A foto da foto que eu quero
02/05/2011 | 13h00
<p style="text-align: left;"><tinymce class="clickTinyMCE" title="{'nm_midia_inter_thumb1':'http://www.folha1.com.br/_midias/png/2017/12/12/170x96/1_captura_de_tela_2017_12_12_a_s_8_52_50_pm-923205.png', 'id_midia_tipo':'2', 'id_tetag_galer':'', 'id_midia':'5a305e0ae0cca', 'cd_midia':923210, 'ds_midia_link': 'http://www.folha1.com.br/_midias/png/2017/12/12/487x377/1_captura_de_tela_2017_12_12_a_s_8_52_50_pm-923205.png', 'ds_midia': 'proximidades do WTC, Nova Iorque (2009)', 'ds_midia_credi': '', 'ds_midia_titlo': 'proximidades do WTC, Nova Iorque (2009)', 'cd_tetag': '1', 'cd_midia_w': '487', 'cd_midia_h': '377', 'align': 'Left'}"><figure class="Left" style="width:487px;height:377px;"> <img src="http://www.folha1.com.br/_midias/png/2017/12/12/487x377/1_captura_de_tela_2017_12_12_a_s_8_52_50_pm-923205.png" alt="proximidades do WTC, Nova Iorque (2009)" width="487" height="377"> <figcaption> proximidades do WTC, Nova Iorque (2009) </figcaption> </figure></tinymce><span style="font-family: verdana, geneva, sans-serif; font-size: 12pt; color: #000000;">A trag&eacute;dia do World Trade Center &eacute; considerada um dos eventos mais fotografados da hist&oacute;ria da humanidade. Imagens feitas por policiais, bombeiros e transeuntes registraram o choque dos avi&otilde;es, a queda das torres e o desespero das pessoas por debaixo da nuvem de poeira que se formou sobre Manhattan naquele 11 de Setembro. Muitas destas fotografias circularam e ainda circulam por jornais e endere&ccedil;os eletr&ocirc;nicos. Por&eacute;m, as imagens que me interessam s&atilde;o bem mais singelas e menos ousadas e ilustram o cap&iacute;tulo seguinte daquele drama. Durante os dias decorrentes aos atentados, enquanto a imagem do choque do avi&atilde;o em uma das torres se repetia constantemente na televis&atilde;o, fotografias de milhares de desaparecidos surgiam nos postes da cidade, nas esta&ccedil;&otilde;es de metr&ocirc; e nos tapumes de obra. Manhattan havia se tornado um imenso &aacute;lbum de retratos. A maior concentra&ccedil;&atilde;o destas fotografias ficava na Union Square, e quando foi constatado que a possibilidade de encontrar sobreviventes era quase zero, o extenso mural de fotos esperan&ccedil;osas se transformou num painel de homenagens as v&iacute;timas. O tempo se encarregou de destruir as fotografias. Mas ainda hoje, &eacute; poss&iacute;vel encontrar algumas fotos colocadas estrategicamente bem no sul da ilha. Sete anos depois dos atentados, eu estava num vag&atilde;o de metr&ocirc; rumo &agrave; Manhattan. Assim que cruzamos o Rio East, o maquinista diminuiu a velocidade e entoou pelo microfone o hino americano em tributo &agrave;s v&iacute;timas da trag&eacute;dia. Desci na Rector Street decidida a seguir duas turistas peruanas que se comoveram com as palavras do maquinista. Elas registravam tudo a caminho do Ground Zero e ficaram por mais de vinte minutos fotografando um conjunto de fotografias, cartazes de protesto, bandeiras americanas e ursinhos de pel&uacute;cia, pregados &agrave;s grades do terreno onde, um dia, esteve o World Trade Center. N&atilde;o havia fotos do momento em que o segundo avi&atilde;o atingiu uma das torres. Nem do inc&ecirc;ndio. Nem dos bombeiros cheios de poeira. Apenas fotografias cotidianas e bilhetes de saudades. Um noivo prestes a entrar no altar, um almo&ccedil;o em fam&iacute;lia, f&eacute;rias nas montanhas com os amigos e a comemora&ccedil;&atilde;o do dia dos namorados. “"<em>Voc&ecirc; ainda est&aacute; aqui"</em>”. “"<em>Sinto sua falta</em>”". "“<em>Eu vou te amar por toda vida</em>”". As peruanas fotografavam tudo. Fotos dos bilhetes. <strong>Fotos das