Fantasias
25/12/2014 | 01h57
Acreditei em Papai Noel até meus 11 anos. Fui a última da minha turma de colégio. E todo ano era sempre a mesma história: quando algum motivo logístico ou falta de mão de obra natalícia impedia a chegada do bom velhinho, meu pai nos mandava pro chuveiro. “Papai Noel nunca visita crianças sujas” –dizia ele. Enquanto eu e meu irmão tomávamos um banho caprichado, as renas pousavam próximo à janela do apartamento e o bom velhinho, sempre apressado, jogava os presentes ao pé da árvore de natal, que na maioria dos anos era feita de galho seco catado na Floresta da Tijuca, adornado com chumaços de algodão e bolinhas de vidro vermelhas e douradas.
Por muito anos acreditei naquele truque do banho, pressa e presentes ao pé da árvore. Até uma noite em que me questionei. Como o bom velhinho fez para passar a bicicleta pelas janelas gradeadas?
Eu tinha muitas dúvidas a respeito da existência daquele senhor que parecia um deus dezembrino onipresente em todos os shoppings e galerias. Tinha dúvidas sobre sua terra natal, sobre andar de renas num país tão quente como Brasil. Nutria desconfianças se ele podia mesmo fazê-las voar, no espaço e no tempo. Mas pior do que minhas próprias dúvidas, era ter que conviver com as certezas das minhas amigas. Todas, sem exceção, insistiam em me convencer que Papai Noel era só um truque dos pais para forçarem as crianças a se comportarem bem durante o ano.
Papai Noel não existe. O Papai Noel é o seu pai!”
Teve um ano que finalmente o Papai Noel bateu em minha porta quando eu e meu irmão já estávamos de banho tomado para recebê-lo. A visita durou quase uma hora. Eu tinha muitas perguntas e a necessidade de convencer meus amigos se tornara maior do que a curiosidade em ganhar os presentes do saco vermelho.
Porquê vocês só ficam em shoppings? Não seria melhor uma pracinha?
Como você consegue estar em vários lugares ao mesmo tempo?
Se você tem esse poder, será que não pode esperar um pouco a gente terminar de tomar banho?
Aqui é quente demais para as renas... Não seria melhor o senhor vir de avião?
Pra que essa roupa quente no verão de 40 graus? Isso desidrata.
Depois de algumas respostas nada convincentes, o bom velhinho posou para a foto ao lado do meu pai. Eu esperei ansiosa pelo fim de Janeiro e metade de Fevereiro para começar o ano letivo e finalmente mostrar as minhas amigas a fotografia dos papais lado a lado.  
Sim, ele existe. E não é meu pai!
Mas se não é seu pai é outra pessoa... Seu tio, seu vizinho, seu porteiro.
Naquele dia, eu percebi que há pessoas que gostam da fantasia e há aqueles que se conformam com a realidade. Eu, definitivamente, não fazia parte do segundo grupo. A minha verdade era acreditar em histórias da carochinha. E eu não precisava das asserções alheias.
Com 12 anos, quando já não dava mais para defender sua existência, eu resolvi trocar de fantasias. Talvez seja este o motivo de eu gostar tanto de carnaval. Uma festa mais verossímil e adequada para crenças juvenis e adultas. No carnaval eu acredito em Mulher Maravilha, Coelhos da Páscoa e Sereias. E o melhor, nenhum adulto descrente tenta me convencer do contrário.
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Prova de Amor
18/12/2014 | 01h02
- Eu estive em Porto Alegre há trinta anos. Ainda havia bonde!
- Mas bah!
- Meu pai era torcedor fanático do Flamengo. Onde o time jogava, lá estava ele comigo a tiracolo. Eu viajei o Brasil inteiro acompanhando, meu pai, Marco Aurélio, Murilo, Onça, Liminha, Paulo Henrique, Clóvis, Dionísio, César, Luís Carlos e tantos outros que passaram pelo Flamengo no final dos anos 60, início da década de 70. Fui ao Beira-Rio poucos meses depois da inauguração do estádio. O Flamengo ganhou de 2 x 1 do Inter. Tempos depois lá estávamos lá de novo: Flamengo e Grêmio. Eu gostei de Porto Alegre.
- Precisa voltar, tchê.
- Por muitos anos da minha infância, não houve um estádio deste Brasil que eu não conhecesse. Onde o Flamengo jogasse lá estaria eu e meu pai na arquibancada. Teve um ano.... Não sei se te falei... Mas meu pai era funcionário da Light... Daí... Teve um jogo no Maracanã... Flamengo e Cruzeiro. Dia três de Março de 1968. Lembro como se fosse hoje. Meu pai comprou os ingressos para mim e pra minha mãe. Deu as instruções de praxe. Explicou qual era o lugar certinho pra gente sentar e esperar por ele. Nessa época meu pai trabalhava na sessão do Alto da Boa Vista. Muita mata, muitas árvores. Você sabe como é, né?
