A Felicidade é um prato que se come frio
01/04/2013 | 17h55
Há uns dias, peguei um táxi com um motorista também escritor, roteirista, cientista, judeu, ateu, que tinha recentemente escrito um roteiro de um filme de comédia e inventado uma máquina do abraço. Jácomo passou quase todo o percurso do Jardim Botânico à Tijuca narrando cenas do seu filme e me explicando sobre a sua invenção. A máquina do abraço de Jácomo é um pouco diferente das já conhecidas para tratamento de doenças como autismo. Ele me explicou sucintamente como seu equipamento está sendo testado por universidades e falou com muitos detalhes do seu relacionamento com o filho, denominado por ele “como um menino especial”. O menino especial, hoje, um homem feito, foi o grande inspirador de Jácomo na invenção da máquina. Falamos também sobre religião, judaísmo e antisionismo. Falamos sobre clichés e sobre como encarar o destino com coragem e aceitar dignamente o que ele nos oferece. Sem resignações, sem reclamações. Sem esperanças de milagres inventados. Falamos sobre a instantaneidade das relações, da fé, da felicidade e de como não há atualmente, nada que me irrite tanto quanto a necessidade constante da felicidade absoluta. Que coisa mais chata essa de não poder sentir uma melancolia de vez em quando... De não curtir uma tristeza num dia frio debaixo do cobertor. Não é só de sonhos, realizações e alegrias que se faz uma vida feliz. A felicidade exige tempo e um bocado de melancolia. Pelo menos, é assim que funciona pra mim e acho que pro Jácomo também. Dias depois daquela corrida de táxi passei em frente a uma igreja que vendia felicidade. Milagres em super dosagens como drogas de laboratório. Uma fé sem necessidade de processamento ou elaboração. Como diria um amigo, um Jesus de microondas. Que vem semi-pronto e só precisa de 3 minutos para mudar a sua vida. A igreja com soluções rápidas e milagrosas para todo e qualquer tipo de dor e aflição é um pouco do reflexo dos tempos aflitos e corridos que vivemos atualmente. Uma cura instantânea, para uma vida de instantes. A necessidade de se ter tudo rapidamente e com longa duração. Embora não freqüente igreja alguma, muito menos lugares como este, embora eu nem acredite em curas instantâneas ou fés inabaladas de uma vida, às vezes, por alguns instantes, eu me pego pensando na propaganda enganosa da felicidade absoluta e imediata. E esqueço do quanto é bom a melancolia e a espera.    
Comentar
Compartilhe
Sobre o autor

Mariana Luiza

[email protected]