Analogia Digital
02/07/2012 | 18h26
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Há alguns dias, fui convidada por uma amiga para ver as fotos de sua festa de aniversário. Ela fez um chá da tarde com uma mesa repleta de quitutes, sucos e doces. No canto da sala, uma televisão acoplada à câmera digital exibia mais de mil fotografias seriadas da festa, mas ninguém prestava a mínima atenção. As fotos, sempre muito semelhantes uma das outras, reproduziam uma seqüência que jamais se repetiria por mais que durasse aquele chá. A minha amiga tinha mais de 10.000 fotografias de uma só festa que durou apenas 4 horas. Ela havia juntado os cartões de memória de toda família, do fotógrafo oficial da festa e dos amigos. Por alguns instantes, tentei acompanhar a reprodução, mas uma seqüência de 10 fotografias muito parecidas, onde mudavam sutis posições de mãos, braços e piscadelas, desviou minha atenção e me fez pensar numa viagem que fiz há muitos anos. Quando ainda era adolescente. Meus pais tinham me dado um dinheiro limitado para viagem, que pelos meus cálculos me dava o direito de gastar quase que um filme de 36 poses, por dia. Eu, que tinha a ansiedade natural dos meus quinze anos e viajava para o exterior pela primeira vez, queria fotografar tudo. Patos que atravessavam as ruas, entrada do metrô cuja catraca era aberta, modelo de um carro desconhecido no Brasil. O meu impulso de fotografar toda e qualquer novidade foi contido pela limitada quantia de 36 poses quase que diárias. O que de certa forma eu considero bastante. Voltei pra casa com 32 rolos e um acordo com os meus pais para revelação: 10 rolos a cada mês. Era tanta ansiedade desde o momento em que eu deixava o rolo na reveladora até o dia seguinte quando ia buscar as fotografias. No final de 3 meses eu tinha em mãos todas as fotografias daquela viagem inesquecível. Mal saía da loja de revelação e já abria o envelope para conferir todas as poses. Olhos vermelhos, posturas mal feitas, e fotos surpreendentes, que eu nem me lembrava que havia tirado. Tudo isso fazia parte do pacote divertido, e por muitas vezes frustrantes, da revelação do filme fotográfico. As ruins joguei fora e as boas arrumei num álbum personalizado que eu mostrava orgulhosa para os amigos e parentes curiosos com a viagem. Gastei muito tempo recortando figuras e letras de revistas para decorar o álbum juntamente com as fotografias. Desde o pedreiro que mexia nos encanamentos da cozinha até os amigos dos meus pais, não houve uma alma naquela casa que passasse ilesa de ver as minhas fotografias. Há dois anos, repeti a dose nos exageros fotográficos. Numa nova viagem, de quase 40 dias, eu e uma amiga tiramos quase 3.000 fotografias. Assim que voltei, salvei as fotos em um HD externo que guardei no armário. Foi a primeira e última vez que mexi nestas fotografias. Até hoje, minha mãe não viu registro algum da minha aventura pela Itália. Eu mesma não revelei nenhuma foto, e por muitas vezes, erroneamente culpei o tempo, ou melhor, a falta dele, para rever as fotografias e selecionar o que eu gostaria de imprimir. A minha atitude em nunca ter mexido nas imagens digitais, e comportamento da minha amiga em simplesmente passar todas as fotos sem uma seleção prévia na televisão de sua casa me fez pensar em como estamos utilizando a tecnologia para o benefício de nossas vidas. A fotografia digital barateou a arte e democratizou a possibilidade de eternizar a beleza. Temos testemunhas oculares em todos os cantos do mundo, registrando o que é belo, o que é doloroso e o que é importante. Mas temos também o exagerado e ansioso registro do supérfluo. Não contesto as vantagens, nem repudio a tecnologia. O que me incomoda é como nós a utilizamos a nosso desfavor. E como ao invés de eliminar a ansiedade, apenas fazemos um rearranjo no jeito de senti-la. O imediatismo do visor da câmara digital nos suprimiu a ansiedade analógica. Aquela torturinha gostosa da espera até o fim da viagem para saber se o cabelo saiu direito, se olho não ficou vermelho ou se a pose ficou legal, foi substituída por um exagero de poses iguais e pela ansiedade e desespero de se registrar tudo o que se vê. Sem nem ao menos respirar e pensar antes no que será registrado. Entramos no mundo do automático. Literalmente. Máquinas fotográficas automáticas e pensamentos instantaneamente automáticos. Sentada à frente da televisão enquanto assistia a uma repetição infinita de fotografias senti muitas saudades da época em que esperar a revelação era a única opção que tínhamos.
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Sobre o autor

Mariana Luiza

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