Vagalumes, Times Square e Frank Sinatra
02/04/2012 | 20h28
Uma das melhores lembranças que tenho do tempo em que morei em Nova York aconteceu no meu primeiro dia na cidade. Era o início do verão. Um amigo húngaro, O Gabor, foi me buscar no aeroporto. A primeira coisa que fizemos depois de deixar as malas no apartamento foi ver o pôr do sol no Fort Hamilton Park, no Brooklyn. Gabor me levou até lá, e me apresentou a Verrazano-Narrows Bridge, que liga o Brooklyn a Staten Island. 
Ponte Verrazano-Narrows
Ponte Verrazano-Narrows
Quando o sol se pôs, o parque que era muito florido e arborizado ficou repleto de vagalumes. Eu fiquei estonteada com a quantidade de light bugs. Tentei tirar fotos, filmar, mas a bateria da minha câmera fotográfica tinha se esgotado antes que eu pudesse registrar qualquer luz. Gabor não entendeu a minha fascinação pelos vagalumes e concluiu, erroneamente, que na terra da floresta Amazônica não tinha inseto semelhante. No dia seguinte, resolvi andar sem rumo pela cidade insone. Peguei o metrô na 45th street, na direção da estação mais procurada pelos turistas. A Times Square. Eu me lembro como se fosse hoje, o medo que eu senti quando subi as escadas rolantes da estação do metrô dei de cara com aquela torre de babel de pernas, sacolas, luzes e barulhos. Era tanto tudo e tudo tanto. Meu rosto queimava com o calor das lâmpadas dos painéis luminosos. Imagens tão nítidas, provavelmente 4K ou sei lá qual outra tecnologia que ainda não sou capaz de acompanhar, estampavam anúncios de sapatos, filmes e cremes antienvelhecimento.  
Eu fiquei agoniada. O excesso das luzes nunca me fascinou e a obviedade daquilo tudo fora de longe a Nova York que eu iria me apaixonar. Andei um pouco por ali, comi uma fatia de pizza, e voltei correndo para o metrô overwhelmed. Eu já conhecia a palavra, mas só naquela tarde, senti seu significado.
Fugindo da Times Square, desci na estação Brooklyn Brigde/City Hall e atravessei a pé a ponte do Brooklyn de volta pra casa. Enquanto eu caminhava sobre a ponte, fazia as contas dos dias restantes, rezando para que passassem logo e que eu pudesse voltar pro Brasil. Mal sabia eu, que em pouquíssimo tempo, Nova York imperaria sobre os meus desejos mais mesquinhos de ser alguém importante. Em poucos dias, eu me apaixonaria para sempre pela grandiosa maçã.
Times Square, 2008
Times Square, 2008
Frank Sinatra cantou If I can make it there. I'll make it anywhere... Jay-Z escreveu... In New York, Concrete jungle where dreams are made of, There's nothing you can’t do, Now you're in New York, These streets will make you feel brand new, Big lights will inspire you, Let's hear it for New York, New York, New York.
Versos sobre a imponência das luzes e concretos da cidade que é mais importante do que qualquer um de seus habitantes. Nova York é mesmo assim. Um exercício de humildade. Uma cidade que não precisa de habitantes. Brilha tanto e por si só, que é impossível não passar por lá sem se perceber insignificante. Sem mudar um pouco de si mesmo. Nos dois primeiros dias na cidade, desde o primeiro pôr do sol, eu não tinha certeza do que iria me acontecer nos quase dois anos quero lá viveria. Mas de antemão sabia que aquela metrópole tão imponente iria de alguma forma me transformar para sempre. Das luzes da Broadway às luzes dos vagalumes no Brooklyn Fort Hamilton Park, não houve um dia sequer que a cidade não impôs seu brilho e me fez do tamanho real que eu sou. Pequena demais.   Frank Sinatra - New York, New York Jay-Z - Empire State of Mind
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Sobre o autor

Mariana Luiza

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