O corpo solidário
19/01/2017 | 12h45
<div>Recebeu a not&iacute;cia pelo telefone. Sem rodeios e com poucas palavras, soube que o marido estava morto.</div> <div><tinymce class="clickTinyMCE" title="{'nm_midia_inter_thumb1':'', 'id_midia_tipo':'2', 'id_tetag_galer':'', 'id_midia':'5880cc6ced6c4', 'cd_midia':575451, 'ds_midia_link': 'http://www.folha1.com.br/_midias/png/2017/01/19/313x340/1_flores-575445.png', 'ds_midia': '', 'ds_midia_credi': '', 'ds_midia_titlo': '', 'cd_tetag': '1', 'cd_midia_w': '313', 'cd_midia_h': '341', 'align': 'Left'}"><figure class="Left" style="width:313px;height:341px;"> <img src="http://www.folha1.com.br/_midias/png/2017/01/19/313x340/1_flores-575445.png" alt="flores" width="313" height="341"> <figcaption> flores / Mariana Luiza </figcaption> </figure></tinymce>N&atilde;o se falavam h&aacute; oito anos, embora ainda dormissem juntos, dividindo a mesma cama e compartilhando o &uacute;nico virol. Era uma mulher de const&acirc;ncia ansiosa e muito nervosa, por&eacute;m contrariando as previs&otilde;es e os costumes demandados pela situa&ccedil;&atilde;o, ela recebeu a not&iacute;cia com a calma dos equilibrados. Desligou o telefone, caminhou at&eacute; o quarto. Pegou no arm&aacute;rio, uma muda de roupa do marido e deixou-a sobre a cama. Tomou um demorado banho quente, escovou os cabelos e sentada na cama, antes de se vestir, limpou o lixo da bolsa jogando fora recibos de compras do cart&atilde;o de cr&eacute;dito, papel de bala e bula do rem&eacute;dio para sinusite que tomara no m&ecirc;s passado. Duas horas depois, saiu com a muda de roupa do marido nas m&atilde;os.</div> <div>O corpo j&aacute; estava frio e vestido com uma camisa social amarela e cal&ccedil;a de linho branco. Presente dado por ela, quando ainda se falavam. Roupa que ele nunca vestira em vida. Odiava amarelo e o inevit&aacute;vel amarrotar do linho. Ela, escorpiana e filha de Oxum, amava o dourado reluzente e os vincos de uma cal&ccedil;a bem passada. Amava ainda mais&nbsp;o prazer da long&iacute;nqua vingan&ccedil;a silenciosa. E como morto n&atilde;o opina, n&atilde;o amarrota e nem muito menos desfruta de qualquer prazer carnal, resolveu agradar a si mesma escolhendo o que segundo ela, lhe ca&iacute;a bem.&nbsp;</div> <div>Cobriram-no de flores do campo. Todas brancas. Deixando apenas parte do dorso e a cabe&ccedil;a descoberta. O rel&oacute;gio avan&ccedil;ava contando as horas para o fim do vel&oacute;rio. E ela aguardava sozinha pelo sepultamento do corpo. N&atilde;o avisou a nenhum amigo ou parente do morto. Queria apenas para si aquela derradeira despedida.</div> <div>E sozinha come&ccedil;ou a desflorar o caix&atilde;o revelando pouco a pouco aquele corpo rijo que ainda guardava o sofrimento do &uacute;ltimo suspiro. As m&atilde;os fechadas, os dedos dos p&eacute;s contra&iacute;dos. Morreu segurando entre os dedos a dor acumulada na vida. Ela acariciou aquele corpo com a intimidade que nunca tiveram enquanto vivos. Nem nos primeiros anos do casamento quando ainda faziam sexo com uma certa frequ&ecirc;ncia, o amor e o desejo eram latentes, mas a intimidade quase que inexistente.</div> <div>Tirou as flores que cobriam os punhos fechados. Abriu os&nbsp;dedos com um pouco de for&ccedil;a, na tentativa de dissipar aquela dor. Queria que a alma, quando chegasse no purgat&oacute;rio, j&aacute; estivesse livre do sofrimento que aquelas m&atilde;os teimavam e guardar consigo. N&atilde;o teve muito sucesso. A mansid&atilde;o &eacute; a primeira a abandonar o corpo morto.&nbsp;</div> <div>O ch&atilde;o da capela estava coberta de flores do campo. Ela liberou os p&eacute;s retirando os sapatos e as meias. Livrou os ouvidos do algod&atilde;o que tapava todos os orif&iacute;cios. Chegou perto do cad&aacute;ver e disse-lhe todas as palavras de carinho e compaix&atilde;o que foi incapaz de dizer nos &uacute;ltimos oito anos em que dormiram juntos sem se falar.