parecia bonita. Decidimos seguir adiante at&eacute; a casa onde morou o escritor Sait Faik Abasiyanik, hoje um museu. No caminho silencioso como a ilha, s&oacute; os gatos nos faziam companhia. Eles vagavam pelas ruas desertas de gente, mas cheias de iguais. Pequenos, filhotes, brancos, pretos e amarelados os gatos disputavam comida e brigavam pela aten&ccedil;&atilde;o das f&ecirc;meas. Seus donos e habitantes das casas de veraneio nunca apareciam nas janelas ou nas ruas. A ilha parecia abandonada aguardando o pr&oacute;ximo ver&atilde;o. <tinymce class="clickTinyMCE" title="{'nm_midia_inter_thumb1':'http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2017/12/19/170x96/1_img_3353-929455.jpg', 'id_midia_tipo':'2', 'id_tetag_galer':'', 'id_midia':'5a39b9ff8425e', 'cd_midia':929455, 'ds_midia_link': 'http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2017/12/19/img_3353-929455.jpg', 'ds_midia': '', 'ds_midia_credi': '', 'ds_midia_titlo': '', 'cd_tetag': '1', 'cd_midia_w': '321', 'cd_midia_h': '448', 'align': 'Right'}"><figure class="Right" style="width:321px;height:448px;"> <img src="http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2017/12/19/img_3353-929455.jpg" alt="" width="321" height="448"> <figcaption> </figcaption> </figure></tinymce>O museu-casa de Sait Abasiyanik tamb&eacute;m estava fechado. Do port&atilde;o, s&oacute; vimos um jardim com a grama alta e um gato sentado sobre o busto de bronze do escritor. Dali em diante, tudo que visitamos, tal qual todo o resto que j&aacute; t&iacute;nhamos visto, parecia aguardar o pr&oacute;ximo ver&atilde;o. Um restaurante na beira do mar, um mosteiro no topo de uma colina, outra igreja, cujo padre n&atilde;o nos deixou entrar, nem quando o namorado insistiu dizendo que eu vinha do Brasil s&oacute; para visitar a ilha que passou o dia com as portas fechadas para mim. Terminamos o dia sentados num bar degustando Yeni Raki, ch&aacute; e peixes t&iacute;picos do mar de M&aacute;rmara. Ali, naquele instante minha viagem tinha se tornado inesquec&iacute;vel. N&atilde;o pelas coisas que eu vi, nem mesmo por todas as que eu deixei de ver, mas pelos cheiros e sabores que se tornaram mem&oacute;ria. &nbsp;Anos depois desta viagem, e dois meses antes da minha crise de sinusite comprei por engano um pacote de queijo de cabra. Quando abri o queijo e o experimentei com torradas tive uma vis&atilde;o do apartamento de&nbsp;um outro namorado. Um relacionamento mais recente do que o namoro com o Turco. Que me deixou lembran&ccedil;as que de t&atilde;o saudosas eu teimava em esquecer, renegando a vontade de pensar e a assumindo a dificuldade de continuar sem o que eu vivera.&nbsp;Nunca mais falei com ele. Havia passado mais de seis anos desde o fim. A frequ&ecirc;ncia com que pensava em n&oacute;s dois beirava o nulo, mas eu ainda me policiava evitando a caixa de fotografias e as pequenas recorda&ccedil;&otilde;es como um colar de p&eacute;rolas que ganhei de presente de anivers&aacute;rio. Mas o queijo de cabra comprado erroneamente me pregou uma pe&ccedil;a. E foi s&oacute; dar a primeira mordida na torrada para ter uma vis&atilde;o:&nbsp;Eu, sentada na sala folheando um livro de fotografias enquanto ele lavava a lou&ccedil;a. Corri imediatamente pro computador pra lhe mandar uma mensagem. Aquele queijo era ingrediente de algum jantar que ele havia feito pra mim, mas eu n&atilde;o <tinymce class="clickTinyMCE" title="{'nm_midia_inter_thumb1':'http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2017/12/19/170x96/1_img_3352_300x200-929445.jpg', 'id_midia_tipo':'2', 'id_tetag_galer':'', 'id_midia':'5a39b9eedd8d7', 'cd_midia':929445, 'ds_midia_link': 'http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2017/12/19/img_3352_300x200-929445.jpg', 'ds_midia': '', 'ds_midia_credi': '', 'ds_midia_titlo': '', 'cd_tetag': '1', 'cd_midia_w': '300', 'cd_midia_h': '200', 'align': 'Left'}"><figure class="Left" style="width:300px;height:200px;"> <img src="http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2017/12/19/img_3352_300x200-929445.jpg" alt="" width="300" height="200"> <figcaption> </figcaption> </figure></tinymce>lembrava ao certo o que era. No dia seguinte, recebi a receita. Penne com queijo de cabra e tomatinhos cereja. O queijo comprado por engano foi pra panela. Convidei uns amigos para comer a massa e transformar o ingrediente de uma hist&oacute;ria cuja saudade me fazia mal, numa nova e saborosa lembran&ccedil;a. H&aacute; amores que fazem bem, cujo fim nos faz mal. H&aacute; amores que n&atilde;o se pode ter saudades.&nbsp;Talvez para estas rela&ccedil;&otilde;es, uma vida de sinusite, privada dos gostos e cheiros de futuras saudades tenha imensa valia. Mas eu, que n&atilde;o sou covarde, que tenho quase nenhum medo de sofrer, me forcei, naquele instante de ataque al&eacute;rgico a lembrar dos sabores amargos e tristes do fim de uma hist&oacute;ria de amor.</div>
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Sobre o autor

Mariana Luiza

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