Fantasias
25/12/2014 | 01h57
<div><tinymce class="clickTinyMCE" title="{'nm_midia_inter_thumb1':'http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2017/12/21/170x96/1_img_0855_290x300-931019.jpg', 'id_midia_tipo':'2', 'id_tetag_galer':'', 'id_midia':'5a3b17c5c28f7', 'cd_midia':931019, 'ds_midia_link': 'http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2017/12/21/img_0855_290x300-931019.jpg', 'ds_midia': '', 'ds_midia_credi': '', 'ds_midia_titlo': '', 'cd_tetag': '1', 'cd_midia_w': '290', 'cd_midia_h': '300', 'align': 'Left'}"><figure class="Left" style="width:290px;height:300px;"> <img src="http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2017/12/21/img_0855_290x300-931019.jpg" alt="" width="290" height="300"> <figcaption> </figcaption> </figure></tinymce>Acreditei em Papai Noel at&eacute; meus 11 anos. Fui a &uacute;ltima da minha turma de col&eacute;gio. E todo ano era sempre a mesma hist&oacute;ria: quando algum motivo log&iacute;stico ou falta de m&atilde;o de obra natal&iacute;cia impedia&nbsp;a chegada&nbsp;do bom velhinho, meu pai nos mandava pro chuveiro. “<em>Papai Noel nunca visita crian&ccedil;as sujas”</em> –dizia ele. Enquanto eu e meu irm&atilde;o tom&aacute;vamos um banho caprichado, as renas pousavam pr&oacute;ximo &agrave; janela do apartamento e o bom velhinho, sempre apressado, jogava os presentes ao p&eacute; da &aacute;rvore de natal, que na maioria dos anos era feita de galho seco catado na Floresta da Tijuca, adornado com chuma&ccedil;os de algod&atilde;o e bolinhas de vidro vermelhas e douradas.</div> <div>Por muito anos acreditei naquele truque do banho, pressa e presentes ao p&eacute; da &aacute;rvore. At&eacute; uma noite em que me questionei. <em>Como o bom velhinho fez para passar a bicicleta pelas janelas gradeadas?</em></div> <div>Eu tinha muitas d&uacute;vidas a respeito da exist&ecirc;ncia&nbsp;daquele senhor que parecia um deus dezembrino onipresente em todos os shoppings e galerias. Tinha d&uacute;vidas sobre sua terra natal, sobre andar de renas num pa&iacute;s t&atilde;o quente como Brasil. Nutria desconfian&ccedil;as se ele podia mesmo faz&ecirc;-las voar, no espa&ccedil;o e no tempo. Mas pior do que minhas pr&oacute;prias d&uacute;vidas, era ter que conviver com as certezas das minhas&nbsp;amigas. Todas, sem exce&ccedil;&atilde;o, insistiam em me convencer que Papai Noel era s&oacute; um truque dos pais para for&ccedil;arem as crian&ccedil;as a se comportarem bem durante o ano.</div> <div><em>Papai Noel n&atilde;o existe. O Papai Noel &eacute; o seu pai!”</em></div> <div>Teve um ano que finalmente o Papai Noel bateu em minha porta quando eu e meu irm&atilde;o j&aacute; est&aacute;vamos de banho tomado para receb&ecirc;-lo. A visita durou quase uma hora. Eu tinha muitas perguntas e a necessidade de convencer meus amigos se tornara maior do que a curiosidade em ganhar os presentes do saco vermelho.</div> <div><em>Porqu&ecirc; voc&ecirc;s s&oacute; ficam em shoppings? N&atilde;o seria melhor uma pracinha?</em></div> <div><em>Como voc&ecirc; consegue estar em v&aacute;rios lugares ao mesmo tempo?</em></div> <div><em>Se voc&ecirc; tem esse poder, ser&aacute; que n&atilde;o pode esperar um pouco a gente terminar de tomar banho?