Causava-lhe náuseas
28/01/2019 21:26 - Atualizado em 29/01/2019 10:08
ML
Causava-lhe náuseas caminhar pelos calçamentos de pedras irregulares do centro histórico de Paraty. Nem sempre suas passadas de perna cabiam num mesmo bloco e diante de qualquer distração, ela afundava o salto da bota no encontro de areia que juntava uma pedra a outra.
Ora compridas, ora arredondadas, as pedra eram quase que sempre escorregadias o que demandava muita atenção aos que desejavam caminhar incólume sobre elas. Nossa protagonista era um tipo desses.
Ela andava cuidadosamente, olhando sempre para o encontro das pedras, com medo de pisar em falso nos restos de areia trazidos pela maré alta que invadia algumas ruas do centro histórico, todos os dias, sem cerimônia.Por todo o tempo em que ficou na cidade, carregava consigo sua câmera Nikon e um par de lentes pesado e volumoso. Interessava-lhe a arquitetura.
No primeiro dia, saiu bem cedo para fotografar as eiras e beiras das telhas de porcelana branca com detalhes floridos pintados à mão com tinta azul Royal. Cruzou toda Comendador José Luiz debaixo do sol quente de um dia de janeiro, mas caminhar sobre as pedras redondas olhando ao mesmo tempo para o céu a procura dos telhados, causava-lhe náuseas e ela voltou ao hotel sem registros da arquitetura colonial.
No dia seguinte, escolheu Da. Maria Jácome de Mello desejando fotografar as minúcias das largas portas coloridas com molduras de madeira do estilo português. Procurou pelas cortinas de renda de Bilro que enfeitavam os vidros das janelas também largas, também coloridas, também coloniais. Queria fotografar os desenhos geométricos em relevo que enfeitavam as fachadas das casas dos antigos maçons. Mas ela estava nauseada de caminhar por ruas tortas feitas de pedras irregulares.
Por um breve instante pensou na maravilha que seria se o calçamento pé-de-moleque fosse um pouco mais obediente. Mais uniforme. Mais padronizado. E enquanto caminhava de cabeça e olhos baixos fitando com atenção o encontro das pedras ela se lembrava de uma lenda que ouvira da boca da recepcionista do hotel onde se hospedava. “As telhas coloniais eram feitas nas coxas das escravas, por isso, não há uma sequer igual a outra.”. As pedras do calçamento também foram moldadas pelas mãos distintas dos escravizados.
Mãos singulares. Identidades singulares sequestradas de reinos distintos e amontoadas como mercadorias feitas em série nos porões de navios negreiros. Malditas pedras irregulares que a forçavam a olhar sempre para o chão. Que a impediam de contemplar para as claraboias e o peitoril do casarão, os balcões de ferro forjado enfeitados com pinhas e abacaxis de linhagem nobre. Malditas pedras irregulares que dificultaram seu equilíbrio e levaram seu corpo sempre esguio e imponente de encontro ao chão. No exato momento em que ela fazia o foco da lente e se abaixava a procura do ângulo certo para fotografar crianças indígenas que entoavam cânticos guaranis em troca de esmolas enquanto suas mães vendiam arcos, flechas e cocares sob os olhares exóticos dos conterrâneos brasileiros disfarçados de turistas estrangeiros.
Ainda nauseada, com dor no corpo mal acostumado a tombos e tomada por um calor infernal do verão tropical ela passou por uma sorveteria para comprar uma bola de chocolate belga produzida com cacau cuja procedência nem ela, muito menos o dono da loja, imaginavam origem tão familiar. Cacau do sul da Bahia. Enquanto o atendente lhe servia uma bola, a televisão mostrava uma entrevista antiga do presidente, quando ainda era candidato profetizando palavras de igualdade e a padronização do ser humano. “Gays, homens, negros, indígenas, somos todos iguais”.
Distintas são as coxas das escravizadas e as pedras irregulares. Ora pontudas, ora arredondados, ora grandes, ora pequenas. Não há como caminhar sem sair ileso deste calçamento, deste país tão desigual e culturalmente distinto. Talvez o melhor fosse cobrir o passado colonial com o negro betume do asfalto superfaturado. Isso apagaria parte da história que não queremos mesmo ver e preservaria nossa ignorância insular de ser brasileiro.

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    Mariana Luiza

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