Homem do Saco
21/02/2017 | 18h04
Minha avó morou na casa dos meus pais desde que eu nasci. Era ela quem cuidava de mim e do meu irmão enquanto os dois trabalhavam. Quase todas as minhas memórias de cheiros e sabores têm o dedo da dela. O cheiro do alho socado torrando na panela para fazer o arroz. O bolo de laranja que perfumava toda a casa. Dona Diva cozinhava brilhantemente. Fazia uma carne moída com batata que ninguém faz igual. Uma receita simples, sem segredos ou temperos extravagantes. Um tradicional refogado de carne moída com batatas cortadas bem pequeninas de sabor, textura e formato diferente de todas as carnes moídas com batata que já provei na vida.
Ninguém que eu conheço sabe cortas as batatas em formas triangulares tão perfeitas e proporcionais ao moído das carnes como a minha avó Diva. Acho que esse era um dos segredos. O outro era a maneira com que ela comprava  carne moída. Escolhia cuidadosamente a peça de patinho e pedia ao açougueiro que moesse com todo carinho. A carne era para um bebê. Passou a vida comprando carne moída desta maneira. E os bebês para qual ela cozinhava já tinha mais de 20 anos, cada.
Dona Diva tinha um caderno de culinária onde anotava as receitas do manjar de côco e pavê de biscoito champanhe que ela sempre fazia pro natal. Eu adorava folheá-lo, muito mais interessada na sua grafia, que era linda, e nas figuras que ela recortava das revistas para ilustrar as anotações, do que nas próprias receitas.
Cresci gostando de escrever e sem saber cozinhar.
Nas manhãs, de segunda a sexta, minha avó repetia a rotina de preparar o arroz fresquinho. Eu contava as horas, e sentava na mesa da cozinha fingindo fazer companhia, quando o que me interessava mesmo era comer o arroz torrado. Antes de colocar a água fervendo, ela passava uns bons minutos torrando o cereal numa panela cheia de alho amassado. E eu, ansiosa, esperava na beira do fogão, mendigando uma colherzinha de chá que fosse daquele arroz antes da água. Minha avó era uma senhora bem mesquinha. Dessas que esconde moedas e nega colher de chá de arroz pros netos. Muitas vezes, eu precisava roubar escondido quando quisesse alguma quantidade satisfatória. E para evitar que eu comesse demais, ela sempre contava uma história de uma vizinha que por comer muito arroz cru, teve os ouvidos e orifícios do nariz tomados por chumaços de brotos de arroz que germinavam no estômago e saiam pelos buracos do rosto. Outra vez contou algo semelhante sobre um ramo de feijão que nasceu no umbigo da neta de uma colega. Eu não ligava muito e continuava a praticar minhas artimanhas para roubar um pouco do arroz torrado. Minha vontade era maior do que o medo. Mas tinha uma outra história, contada por minha avó e também relacionada com comida, que me assombrou por muito tempo. 
Fui uma criança que nunca comeu cachorro quente. Provei já adulta, mas até hoje tenho ressalvas.
Para evitar que eu e meu irmão brigássemos, a gente brigava de se espancar, dona Diva nos ameaçava dizendo conhecer o homem do saco. A briga começava e lá ia ela em direção ao telefone, dizendo que ia ligar para o tal colega. O homem do saco perambulava pela cidade catando crianças desobedientes para fazer salsicha.
Conclusão: Desistir de brigar? Nunca.
Eu e meu irmão sabíamos que a avó não teria coragem de ver seus netos transformados em em salsichas... mas daí a comer coleguinhas nas festinhas de aniversário... Nem pensar.
Lembro que nas festas de aniversário dos amiguinhos de colégio, quando os pais serviam cachorro quente, eu ficava horrorizada com tamanho descaso e falta de amor com às crianças desconhecidas. "O homem é o lobo do homem" já dizia Thomas Hobbes...
