Árvore genealógica
21/03/2016 | 12h59
Sempre tive inveja daqueles que têm árvore genealógica. Dos que encontram o sobrenome da família no museu da imigração ou são capazes de contar com detalhes a viagem imigratória do bisavô no final do século XIX. Por motivos óbvios, por muito tempo, me foi negada a possibilidade de investigação da minha origem. Hoje, com testes de DNA, não sei a qual custo, é possível saber de qual país na África origina parte do meu material genético. É um avanço. Não posso negar. Mas ainda assim, nunca vou poder dizer que o avô do meu bisavô veio num navio negreiro originário de onde hoje conhecemos como Angola, e foi escravizado numa fazenda extrativista de ouro nas proximidades de Vila Rica. Eu não sei absolutamente nada sobre a pessoa que veio trazida para o desconhecido contra sua própria vontade. Mesmo sabendo de onde, nunca será me garantido o direito de investigar quem eram estas pessoas. Elas eram mercadorias. E mercadorias não têm árvore genealógica. Não vieram porque fugiam da guerra ou da fome. Não vieram porque queriam se aventurar pelo novo mundo em busca de uma vida mais farta. Foram trazidos sem registro e tiveram seus nomes e origens adulterados o que impossibilita uma investigação mais precisa. Soube que meu bisavô por parte de mãe era português, que além dele haviam indígenas e obviamente os negros, determinantes do fenótipo da maioria de nossa família. A origem indígena não é tratada com importância por nenhum membro da família. Não se sabe de qual aldeia, não se sabe o gênero, nem a posição desta pessoa na árvore genealógica. Talvez minha paixão por milho e mandioca seja um outro indicador latente no meu DNA. Talvez seja apenas mais uma das minhas loucas ideias de me inventar uma origem. Do lado do meu pai, a história tinha tudo para ser um pouco mais fácil. Nomes judaicos de origem portuguesa facilitariam o início da pesquisa. No auge da minha investigação, descobri que meu avô paterno, por razões desconhecidas, mudou o sobrenome da família para Macedo. Alguns de meus tios afirmam ter ouvido algo do tipo Damaceno. Mas não há documentos que comprovem o palpite. Minha única alegria nisso tudo, foi concluir que não poderia ser parente direta do bispo Macedo um medo que sempre carreguei. Foi então, que eu desisti de investigar. Semanas atrás, durante uma viagem, descobri Antonio Maceo. Um dos heróis da história da independência cubana. Comandante do exército, Maceo é citado em alguns livros de história com um homem determinado e corajoso. Conhecido pelo apelido de Titan de Bronze, devido ao tom marrom de sua pele, Maceo reunia numa só pessoa as poucas características que consegui confirmar sobre a minha árvore genealógica. Além da cor da pele, sua mãe se chamava Mariana e o sobrenome Maceo era por apenas um D, diferente do meu. Resolvi então me considerar descendente deste homem arretado que libertou pessoas escravizadas das lavouras da cana-de-açúcar e lutou até sua morte pela independência da colônia espanhola. Reconheço que um homem que tem o sobrenome parecido com o da família do meu pai, e as ascendências africanas da família da minha mãe não teria lugar definido na minha árvore genealógica. Reconheço também que o parentesco com Maceo seria impossível por questões históricas e geográficas. E mais, acredito que a ele também foi negado o direito de saber sobre seus ancestrais africanos e mais uma vez um ramo de nossa árvore estaria incompleto. Mas isso pouco importa. O que me interessa agora é pouquinho de ilusão e conforto nesse coração descrente e aflito. Obrigada, Maceo.
Comentar
Compartilhe
Um pouco de amor e medo
07/03/2016 | 00h21
De repente, do nada, me deu um medo. De precendência desconhecida, rastejou feito cobra no chão de terra batida entrando por entre os dedos dos pés. Da sola suada subiu pelo corpo esfriando tudo que encontrava no caminho. Pernas tremeram de frio, o ventre se contorceu de susto proporcionando uma abrupta sensação de prazer, mas os intestinos cada um a seu modo lembrou meu corpo de que se tratava de medo e não de gozo. Na espinha, subiu como um raio acelerando a respiração e os batimentos cardíacos. O peito ficou acanhado, como se o medo enlaçasse uma artéria do coração. Um nó apertado que não afrouxava por nada. Pronto, o medo tinha chegado a minha cabeça. E naquele breve instante veio um pensamento curto, rápido e certeiro.
E se você não me amar mais?
Se de um instante tão curto quanto o pensamento ruim viesse em você a certeira certeza do não amor por mim?
O que restará de mim, que estou completamente sem defesas e entregue à essa relação?
Que estou inteiramente intensa vivendo este amor?
O que eu vou fazer com o seu suposto desamor?
O medo vai se transformar em raiva petrificando o nó da artéria. O sangue não será mais bombeado. O ciclo de vida se acaba. Eu morro e morta-viva perambulo pelos dias, pelas cidades, como vinha fazendo antes de te conhecer.
Comentar
Compartilhe
Sobre o autor

Mariana Luiza

[email protected]