Troca de cartas ao longo de 500 anos
20/05/2020 | 13h56
<div><strong>Um janeiro qualquer de 1817.</strong></div> <div>Malunga,</div> <div>Hoje passei o dia a pensar no prov&eacute;rbio que me ensinaste durante a travessia. &ldquo;Dyodyo kuzeye ko i mputu &ndash; O que tu n&atilde;o sabes &eacute; Europa&rdquo;. Creio que estavas certa. Os mortos, todos eles, v&ecirc;m para o Novo Mundo. Caminhando pela rua do Valongo, recordei do dia em que desembarcamos neste Brasil, o lugar de onde n&atilde;o se retorna. Tumbeiros ainda cruzam o oceano transportando mais e mais almas pelas &aacute;guas agitadas. N&oacute;s n&atilde;o sab&iacute;amos o que nos esperava. N&oacute;s n&atilde;o esper&aacute;vamos por nada. Mas voc&ecirc; j&aacute; dizia que o Novo Mundo era um pre&acirc;mbulo de mortos.</div> <div><strong>Um abril qualquer de 2017.</strong></div> <div>Irm&atilde;,</div> <div>Outro dia li na internet que a Terra Papagalli fora batizada de Brasil em homenagem a sua mais valiosa commodity da &eacute;poca. A &aacute;rvore de pigmento vermelho que coloriu os tecidos europeus de sangue ind&iacute;gena e inaugurou uma tend&ecirc;ncia fashionista da elite da &eacute;poca.</div> <div>O pigmento extra&iacute;do do Pau Brasil, que no passado tingiu roupas abastadas, hoje &eacute; associado aos comunistas e matiza bandeiras dos desprovidos de terra e de teto. Isto porque gra&ccedil;as a abund&acirc;ncia arb&oacute;rea, a tintura rara tornou-se comum na Europa, fazendo que o que a aristocracia buscasse outro pigmento mais incomum na natureza que representasse seu distanciamento do povo: o azul.Talvez por isso, o sangue da realeza seja azul e n&atilde;o vermelho como o plasma ind&iacute;gena exportado nas caravelas ou como a seiva que corria em veias negras vindas da &Aacute;frica.</div> <div>Os tumbeiros brasileiros transportaram sangue por mais de 400 anos, tingindo de escarlate a rota naval. A &aacute;gua azul que vemos &eacute; uma ilus&atilde;o de &oacute;tica. A mesma ilus&atilde;o criada pela aristocracia que nos faz crer que basta perseverar para conquistar nossos sonhos. Que sonhos? Nossos sonhos foram dilu&iacute;dos nessa grande kalunga. Ou seria kalunga pequena?O mar, este elo de liga&ccedil;&atilde;o entre o Velho Mundo e um Grande Cemit&eacute;rio, continua at&eacute; hoje a transportar sangue sob forma de commodities. Que nome teria esta terra, em que se plantando tudo d&aacute;, se a cada nova mat&eacute;ria prima, ela assim fosse rebatizada. O Brasil teria sido Cana, sido Ouro, sido Caf&eacute;. O pa&iacute;s contempor&acirc;neo chamaria Soja. Nome curto e singelo, cujos descendentes se denominam &ldquo;Sojeiros&rdquo;. Um povo de sangue ralo e amarelo, cuja apar&ecirc;ncia ict&eacute;rica se disfar&ccedil;a quando observamos de perto suas m&atilde;os, p&eacute;s e os cascos de seus navios cargueiros cobertos pela mesma seiva ind&iacute;gena e negra do pa&iacute;s colonial.</div> <div><strong>Um agosto qualquer de 1817.</strong></div> <div>&nbsp;</div> <div>&nbsp;<br /></div> <div>Malunga,</div> <div>Escrevo-te do passado para que no inexistente futuro possas recordar de nossas palavras. Duzentos anos de portugu&ecirc;s apagam qualquer resqu&iacute;cio de nossa sabedoria. &Eacute; esta a sina de nossos filhos da di&aacute;spora. A morte pelo esquecimento. Esquecemos de nossa l&iacute;ngua, de nossos costumes, esquecemos at&eacute; de quem somos e quem s&atilde;o os nossos. E vivemos como os outros (brancos) determinam. Cerceando nossos corpos e moldando nossos comportamentos para caber na mediocridade deles.