Um dia de inverno
04/11/2013 | 21h08
18 de Fevereiro de 2009, 12:42 A.M. Linha F, 9 Street, sentido Manhattan 
Venta. E venta muito. Com força. Um papel de bala sem bala e um pacote de biscoitos vazio rodopiam como um casal na pista de dança. Sob o ritmo e som da ventania eles percorrem o corredor levando consigo a poeira da estação e a neve que resta nos dormentes do trilho do trem. Um homem sem casaco desenha um círculo involuntário com a neve dos sapatos enquanto caminha. Mais duas voltas e ele cairá no abismo raso do fosso. Perto dele, também a espera, um corpo de mulher, apoiado na parede, tenta se manter de pé e acender um cigarro. O corpo treme e grita histérico a cada batalha perdida. Quando não é o vento que lhe apaga as chamas, são as mãos tremulas que não conseguem riscar o fósforo. Além dos dois, há duas crianças que correm de um lado a outro na estação. Elas são filhas da dona do corpo. Aparentemente acostumadas aos gritos e ao inverno, brincam sem se incomodar. O trem chega e a sincronia dos movimentos e barulhos da estação continua dentro do vagão na mais perfeita desarmonia. O corpo transtornado ainda treme, ainda grita, ainda tenta ascender o cigarro. As crianças alegres ainda correm indiferentes. E o homem continua sua caminhada circular, agora em volta a barra de segurança. Junto a tudo isso, um rapaz negro que já seguia viagem desde a estação anterior canta alto, de olhos fechados a mesma música que ecoa do seu fone de ouvido. O rapaz gesticula e dança como se estivesse em frente a uma enorme platéia. Mas ao que parece a única pessoa que lhe presta atenção sou eu. Já estamos em Manhattan quando um grupo de seis amigos, todos homens, todos bêbados, entra no vagão. Eles bebem algo destilado de uma garrafa escondida em um saco de papel e conversam cada um sobre um tema distinto. Tudo ao mesmo tempo. Bocas dizendo palavras que não chegam a ouvido algum e que se misturam ao descompasso existente. Um dos rapazes interrompe as conversas e imita os gestos e sons do negro que ainda canta de olhos fechados. O outro, entrando na brincadeira, decide fumar uma caneta tirada do bolso às pressas, para imitar as tragadas e baforadas do corpo que conseguiu, finalmente, ascender seu cigarro. O corpo absorto no malevolente prazer do vício não percebe o deboche. Até que uma de suas crianças acha graça no cigarro-caneta do rapaz. Bastaram poucas risadas para o corpo, quase morto e desatento, levantar-se bem vivo, surrar uma das filhas, apagar o cigarro na perna de outra e partir pra cima do imitador de sofrimentos. As crianças dispararam a chorar e a mulher dominando o corpo não parava de xingar a vida. Tudo isso embalado pela música do rapaz negro e o recorrente falatório dos bêbados. Cada um com seu barulho e outros com barulhos alheios, o trem seguiu seu trajeto colecionando histórias de sons. Cada qual no seu tempo ou estação. Apenas o homem que andava em círculos foi capaz de viajar em silêncio sem revelar o seu barulho. Que som tem o seu sofrimento? Lá em cima, nas ruas, uma sacola plástica voa como pássaro sem destino até se prender a um galho de uma árvore sem folhas. A neve cai forte igualando todas as cores e formas num amontoado de tranqüilidade. A rua está aparentemente silenciosa, como eu, como o homem que anda em círculos. É o inverno fora e dentro de cada um. Branco e silencioso, o vazio fantasiado de paz.
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Sobre o autor

Mariana Luiza

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