Ovo de avestruz, Corcova de dromedário
27/06/2016 | 16h58
<div><tinymce class="clickTinyMCE" title="{'nm_midia_inter_thumb1':'http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2017/12/19/170x96/1_fullsizerender_1-929104.jpg', 'id_midia_tipo':'2', 'id_tetag_galer':'', 'id_midia':'5a396f150ace0', 'cd_midia':929109, 'ds_midia_link': 'http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2017/12/19/487x377/1_fullsizerender_1-929104.jpg', 'ds_midia': '', 'ds_midia_credi': '', 'ds_midia_titlo': '', 'cd_tetag': '1', 'cd_midia_w': '487', 'cd_midia_h': '376', 'align': 'Left'}"><figure class="Left" style="width:487px;height:376px;"> <img src="http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2017/12/19/487x377/1_fullsizerender_1-929104.jpg" alt="" width="487" height="376"> <figcaption> </figcaption> </figure></tinymce>Apareceu-lhe um n&oacute;dulo nas costas. Um pequeno caro&ccedil;o do tamanho da ponta de um dedo mindinho, localizado na altura da esc&aacute;pula esquerda.&nbsp;Junto do n&oacute;dulo, uma insuport&aacute;vel dor de cabe&ccedil;a que irradiava do caro&ccedil;o, subindo pelo pesco&ccedil;o, se alojando intermitentemente sob a sobrancelha de mesmo lado.&nbsp;Correu para a massoterapeuta. N&atilde;o adiantou. A cada sess&atilde;o, o n&oacute;dulo se mostrava mais comparecente, afrontando a massagista com sua presen&ccedil;a e dureza marcante tal como um diamante.&nbsp;Resolveu ent&atilde;o procurar uma chinesa, que segundo alguns amigos e o Google, era expert em tratar das mazelas de corpos alheios. Na primeira sess&atilde;o de shiatsu, a chinesa apelidou o n&oacute;dulo de caro&ccedil;o de azeitona. Tal sua dureza, tal seu tamanho. No final do conjunto de dez sess&otilde;es, cada uma com quase duas horas de muita dor e compress&otilde;es, o caro&ccedil;o se desmantelava sob pr&oacute;prio fruto, tal sua maciez, tal seu tamanho.&nbsp;Mas n&atilde;o desaparecia. Parecia que aquela azeitona, ora caro&ccedil;o, ora fruto desencaro&ccedil;ado chegara para ficar.&nbsp;Para fazer parte daquela vida, tomar conta daquele ser e dar sentido a um corpo que pouco do&iacute;a at&eacute; ent&atilde;o. Tal como uma azeitona sem caro&ccedil;o, um corpo sem dor, &eacute; um corpo sem sentido. &Eacute; um corpo sem sentimento. Mas o padecimento cr&ocirc;nico faz t&atilde;o, ou mais mal do que a escassez. O corpo se torna v&iacute;tima da dor. Incapaz de vivenciar qualquer outra coisa al&eacute;m daquela tortura.&nbsp;Se antes ela n&atilde;o chorava por motivo algum, agora s&oacute; chora pela esc&aacute;pula dormente. Recorreu &agrave; terapia para investigar o princ&iacute;pio de tudo. O n&oacute;dulo chegou num dia at&iacute;pico, um frio quase glacial de um setembro. A dona do corpo passava f&eacute;rias numa casa de praia em Arraial do Cabo, e acordou com uma dor nas costas irradiando para o pesco&ccedil;o. Tratou com pomadas para torcicolo e procurou um m&eacute;dico no final da semana. O primeiro diagn&oacute;stico: um distens&atilde;o muscular devido ao frio excessivo foi tratado com antiinflamat&oacute;rios. Diante da inefic&aacute;cia do tratamento. Recomendou-se pomadas, comprimidos, compressas quentes e ao longo dos meses, a dona do corpo foi mudando de m&eacute;dicos, de t&eacute;cnicas de massagens, de rem&eacute;dios e supersti&ccedil;&otilde;es. O