Treze Mil-Réis
26/02/2015 | 00h42
- Bom dia, o senhor me leva ali na Ladeira do Leme?
- Sim, entra aí.
- Sabe onde é? Ali perto do Rio Sul... É que não é Leme... Você pode confundir com a Ary Barroso...
- Sei sim, senhora. Eu tive uma cliente de 99 anos, que contava que seu bisavô tinha fazendas em Copacabana e morava no Flamengo.
Aquela ladeira era o único caminho para as fazendas do avô.
Silêncio. Ele olha pelo retrovisor para ver se eu mexia no celular. Diante da negativa, continuou.
- Dom Pedro passou muito por aquela ladeira, quando viajava de charrete rumo à Santos. Ele mais dona Leopoldina.
- Ele tinha uma amante, não era?
- Teve várias.
- Imagina, se fosse nos tempos de hoje. Com tantas doenças...
- Naquela época era mais difícil. Não tinha nem antibiótico...
- Mas não tinha AIDS. Um perigo, se fosse, imagina a mulher dele cheia de doença.
- Domitila de Castro, a marquesa de Santos. Foi amante fixa do imperador. O senhor sabia que Dom Pedro chegou a ser amante da irmã dela? Olha a audácia: amante da irmã da amante.
- Esse negócio de amante dá muito trabalho.
- Dizem que as irmãs conheciam técnicas de pompoarismo. Conhecimento de família.
Silêncio.
- Eu tenho.
- Amante?
- Uma amiga. Sabe, no meu caso eu não tinha carinho em casa. Aí você sabe... quando não tem carinho em casa, a gente procura na rua. (pausa). No caso dela foi assim também. Ela é casada há 8 anos, eu há 25 anos. Mas o marido dela é bruto demais, ela não gosta. E eu sou carinhoso.
- Por que ela continua casada?
- Ele diz que se ela se separar ele mata ela. E você sabe como é essa coisa de amigo para mulher...
- Você diz amante? Não, não sei. Como é?
- Ela agora não quer mais nada com ele, mas ele procura. E ela fica inventando desculpas. Mas às vezes faz obrigada.
- E o senhor tem ciúmes?
- Já tive. É muito difícil, minha filha. Esse negócio de amizade. Melhor não ter. (pausa). Hoje eu entendo. Ela é casada, tem que comparecer com o marido. Mas ela não gosta. (pausa). Não gosta não. Minha mulher é muito bacana, ela não merece. Sempre que chego em casa a janta está quentinha na mesa... Ela cuida de mim. Mas tem problemas demais, está sempre preocupada com o trabalho, com os filhos, com a mãe dela... o irmão, a cunhada... Esquece de dar carinho pro marido. Entende? Daí eu sempre que procuro, e ela está sempre cansada, com dor de cabeça e só quer dormir... Eu já não ligo mais. Porque tenho outra fora de casa. Eu já tive muitas mulheres. Hoje estou só com essa. E olha, a gente pensa que não vai se envolver. Que é só amizade. Mas quando assusta o sentimento passou a perna na gente. E você não consegue sair daquilo. Não sei, os problemas dessa amiga parece que agora são meus. Eu já pensei em separar. Vou perder tudo, até meu taxi que está no nome dela. Mas homem só precisa de carinho. Se faltar, a gente é capaz abrir mão de qualquer coisa.
- Chegou. É esse prédio aqui na frente de grade branca.
- Desculpa, desculpa mesmo te incomodar. Falei demais.
- Nada... Foi ótimo. O senhor me faz um recibo?
O taxista pediu desculpas, mas desandava a falar e repetir, repetir, repetir. O quão difícil era ter amizades, o quão difícil é manter um relacionamento sem elas. Falava enquanto preenchia o recibo e me dava o troco da corrida. Peguei o papel sem conferir o que estava escrito e me despedi. Só em casa fui perceber que a corrida de treze reais, gerou um recibo de treze mil reais. Ou seria treze mil-réis?    
Uma das muitas cartas de amor de Dom Pedro a Domitila.
Meu amor, Minha Titilia Eu já não namoro a ninguém depois que lhe dei minha palavra de honra, e assim não lhe mereço teus ataques. E quanto a dizer-me que lhe não dei parte de ter ido a Botafogo tu engana-se, pois à noite eu lhe disse (por tal sinal) que tinha ido com a Imperatriz no carro e a passo. Sinto infinito depois de tanto tempo de prova mecê ache ainda capaz de lhe fazer traições e infidelidades. Este que se considera e afirma ser seu amante fiel, constante, desvelado, agradecido e verdadeiro. O imperador.
