Dia D
25/01/2016 | 15h21
Havia dois anos que ele pensava sobre o assunto. Pesquisara métodos eficazes e indolores. Liquidara todas as dívidas, resolvera todas as pendências de ordem prática. Deixou todo o dinheiro que tinha aplicado num plano de previdência cuja beneficiária era a namorada, a quem ele tanto amava e lhe dedicava os melhores sentimentos. Ela nem desconfiava dos planos de Matheus. Nem havia como desconfiar. Matheus estava sempre de bem com vida. Não reclamava do calor carioca, não achava ruim o metrô lotado na volta pra casa, tinha um humor matinal inacreditável. E até o que ele mais detestava fazer na vida, compras no shopping, passava imune a reclamações se estivesse na companhia de sua amada e única herdeira. A poupança não era milionária, mas tinha um valor considerável. A namorada, que trabalhava como lojista na Zona Sul e sonhava em abrir sua própria confecção de camisetas, teria verba suficiente para concretizar o sonho assim que Matheus realizasse seu plano. Faltava-lhe apenas coragem. Não para cometer o suicídio, isso ele tiraria de letra. Matheus não era religioso. Não temia a morte e não acreditava que em consequência de seus atos, viveria eternamente feito árvores retorcidas no último nível do inferno. Sua preocupação era justamente com a consequência daquilo que não presenciaria. Com as dores que ele não poderia consolar. Pensou na mãe, que proclamava quase que diariamente, como foi maravilhoso o dia em que ele nasceu. Deu-lhe o nome de um dos doze apóstolos de Cristo, autor de um evangelho da bíblia, “Presente de Deus”. Matheus podia tudo, menos atentar contra a própria existência. O que seria do resto de vida desta mãe tão devota sabendo de um ato tão anti-cristão. Pensou no pai que nunca conhecera e que provavelmente não sabendo de seu nascimento, ignoraria sem sentimentalismo sua morte. Pensou na namorada que lhe fazia tão feliz, mas não a ponto dele desistir do planejado. Matheus sabia que a felicidade era genética e que não portando o gene natural, cabia a ele, somente a ele lutar diariamente com a tristeza que lhe tomava o corpo começando pela cabeça, passando pela garganta, pelo coração e descendo as pernas. Ele bem que tentava. Fazia análise, tomava antidepressivos, lia livros de autoajuda e frequentava festas todos os finais de semana. Mas de nada aliava a vontade que sentia em interromper aquele cotidiano sem sentido. Queria apenas evitar a eventual culpa que a mãe e a namorada sentiriam. Matheus não lembrava a origem da vontade da morte. Não lembrava também que costumava ser um rapaz doce, e que atualmente apesar do falso humor matinal, e do falsa alegria nos dias de compra ao lado da namorada, ele vivia constantemente tomado por uma irritação que começava durante o sono e persistia até a próxima dormida. Na espera sem esperança a doçura virou glacê. Aparentemente doce, Matheus estava seco e endurecido cobrindo e disfarçando o bolo amargo da vida. Foi então, que um dia, enquanto tomava uma cerveja num bar na São Clemente, assistiu a morte de um morador de rua por atropelamento e teve a brilhante ideia de plagear o recém defunto. Na certa, sua mãe e namorada desconfiariam de um acidente. Sofreriam sem culpa a pela morte, colocando nas mãos de Deus a responsabilidade do destino. Se pôs a pensar uma data. Não podia ser no mês do aniversário da mãe, nem da namorada. Não podia ser agora, nem nos próximos 18 meses.  Matheus havia contraído novas dívidas e assumido alguns compromissos futuros. Levar a namorada pra conhecer Ilha Bela. Consertar o telhado antes das chuvas de verão. Terminar de pagar o financiamento da moto recém comprada, e a prestação do sofá, presente de dia das mães. Pelas contas, não poderia morrer antes de novembro de 2018. Mas apesar do tempo de espera, estava feliz. Genuinamente feliz, como há muito não tivera. Como diz o ditado. Tudo na vida há solução, inclusive para a morte! Matheus pagou a conta e saiu radiante do bar, enquanto na rua em frente, transeuntes removiam o corpo do atropelado para dar passagem aos carros e as vidas que restavam. Tomado por uma alegria inebriante da recém descoberta somada aos goles de cerveja, ele atravessou a rua sem atenção e não viu que o motorista do ônibus ávido por passagem acelerou com vontade na São Clemente recém desimpedida. Morreu. Dez metros do mendigo. A dupla coincidência virou notícia. Matheus partiu precocemente deixando uma mãe desolada, a namorada entristecida, uma dívida de R$19.345,00 da compra da moto e uma previdência privada com apenas R$546,14. Ele emprestara o dinheiro para um amigo no dia anterior a morte que vendo a notícia no jornal entendeu o empréstimo como doação. Existe a crença que os espíritos frequentam os lugares por onde os corpos transitavam. Não se sabe se por castigo, ou obra do destino Matheus habita o ônibus que lhe tirou a vida. Uma lotação sempre abarrotada cujo destino final se dá no shopping que a namorada costuma fazer compras.  
