Pau Brasil
30/05/2016 | 15h46
A vista da janela do quarto de hóspedes dava para um frondoso abacateiro que crescia vertiginosamente espalhando seus fortes galhos com intrusão por todos os espaços possíveis da mata. A árvore não produziu um único abacate desde o dia em que teve sua semente lançada da janela do 303 e por própria resiliência, brotou soberana na encosta descampada. Na frente do abacateiro, um pequeno pé de Pau Brasil, que ao contrário do colega dicotiledônio, fora plantado por um grupo de escoteiros em missão de reflorestamento, resistia com bravura. A muda cresce solarenga e demoradamente, desatenta a velocidade dos tempos, desprendida da rapidez tecnológica dos e-mails e mensagens de celulares, e quase, por muito pouco, alcança a janela do quarto de hóspedes. Todos os dias, sempre por volta do meio dia, quase que pontualmente, um pequeno passarinho de peito amarelo cruza o quintal do vizinho, ignora por completo a pequena árvore em extinção e pousa nos galhos do abacateiro. Depois de um breve descanso, ele começa um exercício de vai e vem do galho do abacateiro até a grade da janela do quarto de hóspedes. Quando pousado sobre a grade, o passarinho insiste por alguns instantes em prosseguir o vôo de modo a atravessar o basculante fixo da janela. Ele lança vôo, bate com o bico no vidro, volta para a grade e imediatamente retoma o ciclo na direção do basculante. Depois de muitas insistidas e alguns minutos de esforço, o passarinho de peito amarelo voa de volta a um dos galhos do abacateiro onde descansa por alguns segundos para logo em seguida retornar a grade. Há dois anos é assim. Nos últimos meses, quando escuto do quarto ao lado, onde trabalho, o barulho de seu corpo de encontro ao vidro da janela, me levanto e corro para ver sua insistência. Ele anda se acostumando comigo. Pouco se incomoda com a minha presença na beira da janela. Quase ignora por completo minha voz e meus movimentos. Nos nossos primeiros encontros, só de me ver entrar no quarto de hóspedes, o passarinho de peito amarelo voava para longe à espera da minha ausência. Agora, passados dois anos de contato quase que diário, nem a minha voz, muito menos as frutas ou sementes que coloco próximo ao basculante para atraí-lo de outra maneira, conseguem deslocar sua atenção. Nada é capaz de deter aquele pequeno passarinho de peito amarelo. Nada é capaz de desviá-lo de seu propósito: atravessar o vidro rumo a floresta espelhada em busca da verdadeira felicidade, que mora apenas, somente e unicamente no retrato fiel do abacateiro. Quem sabe o pássaro de peito amarelo, ávido por abacates, pensa que do lado de lá do vidro a árvore espelhada seja menos preguiçosa e viva o encanto pueril dos filhos frutos. Pensei em colocar uns adesivos negros imitando pássaros no vidro, mas talvez isso despertasse a inveja e ira do insistente coleguinha de peito amarelo. Pior que insistir em vão, é perceber que um semelhante conseguiu o feito até então não realizado por você. Não queria ser a contribuinte para a frustração do passarinho já era deverasmente frustrado com a realidade presente. Pensei então em arrancar o vidro e deixá-lo entrar pelo vazio emoldurado para conhecer a realidade do meu quarto. Mas sem o reflexo da floresta, sem a fotocópia do abacateiro, será que ainda sim ele viria? Ou desapareceria para sempre convencido de que a felicidade não existe? Ahhhh, se ao menos o Pau Brasil se decidisse por viver o tempo dos homens e crescesse até alcançar a grade da janela do quarto de hóspedes.... Ahhhh quem sabe assim, o passarinho de peito amarelo não se apaixonaria pelo Brasil real desistindo de vez do espelhamento da ilusão. Ahhhhh, se ao menos o passarinho de peito amarelo pudesse olhar ao seu redor... Ahhhh se pudesse....
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ponto e vírgula
16/05/2016 | 08h51
Ela escreve com ponto e vírgula. Como se tudo que tivesse na vida um fim, continuasse sem a esperança ou alívio da pausa eterna. Como um amor findado e não perdoado. Uma lembrança que você quer esquecer e só pelo desejo do esquecimento a faz perpetuar. Como o descobrir da reencarnação no juízo final. Ou a vida e lembrança eterna no paraíso. É também uma segunda chance. Um recomeço de vida. O centímetro antes do abismo. A pausa antes do suicídio. É a possibilidade de mudar de ideia. É o segundo antes do trem chegar no fim do túnel. É quase morrer de parada respiratória. É um sofrimento que não tem fim. É uma onda do mar que congela em movimento num dia de vinte e sete graus negativos. O ponto e vírgula não é um fim, nem um começo. É o continuar do que se queria terminado. A perpetuação do trauma. Dos amores mal resolvidos. A água do rio que depois de uma longa jornada rumo ao mar, evapora no meio do caminho retornando à nascente. Ela escreve com ponto e vírgula. A pausa mais forte que a vírgula e menos que o ponto. Porque conhece bem as regras gramaticais e as regras da vida.  
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O Não Lugar
02/05/2016 | 13h00
Cristina foi ao shopping. Estava sozinha, como de costume. Comprou um lanche no Mc Donalds. Devorou o hambúrguer com fritas no mesmo ritmo da troca de gritos entre os atendentes e os fazedores de sanduíche. Depois, jogou o lixo da bandeja no receptáculo e caminhou sem destino pelos corredores. Passou por lojas de roupas, lingeries, brinquedos e eletrônicos. Em frente a uma LanHouse viu um casal imprimir fotos de um fim de semana num resort em Cuba. Depois de percorrer os quarto andares, decidiu voltar ao primeiro e enfrentar uma fila de quase cem metros para tomar um sorvete italiano. Cristina digitou a senha, mas a transação não foi concluída. Era dia 20 e o que restou do salário fazia, naquele momento, o caminho da digestão rumo ao intestino. A moça não se abateu com o saldo zerado de sua conta bancária. Ficou uns 15 minutos a observar as pessoas da fila e aqueles que lambiam as bolas de sorvete de sabores variados. Depois desse tempo, ela caminhou novamente até o balcão e tirou uma foto em close do cartaz da sorveteria. Publicou no Instagram, no Twitter e no Facebook uma mão, que alguns seguidores pensaram ser dela, segurando um copinho de sorvete que estampava a logomarca da sorveteria italiana. Propaganda gratuita para seus 159 seguidores, que não valeu nem o regateio por uma mísera bolinha de chocolate Belga. Cristina rolou com a ponta dos dedos a página do Facebook na tela do celular. Buscava novidades. Dentre fotos de comida, tais como as dela e diversos autorretratos, a moça acompanhou publicações de sobre política. Bloqueou uns quatro seguidores que pensavam de maneira oposta a ela. Parou de “seguir” aquela prima que só postava notícias a favor do partido que ela julgava inimigo e clicou na lista de amigos para ver o total de seguidores. 155, depois da exclusão e dos bloqueados. No final da tarde, Cristina pegou um ônibus de volta para casa. Checou novamente as notícias no Facebook, excluiu mais um colega de escola, rezou um “Pai Nosso” e se deitou para dormir. Quando quase adormecia, Cristina recebe uma notificação pelo telefone. Duas amigas do tempo do colégio secundário haviam aceitado seu pedido de amizade. Comemorou o reencontro, curtiu fotos de atores famosos no Instagram e dormiu.
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Sobre o autor

Mariana Luiza

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