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Dois de Fevereiro
02/02/2017 | 12h21
Faz um tempo que já não acreditava em deus. Fora devota de Santo Antônio e São José. Dessas de fazer promessas mirabolantes como caminhar 100 quilômetros a pé ou distribuir 50.0000 folhinhas com orações do santo. Levava a sério suas promessas. Tratava os virtuoso com respeito e admiração. Nunca colocara um santo de cabeça para baixo ou dentro do congelador. Reservava apenas para si penitências astronômicas e por muitas vezes, dolorosas, física ou financeiramente. Tudo que pedira, fora realizado. E a cada nova promessa, aumentava o número de folhinhas para o devoto e dificuldade da penitência a ser cumprida.
Um dia, sem explicação, num movimento rápido e seco como são as notícias inesperadas que mudam o rumo das vidas, ela acordou não acreditando mais em deus e nos santos. Acordou sem fé. Arrumou as gavetas e o armário. Jogou fora todos os santinhos. Resquícios de promessas atendidas no passado. Levou todas as imagens que tinha para a igreja de São José. Tinha uma respeitável coleção de imagens. Um oratório para cada santo dispostos lado a lado num aparador de 4 metros e meio. São Francisco de Assis, São Benedito, São José, Nossa Senhora Aparecida e Santa Teresa reinavam na antessala que agora parecia abandonada. 
O mar estava calmo, a casa arrumada, os filhos encaminhados, o marido feliz no emprego. Aparentemente, tudo na mais perfeita harmonia e organização. Como ela sempre sonhara e até então não havia conseguido. Sempre lhe faltava algum detalhe para alcançar o tão sonhado equilíbrio na vida familiar. O marido ser promovido, o filho decidir pelo curso do vestibular, o dinheiro para comprar aquele sofá igualzinho ao da novela.
Mas como disse, agora, nada lhe faltava. A vida estava enfim do jeito que ela planejara. Era motivo para ir a igreja, agradecer aos santos, mandar rodar 5000.0000 santinhos de cada santo de devoção. Mas o invés disso, ela acordou descrente. O sofá estava comprado, o filho inscrito na faculdade de medicina e o marido recém promovido a gerente do setor. Mas ela acordara cética. Saiu de casa cedo para trabalhar, dentro do ônibus passou pela igreja da Candelária, e pela primeira vez desde a primeira comunhão, não fez o sinal da cruz. Não bateu na madeira quando uma colega de trabalho disse que o salário poderia atrasar naquele mês. Não rezou para agradecer pelo almoço daquele dia. Histórias de fé não a comoviam mais. Nem na sorte de um cílio caído na maçã do rosto ela acreditava. E assim, descrente, foi levando a vida. Sem dar explicações sobre essa mudança repentina de comportamento. Talvez porque não houvesse explicações a dar. Sua fé se mostrava exatamente igual ao ceticismo. Sem uma lógica que pudesse elucidá-la.
O filho agora clinica em consultório próprio. O sofá já fora trocado por um modelo de couro caramelo. O marido estava prestes a aposentar. E ela continuava descrente. Pegou um ônibus para o centro da cidade. Era Dois de Fevereiro e isso não lhe dizia muita coisa. Desceu próximo ao cais do porto e cruzou por uma procissão de devotos, filhos de santo e curiosos. Todos saldando a rainha do mar. De repente, ela se viu rodeada de um azul celeste que ornamentava o céu, as roupas, os barquinhos da procissão, as contas do colar da menina, o mar. O mar da Baía de Guanabara, bem próximo a Praça XV, na concentração das barcas, aquele mar escuro, preto de dejetos e esgoto lançados, sujo de óleo das embarcações, estava inacreditavelmente azul. E lindo. 
Foi naquele instante, brusco e inesperado, assim como os instantes em que nos apaixonamos, que ela se enamorou por Iemanjá. Não virou devota, não retomou sua fé. Continuou cética com a vida, com os santos, com os deuses e orixás. Não comprovou imagens da rainha, não fez Bori, nem oferenda. Nunca lhe fez uma prece. Mas todo Dois de Fevereiro ela não abre mão de ir junto ao mar e molhar os pés nas águas celestes ou escuras da Baía de Guanabara.
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Sobre o autor

Mariana Luiza

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