Tirando a poeira dos porões
21/03/2019 | 17h03
<div><tinymce class="clickTinyMCE" title="{'nm_midia_inter_thumb1':'http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2019/03/21/170x96/1_12710932_10156518352135321_3517519671709961422_o-1316267.jpg', 'id_midia_tipo':'2', 'id_tetag_galer':'', 'id_midia':'5c93e95f3d2cf', 'cd_midia':1316273, 'ds_midia_link': 'http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2019/03/21/487x377/1_12710932_10156518352135321_3517519671709961422_o-1316267.jpg', 'ds_midia': '', 'ds_midia_credi': '', 'ds_midia_titlo': '', 'cd_tetag': '1', 'cd_midia_w': '487', 'cd_midia_h': '376', 'align': 'Left'}"><figure class="Left" style="width:487px;height:376px;"> <img src="http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2019/03/21/487x377/1_12710932_10156518352135321_3517519671709961422_o-1316267.jpg" alt="" width="487" height="376"> <figcaption> </figcaption> </figure></tinymce>Eu me chamo Mariana Luiza por escolha de minha m&atilde;e. Luiza com Z, &ldquo;Igual a m&uacute;sica do Tom&rdquo; dizia ela. Foi ela quem me ensinou a gostar do maestro, e de Chico, de Milton, de Clara, Paulinho e tantos outros. Mas desde pequena, desde muito pequena, nenhuma m&uacute;sica me causa mais arrepio do que um samba enredo. Minha av&oacute; Diva, a m&atilde;e de minha m&atilde;e, foi quem me apresentou o carnaval com suas baterias pujantes. Era ao lado dela e escondida dos meus pais, que eu acompanhava os desfiles madrugada adentro na pequena televis&atilde;o do seu quarto. Uma aventura pueril algumas vezes rodeada de doces que eu s&oacute; encontrava nos saquinhos de Cosme e Dami&atilde;o. Minha av&oacute; era uma senhora de pequenas atitudes transgressoras. Cheirava rap&eacute;, escrevia e postava cartas para o Jaspion e deixava os netos passar madrugadas em claro assistindo TV. Tudo isso longe dos olhos e da fiscaliza&ccedil;&atilde;o dos meus pais. Um convite de Diva para assistir &agrave;s duas noites de desfile do grupo especial do carnaval do Rio de Janeiro, soava para mim como uma esp&eacute;cie de contraven&ccedil;&atilde;o.</div> <div>Na minha casa, sempre se falou sobre tudo. Principalmente durante os intervalos do Jornal Nacional. Era entre uma mat&eacute;ria e outra que eu sabia a opini&atilde;o dos meus pais sobre a infla&ccedil;&atilde;o, o governo, o pre&ccedil;o da gasolina e atua&ccedil;&atilde;o da Gl&oacute;ria Pires na novela.</div> <div>Nem meu pai, nem me minha m&atilde;e, falavam abertamente sobre ser contra o carnaval. A condena&ccedil;&atilde;o da festa pag&atilde; morava nos longos sil&ecirc;ncios que sucediam as reportagens jornal&iacute;sticas que mostravam os barrac&otilde;es das escolas. A aus&ecirc;ncia de conversa a cada mat&eacute;ria sobre o carnaval dizia muito mais do que as curtas frases de efeito proferidas por meu pai associando subdesenvolvimento do Brasil a aliena&ccedil;&atilde;o momesca. Meu pai ainda costumava censurar com veem&ecirc;ncia a improdutividade dos dias de folga que diminu&iacute;a ainda mais um m&ecirc;s originalmente curto para seus neg&oacute;cios. &ldquo;Fevereiro &eacute; o terror do comerciante&rdquo;.</div> <div>Passados quase trinta anos, n&atilde;o sei se por respeito, ou por um resqu&iacute;cio de culpa crist&atilde;, n&atilde;o costumo conversar com meu pai sobre minhas incurs&otilde;es pelos blocos de rua. O assunto carnaval &eacute;, assim como na minha inf&acirc;ncia, tratado ainda com bom e costumaz sil&ecirc;ncio mineiro. Mas o fato &eacute; que por responsabilidade da minha av&oacute; materna, tornei-me uma devota de Momo.