Quarentena
30/03/2020 | 11h23
<div><tinymce class="clickTinyMCE" title="{'nm_midia_inter_thumb1':'http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2020/03/30/170x96/1_quarentena-1594904.jpg', 'id_midia_tipo':'2', 'id_tetag_galer':'', 'id_midia':'5e81ffeeb22c7', 'cd_midia':1594909, 'ds_midia_link': 'http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2020/03/30/487x377/1_quarentena-1594904.jpg', 'ds_midia': '', 'ds_midia_credi': '', 'ds_midia_titlo': '', 'cd_tetag': '1', 'cd_midia_w': '487', 'cd_midia_h': '377', 'align': 'Left'}"><figure class="Left" style="width:487px;height:377px;"> <img src="http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2020/03/30/487x377/1_quarentena-1594904.jpg" alt="" width="487" height="377"> <figcaption> </figcaption> </figure></tinymce>Quando eu era crian&ccedil;a, ao meio dia da quarta-feira de Cinzas, minha av&oacute;, m&atilde;e do meu pai, iniciava seu ostracismo&nbsp;de quaresma. Durante os quarenta dias que antecediam o Domingo de Ramos, ela se recolhia em casa, prendia os cabelos, se desnudava de qualquer vaidade usando uma t&uacute;nica roxa horrorosa. Maria n&atilde;o fazia quase nada al&eacute;m de rezar e preparar as refei&ccedil;&otilde;es da fam&iacute;lia, sem carne &ndash; extremamente proibida durante o chamado jejum da quarentena. A casa n&atilde;o arrumava, o ch&atilde;o n&atilde;o varria.O bordado postergava. Doces n&atilde;o comia. Qualquer forma de prazer, mesmo que m&iacute;nima, era completamente condenada. Tudo isso em penit&ecirc;ncia Crist&atilde;. Uma espera de quarenta dias para livrar o corpo dos pecados mundanos devidamente bem compensada com os ovos e chocolates de P&aacute;scoa.</div> <div>At&eacute; hoje, algumas igrejas de cidades muito cat&oacute;licas, como S&atilde;o Jo&atilde;o Del Rey e Tiradentes, cobrem seus pisos&nbsp;com flores de&nbsp;alfazema deixando um perfume hipn&oacute;tico que atrai at&eacute; pag&atilde;os &ndash; como eu. Segundo a tradi&ccedil;&atilde;o, a alfazema perfuma a igreja disfar&ccedil;ando o cheiro ruim da falta de limpeza e afasta as tra&ccedil;as e baratas.&nbsp;</div> <div>Esses dias, conversando com minha m&atilde;e sobre a reclus&atilde;o imposta pelo Covid-19, recebo dela a pergunta &ldquo;At&eacute; quando vai durar esta quarentena?&rdquo;.Minha m&atilde;e estava completamente agoniada com as incertezas do futuro &ndash; como se futuro houvesse certeza alguma - e da extens&atilde;o desta quarentena que poderia durar bem mais do que quarenta dias.</div> <div>"Quando voltaremos a ter uma vida normal?"</div> <div>Em quase duas semanas&nbsp;de reclus&atilde;o pego-me a pensar se realmente desejo voltar &agrave; vida &ldquo;normal&rdquo; que tinha. Enquanto empres&aacute;rios mostram suas garras selvagens destilando progn&oacute;sticos de &ldquo;5.000, 7.000 ou 12.000 velhinhos mortos&rdquo;, moradores da Baixada Santista enxergam um c&eacute;u azul n&atilde;o visto na cidade desde a d&eacute;cada de 70. No c&eacute;u de Santos ressurgiu aos olhos dos moradores, um aglomerado de estrelas &Ocirc;mega Centauri, antes cobertas pelo c&eacute;u marrom da polu&ccedil;&atilde;o. &Eacute; para essa vida normal que queremos retornar?</div> <div>&Eacute; este o pa&iacute;s que n&atilde;o pode parar?</div> <div>Jo&atilde;o Guimar&atilde;es Rosa escreveu: &ldquo;A tra&ccedil;a n&atilde;o pode com a alfazema.&rdquo; Sejamos ent&atilde;o as flores que combater&atilde;o o v&iacute;rus da intoler&acirc;ncia, do individualismo, e do capitalismo exacerbado e inconsequente que nos move em alta velocidade rumo ao fim do mundo.</div>
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Sobre o autor

Mariana Luiza

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