&nbsp;</div> <div>Retirou o algod&atilde;o da boca na esperan&ccedil;a da &uacute;ltima resposta, ao qual ela considerava ter direito. Mais uma vez, sem sucesso, viu o corpo ainda rijo repousado sobre o caix&atilde;o, sem sinal de descanso eterno ou moment&acirc;neo. Um corpo abandonado e convalescente da dor que alma foi incapaz de carregar sozinha para o purgat&oacute;rio.</div> <div>Como de costume, sentiu culpa pela dor que o companheiro carregou para o t&uacute;mulo. Pensou em ir &aacute; casa buscar outra muda de roupa, ligar para os amigos do bilhar. Mas fora informada pelo coveiro que n&atilde;o havia mais tempo.</div> <div>Apenas ela e o coveiro se despediram do corpo. Outros funcion&aacute;rios do cemit&eacute;rio carregaram o caix&atilde;o at&eacute; a urna vertical. A mais barata. Uma torre de cad&aacute;veres sepultados lado a lado, como caixas de sapato em almoxarifado de loja de shopping. A culpa ficava mais forte a cada p&aacute; de cimento jogada pelo coveiro para fechar a tampa. Depois de sepultado, ela ainda se sentou no meio feio perto do t&uacute;mulo e fez companhia ao corpo por duas horas. Pensou no namoro, nos poucos bons momentos que viveram juntos. Lembrou-se de alguns momentos dos primeiros anos do casamento. O fusquinha 69 que engui&ccedil;ou na viagem a caminho da Lua de Mel, em Cabo Frio. Os dois fazendo sexo no carro enquanto esperavam pelo mec&acirc;nico. Os jantares caprichados com diferentes tipos de acompanhamento. Arroz, feij&atilde;o, carne, farofa, uma verdura refogada e legumes cozidos. Lembrou do nascimento dos filhos. Dos natais em fam&iacute;lia. Por duas horas, chorou copiosamente com tamanha nostalgia da felicidade que fora sua vida ao lado daquele homem.</div> <div>Esqueceu-se das brigas que os levaram a oito anos de silencio absoluto. Esqueceu-se de que embora os primeiros anos do casamento fosse bom, e que o sexo era constante, ela nunca tivera um orgasmo. &nbsp;Nunca se sentira &iacute;ntima do marido para lhe contar pequenos segredos ou grandes fantasias sexuais. Tudo isso, em nome da culpa, ela esqueceu. Abortou do corpo e da mem&oacute;ria. E em&nbsp;nome da solidariedade e companheirismo jurados diante de um padre h&aacute; mais trinta anos, adquiriu&nbsp;artrite reumat&oacute;ide nas m&atilde;os e p&eacute;s e morreu dez anos depois com a mesma rigidez e dor herdada do companheiro desde o dia de sua morte.</div>
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Resoluções de fim de ano
04/01/2017 | 11h00
<div>Sou leonina, com lua em Peixes e ascendente em Escorpi&atilde;o. Nem meu signo solar, muito menos o lunar e o ascendente explicam minha mania por listas. Ela vem de algo mais profundo e negligenciado pela astrologia. <strong>Eu tenho m&atilde;e em Virgem</strong>. Pior do que ascendente em Escorpi&atilde;o (garanto, n&atilde;o &eacute; f&aacute;cil!) uma m&atilde;e em virgem pode causar uma s&eacute;rie de complexos para&nbsp;aqueles cujo planeta progenitor regente se encontra no sexto signo astrol&oacute;gico do zod&iacute;aco.</div> <div><tinymce class="clickTinyMCE" title="{'nm_midia_inter_thumb1':'http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2017/12/19/170x96/1_fullsizerender_2_238x300-928974.jpg', 'id_midia_tipo':'2', 'id_tetag_galer':'', 'id_midia':'5a395ea652380', 'cd_midia':928974, 'ds_midia_link': 'http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2017/12/19/fullsizerender_2_238x300-928974.jpg', 'ds_midia': '', 'ds_midia_credi': '', 'ds_midia_titlo': '', 'cd_tetag': '1', 'cd_midia_w': '238', 'cd_midia_h': '300', 'align': 'Left'}"><figure class="Left" style="width:238px;height:300px;"> <img src="http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2017/12/19/fullsizerender_2_238x300-928974.jpg" alt="" width="238" height="300"> <figcaption> </figcaption> </figure></tinymce>A