Nossa Senhora em seu manto azul
16/11/2017 | 20h56
<div><tinymce class="clickTinyMCE" title="{'nm_midia_inter_thumb1':'http://www.folha1.com.br/_midias/png/2017/11/16/170x96/1_23730864_10159540001100321_1046558425_o-894416.png', 'id_midia_tipo':'2', 'id_tetag_galer':'', 'id_midia':'5a0e16d78218a', 'cd_midia':894422, 'ds_midia_link': 'http://www.folha1.com.br/_midias/png/2017/11/16/487x377/1_23730864_10159540001100321_1046558425_o-894416.png', 'ds_midia': '', 'ds_midia_credi': '', 'ds_midia_titlo': '', 'cd_tetag': '1', 'cd_midia_w': '487', 'cd_midia_h': '376', 'align': 'Left'}"><figure class="Left" style="width:487px;height:376px;"> <img src="http://www.folha1.com.br/_midias/png/2017/11/16/487x377/1_23730864_10159540001100321_1046558425_o-894416.png" alt="Nossa senhora e seu manto azul" width="487" height="376"> <figcaption> Nossa senhora e seu manto azul </figcaption> </figure></tinymce>&Eacute;ramos vizinhas e quase todos os dias quando sa&iacute;a de casa, me encontrava com ela na ladeira que d&aacute; acesso ao meu pr&eacute;dio. Eu, desleixada e distra&iacute;da, quase sempre sem batom, quase sempre com o celular nas m&atilde;os. Descia a rua feito um foguete, atrasada para compromissos sem import&acirc;ncia e com os olhos na tela e a cabe&ccedil;a nas mensagens e curtidas virtuais.</div> <div>Diferente de mim, ela estava sempre impecavelmente maquiada. Como se acordasse e a primeira coisa que fizesse, fosse colocar um sonho no rosto em forma de cor. Igualmente a mim, ela vivia absorta ao cotidiano. Com seu olhar longe, pouco ou quase nada interagia com os transeuntes.</div> <div>Sua aten&ccedil;&atilde;o era para os perigos da rua. O resto, todo o resto, podia esperar.</div> <div>Nunca soube seu nome. Nunca lembrei de pergunt&aacute;-lo.</div> <div>Fernanda. Hoje eu sei. Preferia nunca ter sabido.</div> <div>Por poucas vezes, tentei puxar uma conversa. Saber porque estava na rua, se tinha fam&iacute;lia pr&oacute;xima. Se estava com fome. Uma dessas vezes, dei a ela um batom que vivia h&aacute; muitos perdido na minha bolsa.</div> <div>Ela sorriu. Ela sempre sorria e logo depois, sumia do rosto deixando apenas o sorriso congelado em forma de disfarce. Para voar bem longe das quest&otilde;es terrenas de Copacabana.</div> <div>Um dia ela sumiu de verdade. De sorriso e corpo. N&atilde;o dormia na ladeira da Coelho Cintra, nem no matagal pr&oacute;ximo ao Rio Sul. Achei que tivesse morrido. Ou reencontrado a fam&iacute;lia.</div> <div>Depois de um bom tempo, apareceu barriguda. Estava arredia. N&atilde;o deixava a gente se aproximar. Conversava sozinha com a veem&ecirc;ncia dos que carregam a dor. Tinha parado de sorrir, mas ainda usava maquiagem. Ainda se vestia do sonho di&aacute;rio para enfrentar a vida.</div> <div>E eu, sempre distra&iacute;da, sempre preocupada com reuni&otilde;es e encontros sem import&acirc;ncia, desencontrei do tempo que nos afastou.</div> <div>N&atilde;o sei o que foi feito daquele feto. N&atilde;o sei o que foi feito daquele corpo. Daquele sorriso. E eu s&oacute; me importava com isso, nos breves instantes em que cruz&aacute;vamos uma com a outra, quando eu abria m&atilde;o de olhar para o meu celular para fit&aacute;-la.</div> <div>Ela j&aacute; n&atilde;o dormia mais nos arredores. E de pouco em pouco, de quando em quando, vi sua barriga crescer e decrescer.</div> <div>Agora, s&oacute; encontr&aacute;vamos quando eu passava pr&oacute;ximo &agrave; Duvivier. Ficava por ali, na Nossa Senhora de Copacabana, com sacolas de panelas bem ariadas, suas roupas e maquiagens.</div> <div>Um dia, dirigia meu carro quando parei no sinal. Olhei para o lado. Estava ela. No meio da cal&ccedil;ada, na Nossa Senhora de Copacabana, enrolada num manto azul com uma touca branca na cabe&ccedil;a e um batom vermelho, que jurava ser o que eu tinha lhe dado. Os l&aacute;bios cerrados n&atilde;o sorriam. E ela olhava para o horizonte como se esperasse a volta do seu pensamento.</div> <div>E eu, que sou descrente de deus, vi Nossa Senhora. Majestosa Nossa Senhora num manto azul na Copacabana.</div> <div>Saquei aquilo que tinha nas m&atilde;os e tirei-lhe uma foto. Digna de um altar.</div> <div>Hoje descobri que ela foi assassinada por dois marginais. E por causa deles, descobri seu nome estampado nas manchetes.</div> <div>Agora eu choro pelas poucas vezes que insisti na conversa, por n&atilde;o saber por Fernanda, quem era a Fernanda, e principalmente, por n&atilde;o ter voado com ela pela estratosfera de Copacabana.</div>
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Sobre o autor

Mariana Luiza

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