fotos</strong>. Na semana que se passou, um novo cap&iacute;tulo deste epis&oacute;dio foi inaugurado. Desta vez, com uma fotografia inexistente. Osama Bin Laden morto. Barack Obama se op&otilde;e a divulgar as imagens, e a maioria dos americanos, segundo a rede de TV NBC, ap&oacute;ia a decis&atilde;o do presidente. Entretanto, a divulga&ccedil;&atilde;o das fotos foi o tema constante nos meios de comunica&ccedil;&atilde;o desde que a morte do terrorista foi anunciada, no in&iacute;cio deste m&ecirc;s. Mas ser&aacute; mesmo que n&oacute;s precisamos e queremos ver isso? A obsess&atilde;o por imagens e fotografias de atrocidades n&atilde;o &eacute; de hoje. Susan Sontag, escritora e ensa&iacute;sta norte americana, j&aacute; abordava o tema h&aacute; mais de trinta anos nos livros <em><span style="background-color: #ffffff;">Sobre Fotogra</span><span style="background-color: #ffffff;">fia</span> e Diante da Dor dos outros.</em>&nbsp;"<em>Captar uma morte no momento exato em que ocorre e embalsam&aacute;-la para sempre &eacute; algo que s&oacute; as c&acirc;meras podem fazer (...). Fotografias tiradas por fot&oacute;grafos no campo de batalha no momento da morte (ou pouco antes dela) s&atilde;o de longe as fotos de guerra mais celebradas e reproduzidas."</em>&nbsp;diz, Susan. A escritora tamb&eacute;m argumenta, que fotografar uma trag&eacute;dia &eacute; quase que a mesma coisa do que ter vivido aquela experi&ecirc;ncia. Ver a fotografia tamb&eacute;m pode transmitir uma sensa&ccedil;&atilde;o parecida. Eu concordo. A imagem &eacute; mesmo muito poderosa. A vis&atilde;o &eacute; o sentido humano mais utilizado e valorizado pela sociedade ocidental. Basta <em>observar</em> a import&acirc;ncia da televis&atilde;o, da internet, e de outros meios de comunica&ccedil;&atilde;o, para <em>ver</em> o quanto a imagem &eacute; supervalorizada. At&eacute; o nosso vocabul&aacute;rio tem express&otilde;es, como “observa&ccedil;&atilde;o”, “ponto de vista” etc. A fotografia &eacute; a forma mais tang&iacute;vel de se participar, e registrar sua participa&ccedil;&atilde;o, num acontecimento e os editores de jornais impressos ou televisionados sabem disso. S&atilde;o eles que escolhem diariamente a imagem que ir&aacute; ilustrar melhor a mensagem que querem informar, e n&oacute;s ficamos ref&eacute;ns desta enxurrada de fotografias e v&iacute;deos de atrocidades. Pior do que isso, n&oacute;s, mesmo sem escolher, nos tornamos c&uacute;mplices da banaliza&ccedil;&atilde;o da morte e do sofrimento, quando uma mesma cena, como aquela em que o avi&atilde;o se choca com uma das torres, se repete por in&uacute;meras e in&uacute;meras vezes. Escrevo isso, porque apesar de concordar que n&oacute;s somos atra&iacute;dos por imagens tr&aacute;gicas, acredito que podemos ajustar o foco para enxergar outras figuras. Eu n&atilde;o preciso ver a foto de Bin Laden morto. Acredito que a super exposi&ccedil;&atilde;o desta imagem do terrorista s&oacute; contribuiu para fomentar o desejo daqueles que querem vingar sua morte. N&oacute;s precisamos ter um senso cr&iacute;tico de qual foto sobre determinado evento queremos e precisamos ver. Qual foto da foto queremos registrar. &Eacute; um exerc&iacute;cio dif&iacute;cil de ajustar o olhar para aquilo que realmente nos importa. Ent&atilde;o, fica aqui a pergunta, nesta minha primeira cr&ocirc;nica. Se estivesse em frente a um mural com todas as fotografias de todos os cap&iacute;tulos desta parte de hist&oacute;ria americana, qual foto da foto voc&ecirc; gostaria de registrar?</span></p>
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Sobre o autor

Mariana Luiza

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