Presente!
17/03/2018 | 10h08
<div><tinymce class="clickTinyMCE" title="{'nm_midia_inter_thumb1':'http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2018/03/17/170x96/1_29244743_10160080472035321_4481988352664403968_o-1007662.jpg', 'id_midia_tipo':'2', 'id_tetag_galer':'', 'id_midia':'5aad12eae0aae', 'cd_midia':1007664, 'ds_midia_link': 'http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2018/03/17/254x285/1_29244743_10160080472035321_4481988352664403968_o-1007662.jpg', 'ds_midia': '', 'ds_midia_credi': '', 'ds_midia_titlo': '', 'cd_tetag': '1', 'cd_midia_w': '254', 'cd_midia_h': '286', 'align': 'Left'}"><figure class="Left" style="width:254px;height:286px;"> <img src="http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2018/03/17/254x285/1_29244743_10160080472035321_4481988352664403968_o-1007662.jpg" alt="" width="254" height="286"> <figcaption> </figcaption> </figure></tinymce>Vazio que sufoca.</div> <div>O ar que me deixa sem ar.</div> <div>V&aacute;cuo?</div> <div>V&aacute;-se!</div> <div>E deixe voltar &agrave; luz que preenche o sentido que j&aacute; n&atilde;o encontro.</div> <div>V&aacute;cuo.</div> <div>V&aacute;.</div> <div>V&aacute;-se!</div> <div>Existe luz no v&aacute;cuo.</div> <div>Mas existe lucidez?</div> <div>Eu n&atilde;o sei descrever o que sinto.</div> <div>Mas SINTO MUITO.</div> <div>Uma nuvem no plexo solar. Uma complexa dor que n&atilde;o sei como explicar.</div> <div>Uma agonia do agora.</div> <div>Agouros.</div> <div>Ago.</div> <div>Go.</div> <div>Go agonia.</div> <div>V&aacute;-se propagar no v&aacute;cuo.</div> <div>Onde o som n&atilde;o chega.</div> <div>Onde n&atilde;o escuto as palavras de rep&uacute;dio, de &oacute;dio, de ignor&acirc;ncia em torno de sua morte.</div> <div>Go agonia. V&aacute; se propagar no v&aacute;cuo onde s&oacute; entra a luz.</div> <div>Mas o v&aacute;cuo mora no meu peito.</div> <div>Eu vejo a luz. O calor do final de ver&atilde;o frita a minha pele e o meu ju&iacute;zo.</div> <div>Esque&ccedil;o de comer. Esque&ccedil;o de beber &aacute;gua. Esque&ccedil;o de respirar. Me falta ar. Mas sobram os abra&ccedil;os e as l&aacute;grimas.</div> <div>Encontro for&ccedil;a nos bra&ccedil;os de amigos e desconhecidos que esbarro Cinel&acirc;ndia afora.</div> <div>Encontrei um bra&ccedil;o cujo dono n&atilde;o falava h&aacute; muitos meses. Continuamos sem nos falar.</div> <div>O abra&ccedil;o por si s&oacute; falou muito.</div> <div>E o som... a palavra. Essa n&atilde;o se propaga no v&aacute;cuo. S&oacute; a luz, lembra?</div> <div>Eu vejo os far&oacute;is do carro. A fa&iacute;sca dos nove proj&eacute;teis.</div> <div>Vejo a dor nos rostos daqueles que acompanham a descida dos caix&otilde;es sob um sol escaldante e reluzente.</div> <div>Um homem e uma mulher negra. Corpos encarcerados em caixas de madeira.</div> <div>Eu vejo tudo isto, mas n&atilde;o escuto a minha dor. N&atilde;o ou&ccedil;o o clamor por sua presen&ccedil;a.</div> <div>Minha agonia n&atilde;o me deixa esperan&ccedil;ar.</div> <div>Eu sinto, eu vejo o tremor do corpo, mas n&atilde;o escuto o PRESENTE! N&atilde;o escuto os tiros, n&atilde;o escuto os gritos. Eu n&atilde;o estava l&aacute;.</div> <div>Eu mal sabia quem voc&ecirc; era.</div> <div>Eu n&atilde;o sei quem s&atilde;o os homens, as mulheres e as crian&ccedil;as negras baleadas em Acari, na Mar&eacute;, no Alem&atilde;o.</div> <div>Eu n&atilde;o escuto as suas vozes.</div> <div>Porque o som n&atilde;o se propaga no v&aacute;cuo, lembra?</div> <div>Eu tento respirar fundo. Expiro para expulsar a dor.