Dia D
25/01/2016 | 15h21
<div><tinymce class="clickTinyMCE" title="{'nm_midia_inter_thumb1':'http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2017/12/20/170x96/1_fullsizerender_296x300-930262.jpg', 'id_midia_tipo':'2', 'id_tetag_galer':'', 'id_midia':'5a3a8d193568e', 'cd_midia':930262, 'ds_midia_link': 'http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2017/12/20/fullsizerender_296x300-930262.jpg', 'ds_midia': '', 'ds_midia_credi': '', 'ds_midia_titlo': '', 'cd_tetag': '1', 'cd_midia_w': '296', 'cd_midia_h': '300', 'align': 'Left'}"><figure class="Left" style="width:296px;height:300px;"> <img src="http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2017/12/20/fullsizerender_296x300-930262.jpg" alt="" width="296" height="300"> <figcaption> </figcaption> </figure></tinymce>Havia dois&nbsp;anos que ele pensava sobre o assunto. Pesquisara m&eacute;todos eficazes e indolores. Liquidara todas as d&iacute;vidas, resolvera todas as pend&ecirc;ncias de ordem pr&aacute;tica. Deixou todo o dinheiro que tinha aplicado num plano de previd&ecirc;ncia cuja benefici&aacute;ria era a namorada, a quem ele tanto amava e lhe dedicava os melhores sentimentos. Ela nem desconfiava dos planos de Matheus. Nem havia como desconfiar. Matheus estava sempre de bem com vida. N&atilde;o reclamava do calor carioca, n&atilde;o achava ruim o metr&ocirc; lotado na volta pra casa, tinha um&nbsp;humor matinal inacredit&aacute;vel. E at&eacute; o que ele mais detestava fazer na vida, compras no shopping, passava imune a reclama&ccedil;&otilde;es se estivesse na companhia de sua amada e &uacute;nica herdeira. A poupan&ccedil;a n&atilde;o era milion&aacute;ria, mas tinha um valor consider&aacute;vel. A namorada, que trabalhava como lojista na Zona Sul e sonhava em abrir sua pr&oacute;pria confec&ccedil;&atilde;o de camisetas, teria verba suficiente para concretizar o sonho assim que Matheus realizasse seu plano. Faltava-lhe apenas coragem. N&atilde;o para cometer o suic&iacute;dio, isso ele tiraria de letra. Matheus n&atilde;o era religioso. N&atilde;o temia a morte e n&atilde;o acreditava que em consequ&ecirc;ncia de seus atos, viveria eternamente feito &aacute;rvores retorcidas no &uacute;ltimo n&iacute;vel do inferno. Sua preocupa&ccedil;&atilde;o era justamente com a consequ&ecirc;ncia daquilo que n&atilde;o presenciaria. Com&nbsp;as dores que ele n&atilde;o poderia consolar. Pensou na m&atilde;e, que proclamava quase que diariamente, como foi maravilhoso o dia em que ele nasceu. Deu-lhe o nome de um dos doze ap&oacute;stolos de Cristo, autor de um evangelho da b&iacute;blia, “Presente de Deus”. Matheus podia tudo, menos atentar contra a pr&oacute;pria exist&ecirc;ncia. O que seria do resto de vida desta m&atilde;e t&atilde;o devota sabendo de um ato t&atilde;o anti-crist&atilde;o. Pensou no pai que nunca conhecera e que provavelmente n&atilde;o sabendo de seu nascimento, ignoraria sem sentimentalismo sua morte. Pensou na namorada que lhe fazia t&atilde;o feliz, mas n&atilde;o a ponto dele desistir do planejado. Matheus sabia que a felicidade era gen&eacute;tica e que n&atilde;o portando o gene natural, cabia a ele, somente a ele lutar diariamente com a tristeza que lhe tomava o corpo come&ccedil;ando pela cabe&ccedil;a, passando pela garganta, pelo cora&ccedil;&atilde;o e descendo as pernas. Ele bem que tentava. Fazia an&aacute;lise, tomava antidepressivos, lia livros de autoajuda e frequentava festas todos os finais de semana. Mas de nada aliava a vontade que sentia em interromper aquele cotidiano sem sentido. Queria apenas evitar a eventual culpa que a m&atilde;e e a namorada sentiriam. Matheus n&atilde;o lembrava a origem da vontade da morte. N&atilde;o lembrava tamb&eacute;m que costumava ser um rapaz doce, e que