</em></div> <div><em>Aqui &eacute; quente demais para as renas... N&atilde;o seria melhor o senhor vir de avi&atilde;o?</em></div> <div><em>Pra que essa roupa quente no ver&atilde;o de 40 graus? Isso desidrata.</em></div> <div>Depois de algumas respostas nada convincentes, o bom velhinho posou para a foto ao lado do meu pai. Eu esperei ansiosa pelo fim de Janeiro e metade de Fevereiro para come&ccedil;ar o ano letivo e finalmente mostrar as minhas amigas a fotografia dos papais lado a lado. &nbsp;</div> <div><em>Sim, ele existe. E n&atilde;o &eacute; meu pai!</em></div> <div><em>Mas se n&atilde;o &eacute; seu pai &eacute; outra pessoa... Seu tio, seu vizinho, seu porteiro.</em>”</div> <div>Naquele dia, eu percebi que h&aacute; pessoas que gostam da fantasia e h&aacute; aqueles que se conformam com a realidade. Eu, definitivamente, n&atilde;o fazia parte do segundo grupo. A minha verdade era acreditar em hist&oacute;rias da carochinha. E eu n&atilde;o precisava das asser&ccedil;&otilde;es alheias.</div> <div>Com 12 anos, quando j&aacute; n&atilde;o dava mais para defender sua exist&ecirc;ncia, eu resolvi trocar de fantasias. Talvez seja este o motivo de eu gostar tanto de carnaval. Uma festa&nbsp;mais veross&iacute;mil e adequada para cren&ccedil;as juvenis e adultas. No carnaval eu acredito em Hero&iacute;nas, Coelhos da P&aacute;scoa e Sereias. E o melhor, nenhum adulto descrente tenta me convencer do contr&aacute;rio.</div>
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Prova de Amor
18/12/2014 | 01h02
<div><tinymce class="clickTinyMCE" title="{'nm_midia_inter_thumb1':'http://www.folha1.com.br/_midias/png/2017/12/21/170x96/1_image1_300x296-931575.png', 'id_midia_tipo':'2', 'id_tetag_galer':'', 'id_midia':'5a3bae81009f4', 'cd_midia':931575, 'ds_midia_link': 'http://www.folha1.com.br/_midias/png/2017/12/21/image1_300x296-931575.png', 'ds_midia': '', 'ds_midia_credi': '', 'ds_midia_titlo': '', 'cd_tetag': '1', 'cd_midia_w': '300', 'cd_midia_h': '296', 'align': 'Left'}"><figure class="Left" style="width:300px;height:296px;"> <img src="http://www.folha1.com.br/_midias/png/2017/12/21/image1_300x296-931575.png" alt="" width="300" height="296"> <figcaption> </figcaption> </figure></tinymce>- Eu estive em Porto Alegre h&aacute; trinta anos. Ainda havia bonde!</div> <div>- Mas bah!</div> <div>- Meu pai era torcedor fan&aacute;tico do Flamengo. Onde o time jogava, l&aacute; estava ele comigo a tiracolo. Eu viajei o Brasil inteiro acompanhando, meu pai, Marco Aur&eacute;lio, Murilo, On&ccedil;a, Liminha, Paulo Henrique, Cl&oacute;vis, Dion&iacute;sio, C&eacute;sar, Lu&iacute;s Carlos e tantos outros que passaram pelo Flamengo no final dos anos 60, in&iacute;cio da d&eacute;cada de 70. Fui ao Beira-Rio poucos meses depois da inaugura&ccedil;&atilde;o do est&aacute;dio. O Flamengo ganhou de 2 x 1 do Inter. Tempos depois l&aacute; est&aacute;vamos l&aacute; de novo: Flamengo e Gr&ecirc;mio. Eu gostei de Porto Alegre.</div> <div>- Precisa voltar, tch&ecirc;.