Llosa, Canudos e Jorge Amado
02/09/2013 | 19h28
Véspera de ano novo. 31 de Dezembro de 2000. Na praça principal da cidade havia um telão onde quase cem pessoas entre homens, mulheres e muitas crianças aguardavam ansiosamente à projeção da queima de fogos da praia de Copacabana. No meio da praça, sentada numa cadeira de praia, estava eu, uma peruana, moradora do Rio de Janeiro, que tinha deixado de pular as sete ondas de Copa para celebrar o ano novo no Fim do Mundo de Canudos.
- Mas como é que pode, você podia estar lá... Naquela multidão... Na beira do mar... 
- Aqui é melhor.
E era mesmo. Aquela não era a minha primeira viagem ao interior do Brasil, mas era minha primeira vez em Canudos e o que fez desta jornada tão inesquecível e especial foi o simples fato de que em Canudos eu fui quem eu quis ser e ao mesmo tempo quem todos os outros quiseram que eu fosse.
Cheguei a Canudos na noite de natal, com a intenção de ficar por poucos dias. Fazia muito calor e o céu quase não tinha nuvens. Hospedei-me no hotel Avenida, no centro da cidade, e fiz o trajeto da rodoviária até a hospedaria caminhando. Todos os transeuntes me encaravam sem cerimônias e olhavam para as minhas poucas coisas com tamanha curiosidade. Eu carregava nas costas uma mochila de acampamento com capacidade para 50 quilos. A mochila era quase do meu tamanho. Nas mãos, um travesseiro e uma bolsa com uma garrafa de água, documentos e câmera fotográfica. Com aquela mochila que mais parecia me carregar do que eu a ela, não passei despercebida nem pelos dois cachorros vira-latas que encontrei no meio do trajeto. Mônica e Cebolinha me acompanharam até a entrada do saguão do hotel, e talvez tivessem subido comigo, se o recepcionista não os enxotasse com fervorosa violência verbal. Bastaram apenas algumas horas para que a primeira curiosa batesse à porta do meu quarto. Eu mal abri e aquela senhora roliça de vestido de chita e sandália de dedo foi entrando pelo quarto, tirando da bolsa fotografias antigas de familiares e da boca centenas de palavras tagareladas sem pausa, que teciam apressadamente uma renda de bilro de histórias e prosas da guerra. Eu não entendi muito o propósito da visita, mas ouvi a tudo com muita atenção. E quanto mais eu escutava atenta, mais ela falava. A visita durou a tarde toda e só foi interrompida porque ela precisava buscar o neto na escola. Prometeu voltar depois e me perguntou até quando eu ficava na cidade.
- Não sei.
Daquele dia em diante, durante toda minha permanência em Canudos, eu não tive mais sossego. Meu quarto de hotel vivia cheio de gente que trazia fotografias, livros, recortes de jornal e histórias das batalhas, da vida dos soldados e de Conselheiro. Para os canudenses, eu era uma historiadora. Uma discípula de Vargas Llosa a destrinchar a Guerra do Fim do Mundo. Eu tentei, em vão, explicar que na verdade não era estudiosa do romance, nem discípula do escritor. Mas ninguém me ouvia. Para aquelas pessoas só interessava a história que elas tinham criado sobre mim. Só lhes interessa contar suas relações pessoais com o grande acontecimento da história da cidade. Quem eu realmente era, pouco importava e confesso que depois do choque comecei a gostar dessa brincadeira. Encarei a pesquisadora e com um bloquinho de papel e caneta nas mãos me pus a escrever as histórias que ouvia. A minha hospedagem no Avenida foi estendida por tempo indeterminado e com a proximidade do ano novo eu me tornava a única hóspede do hotel. Às vésperas da virada, eis que bate à minha porta um galã nordestino, que atendia pelo nome de Zé do Gato. Ele era de fato um GATO, com todas as letras maiúsculas e pontos de interrogação que tinha direito! Uma escultura de madeira e jenipapo que vestia chapéu, colete de couro e uma calça de brim azul escuro cheirando alecrim. Aquele perfume tomou conta do meu quarto e eu não ouvia mais nada além das borboletas no meu estômago. Zé do Gato, que não era bobo, percebeu meu interesse e depois de meia dúzia de prosa me deu um beijo na boca. No dia seguinte, ele me levou para caminhar pelo sertão. Era o primeiro dia do novo milênio e eu assumia uma terceira personalidade em menos de uma semana: era a Tieta de Jorge Amado desvendando o sertão com um cangaceiro que cheirava alecrim. A Tieta de Canudos fez amor com aquele monumento debaixo do sol escaldante do sertão baiano e andou de mãos dadas com o seu amor por toda a cidade. Em questão de horas eu tinha me tornado a amante principal de Zé do Gato, que na vida real era casado com uma mulher brava, descendente de um destemido soldado de Conselheiro e pai de oito filhos. Saí fugida de Canudos logo depois que a Tieta caiu na boca do povo. Eu não sabia da existência dos filhos de Zé do Gato, nem da esposa destemida. Talvez, nem o próprio Zé se lembrasse deles quando resolveu esquecer-se da vida e passar a tarde com a Tieta. Éramos todos personagens de uma vida maravilhosa que só cabia às nossas imaginações e às dos outros que quisessem embarcar na viagem com a gente. A Tieta e a pesquisadora de Llosa ficaram em Canudos. Uma no hotel e a outra perdida pelo sertão. O Zé do Gato e seu cheiro de alecrim sempre reaparecem quando ouço uma música de amor ou tomo licor de Jenipapo. E Canudos? Ah, Canudos está por toda parte. Dentro de mim e em todas as favelas do Rio de Janeiro. 
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Sobre o autor

Mariana Luiza

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