caro&ccedil;o j&aacute; fazia t&atilde;o parte dela, que acostumada &agrave; dor, ela j&aacute; n&atilde;o se lembrava da vida sem tal mol&eacute;stia. J&aacute; chegava junho e a azeitona faria anivers&aacute;rio em tr&ecirc;s meses. A esta altura, a dona do corpo j&aacute; havia percorrido quase todas especialidades m&eacute;dicas poss&iacute;veis em todo o Rio de Janeiro. Ortopedistas, neurologistas, fisiatras, cl&iacute;nicos gerais e psiquiatras. A nova massoterapeuta, tentou pedras quentes, cristais, manta t&eacute;rmica, ventosas de suc&ccedil;&atilde;o e at&eacute; choques el&eacute;tricos. Os tratamentos eram apenas paliativos, amansando o caro&ccedil;o para os dias seguintes. O n&oacute;dulo&nbsp;j&aacute; estava bem crescido, sendo apelidado pela tal como ovo de codorna. O fisiatra o chamava de ovo de avestruz e a terapeuta dizia que o sofrimento f&iacute;sico se tratava de um processo psicanal&iacute;tico. A dor fantasma na esc&aacute;pula era oriunda de uma asa podada. Cujo corpo de mente f&eacute;rtil e louco para voar, se via preso numa massa de carne e osso est&aacute;tica demais, pesada demais por carregar nos ombros todas as preocupa&ccedil;&otilde;es mundanas. Apelidou o n&oacute;dulo de asa encruada. A dona do corpo saiu da sess&atilde;o refletindo sobre a &uacute;ltima vez que voara bem alto sem o medo de estabacar no ch&atilde;o. Sobre quando come&ccedil;ou a podar, por si s&oacute;, as pr&oacute;prias asas, os pr&oacute;prios sonhos.&nbsp;Sem resposta f&aacute;cil, abandonou a ideia de asa encruada preferindo apelidar a dor de ovo de avestruz. &Eacute; prov&aacute;vel que este tenha sido o apelido mais coerente para o calombo nas costas, uma vez que fora dado pela dona do corpo que o carregava. Avestruzes s&atilde;o aves com Asas&nbsp;descabidas. Incapazes de voar por causa das asas pequenas e do peso de seu pr&oacute;prio corpo, a ave se conforta em justificar a falta de v&ocirc;o por sua habilidade de alcan&ccedil;ar at&eacute; 60km por hora numa disparada. Gosta de tirar vantagem com os demais portadores de penas justificando ter pernas compridas e saradas e um aparelho digestivo&nbsp;capaz de ingerir at&eacute; pedra. Definitivamente este era a ave&nbsp;adequada.&nbsp;Incapaz de voar para alcan&ccedil;ar os sonhos e habilidoso a engolir qualquer sapo ou pedra. A terapeuta alertou a dona do corpo que engolir sapos e pedras est&aacute; mais para um dist&uacute;rbio psicol&oacute;gico do que para uma habilidade. Mas&nbsp;a paciente n&atilde;o pensava assim. E acreditou nas vantagens de correr ao inv&eacute;s de voar.&nbsp;E na caracter&iacute;stica de enfiar a cabe&ccedil;a na terra quando lhe faltasse coragem para vida. Abandonou os tratamentos e adotou de vez o n&oacute;dulo nas costas. Depois que colocou nome apropriou-se do calombo como um animal de estima&ccedil;&atilde;o e seguiu os dias corcunda, carregando seus medos e preocupa&ccedil;&otilde;es numa corcova que s&oacute; crescia. De p&aacute;ssaro de asas podadas, a dona do corpo, se transformou lentamente num droMED&Aacute;rio cercado de &aacute;gua. Cercado de po&ccedil;as, de po&ccedil;os e de aves que voavam. Uma tristeza s&oacute;.</div>
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Sobre o autor

Mariana Luiza

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