Mozarte
02/01/2012 | 21h15
Imagem do filme, Mozarte
Imagem do filme, Mozarte
Um conto de 2006, premiado na Áustria.
Mozarte         
- Mozarte! Mozarte! Venha, a janta está na mesa!
Mozarte! Mozarte, este é o meu nome. Na verdade ele se escreve Mozart, mas todo mundo fala Mozarte, e há bem pouco tempo descobri, que na verdade deveriam me chamar Mozar. Sem o “t”. Eu detestava meu nome. Ele sempre foi diferente de todos os outros nomes que eu conheço. E por causa disso, eu virei a chacota entre os meus colegas de escola, da galera da rua, do pessoal da praia... Aqui na favela, todo mundo tem nome diferente do pessoal do asfalto. Uelinton, Uoxinton, Kelly. Só que além de diferente dos playboys, meu nome era estranho até no morro. Eu só passei a gostar dele, quando descobri que além de mim, havia outro Mozart no mundo. E que apesar de tantas diferenças, nós tínhamos muitas coisas em comum... Foi a minha mãe quem escolheu. Ela disse, que quando estava grávida de mim, trabalhou na casa de um homem que só ouvia Mozart.
Minha mãe conta, que o patrão dela era músico, maestro de uma orquestra, que tocava sempre naquele teatro de rico, cheio de vidrinhos coloridos, que tem no centro da cidade. Ela conta também, que ele tinha uns instrumentos muito estranhos. Com nomes muito esquisitos. Oboé, fagotes, trompas... Um violão que de tão grande nem dava para tocar no colo. E na sala, uma máquina que tinha teclas, mas não era piano e o som saía por uns tubos. Quando minha mãe contava estas histórias eu ficava só imaginando que troço era esse. Que som que isso tinha.
- Mãe, ele canta bem?
- Ele não canta, meu filho. As músicas não têm letras...
- Mas como assim? Isso deve ser um saco, hein...
- São só instrumentos, mas quando você ouvir...
- E é ele que toca?
- Deve ser...
- Ele toca pandeiro?
- Acho que não.
- Ele toca aqueles instrumentos esquisitos que a senhora fala, né... -
Isso, Mozart. Ele era um gênio da música...
Eu adorava ouvir minha mãe falar de Mozart, mesmo sabendo que ela conhecia tão pouco sobre ele. É que quando ela dizia que ele era um gênio da música, eu me sentia tão especial, e às vezes me sentia um gênio também.Na verdade, minha mãe sabia apenas que Mozart foi um famoso compositor austríaco e que ele era um homem de muito bom humor.                                                                                                           Foi por esse motivo que quando eu nasci, ela me batizou com este nome. Minha mãe queria que eu fosse alegre, diferente de todas as outras pessoas da nossa família.                                                                                                                                                                                                                 Meu pai, ao que me parece, foi um homem triste e fez da minha mãe uma mulher triste também. Ele sumiu no mundo quando ela ainda estava grávida de mim e minha mãe criou, sozinha, eu e meus quatro irmãos. Depois de minha mãe, quem mais me ensinou sobre o meu xará foi o seu Chiquinho, o dono do boteco que ficava no pé da favela. Seu Chiquinho era um homem solitário, não tinha mulher nem filhos e gastava todo seu dinheiro com CDs, discos de vinil e revistas sobre música. Foi lá que ouvi Mozart pela primeira vez. Mesmo sem letra, mesmo sem cantor, mesmo sem pandeiro fiquei todo arrepiado. Foi escutando Mozart, no bar de seu Chiquinho, que nasceu em mim o sonho de ver uma ópera.
- Isso é coisa de rico, Mozart. Só a elite assiste óperas...
- Mas eu queria saber como é... Deve ser bonito... Onde tem?
- Ópera? No Teatro Municipal.
A primeira vez que tentei entrar no Teatro Municipal, eu tinha dez anos. Enquanto meus amigos da rua soltavam pipa na favela, eu ia andando até a Cinelândia, e passava o dia sentado nas escadas do teatro olhando o movimento... Não me deixavam entrar, mas mesmo assim, eu ficava na escada observando as pessoas. Era engraçado ver as dondocas bem vestidas, entrando afobadas no teatro e saindo de lá emocionadas. Algumas até choravam. E isso só aguçava a minha curiosidade. O que acontecia ali dentro que transformava as pessoas?
- Sai daí pivete, vai pedir esmola no outro lado da praça.
- Mas seu guarda, eu não to ped...
- Sai daqui! Racha!
Por muitas vezes eu fui confundido com mendigo ou com pivete. As pessoas que subiam aquelas escadas e entravam no teatro, ou me olhavam com pena, ou me olhavam com medo. Alguns me davam dinheiro, mesmo que eu não pedisse. Outros faziam comentários sobre a minha vadiagem, mas nunca ninguém me perguntou o que estava fazendo ali. Só uma vez...
- Oi, Moça...
- Oi.
- Hoje é dia de ópera, né. Você é cantora?
- Não, sou bailarina...
- Qual o seu nome?
- Constanza.
Ela respondeu enquanto subia, apressada, as escadas.
- O mesmo nome da esposa do Mozart. Eu me chamo Mozart, quer se casar comigo?
A bailarina já estava lá em cima quando eu a pedi em casamento. Lembrei de uma história que seu Chiquinho me contou sobre meu xará famoso. Quando ele ainda era criança também pediu uma nobre, que me esqueci o nome, em casamento... Constanza desceu as escadas e ficou me olhando, sem dizer nada. Um tempão.  
- Quer dizer que você se chama Mozart? Quantos anos têm?
- Eu tenho 12.
- Você sabia que com doze anos, Mozart escreveu uma ópera?
- E com sete, já tinha escrito uma sinfonia. Qual a diferença entre sinfonia e concerto?
Constanza riu. Mas não foi um riso de deboche, como eu já estava acostumado. Foi um riso de surpresa, de admiração.
- Eu estou atrasada. Ainda tenho que ensaiar, depois te explico, está bem?
Mesmo sem ter visto uma ópera, mesmo sem saber qual a diferença entre o concerto e a sinfonia eu sabia que a primeira ópera de Mozart foi rejeitada pela nobreza. E disso eu entendo bem. Eu sei o que é ser rejeitado. Eu sei muito bem o que é ser discriminado. Mais uma semelhança além do nome. E a Constanza que foi esposa do Mozart austríaco, se tornou a madrinha do Mozart da favela. Foi ela quem me apresentou o teatro municipal, numa noite de gala. Uma ópera de Mozart. Constanza marcou comigo duas horas antes da ópera em frente ao teatro. Nas escadarias. Já estava lá quando ela chegou trazendo uma roupa de grã-fino.                                                                           Assisti a ópera do camarote. Lá do alto. Usando binóculo. Foi o lugar mais chique que eu já fui na vida. Só tinha gente fina. Era tudo tão bonito... E antes que a ópera começasse, senti medo. Eu era o único diferente naquele lugar. Eu era sempre o diferente em todos os lugares. Mas Constanza, percebendo o meu pavor, segurou na minha mão e me disse baixinho no ouvido. “Mozart, o austríaco, também era diferente e seu talento foi muito incompreendido. Ser diferente pode ser legal”. E a ópera começou.
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Sobre o autor

Mariana Luiza

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