Pau Brasil
30/05/2016 | 15h46
<div><tinymce class="clickTinyMCE" title="{'nm_midia_inter_thumb1':'http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2017/12/19/170x96/1_fullsizerender-929123.jpg', 'id_midia_tipo':'2', 'id_tetag_galer':'', 'id_midia':'5a397899c3a56', 'cd_midia':929128, 'ds_midia_link': 'http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2017/12/19/487x377/1_fullsizerender-929123.jpg', 'ds_midia': '', 'ds_midia_credi': '', 'ds_midia_titlo': '', 'cd_tetag': '1', 'cd_midia_w': '487', 'cd_midia_h': '376', 'align': 'Left'}"><figure class="Left" style="width:487px;height:376px;"> <img src="http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2017/12/19/487x377/1_fullsizerender-929123.jpg" alt="" width="487" height="376"> <figcaption> </figcaption> </figure></tinymce>A vista da janela do quarto de h&oacute;spedes dava para um frondoso abacateiro que crescia vertiginosamente espalhando seus fortes galhos com intrus&atilde;o por todos os espa&ccedil;os poss&iacute;veis da mata. A &aacute;rvore n&atilde;o produziu um &uacute;nico abacate desde o dia em que teve sua semente lan&ccedil;ada da janela do 303 e por pr&oacute;pria resili&ecirc;ncia, brotou soberana na encosta descampada. Na frente do abacateiro, um pequeno p&eacute; de Pau Brasil, que ao contr&aacute;rio do colega dicotiled&ocirc;nio, fora plantado por um grupo de escoteiros em miss&atilde;o de reflorestamento, resistia com bravura. A muda cresce solarenga e demoradamente, desatenta a velocidade dos tempos, desprendida da rapidez tecnol&oacute;gica dos e-mails e mensagens de celulares, e quase, por muito pouco, alcan&ccedil;a a janela do quarto de h&oacute;spedes. Todos os dias, sempre por volta do meio dia, quase que pontualmente, um pequeno passarinho de peito amarelo cruza o quintal do vizinho, ignora por completo a pequena &aacute;rvore em extin&ccedil;&atilde;o e pousa nos galhos do abacateiro. Depois de um breve descanso, ele come&ccedil;a um exerc&iacute;cio de vai e vem do galho do abacateiro at&eacute; a grade da janela do quarto de h&oacute;spedes. Quando pousado sobre a grade, o passarinho insiste por alguns instantes em prosseguir o v&ocirc;o de modo a atravessar o basculante fixo da janela. Ele lan&ccedil;a v&ocirc;o, bate com o bico no vidro, volta para a grade e imediatamente retoma o ciclo na dire&ccedil;&atilde;o do basculante. Depois de muitas insistidas e alguns minutos de esfor&ccedil;o, o passarinho de peito amarelo voa de volta a um dos galhos do abacateiro onde descansa por alguns segundos para logo em seguida&nbsp;retornar a&nbsp;grade. H&aacute; dois anos &eacute; assim. Nos &uacute;ltimos meses, quando escuto do quarto ao lado, onde trabalho, o barulho de seu corpo de encontro ao vidro da janela, me levanto e corro para ver sua insist&ecirc;ncia. Ele anda se acostumando comigo. Pouco se&nbsp;incomoda com a minha presen&ccedil;a na beira da janela. Quase ignora por completo minha voz e meus movimentos. Nos nossos primeiros encontros, s&oacute; de me ver entrar no quarto de h&oacute;spedes, o passarinho de peito amarelo voava para longe &agrave; espera da minha aus&ecirc;ncia. Agora, passados dois anos de contato quase que di&aacute;rio, nem a minha voz, muito menos as frutas ou sementes que coloco pr&oacute;ximo ao basculante para atra&iacute;-lo de outra maneira, conseguem deslocar&nbsp;sua aten&ccedil;&atilde;o. Nada &eacute; capaz de deter aquele pequeno passarinho de peito amarelo. Nada &eacute;&nbsp;capaz de desvi&aacute;-lo de seu prop&oacute;sito: atravessar o vidro rumo a floresta espelhada em busca da verdadeira