A foto da foto que eu quero
02/05/2011 | 13h00

proximidades do WTC, Nova Iorque (2009)
proximidades do WTC, Nova Iorque (2009)
A tragédia do World Trade Center é considerada um dos eventos mais fotografados da história da humanidade. Imagens feitas por policiais, bombeiros e transeuntes registraram o choque dos aviões, a queda das torres e o desespero das pessoas por debaixo da nuvem de poeira que se formou sobre Manhattan naquele 11 de Setembro. Muitas destas fotografias circularam e ainda circulam por jornais e endereços eletrônicos. Porém, as imagens que me interessam são bem mais singelas e menos ousadas e ilustram o capítulo seguinte daquele drama. Durante os dias decorrentes aos atentados, enquanto a imagem do choque do avião em uma das torres se repetia constantemente na televisão, fotografias de milhares de desaparecidos surgiam nos postes da cidade, nas estações de metrô e nos tapumes de obra. Manhattan havia se tornado um imenso álbum de retratos. A maior concentração destas fotografias ficava na Union Square, e quando foi constatado que a possibilidade de encontrar sobreviventes era quase zero, o extenso mural de fotos esperançosas se transformou num painel de homenagens as vítimas. O tempo se encarregou de destruir as fotografias. Mas ainda hoje, é possível encontrar algumas fotos colocadas estrategicamente bem no sul da ilha. Sete anos depois dos atentados, eu estava num vagão de metrô rumo à Manhattan. Assim que cruzamos o Rio East, o maquinista diminuiu a velocidade e entoou pelo microfone o hino americano em tributo às vítimas da tragédia. Desci na Rector Street decidida a seguir duas turistas peruanas que se comoveram com as palavras do maquinista. Elas registravam tudo a caminho do Ground Zero e ficaram por mais de vinte minutos fotografando um conjunto de fotografias, cartazes de protesto, bandeiras americanas e ursinhos de pelúcia, pregados às grades do terreno onde, um dia, esteve o World Trade Center. Não havia fotos do momento em que o segundo avião atingiu uma das torres. Nem do incêndio. Nem dos bombeiros cheios de poeira. Apenas fotografias cotidianas e bilhetes de saudades. Um noivo prestes a entrar no altar, um almoço em família, férias nas montanhas com os amigos e a comemoração do dia dos namorados. “Você ainda está aqui”. “Sinto sua falta”. “Eu vou te amar por toda vida”. As peruanas fotografavam tudo. Fotos dos bilhetes. Fotos das fotos. Na semana que se passou, um novo capítulo deste episódio foi inaugurado. Desta vez, com uma fotografia inexistente. Osama Bin Laden morto. Barack Obama se opõe a divulgar as imagens, e a maioria dos americanos, segundo a rede de TV NBC, apóia a decisão do presidente. Entretanto, a divulgação das fotos foi o tema constante nos meios de comunicação desde que a morte do terrorista foi anunciada, no início deste mês. Mas será mesmo que nós precisamos e queremos ver isso? A obsessão por imagens e fotografias de atrocidades não é de hoje. Susan Sontag, escritora e ensaísta norte americana, já abordava o tema há mais de trinta anos nos livros Sobre Fotografia e Diante da Dor dos outros. "Captar uma morte no momento exato em que ocorre e embalsamá-la para sempre é algo que só as câmeras podem fazer (...). Fotografias tiradas por fotógrafos no campo de batalha no momento da morte (ou pouco antes dela) são de longe as fotos de guerra mais celebradas e reproduzidas." diz, Susan. A escritora também argumenta, que fotografar uma tragédia é quase que a mesma coisa do que ter vivido aquela experiência. Ver a fotografia também pode transmitir uma sensação parecida. Eu concordo. A imagem é mesmo muito poderosa. A visão é o sentido humano mais utilizado e valorizado pela sociedade ocidental. Basta observar a importância da televisão, da internet, e de outros meios de comunicação, para ver o quanto a imagem é supervalorizada. Até o nosso vocabulário tem expressões, como “observação”, “ponto de vista” etc. A fotografia é a forma mais tangível de se participar, e registrar sua participação, num acontecimento e os editores de jornais impressos ou televisionados sabem disso. São eles que escolhem diariamente a imagem que irá ilustrar melhor a mensagem que querem informar, e nós ficamos reféns desta enxurrada de fotografias e vídeos de atrocidades. Pior do que isso, nós, mesmo sem escolher, nos tornamos cúmplices da banalização da morte e do sofrimento, quando uma mesma cena, como aquela em que o avião se choca com uma das torres, se repete por inúmeras e inúmeras vezes. Escrevo isso, porque apesar de concordar que nós somos atraídos por imagens trágicas, acredito que podemos ajustar o foco para enxergar outras figuras. Eu não preciso ver a foto de Bin Laden morto. Acredito que a super exposição desta imagem do terrorista só contribuiu para fomentar o desejo daqueles que querem vingar sua morte. Nós precisamos ter um senso crítico de qual foto sobre determinado evento queremos e precisamos ver. Qual foto da foto queremos registrar. É um exercício difícil de ajustar o olhar para aquilo que realmente nos importa. Então, fica aqui a pergunta, nesta minha primeira crônica.  Se estivesse em frente a um mural com todas as fotografias de todos os capítulos desta parte de história americana, qual foto da foto você gostaria de registrar?

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Sobre o autor

Mariana Luiza

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