atualmente apesar do falso humor matinal, e do falsa alegria nos dias de compra ao lado da namorada, ele vivia constantemente tomado por uma irrita&ccedil;&atilde;o que come&ccedil;ava durante o sono e persistia at&eacute; a pr&oacute;xima dormida. Na espera sem esperan&ccedil;a a do&ccedil;ura virou glac&ecirc;. Aparentemente doce, Matheus estava seco e endurecido cobrindo e disfar&ccedil;ando o bolo amargo da vida. Foi ent&atilde;o, que um dia, enquanto tomava uma cerveja num bar na S&atilde;o Clemente, assistiu a morte de um morador em situa&ccedil;&atilde;o de rua por atropelamento e teve&nbsp;a brilhante ideia de plagiar o rec&eacute;m defunto. Na certa, sua m&atilde;e e namorada desconfiariam de um acidente. Sofreriam sem culpa a pela morte, colocando nas m&atilde;os de Deus a responsabilidade do destino. Se p&ocirc;s a pensar uma data. N&atilde;o&nbsp;podia ser no m&ecirc;s do anivers&aacute;rio&nbsp;da m&atilde;e, nem da namorada. N&atilde;o&nbsp;podia ser agora, nem nos pr&oacute;ximos 18 meses. &nbsp;Matheus havia contra&iacute;do novas d&iacute;vidas e assumido alguns compromissos futuros. Levar a namorada pra conhecer Ilha Bela. Consertar o telhado antes das chuvas de ver&atilde;o. Terminar de pagar o financiamento da moto rec&eacute;m comprada, e a presta&ccedil;&atilde;o do sof&aacute;, presente de dia das m&atilde;es. Pelas contas, n&atilde;o poderia morrer antes de novembro de 2018. Mas apesar do tempo de espera, estava feliz. Genuinamente feliz, como h&aacute; muito n&atilde;o tivera. Como diz o ditado. Tudo na vida h&aacute; solu&ccedil;&atilde;o, inclusive para a morte! Matheus pagou a conta e saiu radiante do bar, enquanto na rua em frente, transeuntes removiam o corpo do atropelado para dar passagem aos carros e as vidas que restavam. Tomado por uma alegria inebriante da rec&eacute;m descoberta somada aos goles de cerveja, ele atravessou a rua sem aten&ccedil;&atilde;o e n&atilde;o viu que o motorista do &ocirc;nibus &aacute;vido por passagem acelerou com vontade na S&atilde;o Clemente rec&eacute;m desimpedida. Morreu. Dez metros do mendigo. A dupla coincid&ecirc;ncia virou not&iacute;cia. Matheus partiu precocemente deixando uma m&atilde;e desolada, a namorada&nbsp;entristecida, uma&nbsp;d&iacute;vida de R$19.345,00 da compra da moto e uma previd&ecirc;ncia privada com apenas R$546,14. Ele emprestara o dinheiro para um amigo no dia anterior a morte que vendo a not&iacute;cia no jornal entendeu o empr&eacute;stimo como doa&ccedil;&atilde;o. Existe a cren&ccedil;a que os esp&iacute;ritos frequentam os lugares por onde os corpos transitavam. N&atilde;o se sabe se por castigo, ou obra do destino Matheus habita o &ocirc;nibus&nbsp;que lhe tirou a vida. Uma lota&ccedil;&atilde;o sempre abarrotada cujo destino final se d&aacute; no shopping que a namorada costuma fazer compras. &nbsp;</div>
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Um Conto de Duas Cidades
11/01/2016 | 16h46
<div>"Se a morte &eacute; o rem&eacute;dio da natureza para todos os males, por que n&atilde;o o seria para a legisla&ccedil;&atilde;o?" escreveu <em>Charles Dieckens </em></div> <div><tinymce class="clickTinyMCE" title="{'nm_midia_inter_thumb1':'http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2017/12/20/170x96/1_fullsizerender_300x294-930292.jpg', 'id_midia_tipo':'2', 'id_tetag_galer':'', 'id_midia':'5a3a90145cf22', 'cd_midia':930292, 'ds_midia_link': 'http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2017/12/20/fullsizerender_300x294-930292.jpg', 'ds_midia': '', 'ds_midia_credi': '', 'ds_midia_titlo': '', 'cd_tetag': '1', 'cd_midia_w': '300', 'cd_midia_h': '294', 'align': 'Left'}"><figure class="Left" style="width:300px;height:294px;"> <img