Cristo Morto e 48 imóveis visitados... Até agora
01/07/2013 | 16h16
<div>- A vista &eacute; linda. Olhe as &aacute;rvores. De vez em quando recebemos a visita da namorada dele... (disse a senhora de uns 80 anos apontando para o marido) ... H&aacute; tempos ela n&atilde;o aparece...</div> <div>- Os micos entram no apartamento?</div> <div>- De vez enquanto... Voc&ecirc; tem medo?</div> <div>- N&atilde;o... Mas eu prefiro os passarinhos.</div> <div>- O que voc&ecirc; vai gostar mais deste apartamento, minha filha, &eacute; a vizinhan&ccedil;a. Boa vizinhan&ccedil;a &eacute; artigo de luxo, entende?</div> <div>- Se entendo... - E os vizinhos do lado s&atilde;o uns amores. Vai ser bom para voc&ecirc; que pretende morar sozinha...</div> <div>- E o carpete... O que tem debaixo?</div> <div>- T&aacute;bua corrida. Eu n&atilde;o consigo mais agachar com tanta facilidade, mas pode arrancar um peda&ccedil;o pra ver...</div> <div>Eu me ajoelhei de frente a uma cadeira de balan&ccedil;o, o &uacute;nico m&oacute;vel restante naquele im&oacute;vel vazio para puxar um peda&ccedil;o do carpete que estava gasto, provavelmente pelo atrito do vai e vem do balan&ccedil;o. Agachada, puxei com for&ccedil;a o peda&ccedil;o protuberante, e imediatamente tive um flash imagin&aacute;rio desses que vem e v&atilde;o &agrave; velocidade da luz, mas que deixam seu recado eternizado. Uma vis&atilde;o da dona do apartamento sentada ao balan&ccedil;o indo e vindo, indo e vindo, indo e vindo. Os p&eacute;s, fincados no ch&atilde;o lhe davam o impulso do movimento. E ela ia e vinha, ia e vinha, ia e vinha. Eu olhava para ela. Ela olhava para mim. O carpete se desgastava a cada movimento. E ficamos assim, absortas da vida real por alguns segundos, ou talvez minutos.</div> <div>- Minha irm&atilde; faleceu neste balan&ccedil;o... Mas n&atilde;o tive coragem de tir&aacute;-lo daqui...</div> <div>Eu tomei um susto com a fala da senhora. N&atilde;o com o que ela havia dito, mas com o som de sua voz que subitamente, feito uma peneira, me resgatou do fundo de uma piscina completamente silenciosa em que eu nadava junto &agrave;quela senhora da cadeira de balan&ccedil;o. Ela, por pensar que eu estava assustada com a not&iacute;cia da irm&atilde; ter falecido no apartamento que supostamente iria comprar, fez uma cara de arrependida e explicou que a irm&atilde; era uma excelente pessoa. Tinha uma energia muito boa e positiva.&nbsp;<tinymce class="clickTinyMCE" title="{'nm_midia_inter_thumb1':'http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2017/12/20/170x96/1_img_3693_300x224-929876.jpg', 'id_midia_tipo':'2', 'id_tetag_galer':'', 'id_midia':'5a3a5e2f0aea5', 'cd_midia':929876, 'ds_midia_link': 'http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2017/12/20/img_3693_300x224-929876.jpg', 'ds_midia': '', 'ds_midia_credi': '', 'ds_midia_titlo': '', 'cd_tetag': '1', 'cd_midia_w': '300', 'cd_midia_h': '224', 'align': 'Left'}"><figure class="Left" style="width:300px;height:224px;"> <img src="http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2017/12/20/img_3693_300x224-929876.jpg" alt="" width="300" height="224"> <figcaption> </figcaption> </figure></tinymce>Eu tentei contornar a situa&ccedil;&atilde;o. Disse que sentia muito. Perder um irm&atilde;o, ainda mais o ca&ccedil;ula, dever ser uma dor sem tamanho. Mas a mulher disparou a falar, emendando um assunto no outro, discorreu sobre as qualidades do apartamento, ofereceu uma remo&ccedil;&atilde;o