felicidade, que mora apenas, somente e unicamente no retrato fiel do abacateiro. Quem sabe o p&aacute;ssaro de peito amarelo, &aacute;vido por abacates, pensa que do lado de l&aacute; do vidro a &aacute;rvore espelhada seja menos pregui&ccedil;osa e viva o encanto pueril dos filhos frutos. Pensei em colocar uns adesivos negros imitando p&aacute;ssaros no vidro, mas talvez isso despertasse a inveja e ira do insistente coleguinha de peito amarelo. Pior que insistir em v&atilde;o, &eacute; perceber que um semelhante conseguiu o feito at&eacute; ent&atilde;o n&atilde;o realizado por voc&ecirc;. N&atilde;o queria ser a contribuinte para a frustra&ccedil;&atilde;o do passarinho j&aacute; era deverasmente frustrado com a realidade presente. Pensei ent&atilde;o em arrancar o vidro e deix&aacute;-lo&nbsp;entrar pelo vazio emoldurado para conhecer a realidade do meu quarto. Mas sem o reflexo da floresta, sem a fotoc&oacute;pia do abacateiro, ser&aacute; que ainda sim ele viria? Ou desapareceria para sempre convencido de que a felicidade n&atilde;o existe? Ahhhh, se ao menos o Pau Brasil se decidisse por viver o tempo dos homens e crescesse at&eacute; alcan&ccedil;ar a grade da janela do quarto de h&oacute;spedes.... Ahhhh quem sabe assim, o passarinho de peito amarelo n&atilde;o se apaixonaria pelo Brasil real&nbsp;desistindo de vez do espelhamento da ilus&atilde;o. Ahhhhh, se ao menos o passarinho de peito amarelo pudesse olhar ao seu redor... Ahhhh se pudesse....</div> <div><a href="https://instagram.com/p/BG6iC_pleY2/">Clique e veja o passarinho amarelo em a&ccedil;&atilde;o</a></div>
Comentar
Compartilhe
ponto e vírgula
16/05/2016 | 08h51
<div><tinymce class="clickTinyMCE" title="{'nm_midia_inter_thumb1':'http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2017/12/20/170x96/1_fullsizerender_2-930168.jpg', 'id_midia_tipo':'2', 'id_tetag_galer':'', 'id_midia':'5a3a723865327', 'cd_midia':930174, 'ds_midia_link': 'http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2017/12/20/313x340/1_fullsizerender_2-930168.jpg', 'ds_midia': '', 'ds_midia_credi': '', 'ds_midia_titlo': '', 'cd_tetag': '1', 'cd_midia_w': '313', 'cd_midia_h': '340', 'align': 'Left'}"><figure class="Left" style="width:313px;height:340px;"> <img src="http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2017/12/20/313x340/1_fullsizerender_2-930168.jpg" alt="" width="313" height="340"> <figcaption> </figcaption> </figure></tinymce>Ela escreve com ponto e v&iacute;rgula. Como se tudo que tivesse na vida um fim, continuasse sem a esperan&ccedil;a ou al&iacute;vio da pausa eterna. Como um amor findado e n&atilde;o perdoado. Uma lembran&ccedil;a que voc&ecirc; quer esquecer e s&oacute; pelo desejo do esquecimento a faz perpetuar. Como o descobrir da reencarna&ccedil;&atilde;o no ju&iacute;zo final. Ou a vida e lembran&ccedil;a eterna no para&iacute;so. &Eacute; tamb&eacute;m uma segunda chance. Um recome&ccedil;o de vida. O&nbsp;cent&iacute;metro antes do abismo. A pausa antes do suic&iacute;dio. &Eacute; a possibilidade de mudar de ideia. &Eacute; o segundo antes do trem chegar no fim do t&uacute;nel. &Eacute; quase morrer de parada respirat&oacute;ria. &Eacute; um sofrimento que n&atilde;o tem fim. &Eacute; uma onda do mar que congela em movimento num dia de vinte e sete graus negativos. O ponto e v&iacute;rgula n&atilde;o &eacute; um fim, nem um come&ccedil;o. &Eacute; o continuar do que se queria terminado. A&nbsp;perpetua&ccedil;&atilde;o do trauma. Dos amores mal resolvidos. A&nbsp;&aacute;gua do rio que depois de uma longa jornada rumo ao mar, evapora no meio do caminho retornando &agrave; nascente. Ela escreve com ponto e v&iacute;rgula. A pausa mais forte que a v&iacute;rgula e menos que o ponto. Porque conhece bem as regras gramaticais e as regras da vida. &nbsp;</div>
