A sinusite que não me deixa ter saudades
03/06/2013 | 07h01
O que dizer da vida quando não se pode sentir os gostos e os cheios do mundo?
Uma crise de sinusite inaugurou a semana me privando de sentir o gosto do chocolate e o cheiro do amaciante nas roupas. Tomei banho de mar para lavar o nariz, comi acarajé com muita pimenta para desobstruir as vias respiratórias, mas nada adiantou. Pus-me então, a planejar o que seria uma vida sem gostos e cheiros. E a pensar nos sabores e cheiros que encantaram-me a vida. Lembrei de uma viagem que fiz com um namorado a Burgazada, a terceira maior das Ilhas do Príncipe, no Mar de Mármara, próximo a Istambul. Era a minha última semana na Turquia e ele me levou a ilha para uma tarde intitulada por ele como inesquecível. Quando chegamos à Burgazada caminhamos por uma ladeira pouco íngreme, rumo a uma igreja católica ortodoxa chamada Aya Yani. A igreja grega estava fechada. Batemos na porta. Tentamos uma entrada lateral e depois a entrada pelos fundos. Todas as portas estavam trancadas.  O buraco da fechadura foi o único contato que tive com o interior da igreja. Parecia bonita. Decidimos seguir adiante até a casa onde morou o escritor Sait Faik Abasiyanik, hoje um museu. No caminho silencioso como a ilha, só os gatos nos faziam companhia. Eles vagavam pelas ruas desertas de gente, mas cheias de iguais. Pequenos, filhotes, brancos, pretos e amarelados os gatos disputavam comida e brigavam pela atenção das fêmeas. Seus donos e habitantes das casas de veraneio nunca apareciam nas janelas ou nas ruas. A ilha parecia abandonada aguardando o próximo verão.
O museu-casa de Sait Abasiyanik também estava fechado. Do portão, só vimos um jardim com a grama alta e um gato sentado sobre o busto de bronze do escritor. Dali em diante, tudo que visitamos, tal qual todo o resto que já tínhamos visto, parecia aguardar o próximo verão. Um restaurante na beira do mar, um mosteiro no topo de uma colina, outra igreja, cujo padre não nos deixou entrar, nem quando o namorado insistiu dizendo que eu vinha do Brasil só para visitar a ilha que passou o dia com as portas fechadas para mim. Terminamos o dia sentados num bar degustando Yeni Raki, chá e peixes típicos do mar de Mármara. Ali, naquele instante minha viagem tinha se tornado inesquecível. Não pelas coisas que eu vi, nem mesmo por todas as que eu deixei de ver, mas pelos cheiros e sabores que se tornaram memória.  Anos depois desta viagem, e dois meses antes da minha crise de sinusite comprei por engano um pacote de queijo de cabra. Quando abri o queijo e o experimentei com torradas tive uma visão do apartamento de um outro namorado. Um relacionamento mais recente do que o namoro com o Turco. Que me deixou lembranças que de tão saudosas eu teimava em esquecer, renegando a vontade de pensar e a assumindo a dificuldade de continuar sem o que eu vivera. Nunca mais falei com ele. Havia passado mais de seis anos desde o fim. A frequência com que pensava em nós dois beirava o nulo, mas eu ainda me policiava evitando a caixa de fotografias e as pequenas recordações como um colar de pérolas que ganhei de presente de aniversário. Mas o queijo de cabra comprado erroneamente me pregou uma peça. E foi só dar a primeira mordida na torrada para ter uma visão: Eu, sentada na sala folheando um livro de fotografias enquanto ele lavava a louça. Corri imediatamente pro computador pra lhe mandar uma mensagem. Aquele queijo era ingrediente de algum jantar que ele havia feito pra mim, mas eu não
lembrava ao certo o que era. No dia seguinte, recebi a receita. Penne com queijo de cabra e tomatinhos cereja. O queijo comprado por engano foi pra panela. Convidei uns amigos para comer a massa e transformar o ingrediente de uma história cuja saudade me fazia mal, numa nova e saborosa lembrança. Há amores que fazem bem, cujo fim nos faz mal. Há amores que não se pode ter saudades. Talvez para estas relações, uma vida de sinusite, privada dos gostos e cheiros de futuras saudades tenha imensa valia. Mas eu, que não sou covarde, que tenho quase nenhum medo de sofrer, me forcei, naquele instante de ataque alérgico a lembrar dos sabores amargos e tristes do fim de uma história de amor.
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Sobre o autor

Mariana Luiza

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