</div> <div>- Por muitos anos da minha inf&acirc;ncia, n&atilde;o houve um est&aacute;dio deste Brasil que eu n&atilde;o conhecesse. Onde o Flamengo jogasse l&aacute; estaria eu e meu pai na arquibancada. Teve um ano.... N&atilde;o sei se te falei... Mas meu pai era funcion&aacute;rio da Light... Da&iacute;... Teve um jogo no Maracan&atilde;... Flamengo e Cruzeiro. Dia tr&ecirc;s de Mar&ccedil;o de 1968. Lembro como se fosse hoje. Meu pai comprou os ingressos para mim e pra minha m&atilde;e. Deu as instru&ccedil;&otilde;es de praxe. Explicou qual era o lugar certinho pra gente sentar e esperar por ele. Nessa &eacute;poca meu pai trabalhava na sess&atilde;o do Alto da Boa Vista. Muita mata, muitas &aacute;rvores. Voc&ecirc; sabe como &eacute;, n&eacute;?</div> <div>N&oacute;s fomos. Chegamos com duas horas de anteced&ecirc;ncia. Exatamente como ele recomendou. E sentamos no lugar determinado. Bem de frente pro meio de campo. Voc&ecirc; sabe como s&atilde;o as chuvas de ver&atilde;o, n&eacute;? Pode cair um dil&uacute;vio em Copacabana e voc&ecirc; no Centro da cidade n&atilde;o perceber nada. O Flamengo fez um jogo memor&aacute;vel naquela noite. Ganhou de 5 a 1 do Cruzeiro. Mas meu pai n&atilde;o apareceu para ver a vit&oacute;ria. Uma tempestade de chuvas e ventos destruiu &aacute;rvores e derrubou postes bem na regi&atilde;o que ele fazia plant&atilde;o. No fim do jogo, o vento levou a chuva para o campo da vit&oacute;ria rubro-negra. E todo o redor do est&aacute;dio ficou debaixo d’&aacute;gua. N&atilde;o se sabia mais o que era rua, o que era rio. Minha m&atilde;e me colocou nos ombros e atravessou aquele mar de &aacute;gua comigo dependurado. N&atilde;o tinha celular, n&eacute;? Ent&atilde;o voc&ecirc; imagina a preocupa&ccedil;&atilde;o. Onde andava meu pai que n&atilde;o tinha chegado pro jogo? O que havia acontecido com ele? O jogo terminou por volta das dez da noite, mas n&oacute;s s&oacute; chegamos a casa &agrave;s tr&ecirc;s da manh&atilde;. E assim que abrimos a porta da sala, completamente ensopados. Meu pai, com um copo de agua na m&atilde;o perguntou: Voc&ecirc;s viram o jogo?</div> <div>- Mas bah, qual o seu jogador predileto? Qual seu craque?</div> <div>- Garrincha.</div> <div>- &Eacute; mesmo... Nem me lembrava. O Garrincha jogou uma temporada pequena no Flamengo, n&atilde;o &eacute;?</div> <div>- &Eacute;. Mas eu sou botafoguense. Todos os meus irm&atilde;os s&atilde;o flamenguistas. Doentes. Minha filha tamb&eacute;m &eacute;. Mas eu nunca consegui gostar daquela camisa vermelha e preta. Preto n&atilde;o combina com vermelho. Eu tor&ccedil;o pro Botafogo desde pequenininho. Mas meu pai morreu sem saber disso.</div>
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Obra
11/12/2014 | 01h06
<div><tinymce class="clickTinyMCE" title="{'nm_midia_inter_thumb1':'http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2017/12/21/170x96/1_fullsizerender_225x300-931605.jpg', 'id_midia_tipo':'2', 'id_tetag_galer':'', 'id_midia':'5a3bb0cb89760', 'cd_midia':931605, 'ds_midia_link': 'http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2017/12/21/fullsizerender_225x300-931605.jpg', 'ds_midia': '', 'ds_midia_credi': '', 'ds_midia_titlo': '', 'cd_tetag': '1', 'cd_midia_w': '225', 'cd_midia_h': '300', 'align': 'Left'}"><figure class="Left" style="width:225px;height:300px;"> <img src="http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2017/12/21/fullsizerender_225x300-931605.jpg" alt="" width="225" height="300"> <figcaption> </figcaption> </figure></tinymce>N&atilde;o parecia ser um sonho, mas era t&atilde;o surreal. Eu sentia o cheiro dos c&ocirc;modos, as texturas e as dimens&otilde;es dos m&oacute;veis. Ouvia os barulhos comuns de um apartamento com muita nitidez e clareza. Tudo era muito familiar e palp&aacute;vel, na mesma propor&ccedil;&atilde;o que fantasioso e louco. E a todo instante eu conscientemente me perguntava: “<em>Ser&aacute; que eu estou sonhando?”