Causava-lhe náuseas
28/01/2019 | 21h20
<div><tinymce class="clickTinyMCE" title="{'nm_midia_inter_thumb1':'http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2019/01/28/170x96/1_dsc04265-1272294.jpg', 'id_midia_tipo':'2', 'id_tetag_galer':'', 'id_midia':'5c4f8f24a2129', 'cd_midia':1272305, 'ds_midia_link': 'http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2019/01/28/262x377/1_dsc04265-1272294.jpg', 'ds_midia': '', 'ds_midia_credi': '', 'ds_midia_titlo': '', 'cd_tetag': '1', 'cd_midia_w': '262', 'cd_midia_h': '378', 'align': 'Left'}"><figure class="Left" style="width:262px;height:378px;"> <img src="http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2019/01/28/262x377/1_dsc04265-1272294.jpg" alt=" " width="262" height="378"> <figcaption> ML </figcaption> </figure></tinymce>Causava-lhe n&aacute;useas caminhar pelos cal&ccedil;amentos de pedras irregulares do centro hist&oacute;rico de Paraty. Nem sempre suas passadas de perna cabiam num mesmo bloco e diante de qualquer distra&ccedil;&atilde;o, ela afundava o salto da bota no encontro de areia que juntava uma pedra a outra.</div> <div>Ora compridas, ora arredondadas, as pedra eram quase que sempre escorregadias o que demandava muita aten&ccedil;&atilde;o aos que desejavam caminhar inc&oacute;lume sobre elas. Nossa protagonista era um tipo desses.</div> <div>Ela andava cuidadosamente, olhando sempre para o encontro das pedras, com medo de pisar em falso nos restos de areia trazidos pela mar&eacute; alta que invadia algumas ruas do centro hist&oacute;rico, todos os dias, sem cerim&ocirc;nia.Por todo o tempo em que ficou na cidade, carregava consigo sua c&acirc;mera Nikon e um par de lentes pesado e volumoso. Interessava-lhe a arquitetura.</div> <div>No primeiro dia, saiu bem cedo para fotografar as eiras e beiras das telhas de porcelana branca com detalhes floridos pintados &agrave; m&atilde;o com tinta azul Royal. Cruzou toda Comendador Jos&eacute; Luiz debaixo do sol quente de um dia de janeiro, mas caminhar sobre as pedras redondas olhando ao mesmo tempo para o c&eacute;u a procura dos telhados, causava-lhe n&aacute;useas e ela voltou ao hotel sem registros da arquitetura colonial.</div> <div>No dia seguinte, escolheu Da. Maria J&aacute;come de Mello desejando fotografar as min&uacute;cias das largas portas coloridas com molduras de madeira do estilo portugu&ecirc;s. Procurou pelas cortinas de renda de Bilro que enfeitavam os vidros das janelas tamb&eacute;m largas, tamb&eacute;m coloridas, tamb&eacute;m coloniais. Queria fotografar os desenhos geom&eacute;tricos em relevo que enfeitavam as fachadas das casas dos antigos ma&ccedil;ons. Mas ela estava nauseada de caminhar por ruas tortas feitas de pedras irregulares.</div> <div>Por um breve instante pensou na maravilha que seria se o cal&ccedil;amento p&eacute;-de-moleque fosse um pouco mais obediente. Mais uniforme. Mais padronizado. E enquanto caminhava de cabe&ccedil;a e olhos baixos fitando com aten&ccedil;&atilde;o o encontro das pedras ela se lembrava de uma lenda que ouvira da boca da recepcionista do hotel onde se hospedava. &ldquo;As telhas coloniais eram feitas nas coxas das escravas, por isso, n&atilde;o h&aacute; uma sequer igual a outra&rdquo;. As pedras do cal&ccedil;amento tamb&eacute;m foram moldadas pelas m&atilde;os distintas dos escravizados.