A primeira de todas as histórias
05/11/2012 | 18h05
<p style="text-align: left;"><tinymce class="clickTinyMCE" title="{'nm_midia_inter_thumb1':'http://www.folha1.com.br/_midias/png/2017/12/13/170x96/1_captura_de_tela_2017_12_13_a_s_12_21_51_am-923859.png', 'id_midia_tipo':'2', 'id_tetag_galer':'', 'id_midia':'5a308f08c8812', 'cd_midia':923868, 'ds_midia_link': 'http://www.folha1.com.br/_midias/png/2017/12/13/158x141/1_captura_de_tela_2017_12_13_a_s_12_21_51_am-923859.png', 'ds_midia': '', 'ds_midia_credi': '', 'ds_midia_titlo': '', 'cd_tetag': '1', 'cd_midia_w': '158', 'cd_midia_h': '140', 'align': 'Left'}"><figure class="Left" style="width:158px;height:140px;"> <img src="http://www.folha1.com.br/_midias/png/2017/12/13/158x141/1_captura_de_tela_2017_12_13_a_s_12_21_51_am-923859.png" alt="kombi" width="158" height="140"> <figcaption> kombi </figcaption> </figure></tinymce></p> <p style="text-align: left;">1988. Eu tinha sete anos e estudava no turno da tarde do Col&eacute;gio Santa Teresa de Jesus, na Tijuca. Meus pais trabalhavam fora enquanto minha av&oacute;, que morava conosco, ficava em casa cuidando do meu irm&atilde;o - um beb&ecirc; de dois anos.&nbsp;O trajeto de casa para o col&eacute;gio era feito pela Kombi do Manoel, um homem jovem,&nbsp;com pouco mais de trinta anos, que sozinho conduzia para a escola 14 crian&ccedil;as que moravam nas redondezas do bairro.</p> <p style="text-align: left;">O trajeto de casa para a escola durava mais ou menos quarenta minutos. A volta, por conta do tr&acirc;nsito mais intenso, era um pouco mais demorada. Durante este tempo, eu que quase sempre me sentava no banco da frente da Kombi, atitude inquestion&aacute;vel nos anos 80, passava a viagem contando hist&oacute;rias da minha fam&iacute;lia para Manoel e meus coleguinhas.</p> <p style="text-align: left;">Como boa leonina, duas coisas me deixavam bem vaidosa: Sentar no banco da frente da Kombi era uma delas. Ser ouvida pela maioria que me cercava tamb&eacute;m. Ent&atilde;o, eu poderia dizer, sem exageros, que a Kombi do Manoel era um dos meus lugar favoritos da vida.</p> <p style="text-align: left;">O enredo&nbsp;principal das hist&oacute;rias que eu contava girava em torno das frustra&ccedil;&otilde;es e alegrias dessa fam&iacute;lia que se preparava para receber dois novos integrantes: um casal de g&ecirc;meos bivitelinos&nbsp;ainda em gesta&ccedil;&atilde;o.&nbsp;</p> <p style="text-align: left;">Todas as segundas-feiras, eu introduzia uma nova subtrama que&nbsp;narrava em detalhes as peculiaridades da gesta&ccedil;&atilde;o dos g&ecirc;meos.&nbsp;Dos&nbsp;enj&ocirc;os matinais dos primeiros meses&nbsp;&agrave; decora&ccedil;&atilde;o do quartinho das crian&ccedil;as. &nbsp;</p> <p style="text-align: left;">Um pequeno detalhe tornava esta hist&oacute;ria muito mais interessante e menos convencional para ser narrada por uma crian&ccedil;a de 7 anos. A minha m&atilde;e n&atilde;o gestava g&ecirc;meos. Tampouco estava gr&aacute;vida. Minha fam&iacute;lia se resumia apenas a eu, meu irm&atilde;o, meus pais e minha av&oacute;.