Surpreendida pelo presente
05/03/2012 | 23h17
MoMa, Queens - NYC
MoMa, Queens - NYC
Das últimas vezes em que eu fui ao cinema vivenciei uma sensação cada vez mais rara nos dias de hoje. A do ineditismo. Fala-se tanto, sobre tantas coisas e o tempo todo, que ultimamente é difícil ser surpreendido por algo ainda não visto ou vivido. Eu acho até que a sensação da surpresa é por muitas vezes desprezada ou esquecida. Quando o assunto é filme em cartaz, por exemplo, não faltam fontes de informação: muitos trailers antecipam a história, ao invés de instigar a curiosidade do espectador para assistir àquela obra. Programas de entretenimento entrevistam atores, mostram cenas do making of e os trechos mais marcantes da película. Entrar no cinema sem fazer ideia do que irá assistir é praticamente impossível. E, obviamente, indesejável. Ninguém sai de casa para ir ao cinema sem saber o mínimo sobre o filme. Óbvio, né? Nem tanto. Ultimamente, eu tenho trabalhado tanto, e tão mecanicamente, que me sinto uma completa alienada no que diz respeito a cinema e cultura. Cada vez menos tenho acompanhado as notícias e trailers sobre os filmes que irão estrear. Mas não perco a vontade da sala escura e da tela grande. Desde o início do ano que eu andava louca para ver A Pele que Habito, de Almodóvar. Já tinha lido a crítica do bonequinho, assistido a uma entrevista com o Banderas e passei o olho na sinopse do jornal, antes de sair de casa. Porém, quando chegamos ao cinema, eu e uma amiga, descobrimos que não havia mais ingressos para o filme espanhol. Foi aí que optamos, meio que de supetão, assistir ao único filme que passava no mesmo horário: Precisamos Falar Sobre Kevin. O nome não me era estranho, sabia que eu já tinha lido, ouvido, ou visto algo a respeito, mas não me lembrava o quê. Entrei na sala de exibição sem sequer ter lido a sinopse. Não sabia se era um drama, uma comédia, um filme alemão ou americano. Não sabia quem eram os atores, diretor, se havia sido premiado em algum festival. Quando o filme acabou, lembrei-me de onde ouvira falar daquela história. O escritor do romance que originou o livro esteve no Brasil, se não me engano na Flip. Acho até que tenho outro livro dele autografado. Mas nos momentos que precederam o filme, e durante toda quase uma hora e meia de exibição, eu era uma completa ignorante sobre a história da relação conturbada entre uma mãe frustrada que levou uma gravidez indesejada adiante, e o filho rejeitado, que arruinou a vida de toda uma família. Saí do filme pasmada. Pensando nas palavras que deveriam ter sido ditas, nas conversas de família que não aconteceram. No silêncio e na mudez que abalou toda uma história. Fiquei pensando no filme e na experiência de assistir a um filme sem ter ouvido nada sobre ele. Pensando em como se fala muito, mas não se fala o necessário. Depois daquela noite, eu e minha amiga fomos juntas ao cinema mais umas três vezes. Sempre adotando a tática de não saber o que iríamos assistir. Claro que esta experiência só poderia durar por um curto pedaço de tempo. Afinal, em cada sessão, éramos expostas aos trailers dos filmes a estrear. O ineditismo desejado estava com os dias contados. Mas ainda assim, conseguimos manter a façanha da ignorância por mais algumas películas. Naquela semana, assistimos A invenção de Hugo Cabret, Os Descendentes e o Artista. Sobre o filme de Scorsese só sabia que se trava de um filme de Scorsese. Sobre os Descendentes, apenas que George Clooney concorria ao Oscar pelo papel principal. E sobre o Artista, que era o filme mudo e em preto e branco indicado a várias categorias. Nada além disso. A mudez de O Artista me era tão instigante quando a falta de palavras e informações sobre os filmes que estávamos assistindo. Confesso que tive o medo comum de ficar entediada com um filme branco e preto e sem diálogos. Não sabia sobre o que era a história, sobre o porquê do filme mudo e sem cor. E mais uma vez fui surpreendida, não só pela surpresa e falta de expectativa, mas pela escassez de diálogos, diálogos mudos, claro, cujo o som não fizeram a mínima falta. Depois de O Artista não consegui mais voltar ao cinema sem saber a história que iria assistir. Já havia visto o trailer de tudo que se passava na telona... Mas toda esta experiência de ignorância voluntária, baixa expectativa, ausência de palavras e a surpresa do silêncio me fez pensar em como é maravilhoso ignorar um conhecimento antecipado e se permitir a surpresa. Na hora certa.  
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Sobre o autor

Mariana Luiza

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