src="http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2017/12/20/fullsizerender_300x294-930292.jpg" alt="" width="300" height="294"> <figcaption> </figcaption> </figure></tinymce>Aconteceu assim. No dia 5 de janeiro, numa regi&atilde;o de nobre da cidade. Um dos velhos que jogavam conversa fora na pra&ccedil;a afirmou ter testemunhado ali mesmo, h&aacute; poucos dias, a execu&ccedil;&atilde;o do prisioneiro. A m&atilde;o que atentou contra o chefe de estado fora a primeira ser queimada. Em seguida, fizeram-lhe feridas com um punhal por todo corpo. Pequenos rasgos nos bra&ccedil;os, peito e pernas. Com a ferida aberta e o sangue exposto, derramaram azeite fervente misturado a chumbo derretido, resina, cera e enxofre. Quatro cavalos, cada um amarrado aos bra&ccedil;os e pernas do delinquente correram em dire&ccedil;&otilde;es opostas finalizando a penalidade com esquartejamento. Uma enorme plat&eacute;ia cercava a pra&ccedil;a. Uma multid&atilde;o de damas distintas e elegantes se contorcendo na ponta dos sapatos de cetim para assistir ao espet&aacute;culo. Mesmo tendo perdido as pernas e um bra&ccedil;o, o homem ainda respirava. E podia-se ouvir alguns urros de torcida &agrave; espera do &uacute;ltimo suspiro.</div> <div>Alguns dias antes, 258 anos depois, cinco jovens voltavam de uma festa, na Zona Sul do Rio de Janeiro, quando foram abordados por uma blitz da PM. O delito era um pouco mais brando do que a tentativa de assassinar o monarca Luiz XV. Um dos meninos estava sem capacete. Era madrugada de natal e o encontro natal&iacute;cio resultou em um relato de tortura. Os policiais, eram oito no total, incineraram o cabelo de um dos jovens com um isqueiro, e usaram o mesmo objeto acendedor para esquentar as l&acirc;minas de suas facas. Com as facas quentes, fizeram pequenos rasgos nos bra&ccedil;os e pernas dos meninos e queimaram o saco escrotal de um dos adolescentes. Os jovens ainda foram espancados com socos no nariz e pontap&eacute;s e obrigados a praticar sexo oral uns nos outros enquanto um policial filmava a cena. N&atilde;o havia plat&eacute;ia para este espet&aacute;culo. Nem a cavalaria da PM para completar o esquartejamento. Mas o v&iacute;deo, objeto futuro de entretenimento, foi gravado com som ambiente de risadas e xingamentos dos protagonistas da tortura. H&aacute; poucos meses deste epis&oacute;dio, tamb&eacute;m no Rio de Janeiro, dois meninos se estapearam pelas ruas da G&aacute;vea. Policiais abordaram os meninos e sem perguntar o motivo da briga, apontaram-lhe armas ordenando que se ajoelhassem. J&aacute; dominados, um homem da plateia invadiu o palco tornando-se coadjuvante do espet&aacute;culo ao chutar as costas de um dos meninos. A pequena multid&atilde;o, tal qual a da antiga <em>Place de Gr&egrave;ve</em>, vociferavam raivosos frases do tipo "mata, mata, pode matar", "tem que bater mesmo" e "isso &eacute; ra&ccedil;a ruim”" como se a elimina&ccedil;&atilde;o dos dois rapazes pretos, que brigavam por causa desconhecida, fosse a solu&ccedil;&atilde;o das mazelas de viol&ecirc;ncia que a cidade enfrenta diariamente.</div> <div>Consci&ecirc;ncia ou n&atilde;o, no mesmo 5 de Janeiro, h&aacute; exatos 259 anos daquele atentado em Paris, a revista Carta Capital publicou uma mat&eacute;ria em que comparava a concentra&ccedil;&atilde;o de riquezas do mundo contempor&acirc;neo com a da Inglaterra de Charles Dickens e a Fran&ccedil;a de Victor Hugo. Embora eu ainda me esforce a acreditar que estamos progredindo, diariamente me confronto com viol&ecirc;ncias medievais. Sejam elas praticadas nas ruas, nas m&iacute;dias sociais ou no Congresso Nacional. &Agrave;s vezes me sinto num Conto de Duas Cidades.</div>
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Sobre o autor

Mariana Luiza

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