Llosa, Canudos e Jorge Amado
02/09/2013 | 19h28
<div><tinymce class="clickTinyMCE" title="{'nm_midia_inter_thumb1':'http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2017/12/20/170x96/1_photo_300x300-929964.jpg', 'id_midia_tipo':'2', 'id_tetag_galer':'', 'id_midia':'5a3a6524c6163', 'cd_midia':929964, 'ds_midia_link': 'http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2017/12/20/photo_300x300-929964.jpg', 'ds_midia': '', 'ds_midia_credi': '', 'ds_midia_titlo': '', 'cd_tetag': '1', 'cd_midia_w': '300', 'cd_midia_h': '300', 'align': 'Left'}"><figure class="Left" style="width:300px;height:300px;"> <img src="http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2017/12/20/photo_300x300-929964.jpg" alt="" width="300" height="300"> <figcaption> </figcaption> </figure></tinymce>V&eacute;spera de ano novo. 31 de Dezembro de 2000. Na pra&ccedil;a principal da cidade havia um tel&atilde;o onde quase cem pessoas entre homens, mulheres e muitas crian&ccedil;as aguardavam ansiosamente &agrave; proje&ccedil;&atilde;o da queima de fogos da praia de Copacabana. No meio da pra&ccedil;a, sentada numa cadeira de praia, estava eu, uma peruana, moradora do Rio de Janeiro, que tinha deixado de pular as sete ondas de Copa para celebrar o ano novo no <em>Fim do Mundo de Canudos</em>.</div> <div>- Mas como &eacute; que pode, voc&ecirc; podia estar l&aacute;... Naquela multid&atilde;o... Na beira do mar...&nbsp;</div> <div>- Aqui &eacute; melhor.</div> <div>E era mesmo. Aquela n&atilde;o era a minha primeira viagem ao interior do Brasil, mas era minha primeira vez em Canudos e o que fez desta jornada t&atilde;o inesquec&iacute;vel e especial foi o simples fato de que em Canudos eu fui quem eu quis ser e ao mesmo tempo quem todos os outros quiseram que eu fosse.</div> <div>Cheguei a Canudos na noite de natal, com a inten&ccedil;&atilde;o de ficar por poucos dias. Fazia muito calor e o c&eacute;u quase n&atilde;o tinha nuvens. Hospedei-me no hotel Avenida, no centro da cidade, e fiz o trajeto da rodovi&aacute;ria at&eacute; a hospedaria caminhando. Todos os transeuntes me encaravam sem cerim&ocirc;nias e olhavam para as minhas poucas coisas com tamanha curiosidade. Eu carregava nas costas uma mochila de acampamento com capacidade para 50 quilos. A mochila era quase do meu tamanho. Nas m&atilde;os, um travesseiro e uma bolsa com uma garrafa de &aacute;gua, documentos e c&acirc;mera fotogr&aacute;fica. Com aquela mochila que mais parecia me carregar do que eu a ela, n&atilde;o passei despercebida nem pelos dois cachorros vira-latas que encontrei no meio do trajeto. M&ocirc;nica e Cebolinha&nbsp;me acompanharam at&eacute; a entrada do sagu&atilde;o do hotel, e talvez tivessem subido comigo, se o recepcionista n&atilde;o os enxotasse com fervorosa viol&ecirc;ncia verbal. Bastaram apenas algumas horas para que a primeira curiosa batesse &agrave; porta do meu quarto. Eu mal abri e aquela senhora roli&ccedil;a de vestido de chita e sand&aacute;lia de dedo foi entrando pelo quarto, tirando da bolsa fotografias antigas de familiares e da boca centenas de palavras tagareladas sem pausa, que teciam apressadamente uma renda de bilro de hist&oacute;rias e prosas da guerra. Eu n&atilde;o entendi muito o prop&oacute;sito da visita, mas ouvi a tudo com muita aten&ccedil;&atilde;o. E quanto mais eu escutava atenta, mais ela falava. A visita durou a tarde toda e s&oacute; foi interrompida porque ela precisava buscar o neto na escola. Prometeu voltar depois e me perguntou at&eacute; quando eu ficava na cidade.