Um dia de inverno
04/11/2013 | 21h08
<div>18 de Fevereiro de 2009, 12:42 A.M. Linha F, 9 Street, sentido Manhattan&nbsp;</div> <div><tinymce class="clickTinyMCE" title="{'nm_midia_inter_thumb1':'http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2017/12/20/170x96/1_dsc_0784_300x200-929986.jpg', 'id_midia_tipo':'2', 'id_tetag_galer':'', 'id_midia':'5a3a6bbb58fc6', 'cd_midia':929986, 'ds_midia_link': 'http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2017/12/20/dsc_0784_300x200-929986.jpg', 'ds_midia': '', 'ds_midia_credi': '', 'ds_midia_titlo': '', 'cd_tetag': '1', 'cd_midia_w': '300', 'cd_midia_h': '200', 'align': 'Left'}"><figure class="Left" style="width:300px;height:200px;"> <img src="http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2017/12/20/dsc_0784_300x200-929986.jpg" alt="" width="300" height="200"> <figcaption> </figcaption> </figure></tinymce>Venta. E venta muito. Com for&ccedil;a. Um papel de bala sem bala e um pacote de biscoitos vazio rodopiam como um casal na pista de dan&ccedil;a. Sob o ritmo e som da ventania eles percorrem o corredor levando consigo a poeira da esta&ccedil;&atilde;o e a neve que resta nos dormentes do trilho do trem. Um homem branco sem casaco desenha um c&iacute;rculo involunt&aacute;rio com a neve dos sapatos enquanto caminha. Mais duas voltas e ele cair&aacute; no abismo raso do fosso. Perto dele, tamb&eacute;m a espera, um corpo de mulher loira, apoiado na parede, tenta se manter de p&eacute; e acender um cigarro. O corpo treme e grita hist&eacute;rico a cada batalha perdida. Quando n&atilde;o &eacute; o vento que lhe apaga as chamas, s&atilde;o as m&atilde;os tremulas que n&atilde;o conseguem riscar o f&oacute;sforo. Al&eacute;m dos dois, h&aacute; duas crian&ccedil;as que correm de um lado a outro na esta&ccedil;&atilde;o. Elas s&atilde;o filhas da dona do corpo. Aparentemente acostumadas aos gritos e ao inverno, brincam sem se incomodar. O trem chega e a sincronia dos movimentos e barulhos da esta&ccedil;&atilde;o continua dentro do vag&atilde;o na mais perfeita desarmonia. O corpo transtornado ainda treme, ainda grita, ainda tenta ascender o cigarro. As crian&ccedil;as alegres ainda correm indiferentes. E o homem continua sua caminhada circular, agora em volta a barra de seguran&ccedil;a. Junto a tudo isso, um rapaz negro que j&aacute; seguia viagem desde a esta&ccedil;&atilde;o anterior canta alto, de olhos fechados a mesma m&uacute;sica que ecoa do seu fone de ouvido. O rapaz gesticula e dan&ccedil;a como se estivesse em frente a uma enorme plat&eacute;ia. Mas ao que parece a &uacute;nica pessoa que lhe presta aten&ccedil;&atilde;o sou eu. J&aacute; estamos em Manhattan quando um grupo de seis amigos, todos homens, todos b&ecirc;bados, entra no vag&atilde;o. Eles bebem algo destilado de uma garrafa escondida em um saco de papel e conversam cada um sobre um tema distinto. Tudo ao mesmo tempo. Bocas dizendo palavras que n&atilde;o chegam a ouvido algum e que se misturam ao descompasso existente. Um dos rapazes interrompe as conversas e imita os gestos e sons do negro que ainda canta de olhos fechados. O outro, entrando na brincadeira, decide fumar uma caneta tirada do bolso &agrave;s pressas, para imitar as tragadas e baforadas do corpo que conseguiu, finalmente, ascender seu cigarro. O corpo absorto no malevolente prazer do v&iacute;cio n&atilde;o percebe o deboche. At&eacute; que uma de suas crian&ccedil;as acha gra&ccedil;a no cigarro-caneta do rapaz. Bastaram poucas risadas para o corpo, quase morto e desatento, levantar-se bem vivo, surrar uma das filhas, apagar o cigarro na perna de outra e partir pra cima do imitador de sofrimentos. As crian&ccedil;as dispararam a chorar e a mulher dominando o corpo n&atilde;o parava de xingar a vida. Tudo isso embalado pela m&uacute;sica do rapaz negro e o recorrente falat&oacute;rio dos b&ecirc;bados. Cada um com seu barulho e outros com barulhos alheios, o trem seguiu seu trajeto colecionando hist&oacute;rias de sons. Cada qual no seu tempo ou esta&ccedil;&atilde;o. Apenas o homem que andava em c&iacute;rculos foi capaz de viajar em sil&ecirc;ncio sem revelar o seu barulho. Que som tem o seu sofrimento? L&aacute; em cima, nas ruas, uma sacola pl&aacute;stica voa como p&aacute;ssaro sem destino at&eacute; se prender a um galho de uma &aacute;rvore sem folhas. A neve cai forte igualando todas as cores e formas num amontoado de tranq&uuml;ilidade. A rua est&aacute; aparentemente silenciosa, como eu, como o homem que anda em c&iacute;rculos. &Eacute; o inverno fora e dentro de cada um. Branco e silencioso, o vazio fantasiado de paz.</div>
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Sobre o autor

Mariana Luiza

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