</em> O piso do apartamento tinha uma rachadura cont&iacute;nua da porta de entrada ao final da parede. Uma fenda de quase 10 cent&iacute;metros que dividia a sala em duas metades. Era como se o ch&atilde;o se movesse para os lados, tal duas placas tect&ocirc;nicas que se deslocam em desencontro. Meu irm&atilde;o, crian&ccedil;a, dormia no piso de uma das metades da sala. E eu esperava pelo seu despertar para fugir daquele lugar em ru&iacute;nas que desaparecia a qualquer instante. Por dias esperei acompanhando o di&aacute;rio afastar do piso. Os ladrilhos da parede da cozinha se esticavam como chiclete entre os dentes e dedos de uma crian&ccedil;a, atrasando a ruptura, adiando o momento da separa&ccedil;&atilde;o. Eu, desesperada, sabia que muito em breve ficaria sem casa, mas ciente da minha impot&ecirc;ncia nada fazia, esperando apenas que a surreal realidade fosse fruto da minha imagina&ccedil;&atilde;o. Mas n&atilde;o era. Eu sentia tudo aquilo com muita veracidade. O tempo passava e meu irm&atilde;o dormia, enquanto eu aguardava. O teto do apartamento j&aacute; n&atilde;o existia. Os andares acima haviam desaparecido e eu via o c&eacute;u azul com gaivotas planando sobre nossas cabe&ccedil;as. Debaixo da fenda, a cidade pulsava em polvorosa. Carros transitavam freneticamente, em meio ao som de buzinas e motores, de um lado a outro. Assim com as pessoas, as bicicletas, e os animais urbanos. A vida acontecia debaixo dos nossos corpos. E meu&nbsp;irm&atilde;o, crian&ccedil;a, dormia. Enquanto eu, inerte, esperava. Meu apartamento flutuava suspenso sobre vigas invis&iacute;veis. Agora, j&aacute; n&atilde;o havia paredes. Nem m&oacute;veis. Uma moldura de janela insistia em desafiar a gravidade, enquanto meu irm&atilde;o, crian&ccedil;a, dormia. Eu pensei que pudesse ser um sonho. Meu irm&atilde;o j&aacute; n&atilde;o era t&atilde;o pequeno. E consciente, sabia disso. Tentava me alertar sobre o tempo, sobre o espa&ccedil;o. Mas todo o resto, inclusive o apartamento suspenso contrariando a gravidade me parecia muito real. As sensa&ccedil;&otilde;es que eu tinha eram verdadeiras demais para um devaneio. Acordei com uma hora de atraso ao meu hor&aacute;rio habitual. O telefone tocava insistentemente na cabeceira da cama. O fornecedor de pisos dizia do outro lado da linha que a quantidade comprada n&atilde;o poderia ser entregue no prazo combinado. Desliguei o telefone tonta com aquela informa&ccedil;&atilde;o misturada ao sonho real que tinha vivido. Resolvi ligar pro meu irm&atilde;o. A testosterona denunciada na voz masculina me trouxe a prova que precisava. Eu j&aacute; n&atilde;o sonhava mais. E a obra n&atilde;o estava no fim.</div>
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Sobre o autor

Mariana Luiza

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