De maior
02/04/2015 | 00h01
O policial militar Josué da Silva se destaca no quartel por sua testa larga. Quando criança, sua mãe lhe dizia que das grandes cabeças é que saem as melhores ideias. Ela sonhava em ter um filho jurista ou cientista, mas foi contrariada quando Josué abandonou os estudos após a conclusão do ensino médio. O policial, que nunca gostou de ler, nem tampouco estudar, tinha um único objetivo desde a adolescência: ter um corpo tão grande quanto sua cabeça. E ele conseguiu. Ora jogando futevôlei na praia do Flamengo, ora malhando numa academia do Catete. Diariamente tomando esteroides anabólicos. O que sua mãe nunca soube é que de fato Josué teve grandes ideias ao longo da vida. Uma delas era o contrabando e uso de esteroides sem conhecimento algum de seus colegas de trabalho. O policial passava despercebido até nas avaliações médicas da polícia militar do estado do Rio de Janeiro. Só não me pergunte como. Era meio dia de uma sexta-feira ensolarada, quando Josué esquentava sua grande cachola em busca de uma ideia para resolver um problema matinal. Ele havia apreendido um menor, que se negava a dizer o nome, e tinha aparentemente 12 anos, mas afirmava veemente que era maior de idade. “
- Já disse, eu tenho 18 anos”.
O menor não identificado foi pego sentado no banco do motorista da viatura da polícia esticando sua perna ao máximo na tentativa de acelerar o veiculo. O veiculo em questão, era a viatura que Josué dirigia e esqueceu aberta com a chave na ignição enquanto negociava a venda de barbitúricos há poucos metros dali. Pedro Barbosa, colega de ronda de Josué deixou a viatura para ir ao banheiro e voltou no ato do flagrante. Pegou o menor com metade da bunda no banco e um pé no acelerador. Pediu uma explicação ao colega.
- Como um policial experiente larga um carro aberto com a chave na ignição? –Onde tu tava?”
Enquanto Josué se esforçava para ter uma grande ideia que o tirasse dessa encrenca, o menino sem nome se contorcia algemado no banco do carona. Josué dirigia rumo a o conselho tutelar. Pedro Barbosa exigia uma explicação. E o menor sem nome se esperneava exigindo ser levado a uma delegacia. “
- Eu quero ser preso. Eu já passei da maioridade”...
- Moleque, tu fumou crack? Pare de falar merda. Tu não sabe o que é cadeia. Vamos te levar pro conselho e lá tu deve passar uns dias na Fundação Casa.
- Prefiro morrer! Eu já disse! Tenho 18 anos, porra!!
Tomou um safanão na cara.
- Cadê seus documentos, então?
- Não tenho.
- Então tu vai pro conselho tutelar pra fazer a ocorrência.
- Mas eu não quero isso, não. Não tá certo. Eu tenho que ser preso...
- Tu só pode comer merda. Tu tem ideia do que é uma cadeia?
- Claro que tenho. Vou chegar lá e vão logo me dar um uniforme limpinho com uma roupa de cama bem cheirosa. Na manhã seguinte eu começo a estudar no supletivo da cadeia. Vou aprender a ler e escrever o nome que eu quiser ter. De tarde tem oficinas profissionalizantes –como a de panificação ou marcenaria, pra quando eu sair poder logo arrumar um emprego. Quero ser atendente do Mc Donald. Eu sei que a vida na cadeia não é só moleza. Tenho que acordar cedo limpar as celas, os banheiros e ajudar a preparar e servir as refeições. São seis! Seis refeições diárias. De noite, vou dormir pra começar tudo no dia seguinte. E vai ser assim até eu ter a liberdade.
Pedro Barbosa parou imediatamente de questionar onde Josué estava ao largar a viatura da policia aberta com a chave na ignição. Josué da Silva imediatamente se esqueceu de inventar uma grande desculpa. E os dois se viraram para o banco de trás a encarar o moleque.
- Na Fundação CASA, não tem nada disso não. Lá eles colocam sacos plásticos na sua cabeça, dão choques elétricos e até pau de arara. Menino vira moça na mão de monitor e dos mais velhos. Dormimos de valete e vira e mexe a gente acha no corpo uma marca nova de cassetete ou queimadura. Eu já cresci, não quero mais essa vida, não. Agora quero a sorte de ser DE MAIOR.
- Menino, cadeia não é lugar de criança. Você é só uma criança! Precisa de escola, família. Onde está a sua mãe? Argumenta Pedro.
- Eu sou homem! Não tenho mãe, não. Insiste o menino sem nome.
- Mas tu é burro mesmo... A cadeia não é como você tá pensando, não moleque. Diz Josué.
- Tenta roubar a viatura da polícia e ainda acha que vai pra cadeia ter essa vida de mordomia. Tu é doido ou o que? Pergunta Pedro.
- Sou doido não, tio. Eu quero mesmo é ser preso. Na cadeia é que é lugar de menor infrator.
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Sobre o autor

Mariana Luiza

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