Uma obra inacabada
04/07/2019 | 14h50
<div>Na fila do embarque para um v&ocirc;o rumo &agrave; Espanha, duas amigas conversam sobre as vantagens da eletroestimula&ccedil;&atilde;o muscular associadas &agrave; malha&ccedil;&atilde;o. Uma roupa de neoprene com 20 eletrodos conectados a um equipamento geram impulsos el&eacute;tricos em diferentes partes da musculatura humana. Segundo a amiga, 20 minutos de eletrochoque equivalem a duas horas de malha&ccedil;&atilde;o.</div> <div>- Na hora do almo&ccedil;o, miga. 20 minutinhos... Depois engulo um sandu&iacute;che, e j&aacute; t&ocirc; pronta para voltar ao batente.</div> <div><tinymce class="clickTinyMCE" title="{'nm_midia_inter_thumb1':'http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2019/07/04/170x96/1_whatsapp_image_2019_07_04_at_14_47_45-1387059.jpeg', 'id_midia_tipo':'2', 'id_tetag_galer':'', 'id_midia':'5d1e3be940a5f', 'cd_midia':1387067, 'ds_midia_link': 'http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2019/07/04/320x285/1_whatsapp_image_2019_07_04_at_14_47_45-1387059.jpeg', 'ds_midia': '', 'ds_midia_credi': '', 'ds_midia_titlo': '', 'cd_tetag': '1', 'cd_midia_w': '320', 'cd_midia_h': '284', 'align': 'Left'}"><figure class="Left" style="width:320px;height:284px;"> <img src="http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2019/07/04/320x285/1_whatsapp_image_2019_07_04_at_14_47_45-1387059.jpeg" alt="" width="320" height="284"> <figcaption> </figcaption> </figure></tinymce>Na primeira noite em Barcelona, caminhei at&eacute; a Sagrada Fam&iacute;lia. Estava cansada da viagem, faminta e tentando acostumar meu corpo ao fuso. Jantei uns tapas num bar de frente &agrave; catedral. Na minha frente, uma mulher com uma Cannon e um conjunto de lentes que avolumava sua mochila, se ajoelhava, contorcendo em diferentes posi&ccedil;&otilde;es, que mais pareciam yoga, na busca da foto ideal. Ela abriu a mochila in&uacute;meras vezes, trocando de lentes e voltando a contorcendo o corpo. Passou mais de 20 minutos se ajoelhando em frente &agrave; catedral como se pagasse promessa. Eu comi as tapas. Tomei duas ta&ccedil;as de sangria enquanto a mo&ccedil;a ainda se contorcia na frente do monumento. Ela repetia os movimentos como num ritual. Sacava as fotos, olhava o resultado no visor, expressava descontentamento, trocava a lente, se ajoelhava, contorcia, quase se deitava no ch&atilde;o. Sacava novas fotos e repetia o movimento de olhar, desgostar e trocar lentes.</div> <div>Quando me preparava para beber a terceira ta&ccedil;a de vinho, vi a mo&ccedil;a desistir ao passar por mim falando em ingl&ecirc;s:</div> <div>- Estes guindastes! Vou ter que comprar um postal.</div> <div>A mulher se referia aos tr&ecirc;s guindastes plantados no entorno da catedral que auxiliam na constru&ccedil;&atilde;o das &uacute;ltimas torres da igreja. Sa&iacute; do bar um pouco tonta, mas passei na loja de suvenir para conferir os postais de Barcelona. Para meu espanto, encontrei dois que exibiam as 18 torres da catedral finalizadas. Uma proje&ccedil;&atilde;o do que talvez vejamos pronto em 2026. O ano de centen&aacute;rio da morte de Gaud&iacute;, ser&aacute; tamb&eacute;m o ano de finaliza&ccedil;&atilde;o da catedral &ndash; segundo a prefeitura da cidade.