Pequena demais
02/04/2012 | 20h28
<div>Uma das&nbsp;lembran&ccedil;as mais v&iacute;vidas que tenho do tempo em que morei em Nova York aconteceu no meu primeiro dia na cidade. Era o in&iacute;cio do ver&atilde;o. Um amigo h&uacute;ngaro, Gabor, me recebeu no aeroporto e juntos atravessamos a cidade de metr&ocirc;, at&eacute; minha nova casa, no Brooklyn.Trocamos algumas vezes de esta&ccedil;&otilde;es, mudando de plataformas, subindo e descendo degraus, atravessando enormes corredores at&eacute; chegar ao trem da linha R. Esta&ccedil;&atilde;o do meu endere&ccedil;o. Eu, menina criada numa pequena cidade do interior, me assustei com a quantidade de baldea&ccedil;&otilde;es, trens e passageiros. E pensei, por um instante, que jamais conseguiria ter feito tal travessia sozinha. Depois de deixar as malas no apartamento, fomos juntos assistir&nbsp;o p&ocirc;r-do-sol no Fort Hamilton Park, no mesmo bairro. Gabor me levou at&eacute; l&aacute;, e me apresentou a Verrazano-Narrows&nbsp;Bridge, que liga o Brooklyn a Staten Island.&nbsp;</div> <div><tinymce class="clickTinyMCE" title="{'nm_midia_inter_thumb1':'http://www.folha1.com.br/_midias/png/2017/12/12/170x96/1_captura_de_tela_2017_12_12_a_s_11_12_07_pm-923635.png', 'id_midia_tipo':'2', 'id_tetag_galer':'', 'id_midia':'5a307ee64853b', 'cd_midia':923635, 'ds_midia_link': 'http://www.folha1.com.br/_midias/png/2017/12/12/captura_de_tela_2017_12_12_a_s_11_12_07_pm-923635.png', 'ds_midia': 'Ponte Verrazano-Narrows', 'ds_midia_credi': '', 'ds_midia_titlo': 'Ponte Verrazano-Narrows', 'cd_tetag': '1', 'cd_midia_w': '445', 'cd_midia_h': '332', 'align': 'Left'}"><figure class="Left" style="width:445px;height:332px;"> <img src="http://www.folha1.com.br/_midias/png/2017/12/12/captura_de_tela_2017_12_12_a_s_11_12_07_pm-923635.png" alt="Ponte Verrazano-Narrows" width="445" height="332"> <figcaption> Ponte Verrazano-Narrows </figcaption> </figure></tinymce>Quando o sol se p&ocirc;s, o parque que era muito florido e arborizado ficou repleto de vagalumes. Eu fiquei estonteada com a quantidade de <em>light bugs.</em>&nbsp;Pela primeira vez, desde que havia chegado, a quantidade de pessoas e movimentos por metro quadrado me era familiar: pequena.</div> <div>Tentei fotografar os vagalumes mas a&nbsp;bateria da c&acirc;mera tinha se esgotado antes que eu pudesse registrar qualquer feixe de luz animal. Gabor n&atilde;o entendeu a minha fascina&ccedil;&atilde;o pelos insetos reluzentes e concluiu, erroneamente, que na terra das florestas Amaz&ocirc;nica e Atl&acirc;ntica n&atilde;o tinha inseto semelhante. &nbsp; &nbsp;</div> <div>No dia seguinte, ainda tentando me adaptar a const&acirc;ncia dos movimentos, resolvi andar sem rumo pela cidade insone. Peguei o metr&ocirc; na 45th Street, na dire&ccedil;&atilde;o da esta&ccedil;&atilde;o mais procurada pelos turistas. A Times Square. Lembro-me como se fosse hoje, o medo que eu senti&nbsp;quando subi as escadas rolantes da esta&ccedil;&atilde;o e dei de cara com aquela torre de babel de pernas, sacolas, luzes e barulhos.</div> <div>Era tanto tudo e tudo tanto.</div> <div>Meu rosto queimava com o calor das l&acirc;mpadas dos pain&eacute;is luminosos. Imagens t&atilde;o n&iacute;tidas, provavelmente 4K ou sei l&aacute; qual outra tecnologia que ainda n&atilde;o sou capaz de acompanhar, estampavam an&uacute;ncios de sapatos, filmes e cremes antienvelhecimento. Meus ouvidos descompassavam na tentativa de distinguir os sons emitidos pelos pain&eacute;is, buzinas e motores dos carros, an&uacute;ncios dos musicais e o falar demasiado em diferentes l&iacute;nguas de turistas alvoro&ccedil;ados.