Muitos medos e poucas coragens
04/06/2012 | 20h27
sapo no terrário
sapo no terrário
Medo 1 - Cadeira de delegado
Minha tia avó morava numa vila, que antes de ser vila era apenas um terreno do pai dela. No caso, meu bisavô: José Flora. Na vila, ou no terreiro como chamava meu pai, havia um galinheiro, um pé de café, uma mangueira enorme e uma cadeira de balanço com o encosto forrado de um acolchoado verde. Meu pai dizia que aquela era a cadeira do delegado. E eu, que cresci com medo de polícia, morria de medo.
Medo 2 - Sapo, perereca e rã Eu tinha uma coleção de medos que fui me desfazendo à medida que crescia. Medo de morrer, de acabar a água potável do planeta, dos meus pais morrerem, medo de nadar no mar, medo de cachorro, do Luke Skywalker, de ser a última da casa a pegar no sono e o mais pavoroso de todos os medos, até hoje o único não curado: O medo de sapos! O mais curioso de tudo é que eu nunca tinha tido nenhum contato com um sapo de verdade. Só os conhecia de fotografia ou livros de ciência. Quando bebê, fora perseguida por um ator vestido de Luke, durante o lançamento nos cinemas do primeiro Guerra nas Estrelas. Aos quatro anos, fui mordida por um poodle na porta da minha casa. Aos dez, já tinha me afogado em mar aberto e quase morrido. Mas sapo, perereca e rã, estes eu não conhecia pessoalmente. 
Até o dia, que meu pai, na tentativa de acabar com meu maior medo da vida, me levou a um restaurante, cujo cardápio tinha duas opções: pernas de rãs fritas, ou pernas de rãs assadas. Meu pai seguia a filosofia de São Tomé: "ver para crer", adaptada neste caso, para o “ver pra o medo perder”. A verdade liberta. Mas no meu caso me aprisionou ainda mais. O tal restaurante especializado em rãs tinha um ranário abarrotado de anfíbios albinos que nadavam e repousavam sobre as pedras. A verdadeira visão do inferno. O medo que era inexplicável passou a ter explicação e materialização. Não importava o tamanho ou cor. Grandes, pequenos, verdes, marrons, coloridos. Qualquer tipo. Não importa a família ou classe, sapo, perereca, e rã. Agora eu tinha medo e tinha experimentado dele. 
Coragem, a maior de todas Quando eu e meu irmão éramos crianças nós tínhamos um pacto de sangue. A luta constante pelo poder. Bastava minha mãe sair de casa para o trabalho que a guerra diária começava. A batalha tinha hora para começar e só findava depois de anunciado o vencedor. O vencedor se tornava por um dia, o rei da casa. Isso significa que naquele dia, até a hora dos pais retornarem do trabalho, ele poderia fazer tudo. Tudo que quisesse e faria do irmão perdedor um vassalo pelo dia. A batalha era simples. Vencia o irmão que derrubasse o outro da cama. Valia tudo, guerra de travesseiro, chute, empurrões e nariz quase quebrado.
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Sobre o autor

Mariana Luiza

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