A beleza, as cerejeiras e a eternidade
08/10/2012 | 12h58
Brooklyn Botanical Garden
Brooklyn Botanical Garden
Entre os meses de Abril e Maio, acontece, no Jardim Botânico do Brooklyn, o Festival da Cherry Blossom. O chamado desabrochar das cerejeiras. O site do jardim botânico tem uma página todinha dedicada a esta semana. Na página, um mapa de todas as árvores de cereja espalhadas pelo parque e a atualização sobre o desenvolvimento do desabrochar de cada uma delas. Assim, fica fácil saber a semana exata em que as flores irão abrir e o festival acontecer. Cada ano é uma data diferente determinada pelas chuvas da primavera. Quando mais tarde o temporal, mais tarde o florecer. Foi difícil escolher as melhores fotos do festival de 2009, o ano em que visitei a festa. Mais difícil ainda é escrever sobre a beleza do lugar mais lindo que já fui na vida.
Brooklyn Botanical Garden
Brooklyn Botanical Garden
Escrever sobre a beleza é mais custoso do que escrever sobre o amor. Para o amor não sinônimos. Não há explicação, não há como defini-lo racionalmente. Mas também não há quem não o reconheça, quem não o valorize.
A beleza é diferente. Primeiro, porque diferente do amor, há inúmeros sinônimos para o que é belo. A beleza por si só, é relativa e plural, embora a publicidade, o cinema e as novelas tentem fazer dela uma verdade universal.
Independente do relativo conceito do que é belo ou não. Há ainda aqueles que criticam a beleza. Que defendem a importância da inteligência, da tecnologia, da bondade e outros valores em detrimento do que é belo. Como se para ser inteligente é preciso ser feio, ou vice-versa. Para mim,  a beleza é o que salva a vida. É o que dá sentido ao que não tem sentido. E por isso, me é tão difícil escrever sobre. 
O Cherry Blossom tem um significado muito especial para mim. Quando me mudei para NY era verão, passados dois meses do florescer das cerejeiras. No apartamento onde morava, havia um mural em que todos nós pregávamos avisos, receitas de comidas e fotos dos moradores que um dia ali residiram ou ainda vivem. As primeiras fotos que vi sobre a cidade, assim que cheguei ao apartamento, foram do festival daquele ano. Chegara em julho e voltaria para casa em setembro do mesmo ano. Apenas dois meses na cidade que se apresentava para mim de uma forma ainda não conhecida. Já chegara a NYC saturada de NYC. Como todas as pessoas que visitam ou se mudam para a Big Apple, eu já tinha visto tanto todos aqueles monumentos arquitetônicos: a estátua da liberdade, Coney Island, o Chrysler, Empire State, Times Square. Já tinha passeado no Central Park infinitas vezes, mesmo sem nunca ter pisado naquela região. A cidade mais retratada no cinema e no imaginário coletivo do povo ocidental, talvez, de todo globo terrestre, se apresentava a mim de uma forma que eu ainda não tinha experimentado. E não experimentaria. No dia seguinte, fui até o Brooklyn Botanical Garden. Passeei pelo corredor de cerejeiras verdinhas. Sem nenhuma flor e me prometi, diante daquelas árvores, que algum dia, eu voltaria  para ver as flores de perto. Mesmo sem saber, eu que também já fui crítica da beleza e de sua importância para o mundo, desejava ardentemente ser salva pela beleza daquele desabrochar. A promessa se cumpriu mais rapidamente do que o esperado. Em dezembro do mesmo ano lá estava eu, de volta a NY, com o objetivo de estudar por um semestre. 
Brooklyn Botanical Garden
Brooklyn Botanical Garden
O Cherry Blossom não fora o motivo principal do meu retorno, mas foi sem dúvida, a razão pela qual eu resisti a um inverno tão sofrível. Todas as vezes que pensei em voltar para casa (foram muitas) por causa do vento frio, da falta de calor humano, da tristeza e solidão que é NY no inverno, eu sempre pensava "Se eu voltar, não vou ver o Cherry Blossom". Então eu decidia aguentar por mais um dia, por mais uma semana... A espera pela floração se resumia a minha espera pela felicidade, pela beleza. Pela fugacidade de tudo que é bom e dura pouco.  
Cherry Blossom
Cherry Blossom
As flores da cerejeira só abrem uma vez por ano. E perduram menos de uma semana. Primeiro dos galhos secos brotam pequenos botões de um rosa bem escuro anunciando que o inverno já se despede e a primavera vem nos recompensar do sofrimento. Depois, os botões rosa escuro se abrem e as flores nascem. De um dia para o outro elas brotam com uma rapidez inexplicável. E o parque se enche de pessoas que vêm apreciar. As flores são muito delicadas, formadas por várias pequenas pétalas de um rosa bem clarinho... O vento sacode os galhos, as pétalas caem como chuva. E formam um tapete rosa sobre a grama ou o chão de cimento. Uma semana depois, tudo que o vento não foi capaz de derrubar, seca e cai. As árvores são agora apenas folhas. Como qualquer outra árvore do parque. Todas as pessoas que visitam o Botanical Garden depois do festival trazem consigo uma nostalgia, uma melancolia, saudades do tempo da primavera. Uma saudade da beleza que esperamos por quase um ano, e que só durou uma semana. Mas que valeria apena mesmo que se fosse por dia. Há pessoas que não se conformam, que acham que o belo deve durar eternamente. Assim como o amor. Eu acho que não. Tudo que é eterno não é importante. Não tem valor. Tudo que é belo precisa morrer, para conservar a beleza.
Acompanhe o desenvolvimento da Cherry: Março, Abril, Maio  
inverno (janeiro 2010)
inverno (janeiro 2010)
inverno (março 2010)
primavera (abril 2010)
primavera (abril 2010) / primavera (abril 2010)
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Sobre o autor

Mariana Luiza

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