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Segundo Michaelis, Segundo Mariana
12/02/2015 | 00h27
car.na.val(carnevale) 1 Folc Período de três dias de folia que precede a quarta-feira de cinzas, durante o qual, com o afrouxamento das normas morais, se dá o irromper de recalques, por meio de danças, cantos, trejeitos, indumentária diversa da habitual etc. No Brasil aparecem após a guerra do Paraguai, como forma nova do entrudo. 2 Folguedo, orgia. 3 Mascarada.
Carnaval. Uma alegria angustiante que invade o pensamento. Durante o período de dois meses de folia precedentes ao final de Fevereiro (às vezes Março) somente é permitida a reflexão cujo tema seja a folia, a fantasia, as indumentárias diversas, ou muitas vezes parecidas, à habitual (há quem viva um eterno carnaval). A alegria que invade o pensamento toma conta do corpo como um comichão que incomoda de prazer e um pouquinho de dor consequente da constante coceira. Torna-se proibido e desnecessário qualquer movimento que não seja o da dança, o de correr atrás dos blocos, trios ou carros alegóricos.
O movimento de sambar os pés e remexer o quadril. Vestir a fantasia no corpo, na alma e nas atitudes. Libertar-se dos falsos conceitos e preceitos. Liberar-se dos tabus e preconceitos. Ser o que quiser. Pirata, ladrão, político, marinheiro, colombina ou melindrosa. Recomenda-se deixar para depois da quarta-feira, a rabugice, o medo do ridículo, a moral e os bons costumes que você pensa que concorda, mas que no raso, não acredita. A necessidade de ser bem aceito. Que tudo isso suma e só volte depois da quarta-feira, quando os efeitos da coceira se acalmam na pele, na carne e na alma. Quando a gente lembra que é hora de vestir o terno, voltar ao trabalho, às responsabilidades, às metas e planos. Tempo de acreditar que é sério e rezar para que esses dias passem rápido e para que o comichão da folia (que nunca encontrem uma cura) volte com força no ano que vem!
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Para os dias de chuva
05/02/2015 | 00h05
Nosso amor é uma tempestade de raios ao avesso. O céu cor de chumbo enobrece a sua chegada. Trovoadas se antecipam aos raios. Um anúncio do que virá, ao invés da explicação sobre o que passou. Parece estranho, uma força contrária à natureza. Palavras anunciam a chegada do tempo ruim. Feixes de luz trazem o início do tempo bom. E vem a tempestade ao contrário. Contrariando as expectativas e às explicações lógicas sobre o que é o amor e como se deve vivê-lo (ou como dizem que se deve vivê-lo). E eu que desejava a calmaria de um amor tranquilo, nado no mar de emoções correntes. Um mar que de tão escuro se encontra com o céu cor de chumbo. Transformando-se num só. Iansã e Yemanjá. Um forte encontro de amor. Trago o mar no nome e a agitação das águas tempestuosas no coração. Encontro inesperadamente com uma chuva às avessas. Gotas que fogem do mar durante as tempestades. E lutam contra a gravidade para uma volta às nuvens. Guarda-chuvas são desnecessários e inúteis. Não há o que guardar desta tempestade. A chuva não pode ser abarcada como mágoas.
Ela flui no sentido inverso à gravidade.
Rumo aos céus onde ficam os deuses. Depois da trovoada, as gotas de chuva se unem aos raios tardios. Uma redenção.
O rio sempre corre de volta pro mar.
Não seria diferente com a chuva.
Amores ao avesso são difíceis de viver. Contrariam as expectativas, as convenções.
Desmistificam o que é certo do que é errado. E traz tanta dor e tanta alegria numa mesma proporção. Uma tempestade misturada de mar, de luz, de complicação.
Mas quem disse que seria fácil? Quem disse que o fácil é bom?
        
Rainha dos raios, rainha do mar iluminem este amor tempestuoso. E faça do avesso de uma tempestade a nossa calmaria.
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Sobre o autor

Mariana Luiza

mariana.luiza@globo.com