A primeira de todas as histórias
05/11/2012 | 18h05

kombi
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Eu descobri que queria ser escritora ainda muito pequena. Quando tinha uns 10 anos, criei um jornal numa folha de papel A4, todo escrito e ilustrado à mão.  O jornal tinha nome, que não me recordo, edição, tiragem e diretor executivo. Meu irmão de apenas 5 anos era o todo poderoso dos meios de comunicação e eu, a editora chefe.

Passei boa parte da minha adolescência acreditando que minha vontade de escrever histórias teve origem neste jornal, mas há pouco tempo me lembrei de um episódio da minha infância que eu acredito ser o gênese do meu desejo por inventar e contar histórias.

Eu tinha uns 7 anos, e ia de Kombi para a escola. Estudava num colégio de freiras na Tijuca, e o trajeto de casa para o colégio durava mais ou menos uns quarenta minutos. Durante este tempo, eu que quase sempre sentava no banco da frente da Kombi, o que não era nada demais e uma atitude muito comum naquela época, passava a viagem narrando minhas histórias. Como boa leonina, duas coisas me deixavam bem vaidosa: Sentar no banco da frente da Kombi era uma delas. Ser ouvida pela maioria que me cercava também. Então, eu poderia dizer sem exageros que me sentia no céu quando ia para a escola ou voltava para casa no fim das aulas.

Eu tinha um enredo principal que ia se desenrolando a cada dia, como numa novela em que a mocinha mata um leão por episódio até ser feliz eternamente ao lado do mocinho no final da temporada. Só que a minha saga era bem mais simples. Tinha apenas sete personagens, todos de uma mesma família, envolvidos numa mesma trama. Uma gestação de gêmeos contada detalhadamente desde os enjôos matinais dos primeiros meses à decoração do quartinho das crianças.  Esta história poderia se tratar de um monótono diário de grávida, desses que vendem em bancas de jornal, mas era na verdade, uma ficção muito bem construída para uma criança da minha idade, com um detalhe importantíssimo: A gestante dos gêmeos era a minha própria mãe.

Um pequeno detalhe tornava esta história muito mais interessante e menos convencional para ser narrada por uma criança de 7 anos. A minha mãe não gestava gêmeos. Tampouco estava grávida. Minha família se resumia apenas a eu, meu irmão, meus pais e minha avó.

Eu não tinha o menor pudor em inventar os episódios e narrá-los com detalhes expondo a minha mãe para todas as crianças e para o motorista da Kombi, o Manuel. Aliás, tinha menos pudor ainda ao inventar estas histórias sabendo que Manual encontrava minha mãe pelo menos uma vez por mês, quando recebia seu pagamento. Eu sabia disso, mas o que me deixava mais confiante é que de todos na Kombi, quem mais prestava atenção nas minhas histórias era o próprio Manuel. 

Como material de pesquisa, eu li diversas revistas de decoração que a minha mãe tinha na sala de espera de seu consultório dentário. Uma das minhas preferidas tinha uma matéria de capa sobre decoração de quarto de bebê. Sofá para amamentação, cadeiras de balanço, berço com gaveteiro para economizar espaço. Lembro da capa, das páginas da revista e do cheiro do consultório da minha mãe quando penso nesta história. E me recordo também de muitos episódios, e do meu preferido: O dia que minha mãe descobriu que esperava gêmeos, ao invés de um filho único, como planejara.

O tempo foi passando, e Manuel e alguns amiguinhos da Kombi esperavam ansiosos pelo capítulo final da saga: O nascimento. Estava perto. Eu já tinha narrado todas as consultas de pré-natal, a obra do apartamento, a escolha dos nomes, a decoração do quarto e os planos dos meus pais em relação ao futuro dos bebês.

Minha mãe já estava com 8 meses de gestação, prestes a parir a qualquer momento e tudo corria bem até o dia que não me lembro o porquê, minha mãe não foi trabalhar e resolveu me esperar na portaria do prédio. Detalhe, ela nunca fizera isto antes.

A Kombi chegou na portaria e lá estava ela, magérrima, sem nem uma barriguinha de chopp, mas prestes a parir os meus irmãos gêmeos. Lembro como hoje o olhar decepcionado da minha coleguinha Beatriz ao descobrir que minha mãe nunca estivera grávida. Lembro também do sorriso cínico do Manoel. Era o fim da saga. Os gêmeos nasceram antes de completar as 40 semanas, o que não é um espanto na gestação de múltiplos. E no dia seguinte, eu subi na Kombi, novamente no banco da frente, com a mesma altivez de artista para começar a mais uma nova saga. Como deve ser.

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Sobre o autor

Mariana Luiza

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