A soma de todas as cores
06/05/2013 | 17h09
Era uma tarde Paulistana de sexta-feira, um cliente havia desmarcado uma reunião e faltavam algumas horas para o meu vôo de volta ao Rio de Janeiro. Entrei num táxi querendo visitar um museu. O Trânsito estava insuportável. O tempo corria junto com as pernas da cidade. Desci no meio do caminho frustrada e com um pouco de raiva. Do outro lado da rua, um salão com cara de sofisticado oferecia promoções num cavalete chamativo. Entrei intencionada a colorir os cabelos de loiro. Enquanto preenchia o cadastro na recepção, eu pensava nos motivos que me causaram o aparecimento precoce e repentino de um punhado de fios brancos. Passava por um momento delicado na minha vida, e cada novo fio descolorido era batizado com o nome de alguém com quem me preocupava ou com o episódio de estresse que havia vivido recentemente. Minha avó, que há um mês fora internada num hospital em razão de fêmur quebrado, era uma das homenageadas. Lembrei-me dela e dos seus cabelos enquanto explicava ao hair stylist a minha intenção de mudança tão radical. Lembrei especialmente do dia em que lhe fiz companhia no hospital, e que não sei por que, enquanto ela dormia, me pus a admirá-la como se ela não fosse ela.
Como se ela fosse uma pintura de um artista famoso do século XVII, cuja tela retratava um rosto enrugado e coberto por uma aveludada textura branca como fios de algodão. No meio de tantos fios brancos na cabeça de 94 anos de minha avó, persistiam alguns poucos remanescentes fios negros que contavam a história de uma vida de muita dor e sofrimento e poucas alegrias. Estes pequenos instantes de felicidade insistiam, apesar dos anos, em nascer negros e por assim permanecer até o fim dos dias. Eu desejei com toda força saber quais foram aqueles momentos de preciosa felicidade. O hair stylist não concordou com a minha idéia das mechas loiras. Eu sugeri então, uma descoloração total, no estilo Halle Berry - Mulher Tempestade. Ele arregalou os olhos e saiu apavorado. Voltou trazendo um Ipad com fotografias de atrizes de Hollywood que tinham cortes de cabelos cacheados. Sugeriu cortes ousados, “com estilo”. E eu lhe disse que fizesse o que quisesse desde que atenuasse o aparecimento dos fios brancos. Enquanto ele me mostrava as cores que me cairiam bem, eu pensava nos momentos que ainda colorem a vida da minha avó. E nas lições de ciências, em que o negro é ausência de cor o branco a soma de todas as cores. Enquanto o colorista sugeria opções de cores numa cartela com cabelos artificiais, eu tentava me lembrar da aula de ciências. Se o branco é a soma de todas as cores, e o preto a ausência dela. Seriam eles, os fios brancos, oriundos da preocupação, do envelhecimento e do stress, o que remanesce de colorido na vida? “
Diante desta indagação escolhi por fazer mechas cor tabaco. Disfarça a dor, tudo bem, mas apagá-las... aí já é demais.
Comentar
Compartilhe
Sobre o autor

Mariana Luiza

[email protected]