</div> <div>Por&eacute;m, h&aacute; mais de um ano, ando imbu&iacute;da por uma fiel letargia. Um cansa&ccedil;o inabal&aacute;vel, que se manteve incurado mesmo ap&oacute;s uma semana de completo &oacute;cio nas &aacute;guas da Bahia. Eu passei janeiro e fevereiro acreditando que minha in&eacute;rcia teria fim com a proximidade do carnaval. Mas meu desinteresse era tamanho que s&oacute; no domingo, &agrave;s 7 da manh&atilde;, quando amigos me ligavam para o cortejo do Boitat&aacute;, eu me dei conta de que o carnaval havia chegado enquanto eu abandonara minhas fantasias imagin&aacute;rias e materiais. Forcei-me a vencer o des&acirc;nimo inventando personagens a poucos dias que antecediam a festa. Fui a alguns blocos, encontrei amigos, mas eu sentia que ainda n&atilde;o havia vivenciado minha a apoteose carnavalesca de 2019. Foi quando, na segunda-feira de carnaval, depois de me arrastar pelo rio de esgoto e sujeira que o dil&uacute;vio de ver&atilde;o transformou o bairro de Botafogo, me senti intimada a assistir ao desfile da Mangueira. Eu havia escutado alguns trechos do samba, mas meu cansa&ccedil;o eterno me impedira de ouvir o samba completo. Logo eu, neta de dona Diva.</div> <div>Compramos ingressos em cima da hora pelas m&atilde;os de cambistas afoitos. Acredit&aacute;vamos seguir para o setor 10, quando na verdade hav&iacute;amos adquirido ingressos para o &uacute;ltimo setor. O recuado 13. A arquibancada popular. &Uacute;nico setor privado de assistir a totalidade da escola na passarela. O lugar onde o desfile chega de surpresa, depois de quase 40 minutos, e no seu mal chegar j&aacute; se aligeira, muitas vezes com pressa do cron&ocirc;metro e fechamento dos port&otilde;es. O lugar onde vemos o dispersar dos foli&otilde;es e dos carros aleg&oacute;ricos. A despedida. O fim do carnaval. E era, no in&iacute;cio do fim, onde aguard&aacute;vamos a minha apoteose.</div> <div>J&aacute; passava das 3 da manh&atilde; quando a Mangueira iniciou seu desfile. A escola ainda demoraria uns trinta minutos at&eacute; a chegada dos primeiros membros da diretoria. A n&oacute;s, reles pagantes de ingressos populares, restava apenas o som do samba ecoado pelas caixas. Alguns turistas estrangeiros descansavam sentados a espera da chegada da comiss&atilde;o de frente. Outros tiravam uma soneca. Mas na minha frente, uma fam&iacute;lia negra, composta por uma m&atilde;e, um filho adolescente e duas meninas entre seus 8 e 10 anos cantavam o samba de cor enquanto eu e meus amigos l&iacute;amos as partes mais dif&iacute;ceis n&atilde;o decoradas. Mesmo sem ver nada do desfile, a menina mais nova erguia os bra&ccedil;os quando o samba falava de um Brasil real e poss&iacute;vel n&atilde;o contado pelos livros de Hist&oacute;ria. Enquanto eu me debulhava em l&aacute;grimas.