completa do carpete e ainda me ensinou uma mandinga de sal grosso para limpar as energias dos antigos habitantes. Diante da incessante agonia daquela senhora, eu inventei que minha av&oacute; materna morrera na casa que eu ainda morava com meus pais. E disse que o falecimento da irm&atilde;&nbsp;n&atilde;o influenciaria na minha decis&atilde;o de comprar o apartamento. Conferi a t&aacute;bua corrida e deixamos o im&oacute;vel juntos, em sil&ecirc;ncio. O elevador desceu nove andares sem que d&eacute;ssemos um pio. A senhora com os olhos marejados parecia pensar na irm&atilde;. Eu pensava numa cr&ocirc;nica de Rubem Braga - <em>Cristo Morto</em> – em que ele, correspondente da segunda guerra mundial, narra uma visita a uma capelinha pr&oacute;xima ao Monte Castelo onde encontra uma imagem de Cristo, tamanho natural, decapitada no ch&atilde;o da capela. Como deve ser dif&iacute;cil morrer em casa. Seja na cadeira de balan&ccedil;o ou&nbsp;lan&ccedil;ado ao ch&atilde;o da casa de seu pai. Como deve ser dif&iacute;cil perder a majestade em seu pr&oacute;prio reino... <em>Mas dif&iacute;cil para quem, se j&aacute; estaremos mortos? </em> Eu n&atilde;o comprei aquele apartamento. N&atilde;o porque ali tinha sido o cen&aacute;rio para o fim de uma hist&oacute;ria, mas simplesmente porque apesar do verde, da boa vizinhan&ccedil;a e da prov&aacute;vel visita de micos, o quarto mal cabia uma cama de solteiro. Por isso n&atilde;o comprei. Nem ele,&nbsp;nem os pr&oacute;ximos 47 que visitei naquela semana. Tinha sempre alguma coisa faltando. Um detalhe perdido. Eu caminhava pela Santa Clara com a imagem daquela senhora balan&ccedil;ando o corpo com os p&eacute;s no ch&atilde;o e pensava no lugar ideal para morrer. Onde seria? Em um Hospital? Em um carro em movimento? No mar? A casa ent&atilde;o me pareceu o melhor dos lugares, mas a busca pelo apartamento perfeito estava longe de ter um fim. N&atilde;o existe um &uacute;nico lugar completamente perfeito para se viver. Ou para morrer, que seja. Vai sempre faltar alguma coisa. Algum detalhe. Nem que seja o tempo. Nem que seja aquela experi&ecirc;ncia. Acho que ningu&eacute;m morre completo de tudo. Ou ser&aacute; que&nbsp;sim? Enfim, o fato &eacute; que depois de tantos apartamentos visitados eu comecei a colecionar hist&oacute;rias. Hist&oacute;rias de corretores, de porteiros ou donos de im&oacute;veis. E sair em busca destas hist&oacute;rias me parecia muito mais interessantes do que procurar um lugar para chamar de casa. Quem eram os moradores e o que eles faziam do tempo era mais interessante. Qual foi o momento mais feliz e o dia mais triste naquela sala de jantar? Essa nova filosofia imobili&aacute;ria anda me dando um pouco de trabalho. Eu visito tudo. Tudo que aparece, tudo que me oferecem. Um, dois, tr&ecirc;s quartos. Vaga na escritura, vaga do condom&iacute;nio. Porteiro 24 horas. Pr&eacute;dio antigo. Reformado. Com piscina, sem elevador. Porque agora o que menos importa &eacute; o lugar ideal. O bom mesmo &eacute; ouvir e presenciar um bom causo. E quem sabe numa dessas buscas por prosas e personagens eu acabo encontrando o lugar pr&oacute;ximo do que seria o perfeito.</div> <div><a href="http://www.centenariorubembraga.com.br/obra/cronicas/cristo-morto/">Clique aqui para ler a cr&ocirc;nica de Rubem Braga</a></div>
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Sobre o autor

Mariana Luiza

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