Purgatório
04/03/2013 | 12h45
<div><tinymce class="clickTinyMCE" title="{'nm_midia_inter_thumb1':'http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2017/12/19/170x96/1_doenca_300x248-929185.jpg', 'id_midia_tipo':'2', 'id_tetag_galer':'', 'id_midia':'5a397f38e35bd', 'cd_midia':929185, 'ds_midia_link': 'http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2017/12/19/doenca_300x248-929185.jpg', 'ds_midia': '', 'ds_midia_credi': '', 'ds_midia_titlo': '', 'cd_tetag': '1', 'cd_midia_w': '300', 'cd_midia_h': '248', 'align': 'Left'}"><figure class="Left" style="width:300px;height:248px;"> <img src="http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2017/12/19/doenca_300x248-929185.jpg" alt="" width="300" height="248"> <figcaption> </figcaption> </figure></tinymce>Minha av&oacute;, de 94 anos, quebrou o f&ecirc;mur no dia 8 de mar&ccedil;o. Ela foi levada de ambul&acirc;ncia para o hospital municipal naquela tarde. N&atilde;o havia leitos na enfermaria e tivemos que passar a primeira noite no corredor. Na maca &agrave; nossa esquerda, um traficante, baleado num confronto com a pol&iacute;cia, aguardava a remo&ccedil;&atilde;o de quatro balas alojadas no bra&ccedil;o direito. Durante a madrugada, ele tentou fugir passando por n&oacute;s nas pontas dos p&eacute;s. Com um sorriso maroto no canto da boca e um olhar arregalado de amea&ccedil;a &agrave;queles que como eu, assistia a sua fuga silenciosa. Ele n&atilde;o foi muito longe. Um policial o aguardava na frente do hospital. O traficante foi algemado &agrave; maca e passou resto da noite choramingando clem&ecirc;ncia a Deus. &Agrave; nossa direita, um homem na casa dos 40 anos, aguardava h&aacute; duas semanas uma cirurgia na clav&iacute;cula quebrada decorrente de um tombo de cavalo. Ele era pe&atilde;o h&aacute; mais de 20 anos e nunca havia ca&iacute;do. No mesmo corredor, h&aacute; poucos metros da gente, uma mulher en&eacute;rgica, gritava ao telefone com o suposto ex-namorado. Ela tinha um corte na barriga oriundo de uma facada. Dizia que o odiava com todas as for&ccedil;as e fazia promessas de vingan&ccedil;a assim que sa&iacute;sse daquele hospital. Ela gritava que faria um servi&ccedil;o t&atilde;o bem feito, que ele nem teria chances de recupera&ccedil;&atilde;o. Vingar-se dele era a &uacute;nica e a &uacute;ltima coisa que ela faria em vida. Disse isso umas cinco ou seis vezes naquela liga&ccedil;&atilde;o e passou o resto da noite ligando e atendendo telefonemas do rapaz. Dias depois, o suposto ex-namorado foi visit&aacute;-la. Ele passou uma noite dormindo com ela no corredor e ouvindo os gritos de dor de todos os outros pacientes ali internados. Fizeram as pazes e promessas de casamento. O traficante, de apelido&nbsp;L&eacute;o, comentava os jogos de futebol com a galera, chamava a minha av&oacute; de "“vov&oacute;"” e se preocupava em saber se ela e os demais pacientes tinham se alimentado direito. Um de seus mais novos amigos, era um senhor que assim como minha av&oacute;, havia quebrado o f&ecirc;mur. Ele tinha 70 anos. Gostava dos cl&aacute;ssicos de Hollywood. Era f&atilde; de Rita Hayworth e fazia juras de amor di&aacute;rias a sua esposa que raramente aparecia para uma visita. O velho me contou que quebrou o f&ecirc;mur enquanto fazia palavras cruzadas e bebia uma cervejinha. Depois, confessou que estava no hospital para pagar os pecados da vida. N&oacute;s convers&aacute;vamos sobre filmes todos os dias. Ele tinha uma cole&ccedil;&atilde;o de biografias de atrizes e atores da d&eacute;cada de 40, 50 e 60. Um dia, numa das raras visitas de sua esposa ao hospital, ela me revelou&nbsp;que o marido estava b&ecirc;bado quando caiu e quebrou o f&ecirc;mur e que quando bebia ele era muito violento. Numa maca distante da nossa, uma senhora proclamava a frase “<em>em nome de Jesus</em>” como uma esp&eacute;cie de finaliza&ccedil;&atilde;o para cada senten&ccedil;a que dizia. Ela parecia n&atilde;o conhecer o sil&ecirc;ncio. Falava dia e noite. Falava at&eacute; mesmo enquanto dormia. Quando n&atilde;o xingava, dava ordens ao marido. Ao seu lado, resignado numa cadeira de praia&nbsp;sem nenhum conforto, ele permanecia, dia e noite,&nbsp;ouvindo calado as lam&uacute;rias e&nbsp;xingamentos sempre&nbsp;acompanhados da express&atilde;o profana. Dias depois, aquela senhora&nbsp;foi para o CIT. Uma parente que veio visit&aacute;-la nos contou que ela havia perdido um filho, e que depois da morte do rapaz e viveu a vida reclusa num sil&ecirc;ncio profundo sendo mal tratada pela dor da aus&ecirc;ncia e pelas viol&ecirc;ncias psicol&oacute;gicas proferidas pelo&nbsp;marido. At&eacute; sofrer um derrame e ser internada no hospital...</div> <div>Antes da alta da minha av&oacute;, um caminhoneiro pernambucano de sotaque forte, sofreu um acidente chegando &agrave; Maca&eacute;. Ele quebrou v&aacute;rios ossos em quase todas as partes do corpo. A esposa&nbsp;apareceu tr&ecirc;s dias depois. Ele a tratava com muita rispidez e ela ao contr&aacute;rio lhe cercava de carinhos. N&atilde;o tive tempo de conhecer o passado daquele casal, nem de outros tantos pacientes com hist&oacute;rias t&atilde;o curiosas que passaram por ali ao longo dos 18 dias que &nbsp;acompanhei minha av&oacute; internada. Foram 18 dias testemunhando ang&uacute;stias e dores alheias. Ateus reconhecem a f&eacute; num Deus inexistente. Crist&atilde;os usando Jesus como suporte para ofensas. Em um hospital, somos todos contradit&oacute;rios e densamente misericordiosos. Doentes e acompanhantes portadores de dor e culpa.</div> <div>Triste ser no sofrimento e n&atilde;o na alegria o lugar em que todas pessoas&nbsp;buscam a reden&ccedil;&atilde;o.</div>
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Sobre o autor

Mariana Luiza

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