Fotografias roubadas: O assalto do sossego
05/08/2013 | 08h01
<div><tinymce class="clickTinyMCE" title="{'nm_midia_inter_thumb1':'http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2017/12/20/170x96/1_img_3582_224x300-929942.jpg', 'id_midia_tipo':'2', 'id_tetag_galer':'', 'id_midia':'5a3a63e4896f9', 'cd_midia':929942, 'ds_midia_link': 'http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2017/12/20/img_3582_224x300-929942.jpg', 'ds_midia': '', 'ds_midia_credi': '', 'ds_midia_titlo': '', 'cd_tetag': '1', 'cd_midia_w': '224', 'cd_midia_h': '300', 'align': 'Left'}"><figure class="Left" style="width:224px;height:300px;"> <img src="http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2017/12/20/img_3582_224x300-929942.jpg" alt="" width="224" height="300"> <figcaption> </figcaption> </figure></tinymce>Era frio, 4 graus Celsius. Mais uma vez S&atilde;o Paulo me fazia recordar Nova York. Minhas m&atilde;os quase congelando, se escondiam por dentro das mangas de um casaco despretensioso. Peguei o metr&ocirc;, na Paulista, em dire&ccedil;&atilde;o &agrave; Esta&ccedil;&atilde;o da Luz. Uma travesti fazia ponto sorridente na passarela acima dos trilhos. Ela era loira, vestia um just&iacute;ssimo top vermelho de mangas compridas, que deixava a barriga totalmente ao relento e parte dos seios siliconados &agrave; mostra; e uma cal&ccedil;a jeans que lhe favoreciam as curvas e a bunda descomunalmente grande e redonda. Bunda, Quindim, banguela, xoxota, lengalenga, cacha&ccedil;a, encabular... Eu tinha acabado de sair do museu de l&iacute;ngua portuguesa e as palavras de origem africana pipocavam na minha cabe&ccedil;a. Olhei para aquele <em>derri&egrave;re </em>e comecei a rir. Ela sorriu pra mim, mesmo sem saber o porqu&ecirc; da minha risada, mas n&atilde;o quis posar pra minha m&aacute;quina fotogr&aacute;fica. Eu fui embora&nbsp;arrependida por n&atilde;o &ecirc;-la fotografado, mesmo que escondido. Quando criei coragem para o criminoso ato de roubar-lhe uma pose e voltei ao lugar em que ela fazia ponto, j&aacute; era tarde. Vai ver arrumou um cliente. Resolvi procurar algu&eacute;m que quisesse posar pra mim. Embora nunca gostasse de fotografar escondido n&atilde;o sou desinibida o suficiente para pedir uma pose a desconhecidos e, por isso, sempre preferi as plantas e arquitetura &agrave;s pessoas. A elas n&atilde;o precisava pedir autoriza&ccedil;&atilde;o. Atravessei a rua para fotografar as ra&iacute;zes de um &aacute;rvore que teimava em crescer no asfalto e um pr&eacute;dio cujos apartamentos exibiam em suas janelas roupas coloridas em varais improvisados.</div> <div>Com a m&aacute;quina pendurada no pesco&ccedil;o mirei para o pr&eacute;dio <tinymce class="clickTinyMCE" title="{'nm_midia_inter_thumb1':'http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2017/12/20/170x96/1_img_3666_300x300-929919.jpg', 'id_midia_tipo':'2', 'id_tetag_galer':'', 'id_midia':'5a3a63d24de54', 'cd_midia':929919, 'ds_midia_link': 'http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2017/12/20/img_3666_300x300-929919.jpg', 'ds_midia': '', 'ds_midia_credi': '', 'ds_midia_titlo': '', 'cd_tetag': '1', 'cd_midia_w': '300', 'cd_midia_h': '300', 'align': 'Right'}"><figure class="Right" style="width:300px;height:300px;"> <img src="http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2017/12/20/img_3666_300x300-929919.jpg" alt="" width="300" height="300"> <figcaption> </figcaption> </figure></tinymce>quando, bem na minha frente, dois homens se atracaram numa briga de bra&ccedil;os. Por um breve instante pensei que se tratava da luta entre dois amigos de col&eacute;gio ou irm&atilde;os. Eles andavam t&atilde;o pr&oacute;ximos um do outro e pareciam trocar confid&ecirc;ncias ao p&eacute; do ouvido pouco antes da luta come&ccedil;ar. Depois, quando um deles come&ccedil;ou a gritar e o outro sacou de dentro da manga do casaco um fac&atilde;o do comprimento exato de seu bra&ccedil;o eu percebi que se tratava de um assalto e que eu estava na tristemente famosa Cracol&acirc;ndia. Algumas pessoas ao nosso redor come&ccedil;aram a correr. Outras andavam aflitas, em passos tensos e apressados mas fingindo que nada demais estava acontecendo. Talvez n&atilde;o quisessem chamar a aten&ccedil;&atilde;o do assaltante. E tinham aqueles que, como eu, ficaram ali, parados observando. &Eacute; estranho ver as rea&ccedil;&otilde;es alheias pr&oacute;ximas a