A verdade escondida nas fotografias encontradas num mercado de pulgas
03/09/2012 | 17h02
<div><tinymce class="clickTinyMCE" title="{'nm_midia_inter_thumb1':'http://www.folha1.com.br/_midias/png/2017/12/12/170x96/1_captura_de_tela_2017_12_12_a_s_11_51_04_pm-923715.png', 'id_midia_tipo':'2', 'id_tetag_galer':'', 'id_midia':'5a3087c924a13', 'cd_midia':923715, 'ds_midia_link': 'http://www.folha1.com.br/_midias/png/2017/12/12/captura_de_tela_2017_12_12_a_s_11_51_04_pm-923715.png', 'ds_midia': 'mercado de pulgas, NYC 2010', 'ds_midia_credi': '', 'ds_midia_titlo': 'mercado de pulgas, NYC 2010', 'cd_tetag': '1', 'cd_midia_w': '445', 'cd_midia_h': '330', 'align': 'Left'}"><figure class="Left" style="width:445px;height:330px;"> <img src="http://www.folha1.com.br/_midias/png/2017/12/12/captura_de_tela_2017_12_12_a_s_11_51_04_pm-923715.png" alt="mercado de pulgas, NYC 2010" width="445" height="330"> <figcaption> mercado de pulgas, NYC 2010 </figcaption> </figure></tinymce>N&atilde;o &eacute; a primeira vez, nem ser&aacute; a &uacute;ltima que escrevo sobre fotografias. N&atilde;o &eacute; primeira vez, nem ser&aacute; a &uacute;ltima que&nbsp;escrevo sobre o meu&nbsp;amor e devo&ccedil;&atilde;o pelas antiguidades e pela melancolia. Um dos meus programas preferidos quando viajo ou revisito uma cidade &eacute; conhecer ou revisitar algum mercado de pulgas, brech&oacute; ou feira de antiguidades. Figurinhas antigas, revistas em quadrinho, vestidos de costureiros famosos, len&ccedil;os, capacetes de guerra, m&aacute;quinas fotogr&aacute;ficas, talheres iranianos, lou&ccedil;as chinesas e fotografias. Objetos, roupas, artigos de decora&ccedil;&atilde;o que um dia fizeram parte da vida de algu&eacute;m que eu desconhe&ccedil;o e dificilmente irei conhecer. Donos de bugigangas de diferentes pa&iacute;ses que em algum momento da vida tiveram apre&ccedil;o por aquele objeto hoje &agrave; venda nas bancas dos mercados. Eu procuro pelo que &eacute; in&uacute;til, o que &eacute; sup&eacute;rfluo. As roupas e len&ccedil;os me atraem muito, mas objetos que n&atilde;o t&ecirc;m serventia ou as fotografias de estranhos s&atilde;o de todas as coisas, os que mais me chamam aten&ccedil;&atilde;o. Eu tenho uma rela&ccedil;&atilde;o conturbada com fotografias. Talvez por isso que escreva tanto sobre o tema. Gosto muito de tirar, gosto pouco de posar, mas sinto um medo enorme de rev&ecirc;-las. A foto &eacute; a paralisa&ccedil;&atilde;o de um momento. Um sopro do tempo que jamais ser&aacute; repetido e que, por isso, pode provocar sensa&ccedil;&otilde;es adversas. Com o passar&nbsp;dos anos, uma mesma fotografia &eacute; capaz de me despertar sentimentos opostos e, por muitas vezes, incompat&iacute;veis: Alegria, saudade, arrependimento, &oacute;dio e m&aacute;goa. E &eacute; o medo do despertar de sentimentos ruins que me faz ter uma certa repulsa em colecionar &aacute;lbuns fotogr&aacute;ficos ou abrir arquivos de fotos digitais escondidas num HD qualquer no canto do arm&aacute;rio. O meu maior temor &eacute; a nostalgia. Talvez por isso que eu goste tanto das fotografias dos mercados de pulgas. Nostalgias que n&atilde;o me pertencem. Fotos de gente comum, de festa de crian&ccedil;a com bolo e brigadeiro, de &aacute;lbum de casamento, de comemora&ccedil;&otilde;es pelo fim da segunda guerra. Fotografias de um ver&atilde;o na praia mexicana em 1978. Todas estas e muitas outras, podem ser encontradas numa caixinha cheirando a mofo escondida debaixo de uma mesa de uma barraca num mercado de pulgas e o que me instiga e provoca &eacute; a raz&atilde;o pela qual aquela fotografia est&aacute; ali, jogada aos desconhecidos, ao inv&eacute;s de enfeitar um &aacute;lbum na casa de seu dono ou descente. Onde est&aacute; aquela crian&ccedil;a? E o casamento, acabou? O que aconteceu com o soldado? Por que as lembran&ccedil;as do inesquec&iacute;vel ver&atilde;o de 1978 s&atilde;o agora vendidas para desconhecidos? Ser&aacute; que foram encontradas no lixo? Quem teria esta coragem? Ser&aacute; que &uacute;ltimo sentimento despertado nela seria o rancor ou a dor?</div> <div>Procurar pelo sentimento perdido nas fotos alheias &eacute; mais curioso do que dolorido. &Eacute; mais f&aacute;cil do que rever fotografias e revisitar sentimentos. O&nbsp;que tamb&eacute;m me instiga nas fotos alheias, &eacute; imaginar o que acontecia com aquelas pessoas, minutos antes de o fot&oacute;grafo aparecer com sua c&acirc;mera e bater o retrato. Ser&aacute; que aquela cara de felicidade &eacute; puro fingimento? E a pose altiva &eacute; mesmo autoconfian&ccedil;a ou s&oacute; pose de um modelo amador fingindo uma postura que n&atilde;o tem. Quem posa, finge. E n&atilde;o precisa ser modelo ou atriz. Uma pessoa comum finge na sua pr&oacute;pria festa de anivers&aacute;rio um sorriso meio de lado para esconder as imperfei&ccedil;&otilde;es dos dentes, uma postura esguia que n&atilde;o revela a barriga de chopp. E o melhor da c&acirc;mera fotogr&aacute;fica &eacute; que ela captura o fingimento e o revela como verdade. Sempre que me deparo com uma foto de mercado de pulgas me questiono o que ser&aacute; real por tr&aacute;s de tanta pose, tantos sorrisos e ponho a pensar nas sensa&ccedil;&otilde;es que aquela foto j&aacute; causou em diferentes momentos da vida do fotografado. Eu procuro a verdade antes do fot&oacute;grafo aparecer, e que se torna real com passar dos anos. Mas eu nunca encontro, por isso, sigo viajando a visitar os mercados e feiras em busca das nostalgias que n&atilde;o s&atilde;o as minhas.&nbsp;</div>
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Sobre o autor

Mariana Luiza

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