</div> <div>Tenho refletido sobre o que li em vossa &uacute;ltima carta e me &eacute; quase imposs&iacute;vel imaginar que praias como Santa Luzia, Gamboa e Lazarento j&aacute; n&atilde;o existam. Onde quebram as ondas destes mares sepultados?Mputu, esta terra dos brancos e das &aacute;guas agitadas por onde n&atilde;o se pode navegar de volta, tem agora passagens subterr&acirc;neas onde correm os rios ladeados aos in&uacute;meros corpos dos nossos. Corpos pretos enterrados sem direito a identidade. Rios turvos que um dia, cristalinos, demarcavam a geografia da cidade margeando as constru&ccedil;&otilde;es que crescem em torno das &aacute;guas.Uma trag&eacute;dia. O Rio de Janeiro &eacute; um imenso cemit&eacute;rio de &aacute;guas e corpos negros. Uma grande kalunga pequena</div> <div><strong>2 de Setembro de 2018.</strong></div> <div>Irm&atilde;,</div> <div>Neste exato momento em que te escrevo, labaredas de fogo devoram, sem piedade, grande parte do pouco que restou de nossa mem&oacute;ria na di&aacute;spora. O fogo consome o telhado daquilo que um dia foi resid&ecirc;ncia real, mas engana-se aquele que pensa que este inc&ecirc;ndio &eacute; um simulacro tupiniquim da tomada da Bastilha. N&atilde;o h&aacute; nada de revolucion&aacute;rio em queimar museus. Explico-te pois deves me ler com duzentos anos de atraso e tampouco entender esta missiva. O pal&aacute;cio real, resid&ecirc;ncia de Dom Jo&atilde;o VI, tornou-se um museu onde residiam artefatos eg&iacute;pcios, amer&iacute;ndios e de outras civiliza&ccedil;&otilde;es africanas. O fogo consumiu o trono de Adandozan, do reino de Daom&eacute; e 5 milh&otilde;es de exemplares de insetos. Borboletas mortas voavam numa sala do museu pouco antes de serem consumidas pelo fogo. Em alguns dias, o mundo saber&aacute; do pouco que sobreviveu &agrave;s chamas. Pouparam Luzia e o Bendeg&oacute;. Luzia mulher negra, o f&oacute;ssil mais antigo da Am&eacute;rica, que tem a apar&ecirc;ncia de nossos ancestrais. Resistir &agrave; travessias, pelas &aacute;guas ou pelas chamas, parece-me ser nosso destino.</div> <div>Encontraram nas cinzas um casco de tartaruga marinha. Lembrei dos tempos de col&ocirc;nia em que os nossos desenhavam nos cascos das tartarugas marinhas o cosmograma Bakongo na inten&ccedil;&atilde;o de comunicar com aqueles que ficaram em &Aacute;frica. Se vivemos no lugar donde n&atilde;o se retornas, porque insistimos em lan&ccedil;ar nos mares e nos c&eacute;us, p&aacute;ssaros e tartarugas cujos corpos carregam mensagens aos ancestrais?Seria alimentar falsas esperan&ccedil;as? N&atilde;o, irm&atilde;. Isso &eacute; resistir. Mandar &agrave; &Aacute;frica not&iacute;cias de nossos lugares de desterro neste long&iacute;nquo territ&oacute;rio americano que atravessa os hemisf&eacute;rios sendo a morada poss&iacute;vel para os eternos exilados.</div>
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Sobre o autor

Mariana Luiza

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