</div> <div>Eu fiquei agoniada. O excesso das luzes, sons e imagens nunca me fascinou e a obviedade daquilo tudo fora&nbsp;de longe a Nova York que eu iria me apaixonar. Andei um pouco por ali, comi uma fatia de pizza, e voltei correndo para o metr&ocirc;&nbsp;<em>overwhelmed</em>. Eu j&aacute; conhecia a palavra, mas s&oacute; naquela tarde, senti no corpo seu significado.</div> <div>Fugindo da Times Square, desci na esta&ccedil;&atilde;o Brooklyn Brigde/City Hall e atravessei a p&eacute; a ponte do Brooklyn de volta pra casa. E enquanto caminhava, fazia um c&aacute;lculo mental dos longos meses que ainda me restariam naquela cidade, ao qual eu mal havia chegado, mas j&aacute; me sentia completamente saturada. Eu n&atilde;o fazia ideia, mas&nbsp;em&nbsp;poucos dias, eu me apaixonaria para sempre pelas pequenas peculiaridades daquela grandiosa ma&ccedil;&atilde;.&nbsp;</div> <div><tinymce class="clickTinyMCE" title="{'nm_midia_inter_thumb1':'http://www.folha1.com.br/_midias/png/2017/12/12/170x96/1_captura_de_tela_2017_12_12_a_s_11_12_53_pm-923648.png', 'id_midia_tipo':'2', 'id_tetag_galer':'', 'id_midia':'5a30814a2a6df', 'cd_midia':923648, 'ds_midia_link': 'http://www.folha1.com.br/_midias/png/2017/12/12/captura_de_tela_2017_12_12_a_s_11_12_53_pm-923648.png', 'ds_midia': 'Times Square, 2008', 'ds_midia_credi': '', 'ds_midia_titlo': 'Times Square, 2008', 'cd_tetag': '1', 'cd_midia_w': '376', 'cd_midia_h': '596', 'align': 'Left'}"><figure class="Left" style="width:376px;height:596px;"> <img src="http://www.folha1.com.br/_midias/png/2017/12/12/captura_de_tela_2017_12_12_a_s_11_12_53_pm-923648.png" alt="Times Square, 2008" width="376" height="596"> <figcaption> Times Square, 2008 </figcaption> </figure></tinymce>Frank Sinatra cantou "<em>If I can make it there. I'll make it anywhere</em>"... Jay-Z escreveu... "<em>In New York,</em> <em> Concrete jungle where dreams are made of, There's nothing you can’t do, Now you're in New York, These streets will make you feel brand new, Big lights will inspire you,</em> <em> Let's hear it for New York, New York, New York."</em></div> <div>Versos sobre a impon&ecirc;ncia das luzes e concretos da cidade constru&iacute;da pelo homem, mas que parece n&atilde;o precisar de habitantes. Nova York brilha tanto e por si s&oacute;,&nbsp;que&nbsp;&eacute; quase imposs&iacute;vel n&atilde;o passar por l&aacute; sem se perceber minimamente insignificante.&nbsp;</div> <div>Desde o primeiro p&ocirc;r-do-sol na cidade, eu n&atilde;o tinha certeza do que iria me acontecer nos pr&oacute;ximos meses&nbsp;em&nbsp;que l&aacute; viveria, mas de antem&atilde;o sabia que aquela metr&oacute;pole t&atilde;o imponente iria de alguma forma me transformar para sempre.</div> <div>Das luzes da Broadway &agrave;s luzes dos vagalumes no Brooklyn Fort Hamilton Park, n&atilde;o houve um dia sequer que Nova York n&atilde;o imp&ocirc;s seu brilho e me&nbsp;fez sentir do tamanho real que eu&nbsp;sou. Pequena demais. &nbsp; <a href="http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&amp;v=aqlJl1LfDP4#!">Frank Sinatra - New York, New York</a> <a href="http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&amp;v=0UjsXo9l6I8">Jay-Z - Empire State of Mind</a></div>
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Sobre o autor

Mariana Luiza

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