Espólios
22/02/2016 | 22h58
"Rogério me deve R$120,00, 3 doses de proteína e um pote de plástico."
"Anderson nunca me devolveu a camiseta que eu comprei numa lojinha de um cinema em Rabat."
"Foram um edredom, algumas roupas e uma dívida de pães, leites e manteigas de R$800,00. Ele se mandou deixando na porta da minha casa, um fusquinha azul que de tão velho não deu nem pra pagar a conta da padaria."
Durante um período da vida, colecionei espólios do fim de relacionamentos alheios. Perguntava a amigos, conhecidos e pessoas que dificilmente encontraria novamente, qual a dívida deixada pelo ex-amor. Restos de sentenças, frases não ditas e coisas. Interessavam-me as coisas. Objetos que o outro se apossou e nunca devolveu me diziam muito mais sobre aquele relacionamento do que os sentimentos e as promessas feitas, jamais cumpridas, guardadas com todos os detalhes na última instância do rancor do entrevistado. A caneca do Fluminense que o parceiro “roubou” e nunca devolveu. A assadeira de alumínio do último frango com batatas. O conjunto de chaves de fenda que pendurou o quadro estopim do término. Para escrever esta crônica, me pus a pensar nas minhas próprias pequenezas e nos espólios dos meus ex-amores. Lembrei de um shampoo importado que ganhei de uma amiga, que me trouxe de Paris naquela época em que pouquíssimas pessoas, pelo menos das que eu conhecia, passava férias em Paris. O shampoo ficou perdido na casa dos pais do desafeto que por motivo contundente fiz questão de nunca mais falar. Hoje, o desafeto mal é lembrado. Mas o shampoo, este me faz falta. O cheiro, a textura dos cabelos, o toque sedoso depois da lavagem. Lembro como se fosse hoje. Posso e acredito que devo estar mesmo supervalorizando sabão de lavar cabelos. Vai ver o shampoo nem era tão bom assim. Mas em se tratando de fins, vale mais uma malquerença bem valorizada do que um aprendizado isento de mágoa.
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Profissional do Carnaval
08/02/2016 | 11h48
Era uma profissional do carnaval. Dessas que nunca repete a fantasia e que se orgulha por frequentar quatro a cinco blocos por dia, emendando a folia na Apoteose. Dessas capaz de fazer planilha em Excel, com algoritmos que cruzavam informações de horários, duração e trajeto dos blocos. O formulário de Excel de Mariana era o objeto de desejo mais cobiçado entre os foliões do carnaval carioca. Com um cálculo matemático que chamou atenção até do prefeito, Mari conseguira aproveitar um maior número de eventos gastando menos energia no deslocamento entre um e outro. Durante os quatro dias oficiais do carnaval, quase não se via a foliã em casa. Nunca se soube ao certo a origem de tamanha energia. Biotônico Fontoura, Red Bull, açaí com guaraná, ácido lisérgico, ou alegria acumulada. A disposição de Mariana impressionava a médicos, atletas, profissionais de educação física. Mas o fato é que, nos últimos três anos, as más línguas da cidade profanavam aos quatro ventos que Mari já não era a mesma. No último carnaval, havia substituído a planilha por uma simples lista com no máximo dois blocos por dia, evitando aqueles que saíam no horário de sol escaldante. A energia da foliã diminuía na mesma proporção que a temperatura do Rio aumentava. Naquele ano, a sensação térmica, medida na praia do Leme, foi de 53 graus celsius. Era uma terça-feira de calor infernal. Mariana, fantasiada de diabinha, conhecera um casal de alemães extasiados com o calor do Rio. Segundo eles, a neve e o frio intenso inviabilizavam a alegria da festa no velho continente. Por isso, este ano, eles decidiram fugir para um país tropical. Foi então, que num súbito de inveja, a carnavalesca teve a brilhante ideia: procurar o prefeito para sugerir uma mudança no calendário do carnaval da cidade. Se o prefeito era o detentor das chaves do Rio de Janeiro, bastava recusar o pedido do Rei Momo, postergando a entrega para os meses de Maio ou Junho.
- Faça como as construtoras de imóveis. Prometa para Fevereiro, mas alegue atraso na obra, prorrogando o carnaval pra Maio ou Junho.
- Mariana, a cidade não é imóvel. E eu não sou dono de construtora...
- Senhor prefeito, com todo respeito, a cidade pode até não ser imóvel, mas que o senhor tem percentual de construtora tem sim...
A conversa amigável terminou em acusações políticas. Um assessor do prefeito acompanhou a foliã que saiu escorraçada do gabinete.
- Senhora, o carnaval é uma festa pagã atrelada ao calendário cristão. São quarenta dias antes da páscoa. Não se pode mudar esta data a revelia.
Mariana procurou então o cardeal arcebispo da cidade, e alegando mudanças climáticas, pediu que ele intercedesse junto ao Papa por mudanças na data da páscoa. O cardeal até que se mostrou paciente ao explicar a Mariana como funcionava o calendário cristão. Tudo corria na santa paz de deus até a foliã relacionar a origem do carnaval aos bacanais promovidos pelo deus grego Baco, e fazer uma alusão do uso do vinho como simbolismo do sangue de Cristo pela igreja católica à tradição do Império Romano que consumia vinho devido à metáfora do sangue de Baco. Mariana foi expulsa da reunião sem direto a argumento. Tentada a se mudar para Berlim, ou desistir de vez da festa, Mariana juntou as tralhas e foi viver no interior do Rio Grande do Norte. Neste ano de 2016, ela se dedicará integralmente a participar das festas juninas e julinas na região nordeste. Aguardem as planilhas.
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Sobre o autor

Mariana Luiza

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