Purgatório
04/03/2013 | 12h45
Minha avó, de 94 anos, quebrou o fêmur no dia 8 de março. Ela foi levada de ambulância para o hospital municipal naquela tarde. Não havia leitos na enfermaria e tivemos que passar a primeira noite no corredor. Na maca à nossa esquerda, um traficante, baleado num confronto com a polícia, aguardava a remoção de quatro balas alojadas no braço direito. Durante a madrugada, ele tentou fugir passando por nós nas pontas dos pés. Com um sorriso maroto no canto da boca e um olhar arregalado de ameaça àqueles que como eu, assistia a sua fuga silenciosa. Ele não foi muito longe. Um policial o aguardava na frente do hospital. O traficante foi algemado à maca e passou resto da noite choramingando clemência a Deus. À nossa direita, um homem na casa dos 40 anos, aguardava há duas semanas uma cirurgia na clavícula quebrada decorrente de um tombo de cavalo. Ele era peão há mais de 20 anos e nunca havia caído. No mesmo corredor, há poucos metros da gente, uma mulher enérgica, gritava ao telefone com o suposto ex-namorado. Ela tinha um corte na barriga oriundo de uma facada. Dizia que o odiava com todas as forças e fazia promessas de vingança assim que saísse daquele hospital. Ela gritava que faria um serviço tão bem feito, que ele nem teria chances de recuperação. Vingar-se dele era a única e a última coisa que ela faria em vida. Disse isso umas cinco ou seis vezes naquela ligação e passou o resto da noite ligando e atendendo telefonemas do rapaz. Dias depois, o suposto ex-namorado foi visitá-la. Ele passou uma noite dormindo com ela no corredor e ouvindo os gritos de dor de todos os outros pacientes ali internados. Fizeram as pazes e promessas de casamento. O traficante, de apelido Léo, comentava os jogos de futebol com a galera, chamava a minha avó de “vovó” e se preocupava em saber se ela e os demais pacientes tinham se alimentado direito. Um de seus mais novos amigos, era um senhor que assim como minha avó, havia quebrado o fêmur. Ele tinha 70 anos. Gostava dos clássicos de Hollywood. Era fã de Rita Hayworth e fazia juras de amor diárias a sua esposa que raramente aparecia para uma visita. O velho me contou que quebrou o fêmur enquanto fazia palavras cruzadas e bebia uma cervejinha. Depois, confessou que estava no hospital para pagar os pecados da vida. Nós conversávamos sobre filmes todos os dias. Ele tinha uma coleção de biografias de atrizes e atores da década de 40, 50 e 60. Um dia, numa das raras visitas de sua esposa ao hospital, ela me revelou que o marido estava bêbado quando caiu e quebrou o fêmur e que quando bebia ele era muito violento. Numa maca distante da nossa, uma senhora proclamava a frase “em nome de Jesus” como uma espécie de finalização para cada sentença que dizia. Ela parecia não conhecer o silêncio. Falava dia e noite. Falava até mesmo enquanto dormia. Quando não dava ordens, brigava com o marido, que passava os dias e noites ao seu lado, resignado numa cadeira de praia ao lado da maca. Até os xingamentos que ela dirigia a ele vinham acompanhados da expressão profana. E o marido nada dizia, e obedecendo à todas as ordens com muito afeto e resiliência. Dias depois dona Maria foi para o CIT. Uma parente que veio visitá-la nos contou que ela havia perdido um filho, e que depois da morte do rapaz e viveu a vida reclusa num silêncio profundo sendo mal tratada pela dor da ausência do filho e pelas violências psicológicas proferidas pelo marido. Até sofrer um derrame e ser internada no hospital...
Antes da alta da minha avó, um caminhoneiro nordestino de sotaque forte, sofreu um acidente chegando à Macaé. Ele quebrou vários ossos e quase todas as partes do corpo. A mulher apareceu dois dias depois. Ele a tratava com muita rispidez e ela ao contrário lhe cercava de carinhos. Não tive tempo de conhecer o passado daquele casal, nem de outros tantos pacientes com histórias tão curiosas que passaram por ali ao longo dos 18 dias que minha avó ficou internada. Mas entendi que não há lugar mais democrático do que um hospital público. Somos todos iguais na doença. Bandidos se tornam mocinhos. Ateus reconhecem a fé num Deus inexistente. Não há passado que justifique este lugar nem a dor sofrida. Não interessa como foi a vida daquela pessoa. O que ela fez, no que ela acredita. Em um hospital, somos todos merecedores de misericórdia. E os que acompanham trazem consigo a culpa dos malfeitos ao doente. Triste ser no sofrimento e não na alegria o lugar em que todas pessoas se tornam iguais.
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Sobre o autor

Mariana Luiza

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