um assalto e mais estranho foi pensar na minha rea&ccedil;&atilde;o. Eu, numa quest&atilde;o de segundos, pensei em fotografar a faca. Admirava-me a destreza em que o assaltante tirou aquela l&acirc;mina t&atilde;o grande de dentro da manga do casaco. Tive medo dele enfiar a faca no outro rapaz e presenciar o assassinato. Mas n&atilde;o fiz nada para intervir e essa covardia me assustou um pouco. Era como se eu esperasse pela facada iminente num filme de guerra que acontecia bem na minha frente. Eu e aquelas outras pessoas quer&iacute;amos ver sangue, como muitos querem quando v&atilde;o ao cinema &agrave; procura de filmes de viol&ecirc;ncia. N&atilde;o gritamos. N&atilde;o chamamos a pol&iacute;cia. N&atilde;o tentamos salvar o rapaz num ato heroico. N&atilde;o fizemos nada. Tudo isso durou apenas alguns segundos. O rapaz cedeu &agrave; faca e entregou a carteira ao assaltante que atravessou a rua calmamente com o fac&atilde;o reposto em seu lugar habitual e o bolso preenchido de vida alheia. A pol&iacute;cia que estava h&aacute; poucos metros dali, nada viu. O dono da vida roubada tamb&eacute;m sumiu entre os transeuntes. E eu fiquei com a c&acirc;mera na m&atilde;o desistindo de fotografar as toalhas coloridas. J&aacute; estava farta de roubar fotos. Pouco antes, pedi informa&ccedil;&otilde;es a um policial sobre a dire&ccedil;&atilde;o do Memorial da Resist&ecirc;ncia.</div> <div><tinymce class="clickTinyMCE" title="{'nm_midia_inter_thumb1':'http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2017/12/20/170x96/1_img_3528_300x300-929952.jpg', 'id_midia_tipo':'2', 'id_tetag_galer':'', 'id_midia':'5a3a63f6d3249', 'cd_midia':929952, 'ds_midia_link': 'http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2017/12/20/img_3528_300x300-929952.jpg', 'ds_midia': '', 'ds_midia_credi': '', 'ds_midia_titlo': '', 'cd_tetag': '1', 'cd_midia_w': '300', 'cd_midia_h': '300', 'align': 'Left'}"><figure class="Left" style="width:300px;height:300px;"> <img src="http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2017/12/20/img_3528_300x300-929952.jpg" alt="" width="300" height="300"> <figcaption> </figcaption> </figure></tinymce>Tive um pouco de medo do policial cujo uniforme me lembrava os oficiais do cadeir&atilde;o do BOPE. Pensei no g&aacute;s e no spray de pimenta lan&ccedil;ado pela RONDA nos protestos pelo P<em>asse Livre. </em>Tive tanto medo que mal prestei aten&ccedil;&atilde;o nas dire&ccedil;&otilde;es que ele me dava. H&aacute; poucas semanas, havia&nbsp;ficado&nbsp;frente a frente com policiais do BOPE atirando em protestantes de cima de um tanque de guerra. A lembran&ccedil;a assustadora somava-se ao rec&eacute;m presenciado assalto a fac&atilde;o. Cheguei ao Memorial, o antigo pr&eacute;dio do DOI-CODI tremendo de um medo tardio. Medo do assaltante. Medo da pol&iacute;cia fluminense. A perna treme de pensar na faca. A garganta incomoda por causa do g&aacute;s, por causa dos sapos engolidos e da suprimida vontade de xingar a autoridade que abusa do poder. O corpo d&oacute;i do impacto da bala que passou de rasp&atilde;o, mas que podia ter atingido em cheio na batata da perna, as costelas. Que podia ter sido muni&ccedil;&atilde;o de fuzil, o mesmo que sem receio &eacute; lan&ccedil;ado sobre os corpos negros e perif&eacute;ricos. Sim naquela noite, na Zona Sul podia, mas que mesmo sendo de borracha nos mata aos poucos. O g&aacute;s de efeito moral nos mata aos poucos. A trucul&ecirc;ncia nos mata aos poucos. &Eacute; uma morte viva. Morto vivo. Zumbis numa cidade sem lei. Visitei as celas do DOI-CODI. Pensei no frei Beto. Pensei na Dilma. Pensei no policial do BOPE que atirava na dire&ccedil;&atilde;o das janelas de luzes acesas que vigiavam a trucul&ecirc;ncia da policia nas ruas do Flamengo. Pensei nos policiais que entram nas casas das favelas com balas letais e trucul&ecirc;ncia infinitamente maior do que a destinada aos playboys da Zona Sul. Eu havia roubado fotos dos policiais da passeata do Papa dois dias antes daquele assalto. N&atilde;o senti culpa alguma. O fiz escondido porque se pedisse para fotografar poderia ter minha c&acirc;mera roubada. Ou ser agredida com um fac&atilde;o do tamanho do bra&ccedil;o. N&atilde;o, quer dizer, com uma arma que dispara tiros de borracha.</div>
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Sobre o autor

Mariana Luiza

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