Confissão
04/08/2014 | 15h16
<div><tinymce class="clickTinyMCE" title="{'nm_midia_inter_thumb1':'http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2017/12/21/170x96/1_photo_11-931615.jpg', 'id_midia_tipo':'2', 'id_tetag_galer':'', 'id_midia':'5a3bb258a9865', 'cd_midia':931620, 'ds_midia_link': 'http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2017/12/21/487x377/1_photo_11-931615.jpg', 'ds_midia': '', 'ds_midia_credi': '', 'ds_midia_titlo': '', 'cd_tetag': '1', 'cd_midia_w': '487', 'cd_midia_h': '376', 'align': 'Left'}"><figure class="Left" style="width:487px;height:376px;"> <img src="http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2017/12/21/487x377/1_photo_11-931615.jpg" alt="" width="487" height="376"> <figcaption> </figcaption> </figure></tinymce>Assim que eu soube que ele havia morrido, fui at&eacute; a estante a procurar pelo exemplar autografado. Num golpe de sorte em meio a uma muntueira de livros prestes a mudar de casa, encontrei, de imediato, o <em>Romance d’'A Pedra do Reino e do Pr&iacute;ncipe do Sangue do Vai-e-volta.</em> Eu n&atilde;o lembrava o que ele havia escrito na dedicat&oacute;ria. Fazia quase dez anos e o mundo era outro. O meu mundo tamb&eacute;m j&aacute; n&atilde;o era o mesmo daquele dia de julho. Conseguir ingressos para a disputada Mesa 17 da FLIP de 2005 n&atilde;o foi tarefa f&aacute;cil, tentamos na internet quase que uma centena de vezes. Por fim, h&aacute; poucos minutos antes da Mesa, compramos os ingressos nas m&atilde;os uma senhora que havia desistido da festa. &Agrave;s 11:45, pouquinho antes da hora do almo&ccedil;o, Ariano come&ccedil;ou sua aula-espet&aacute;culo. Foi recebido de p&eacute; por um p&uacute;blico de 750 pessoas, das quais eu e minha m&atilde;e, fanaticamente, faz&iacute;amos parte. L&aacute; fora, de frente a um tel&atilde;o montado pr&oacute;ximo a Pra&ccedil;a da Matriz outras mil pessoas assistiam &agrave; transmiss&atilde;o, rodeada por um bocado de pessoas que n&atilde;o conseguiram ingressos e se amontoavam ao redor da tenda buscando ao menos ouvir um pouquinho daquele discurso emocionante. Ariano foi ovacionado do come&ccedil;o ao fim. Dentro da tenda, risos, gargalhadas e l&aacute;grimas se misturavam ao som de sua voz rouca. Ele contou anedotas, hist&oacute;rias improvisadas da sua vida e prestou uma homenagem a Miguel de Cervantes e seu her&oacute;i Dom Quixote. Ao final da aula-espet&aacute;culo, aplaudido de p&eacute;, Ariano acatou nosso pedido de bis e presenteou a todos com mais meia hora de uma prosa deliciosa. Novas gargalhas. Novas l&aacute;grimas. J&aacute; passava da hora do almo&ccedil;o, meu est&ocirc;mago roncava, mas n&oacute;s na plateia est&aacute;vamos inquietos por aquela sagacidade t&atilde;o espirituosa. Da fome no est&ocirc;mago, me lembrava pouco. Quando deixei a Tenda dos Autores, a fila para a mesa de aut&oacute;grafos j&aacute; quase alcan&ccedil;ava a ponte sobre o Rio Perequ&ecirc;-A&ccedil;u. Entrei no fim da fila desejando uma dedicat&oacute;ria no lugar do almo&ccedil;o. Ariano passou cerca de duas horas autografando seus livros. Fez uma pequena pausa para um copo de suco com tr&ecirc;s biscoitinhos. E apesar de visivelmente abatido pela fome e cansa&ccedil;o, estava en&eacute;rgico e feliz com o tamanho da fila. Ariano n&atilde;o assinava apenas o nome na contra capa dos livros. Proseava um pouco e escrevia completas dedicat&oacute;rias a cada um de seus leitores que esperavam pelo carinho na fila de aut&oacute;grafos. A fila mal andava quando um membro da organiza&ccedil;&atilde;o da FLIP pediu a todos que estivessem fora do alcance dos olhos de Ariano, fossem aos poucos abandonando o sagu&atilde;o de aut&oacute;grafos. “<em>Ele est&aacute; sem almo&ccedil;o. Tomou um lanche, mas estamos preocupados porque tem 78 anos e j&aacute; mostrou alguns sinais de franqueza</em>.<em> Mas Ariano se nega a sair da mesa de aut&oacute;grafos at&eacute; que o &uacute;ltimo leitor tenha seu livro assinado.</em>” A fila foi se desfazendo discretamente e um c&iacute;rculo de f&atilde;s se formou pr&oacute;ximo a sa&iacute;da do sagu&atilde;o. Ariano n&atilde;o percebeu a arma&ccedil;&atilde;o e depois de alguns aut&oacute;grafos se deu por satisfeito da miss&atilde;o cumprida. Eu que estava sem aut&oacute;grafo e sem almo&ccedil;o me senti cheia de uma estranha realiza&ccedil;&atilde;o traquina e um pouquinho vil. A de uma trapa&ccedil;a eficazmente conclu&iacute;da. Era mais uma dessas mentiras gostosas da vida que a gente conta a uma pessoa querida para poup&aacute;-la de uma verdade desnecess&aacute;ria. O mundo est&aacute; cheio de verdades desnecess&aacute;rias. Eu deixava o sagu&atilde;o, cheia dessa estranha satisfa&ccedil;&atilde;o, quando uma amiga veio ao meu encontro com o exemplar do Romance da Pedra do Reino. Ela havia contado de mim para Ariano e do meu sonho em me tornar uma romancista. Quase dez anos depois desta dedicat&oacute;ria surpresa, releio e pouco reconhe&ccedil;o meu sonho escrito e dedicado por um escritor famoso a uma Mariana que ele nunca viu. Eu me pergunto em que dia, desses quase dez anos, Dom Quixote e meus sonhos sumiram no mundo imagin&aacute;rio por n&atilde;o aguentar tamanha chatice de realidade. N&atilde;o sei nem para onde foram as justificativas de um sonho ausente. Talvez porque ultimamente tenho lido pouco. Tenho visto mais da vida na arte, do que a arte da vida. Talvez porque algu&eacute;m t&atilde;o real, como estou ultimamente, j&aacute; nem mere&ccedil;a mais o desejo de sonhar ser escritora e por isso eu o havia esquecido. Eu espero que esta dedicat&oacute;ria me traga de volta Dom Quixote, seus sonhos ing&ecirc;nuos e pouco reais e a pessoa que eu era quando ouvi Ariano pela primeira vez.</div> <div><a href="https://www.youtube.com/watch?v=tdtRZwrUHvQ">Assista um trechinho da aula espet&aacute;culo de Suassuna, na Flip de 2005 </a></div>
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Sobre o autor

Mariana Luiza

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