Nós fomos. Chegamos com duas horas de antecedência. Exatamente como ele recomendou. E sentamos no lugar determinado. Bem de frente pro meio de campo. Você sabe como são as chuvas de verão, né? Pode cair um dilúvio em Copacabana e você no Centro da cidade não perceber nada. O Flamengo fez um jogo memorável naquela noite. Ganhou de 5 a 1 do Cruzeiro. Mas meu pai não apareceu para ver a vitória. Uma tempestade de chuvas e ventos destruiu árvores e derrubou postes bem na região que ele fazia plantão. No fim do jogo, o vento levou a chuva para o campo da vitória rubro-negra. E todo o redor do estádio ficou debaixo d’água. Não se sabia mais o que era rua, o que era rio. Minha mãe me colocou nos ombros e atravessou aquele mar de água comigo dependurado. Não tinha celular, né? Então você imagina a preocupação. Onde andava meu pai que não tinha chegado pro jogo? O que havia acontecido com ele? O jogo terminou por volta das dez da noite, mas nós só chegamos a casa às três da manhã. E assim que abrimos a porta da sala, completamente ensopados. Meu pai, com um copo de agua na mão perguntou: Vocês viram o jogo?
- Mas bah, qual o seu jogador predileto? Qual seu craque?
- Garrincha.
- É mesmo... Nem me lembrava. O Garrincha jogou uma temporada pequena no Flamengo, não é?
- É. Mas eu sou botafoguense. Todos os meus irmãos são flamenguistas. Doentes. Minha filha também é. Mas eu nunca consegui gostar daquela camisa vermelha e preta. Preto não combina com vermelho. Eu torço pro Botafogo desde pequenininho. Mas meu pai morreu sem saber disso.
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Obra
11/12/2014 | 01h06
Não parecia ser um sonho, mas era tão surreal. Eu sentia o cheiro dos cômodos, as texturas e as dimensões dos móveis. Ouvia os barulhos comuns de um apartamento com muita nitidez e clareza. Tudo era muito familiar e palpável, na mesma proporção que fantasioso e louco. E a todo instante eu conscientemente me perguntava: “Será que eu estou sonhando?” O piso do apartamento tinha uma rachadura contínua da porta de entrada ao final da parede. Uma fenda de quase 10 centímetros que dividia a sala em duas metades. Era como se o chão se movesse para os lados, tal duas placas tectônicas que se deslocam em desencontro. Meu irmão, criança, dormia no piso de uma das metades da sala. E eu esperava pelo seu despertar para fugir daquele lugar em ruínas que desaparecia a qualquer instante. Por dias esperei acompanhando o diário afastar do piso. Os ladrilhos da parede da cozinha se esticavam como chiclete entre os dentes e dedos de uma criança, atrasando a ruptura, adiando o momento da separação. Eu, desesperada, sabia que muito em breve ficaria sem casa, mas ciente da minha impotência nada fazia, esperando apenas que a surreal realidade fosse fruto da minha imaginação. Mas não era. Eu sentia tudo aquilo com muita veracidade. O tempo passava e meu irmão dormia, enquanto eu aguardava. O teto do apartamento já não existia. Os andares acima haviam desaparecido e eu via o céu azul com gaivotas planando sobre nossas cabeças. Debaixo da fenda, a cidade pulsava em polvorosa. Carros transitavam freneticamente, em meio ao som de buzinas e motores, de um lado a outro. Assim com as pessoas, as bicicletas, e os animais urbanos. A vida acontecia debaixo dos nossos corpos. E meu irmão, criança, dormia. Enquanto eu, inerte, esperava. Meu apartamento flutuava suspenso sobre vigas invisíveis. Agora, já não havia paredes. Nem móveis. Uma moldura de janela insistia em desafiar a gravidade, enquanto meu irmão, criança, dormia. Eu pensei que pudesse ser um sonho. Meu irmão já não era tão pequeno. E consciente, sabia disso. Tentava me alertar sobre o tempo, sobre o espaço. Mas todo o resto, inclusive o apartamento suspenso contrariando a gravidade me parecia muito real. As sensações que eu tinha eram verdadeiras demais para um devaneio. Acordei com uma hora de atraso ao meu horário habitual. O telefone tocava insistentemente na cabeceira da cama. O fornecedor de pisos dizia do outro lado da linha que a quantidade comprada não poderia ser entregue no prazo combinado. Desliguei o telefone tonta com aquela informação misturada ao sonho real que tinha vivido. Resolvi ligar pro meu irmão. A testosterona denunciada na voz masculina me trouxe a prova que precisava. Eu já não sonhava mais. E a obra não estava no fim.
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Sobre o autor

Mariana Luiza

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