</div> <div>M&atilde;os singulares. Identidades singulares sequestradas de reinos distintos e amontoadas como mercadorias feitas em s&eacute;rie nos por&otilde;es de navios negreiros. Malditas pedras irregulares que a for&ccedil;avam a olhar sempre para o ch&atilde;o. Que a impediam de contemplar para as claraboias e o peitoril do casar&atilde;o, os balc&otilde;es de ferro forjado enfeitados com pinhas e abacaxis de linhagem nobre. Malditas pedras irregulares que dificultaram seu equil&iacute;brio e levaram seu corpo sempre esguio e imponente de encontro ao ch&atilde;o. No exato momento em que ela fazia o foco da lente e se abaixava a procura do &acirc;ngulo certo para fotografar crian&ccedil;as ind&iacute;genas que entoavam c&acirc;nticos guaranis em troca de esmolas enquanto suas m&atilde;es vendiam arcos, flechas e cocares sob os olhares ex&oacute;ticos dos conterr&acirc;neos brasileiros disfar&ccedil;ados de turistas estrangeiros.</div> <div>Ainda nauseada, com dor no corpo mal acostumado a tombos e tomada por um calor infernal do ver&atilde;o tropical ela passou por uma sorveteria para comprar uma bola de chocolate belga produzida com cacau cuja proced&ecirc;ncia nem ela, muito menos o dono da loja, imaginavam origem t&atilde;o familiar. Cacau do sul da Bahia. Enquanto o atendente lhe servia uma bola, a televis&atilde;o mostrava uma entrevista antiga do presidente, quando ainda era candidato profetizando palavras de igualdade e a padroniza&ccedil;&atilde;o do ser humano. &ldquo;Gays, homens, negros, ind&iacute;genas, somos todos iguais&rdquo;.</div> <div>Distintas s&atilde;o as coxas das escravizadas e as pedras irregulares. Ora pontudas, ora arredondados, ora grandes, ora pequenas. N&atilde;o h&aacute; como caminhar sem sair ileso deste cal&ccedil;amento, deste pa&iacute;s t&atilde;o desigual e culturalmente distinto. Talvez o melhor fosse cobrir o passado colonial com o negro betume do asfalto superfaturado. Isso apagaria parte da hist&oacute;ria que muitos de n&oacute;s se recusa a ver e preservaria nossa ignor&acirc;ncia insular de ser brasileiro.</div>
Comentar
Compartilhe
Semiologia médica 5 - Doenças por uma nova ótica
27/01/2019 | 15h44
<div><tinymce class="clickTinyMCE" title="{'nm_midia_inter_thumb1':'http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2019/01/27/170x96/1_dsc_0891-1271555.jpg', 'id_midia_tipo':'2', 'id_tetag_galer':'', 'id_midia':'5c4dec08239e7', 'cd_midia':1271563, 'ds_midia_link': 'http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2019/01/27/320x285/1_dsc_0891-1271555.jpg', 'ds_midia': 'brumadinho', 'ds_midia_credi': 'ML', 'ds_midia_titlo': 'brumadinho', 'cd_tetag': '1', 'cd_midia_w': '320', 'cd_midia_h': '285', 'align': 'Left'}"><figure class="Left" style="width:320px;height:285px;"> <img src="http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2019/01/27/320x285/1_dsc_0891-1271555.jpg" alt="brumadinho" width="320" height="285"> <figcaption> brumadinho / ML </figcaption> </figure></tinymce></div> <div>Lama Biliar: Tamb&eacute;m conhecida como barro biliar ou areia na ves&iacute;cula &eacute; causada pela gan&acirc;ncia capitalista e o consumo exagerado de colesterol. A inflama&ccedil;&atilde;o e obstru&ccedil;&atilde;o dos canais biliares pode causar um rompimento das barreiras emocionais espalhando por todo corpo uma lama espessa e contaminada de excessos e neglig&ecirc;ncias. Esta lama em contato com o tecido sangu&iacute;neo e epitelial causa a perda do vi&ccedil;o e o frescor dos olhares e transmuda mucosas rosadas em sorrisos amarelados.</div> <div>O olhar esperan&ccedil;oso se torna ict&eacute;rico e o que resta &eacute; um corpo enlameado de dor e descasos alheios.</div> <div>N&atilde;o h&aacute; cura.</div> <div>Nem h&aacute; corpo que aguente quando a gula do paciente &eacute; maior do que seus limites.</div> <div>&nbsp;<br /></div>
Comentar
Compartilhe
Sobre o autor

Mariana Luiza

[email protected]