Comentar
Compartilhe
O Não Lugar
02/05/2016 | 13h00
<div><tinymce class="clickTinyMCE" title="{'nm_midia_inter_thumb1':'http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2017/12/20/170x96/1_fullsizerender_300x293-930185.jpg', 'id_midia_tipo':'2', 'id_tetag_galer':'', 'id_midia':'5a3a73d691f93', 'cd_midia':930185, 'ds_midia_link': 'http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2017/12/20/fullsizerender_300x293-930185.jpg', 'ds_midia': '', 'ds_midia_credi': '', 'ds_midia_titlo': '', 'cd_tetag': '1', 'cd_midia_w': '300', 'cd_midia_h': '293', 'align': 'Left'}"><figure class="Left" style="width:300px;height:293px;"> <img src="http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2017/12/20/fullsizerender_300x293-930185.jpg" alt="" width="300" height="293"> <figcaption> </figcaption> </figure></tinymce>Cristina foi ao shopping. Estava sozinha, como de costume. Comprou um lanche no Mc Donalds. Devorou o hamb&uacute;rguer com fritas no mesmo ritmo da troca de gritos entre os atendentes e os fazedores de sandu&iacute;che. Depois, jogou o lixo da bandeja no recept&aacute;culo e caminhou sem destino pelos corredores. Passou por lojas de roupas, lingeries, brinquedos e eletr&ocirc;nicos. Em frente a uma LanHouse viu um casal imprimir fotos de um fim de semana num resort em Cuba. Depois de percorrer os quarto andares, decidiu voltar ao primeiro e enfrentar uma fila de quase cem metros para tomar um sorvete italiano. Cristina digitou a senha, mas a transa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o foi conclu&iacute;da. Era dia 20 e o que restou do sal&aacute;rio fazia, naquele momento, o caminho da digest&atilde;o rumo ao intestino. A mo&ccedil;a n&atilde;o se abateu com o saldo zerado de sua conta banc&aacute;ria. Ficou uns 15 minutos a observar as pessoas da fila e aqueles que lambiam as bolas de sorvete de sabores variados. Depois desse tempo, ela caminhou novamente at&eacute; o balc&atilde;o e tirou uma foto em close do cartaz da sorveteria. Publicou no Instagram, no Twitter e no Facebook uma m&atilde;o, que alguns seguidores pensaram ser dela, segurando um copinho de sorvete que estampava a logomarca da sorveteria italiana. Propaganda gratuita para seus 159 seguidores, que n&atilde;o valeu nem o regateio por uma m&iacute;sera bolinha de chocolate Belga. Cristina rolou com a ponta dos dedos a p&aacute;gina do Facebook na tela do celular. Buscava novidades. Dentre fotos de comida, tais como as dela e diversos autorretratos, a mo&ccedil;a acompanhou publica&ccedil;&otilde;es de sobre pol&iacute;tica. Bloqueou uns quatro seguidores que pensavam de maneira oposta a ela. Parou de seguir aquela prima que s&oacute; postava not&iacute;cias a favor do partido que ela julgava inimigo e clicou na lista de amigos para ver o total de seguidores. 155, depois da exclus&atilde;o e dos bloqueados. No final da tarde, Cristina pegou um &ocirc;nibus de volta para casa. Checou novamente as not&iacute;cias no Facebook, excluiu mais um colega de escola, rezou um Pai Nosso&nbsp;e se deitou para dormir. Quando quase adormecia, Cristina recebe uma notifica&ccedil;&atilde;o pelo telefone. Duas amigas do tempo do col&eacute;gio secund&aacute;rio haviam aceitado seu pedido de amizade. Comemorou o reencontro, curtiu fotos de atores famosos no Instagram e dormiu.</div>
Comentar
Compartilhe
Sobre o autor

Mariana Luiza

[email protected]