</div> <div>Alguns dias depois, conversava com um amigo, que fumava na cal&ccedil;ada de uma rua distante da catedral, quando um rep&oacute;rter da Globo nos pediu para conceder uma entrevista. A pauta da semana era a Sagrada Fam&iacute;lia, devido a uma recente descoberta de que a catedral n&atilde;o tinha alvar&aacute; de constru&ccedil;&atilde;o. Aquele dia, era o dia seguinte da primeira publica&ccedil;&atilde;o do <em>Intercept</em> sobre as mensagens trocadas entre Moro e Dallagnol. Eu, que estava fora do Brasil h&aacute; tr&ecirc;s semanas, perguntei ao rep&oacute;rter sobre a repercuss&atilde;o dos fatos. Ele disse n&atilde;o saber muito. Era residente em Lisboa e as publica&ccedil;&otilde;es ainda eram recentes. Falamos sobre pol&iacute;tica e desesperan&ccedil;a. Falamos sobre Moro, Lula e Bolsonaro.</div> <div>O rep&oacute;rter insistia na entrevista mesmo diante da minha refuta. Ele me passou o microfone e perguntou sobre o alvar&aacute; de constru&ccedil;&atilde;o rec&eacute;m emitido pela prefeitura de Barcelona. Quis saber minha opini&atilde;o sobre a conclus&atilde;o de um projeto iniciado h&aacute; 137 anos. O tom de sua pergunta entregava uma certa d&uacute;vida sobre os c&aacute;lculos estruturais das torres mais altas da cidade. Eu n&atilde;o lembro o que respondi. Mas lembro o que pensava enquanto respondia. Gaud&iacute; &eacute; conhecido por se inspirar nos elementos da natureza. As colunas da Sagrada Fam&iacute;lia s&atilde;o frondosos troncos de &aacute;rvore que se ramificam formando um teto abobadado. L&aacute; dentro, na casa de deus e debaixo das copas das &aacute;rvores, estamos protegidos pelas intemp&eacute;ries da natureza.</div> <div>Eu pensava nisso, tentando me convencer da exist&ecirc;ncia da prote&ccedil;&atilde;o divina.</div> <div>O rep&oacute;rter perguntou sobre minha expectativa para 2026. Queria saber se em 7 anos eu retornaria &agrave; capital da Catalunha para ver a inaugura&ccedil;&atilde;o daquele monumento. N&atilde;o disse nem que sim, nem que n&atilde;o. Mas respondi em tom autorit&aacute;rio que, se poderes tivesse, jamais deixaria finalizar a constru&ccedil;&atilde;o da Sagrada Fam&iacute;lia. O eterno canteiro de obras cercado de guindastes &eacute; tamb&eacute;m cart&atilde;o postal. E apag&aacute;-lo do registro s&oacute; refor&ccedil;a a ideia de uma sociedade que mira no futuro sem se dar conta do presente.</div> <div>Como se isso fosse poss&iacute;vel.</div> <div>O rep&oacute;rter estranhou minha resposta e palpitou que talvez o editor n&atilde;o a colocasse na edi&ccedil;&atilde;o do jornal. A reportagem era para promover a conclus&atilde;o da obra e eu dava ideias contr&aacute;rias. Respondi citando a frase de um escritor portugu&ecirc;s que gosto muito: &ldquo;<em><strong>O caminho tamb&eacute;m &eacute; lugar</strong></em>&rdquo; escreveu Jos&eacute; Luiz Peixoto no livro <em>Caminho imperfeito</em>.</div> <div>No v&ocirc;o de volta n&atilde;o reencontrei as amigas marombeiras. Mas lembrei delas ao passar por uma loja repleta de artigos esportivos e facilitadores de dieta.</div> <div>A vida, a pol&iacute;tica e a sa&uacute;de de um corpo s&atilde;o obras inacabadas. E na constru&ccedil;&atilde;o da democracia, o caminho &eacute; o &uacute;nico lugar poss&iacute;vel.&nbsp;</div>
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Sobre o autor

Mariana Luiza

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