</div> <div>- N&atilde;o sei.</div> <div>Daquele dia em diante, durante toda minha perman&ecirc;ncia em Canudos, eu n&atilde;o tive mais sossego. Meu quarto de hotel vivia cheio de gente que trazia fotografias, livros, recortes de jornal e hist&oacute;rias das batalhas, da vida dos soldados e de Conselheiro. Para os canudenses, eu era uma historiadora. Uma disc&iacute;pula de Vargas Llosa a destrinchar a Guerra do Fim do Mundo. Eu tentei, em v&atilde;o, explicar que na verdade n&atilde;o era estudiosa do romance, nem disc&iacute;pula do escritor. Mas ningu&eacute;m me ouvia. Para aquelas pessoas s&oacute; interessava a hist&oacute;ria que elas tinham criado sobre mim. S&oacute; lhes interessa contar suas rela&ccedil;&otilde;es pessoais com o grande acontecimento da hist&oacute;ria da cidade. Quem eu realmente era, pouco importava e confesso que depois do choque comecei a gostar dessa brincadeira. Encarei a pesquisadora e com um bloquinho de papel e caneta nas m&atilde;os me pus a escrever as hist&oacute;rias que ouvia. A minha hospedagem no Avenida foi estendida por tempo indeterminado e com a proximidade do ano novo eu me tornava a &uacute;nica h&oacute;spede do hotel. &Agrave;s v&eacute;speras da virada, eis que bate &agrave; minha porta um sujeito elegante e austero&nbsp;que atendia pelo nome de Z&eacute; do Gato. Ele era de fato um GATO, com todas as letras mai&uacute;sculas e pontos de interroga&ccedil;&atilde;o que tinha direito! Uma escultura de madeira e jenipapo que vestia chap&eacute;u, colete de couro e uma cal&ccedil;a de brim azul escuro cheirando alecrim. Aquele perfume tomou conta do meu quarto e eu n&atilde;o ouvia mais nada al&eacute;m das borboletas no meu est&ocirc;mago. Z&eacute; do Gato, que n&atilde;o era bobo, percebeu meu interesse e depois de meia d&uacute;zia de prosa me deu um beijo na boca. No dia seguinte, ele me levou para caminhar pelo sert&atilde;o. Era o primeiro dia do novo mil&ecirc;nio e eu assumia uma terceira personalidade em menos de uma semana: era a Tieta de Jorge Amado desvendando o sert&atilde;o com um cangaceiro que cheirava alecrim. A Tieta de Canudos fez amor com aquele monumento debaixo do sol escaldante do sert&atilde;o baiano e andou de m&atilde;os dadas com o seu amor por toda a cidade. Em quest&atilde;o de horas eu tinha me tornado a amante principal de Z&eacute; do Gato, que na vida real era casado com uma mulher brava, descendente de um destemido soldado de Conselheiro e pai de oito filhos. Sa&iacute; fugida de Canudos logo depois que a Tieta caiu na boca do povo. Eu n&atilde;o sabia da exist&ecirc;ncia dos filhos de Z&eacute; do Gato, nem da esposa destemida. Talvez, nem o pr&oacute;prio Z&eacute; se lembrasse deles quando resolveu esquecer-se da vida e passar a tarde com a Tieta. &Eacute;ramos todos personagens de uma vida maravilhosa que s&oacute; cabia &agrave;s nossas imagina&ccedil;&otilde;es e &agrave;s dos outros que quisessem embarcar na viagem com a gente. A Tieta e a pesquisadora de Llosa ficaram em Canudos. Uma no hotel e a outra perdida pelo sert&atilde;o. O Z&eacute; do Gato e seu cheiro de alecrim sempre reaparecem quando ou&ccedil;o uma m&uacute;sica de amor ou tomo licor de Jenipapo. E Canudos? Ah, Canudos est&aacute; por toda parte. Dentro de mim e em todas as favelas do Rio de Janeiro.&nbsp;</div>
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Sobre o autor

Mariana Luiza

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