</p> <p style="text-align: left;">O que intriga nessas lembran&ccedil;as, &eacute; que eu n&atilde;o me recordo de sentir medo ou vergonha em inventar narrativas ficcionais contadas como verdade. Eu sabia que Manoel, conhecia minha m&atilde;e. Encontrava-se com ela todo final de m&ecirc;s para receber o pagamento.&nbsp;Mas o fato dele saber que a gravidez era mentira n&atilde;o me incomodava. Ali&aacute;s, Manuel era de todos, o mais interessado e curioso por minhas hist&oacute;rias.</p> <p style="text-align: left;">Como material de pesquisa, eu li diversas revistas de decora&ccedil;&atilde;o que a minha m&atilde;e tinha na sala de espera de seu consult&oacute;rio dent&aacute;rio. Uma das minhas preferidas tinha uma mat&eacute;ria de capa sobre decora&ccedil;&atilde;o de quarto de beb&ecirc;. Sof&aacute; para amamenta&ccedil;&atilde;o, cadeiras de balan&ccedil;o, ber&ccedil;o com gaveteiro para economizar espa&ccedil;o. Lembro da capa, das p&aacute;ginas da revista e do cheiro do consult&oacute;rio da minha m&atilde;e quando penso nesta hist&oacute;ria. E me recordo tamb&eacute;m de muitos epis&oacute;dios, e do meu preferido: O dia que minha m&atilde;e descobriu que esperava g&ecirc;meos, ao inv&eacute;s de um filho &uacute;nico, como planejara.</p> <p style="text-align: left;">O tempo foi passando, e Manuel e alguns amiguinhos da Kombi esperavam ansiosos pelo cap&iacute;tulo final da saga: O nascimento. Estava perto. Eu j&aacute; tinha narrado todas as consultas de pr&eacute;-natal, os enj&ocirc;os, a obra do apartamento, a escolha dos nomes, a&nbsp;decora&ccedil;&atilde;o do quarto e os planos dos meus pais em rela&ccedil;&atilde;o ao futuro dos beb&ecirc;s.</p> <p style="text-align: left;">Minha m&atilde;e j&aacute; estava com 8 meses, prestes a parir a qualquer momento e tudo corria bem at&eacute; o dia em que ela saiu mais cedo do consult&oacute;rio&nbsp;e decidiu&nbsp;me esperar na portaria do pr&eacute;dio.&nbsp;A Kombi chegou na portaria e l&aacute; estava ela, mag&eacute;rrima, sem nem uma barriguinha de chopp, mas prestes a parir os meus irm&atilde;os g&ecirc;meos. Lembro como hoje o olhar decepcionado da minha coleguinha Beatriz ao descobrir que minha m&atilde;e nunca estivera gr&aacute;vida. Lembro tamb&eacute;m do sorriso c&iacute;nico do&nbsp;Manoel. Era&nbsp;meu fim! Completamente desmascarada, n&atilde;o me restava outra alternativa a&nbsp;n&atilde;o ser a de me calar at&eacute; o fim do ano letivo.</p> <p style="text-align: left;">Mas n&atilde;o foi isso o que aconteceu.</p> <p style="text-align: left;">No dia seguinte, eu subi na Kombi, novamente no banco da frente,&nbsp;com a mesma altivez de artista e retomei a hist&oacute;ria do ponto onde havia parado. Sem o m&iacute;nimo pudor, ou vergonha das minhas cria&ccedil;&otilde;es art&iacute;sticas narrei com detalhes o &uacute;ltimo exame pr&eacute;-natal feito por minha m&atilde;e. O p&uacute;blico continuou interessado. Manuel me escutava atento. Beatriz at&eacute; se emocionou quando eu contei que acompanhei minha m&atilde;e no exame de ultrassom e ouvi os dois cora&ccedil;&otilde;ezinhos galopando em seu ventre.</p> <p style="text-align: left;">E a hist&oacute;ria continuou. Como deve ser.</p>
Comentar
Compartilhe
Sobre o autor

Mariana Luiza

[email protected]