psican&aacute;lise freudiana pode explicar a minha necessidade de ser t&atilde;o detalhista e espec&iacute;fica quando elenco tarefas. Mas acredito que ainda preciso de muita terapia para super&aacute;-la. Tenho listas pra tudo em todos os cantos. No celular, um bloco de tarefas permanente, intitulado <em>Pend&ecirc;ncias</em>, onde enumero incumb&ecirc;ncias diversas como uma reuni&atilde;o que preciso marcar ou o an&uacute;ncio que quero fazer pra vender aquele desumidificador que comprei em 10 presta&ccedil;&otilde;es e s&oacute; usei uma vez. Na bolsa, tenho dois caderninhos. O preto com tarefas e atividades do meu trabalho como vendedora: reuni&otilde;es, clientes que preciso ligar, empresa que tenho que pesquisar contato. E o vermelho que registra anota&ccedil;&otilde;es e ideais liter&aacute;rias, assuntos para o blog, artigos relacionados a algum tema de interesse....</div> <div>No computador, no bloco de tarefas, muitas vezes reescrevo as obriga&ccedil;&otilde;es listadas no caderninho preto. E n&atilde;o &eacute; incomum encontrar uma mesma tarefa relatada em listas distintas. Para organizar todas estas anota&ccedil;&otilde;es, muitas vezes, me pego dobrando uma folha de papel A4 em quatro partes e passando a limpo as atividades mais urgentes de cada bloco ou caderno. Eu tenho mais habilidades em passar listas a limpo do que propriamente execut&aacute;-las. E acabo levando para a terapia a minha eterna sensa&ccedil;&atilde;o de deveres incompletos. Tenho uma extensa&nbsp;lista de coisas que relacionei e planejei, mas nunca fiz. A organiza&ccedil;&atilde;o extrema e quase neur&oacute;tica tem a ver com a <em>m&atilde;e em Virgem</em>, mas para o n&atilde;o realizar das coisas ainda procuro explica&ccedil;&atilde;o astrol&oacute;gica e psicanal&iacute;tica.</div> <div>Pensei que talvez, a minha procrastina&ccedil;&atilde;o&nbsp;estivesse&nbsp;relacionada &agrave; minha lua em Peixes. Mas n&atilde;o tenho conhecimento de que algum peixe ou cardume que tarde suas tarefas. O mesmo fazem os escorpi&otilde;es e os reis da selva. Nenhum animal delonga pela vida. S&oacute; os Homo Sapiens. Sem necessidade de listas, peixes, le&otilde;es e escorpi&otilde;es cumprem o que se destinam. Enquanto isso, j&aacute; se passaram seis meses que a minha pequena Caliandra est&aacute; desfolhada e eu ainda n&atilde;o liguei pro m&eacute;dico de bonsai, cujo telefone consta na minha lista&nbsp;<em>Pend&ecirc;ncias</em>. Por isso, e por tantos outros motivos relacionados &agrave; ansiedade, ao excesso de informa&ccedil;&otilde;es e est&iacute;mulos que recebemos diariamente, sou contra resolu&ccedil;&otilde;es de fim de ano. J&aacute; s&atilde;o tantas as obriga&ccedil;&otilde;es n&atilde;o cumpridas a que me submeto que me obrigar a fazer uma lista de resolu&ccedil;&otilde;es que obviamente n&atilde;o ser&atilde;o realizadas no pr&oacute;ximo ano me parece perda de tempo e muni&ccedil;&atilde;o para culpas futuras.&nbsp;</div> <div>Por&eacute;m, preciso confessar que para uma pessoa como eu, adicta &agrave; listas, finalizar um ano sem resolu&ccedil;&otilde;es &eacute; muito mais um ato de resist&ecirc;ncia do que de rebeldia. Querer o n&atilde;o querer &eacute; tarefa dif&iacute;cil. Mas enquanto me conven&ccedil;o da resolu&ccedil;&atilde;o de n&atilde;o fazer resolu&ccedil;&otilde;es, vou colocando nas listas e cadernos os desejos de emagrecer 11 quilos, comprar uma bicicleta para andar todos os fins de semana, voltar para o pilates, comer mais verduras, escrever semanalmente no blog, revisar o livro juvenil, finalizar o roteiro do filme, pintar o corredor do meu apartamento com alguma cor que ainda n&atilde;o&nbsp;consegui me decidir... &nbsp; &nbsp; &nbsp;</div>
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Sobre o autor

Mariana Luiza

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