</div> <div>Para esvaziar o vazio do peito.</div> <div>Mas a minha dor est&aacute; no v&aacute;cuo. No buraco.</div> <div>No Buraco Branco. No Buraco Negro.</div> <div>Eu quero vomitar. Mas colocar o que pra fora?</div> <div>Muitos postaram p&ecirc;sames, mensagens de dor, condol&ecirc;ncias.</div> <div>O mundo compartilhou a indigna&ccedil;&atilde;o da sua morte e da morte de seu parceiro.</div> <div>O &ldquo;mito&rdquo; foi o &uacute;nico presidenci&aacute;vel que n&atilde;o se manifestou.</div> <div>V&ocirc;mito.</div> <div>Vou mitar. V&aacute; mito.</div> <div>V&aacute; se propagar no v&aacute;cuo onde ningu&eacute;m possa ouvir suas mazelas.</div> <div>Eu respiro fundo na tentativa de encontrar o presente.</div> <div>De preencher o vazio. De evacuar meu v&aacute;cuo.</div> <div>Evacue. V&aacute;cuo.</div> <div>Mas eu ainda n&atilde;o escuto o barulho da rua. O som das pessoas. As m&uacute;sica entoada por uma poeta ao microfone nas escadarias da c&acirc;mara.</div> <div>Eu s&oacute; ou&ccedil;o a minha agonia. A minha dor.</div> <div>E ela fala:</div> <div>PULA, PULA, PULA.</div> <div>Pula pra onde? Eu me pergunto.</div> <div>FUJA, FUJA, FUJA, FUJA.</div> <div>Fugir pra onde? Eu me questiono?</div> <div>Minha agonia &eacute; covarde.</div> <div>Covarde e companheira. Ela virou companhia quase eterna. Indesejada e insiste na visita.</div> <div>Se faz presente e constante no plexo solar cada vez mais anuviado. Cada vez mais desesperan&ccedil;oso.</div> <div>Existe um buraco no meio dos meus seios. Entre os seios. Sei-o bem.</div> <div>Me falam para respirar. Me oferecem um copo de &aacute;gua. Um gole de cerveja.</div> <div>Eu inspiro. Prendo a respira&ccedil;&atilde;o. E caminho rua adentro rumo a est&aacute;tua de Tiradentes.</div> <div>Liberdade ainda que tardia!</div> <div>Quando seremos livres?</div> <div>Eu respiro forte, respiro fundo. Depois de tantas horas ouvindo o clamor por sua presen&ccedil;a come&ccedil;o a querer esperan&ccedil;ar.</div> <div>O ar toma conta desse buraco varrendo por um instante a agonia que me assola.</div> <div>Respira&ccedil;&atilde;o funda.</div> <div>Um choro desesperado e gritos, gritos e gritos altos e cada vez mais altos.</div> <div>Mulheres negras levantam seus punhos cerrados nas escadarias da Alerj. S&atilde;o cartazes, faixas, palavras que gritam seu nome, que clamam sua presen&ccedil;a.</div> <div>Eu me dou conta que a minha agonia &eacute; pouca demais, &eacute; pequena demais pra Mar&eacute; de dor que tomou conta da avenida. E que ela se alimenta do sil&ecirc;ncio, do meu sil&ecirc;ncio.</div> <div>Da minha calma. Da minha apatia.</div> <div>Do meu luto. Voc&ecirc; nem o seu parceiro precisam do meu luto.</div> <div>Eu entendo isso. Ainda que tardiamente. J&aacute; escureceu. Eu ainda estou de est&ocirc;mago vazio. De peito vazio. De corpo preenchido pela agonia silenciosa.</div> <div>Mas eu come&ccedil;o a gritar.</div> <div>E a cada grito por sua presen&ccedil;a, uma calma.</div> <div>A minha agonia se acalma no grito.</div> <div>Descoberto isso. Eu grito alto, e mais alto, e mais alto. Pelo seu nome, pelo nome de seu companheiro. Pelas mulheres negras. Pelas m&atilde;es cujos filhos est&atilde;o mortos. Eu grito para preencher o vazio do luto de luta.</div> <div>A agonia continua feito visita indesejada. Mas agora, ela vai ter que conviver com a luta di&aacute;ria por sua presen&ccedil;a.</div> <div>Marielle, Anderson, PRESENTE!</div>
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Sobre o autor

Mariana Luiza

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