</div> <div><tinymce class="clickTinyMCE" title="{'nm_midia_inter_thumb1':'http://www.folha1.com.br/_midias/png/2019/03/21/170x96/1_carnaval-1316304.png', 'id_midia_tipo':'2', 'id_tetag_galer':'', 'id_midia':'5c93ecd71b4ad', 'cd_midia':1316309, 'ds_midia_link': 'http://www.folha1.com.br/_midias/png/2019/03/21/487x377/1_carnaval-1316304.png', 'ds_midia': '', 'ds_midia_credi': '', 'ds_midia_titlo': '', 'cd_tetag': '1', 'cd_midia_w': '487', 'cd_midia_h': '376', 'align': 'Left'}"><figure class="Left" style="width:487px;height:376px;"> <img src="http://www.folha1.com.br/_midias/png/2019/03/21/487x377/1_carnaval-1316304.png" alt="" width="487" height="376"> <figcaption> </figcaption> </figure></tinymce>Mil novecentos e noventa e poucos. Eu tinha um pouco mais do que a idade da menina, era aula de hist&oacute;ria do Brasil. Meu professor justificava a escravid&atilde;o dos africanos como uma forma de compensar a pregui&ccedil;a e indol&ecirc;ncia dos ind&iacute;genas. Eu, uma dos poucos estudantes negros, - 2 numa turma de 34 - me senti extremamente envergonhada ao aprender que &eacute;ramos feitos para o trabalho, para a for&ccedil;a e para a servid&atilde;o sem contesta&ccedil;&atilde;o ou resist&ecirc;ncia. A falsa subservi&ecirc;ncia a qual os escravizados eram retratados se comparara a minha letargia atual em assistir, de camarote do conforto da timeline do meu Facebook, as publica&ccedil;&otilde;es indignadas de amigos contra esse desgoverno que reverencia torturadores, saqueia terras ind&iacute;genas, libera armas para a popula&ccedil;&atilde;o e envenena nossos alimentos.</div> <div>A HIST&Oacute;RIA PARA NINAR GENTE GRANDE passou como um rolo compressor por cima de toda minha letargia e exaust&atilde;o. O samba da Mangueira, j&aacute; t&atilde;o debatido pela imprensa, atravessou a avenida devagar, sem pressa, como se quisesse me ensinar aquilo que eu me negava a entender. N&atilde;o que eu ignorasse Luiz Gama, os caboclos de Julho ou o Drag&atilde;o do Mar. N&atilde;o que eu n&atilde;o soubesse quem foi Mahin e os Mal&ecirc;s. Embora aprendesse tardiamente, eu conhecia suas hist&oacute;rias, mas desde outubro de 2018, havia me esquecido que &eacute; na luta que a gente se encontra e que a alegria &eacute; a arma mais poderosa para vencer a onda de &oacute;dio, ignor&acirc;ncia e retrocesso.</div> <div>H&aacute; um ano, a senhora vereadora Rute Costa, apresentou um projeto de lei a c&acirc;mara dos vereadores de S&atilde;o Paulo &ndash; a ser votado ontem - que visava proibir que crian&ccedil;as e adolescentes participem do desfile das escolas de samba do munic&iacute;pio. Tal qual as leis que criminalizaram o samba e a capoeira no passado e que tentaram fazer o mesmo com funk recentemente, o projeto &eacute; mais uma tentativa de calar a voz do morro. De apagar as express&otilde;es culturais que escrevem na Hist&oacute;ria a Hist&oacute;ria de um povo.</div> <div>Eu, ao contr&aacute;rio da menininha de 8 anos que sambou alegremente todo o desfile da escola, chorei o tempo perdido da minha cria&ccedil;&atilde;o n&atilde;o racializada. Eu demorei para entender quem eu era. Assim como minha m&atilde;e, assim como minha av&oacute; Diva &ndash; que viveu uma vida embranquecida de costumes e cultura e morreu sem conhecer seu passado. Se eu, quando crian&ccedil;a soubesse quem de fato sou, ensinaria a meu professor que desde o primeiro navio negreiro aportou nestas terras que pisamos, h&aacute; resist&ecirc;ncia e quilombos. Passaria o desfile da Mangueira sambando alegre como fez a pequena. E escutaria de minha m&atilde;e, que meu nome &eacute; Luiza com Z. Tal qual Luiza Mahin.</div>
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Sobre o autor

Mariana Luiza

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