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Um Conto de Duas Cidades
11/01/2016 | 16h46
"Se a morte é o remédio da natureza para todos os males, por que não o seria para a legislação?" escreveu Charles Dieckens
Aconteceu assim. No dia 5 de janeiro, numa região de nobre da cidade. Um dos velhos que jogavam conversa fora na praça afirmou ter testemunhado ali mesmo, há poucos dias, a execução do prisioneiro. A mão que atentou contra o chefe de estado fora a primeira ser queimada. Em seguida, fizeram-lhe feridas com um punhal por todo corpo. Pequenos rasgos nos braços, peito e pernas. Com a ferida aberta e o sangue exposto, derramaram azeite fervente misturado a chumbo derretido, resina, cera e enxofre. Quatro cavalos, cada um amarrado aos braços e pernas do delinquente correram em direções opostas finalizando a penalidade com esquartejamento. Uma enorme platéia cercava a praça. Uma multidão de damas distintas e elegantes se contorcendo na ponta dos sapatos de cetim para assistir ao espetáculo. Mesmo tendo perdido as pernas e um braço, o homem ainda respirava. E podia-se ouvir alguns urros de torcida à espera do último suspiro. Alguns dias antes, 258 anos depois, cinco jovens voltavam de uma festa, na zona sul do Rio de Janeiro, quando foram abordados por uma blitz da PM. O delito era um pouco mais brando do que a tentativa de assassinar o monarca Luiz XV. Um dos meninos estava sem capacete. Era madrugada de natal e o encontro natalício resultou em um relato de tortura. Os policiais, eram oito no total, incineraram o cabelo de um dos jovens com um isqueiro, e usaram o mesmo objeto acendedor para esquentar as lâminas de suas facas. Com as facas quentes, fizeram pequenos rasgos nos braços e pernas dos meninos e queimaram o saco escrotal de um dos adolescentes. Os jovens ainda foram espancados com socos no nariz e pontapés e obrigados a praticar sexo oral uns nos outros enquanto um policial filmava a cena. Não havia platéia para este espetáculo. Nem a cavalaria da PM para completar o esquartejamento. Mas o vídeo, objeto futuro de entretenimento, foi gravado com som ambiente de risadas e xingamentos dos protagonistas da tortura. Há poucos meses deste episódio, também no Rio de Janeiro, dois meninos se estapearam pelas ruas da Gávea. Policiais abordaram os meninos e sem perguntar o motivo da briga, apontaram-lhe armas ordenando que se ajoelhassem. Já dominados, um homem da plateia invadiu o palco tornando-se coadjuvante do espetáculo ao chutar as costas de um dos meninos. A pequena multidão, tal qual a da antiga Place de Grève, vociferavam raivosos frases do tipo "mata, mata, pode matar", "tem que bater mesmo" e "isso é raça ruim”" como se a eliminação dos dois rapazes pretos, que brigavam por causa desconhecida, fosse a solução das mazelas de violência que a cidade enfrenta diariamente. Consciência ou não, no mesmo 5 de Janeiro, há exatos 259 anos daquele atentado em Paris, a revista Carta Capital publicou uma matéria em que comparava a concentração de riquezas do mundo contemporâneo com a da Inglaterra de Charles Dickens e a França de Victor Hugo. Embora eu ainda me esforce a acreditar que estamos progredindo, diariamente me confronto com violências medievais. Sejam elas praticadas nas ruas, nas mídias sociais ou no Congresso Nacional. Às vezes me sinto num Conto de Duas Cidades.
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Sobre o autor

Mariana Luiza

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