Encontro com o amor desconhecido
07/01/2013 | 15h45
Nos meses de Maio e Novembro, no New Yorker Hotel, em Manhattan, acontece um encontro promovido pelo Clube Metropolitano de Postal. Durante um fim de semana, cerca de 40 colecionadores de cartões postais exibem, trocam e vendem suas coleções de cartões separadas por continentes, países, praias e cidades. Em Maio de 2009, fui a um desses encontros. Visitava as barracas dos expositores sempre na busca de postais que imprimissem o Brasil. Nem todas as barracas tinham postais brasileiros, e as que tinham, estampavam mulheres de biquinis nas praias ou lindas paisagens sem nada escrito no verso. Postais novos, nunca usados, sem recado ou selo postal. Eu pulava de barraca em barraca buscando uma carta, uma recado, "eu tem amo" ou qualquer frase curta remetida por alguém que tivesse visitado o Brasil. Andei por todas as quarenta barracas, olhando atentamente as caixinhas de postais brasileiros ou latinos. Não achei nada. Resolvi então procurar por postais de Nova York, e quando revisitava o segundo expositor, encontrei sem querer, um postal da Baia de Guanabara, enseada de Botafogo perdido na caixa dos postais da Big Apple. Uma lua linda, cheia e amarela, iluminava o mar de botafogo e alguns barcos que repousavam sobre as águas. Estava ali por acaso. Quando o expositor me viu com o postal na mão, foi logo se desculpando dizendo que alguém havia colocado o postal no lugar errado. "Esse lugar é o Rio de Janeiro, desculpe...". Eu lhe disse que era isso que estava procurando. Na verdade, quando já não mais procurava, o postal tratou de me encontrar. No verso do cartão, um selo do Rio de Janeiro para uma destinatária em Nova York. Um rapaz (presumo eu) chamado Steven escreve um recado para sua suposta namorada, "Meu Amor" é como ele a chama. O recado dizia "Se você acha que a lua cheia sobre o rio Hudson é maravilhosa, precisa conhecer a lua cheia sobre o mar de Botafogo". Comprei o postal e peguei um metrô na direção do rio Hudson. Era tarde de lua cheia. Comprei um sanduíche e um suco de laranja e sentei num banquinho de frente do rio para esperar a lua nascer. Enquanto eu esperava, tentava lembrar se já tivera visto a lua cheia sob o mar de Botafogo. Eu que passara tantas vezes por ali de ônibus ou carro. Mas nenhuma dessas vezes era noite de lua cheia. Desejei que o Amor de Steven tivesse tido a oportunidade de ver o luar carioca. Já que segundo seu namorado, era mais bonito do que eu estava prestes a conhecer. Desejei também que o amor dos dois pelo luar e pelas duas cidades que tanto amo, se eternizasse um pouquinho em mim. Comprei o cartão com a intenção de escrever a Steven. Queria saber por onde ele andava. Se voltou ao Rio com seu Amor. Se ainda estão juntos. Se o amor que eu imaginei sobre os dois era mesmo este amor carnal e não fraterno, de irmãos. Daí me pus a pensar nas respostas de Steven. Na sua carta chegando na minha caixa de correio agradecendo por uma lembrança de um cartão que ele já não tinha. De um amor que ele não recordava ter sido tão intenso, tão bonito. De um luar tão mágico que só existia na minha imaginação. Na minha vida. Desisti de escrever para Steven. O remetente do postal datado nos anos 50 poderia, provavelmente, já nem estar vivo. Preferi guardar na memória as ilusões que eu nutria sobre aquele cartão postal. 
A lua sobre o Hudson é mesmo incrível. Mas um ano depois, de volta ao Rio, me sentei num banco na praia de Botafogo para repetir o ato de aguardar pela lua do cartão postal. E diante do Pão de Açúcar, concordei com Steven. A lua cheia sobre o mar de Botafogo é verdadeiramente esplêndida.
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Sobre o autor

Mariana Luiza

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