Uma obra inacabada
04/07/2019 14:50 - Atualizado em 08/07/2019 14:48
Na fila do embarque para um voo rumo à Espanha, duas amigas conversam sobre as vantagens da eletroestimulação muscular associadas à malhação. Uma roupa de neoprene com 20 eletrodos conectados a um equipamento geram impulsos elétricos em diferentes partes da musculatura humana. Segundo a amiga, 20 minutos de eletrochoque equivalem a duas horas de malhação.
- Na hora do almoço, miga. 20 minutinhos... Depois engulo um sanduíche, e já tô pronta.
Na primeira noite em Barcelona, caminhei até a Sagrada Família. Estava cansada da viagem, faminta e tentando acostumar meu corpo ao fuso. Jantei uns tapas num bar de frente à catedral. Na minha frente, uma mulher com uma Cannon e um conjunto de lentes que avolumava sua mochila, se ajoelhava, contorcendo em diferentes posições, que mais pareciam yoga, na busca da foto ideal. Ela abriu a mochila inúmeras vezes, trocando de lentes e voltando a contorcendo o corpo. Passou mais de 20 minutos se ajoelhando em frente à catedral como se pagasse promessa. Eu comi as tapas. Tomei duas taças de sangria enquanto a moça ainda se contorcia na frente do monumento. Ela repetia os movimentos como num ritual. Sacava as fotos, olhava o resultado no visor, expressava descontentamento, trocava a lente, se ajoelhava, contorcia, quase se deitava no chão. Sacava novas fotos e repetia o movimento de olhar, desgostar e trocar lentes.
Quando eu ia para a terceira taça de vinho ela desistiu, e passou por mim falando em inglês:
- Estes guindastes! Vou ter que comprar um postal.
A mulher se referia aos três guindastes plantados no entorno da catedral que auxiliam na construção das últimas torres da igreja. Saí do bar um pouco tonta, mas passei na loja de suvenir para conferir os postais de Barcelona. Para meu espanto, encontrei dois que exibiam as 18 torres da catedral finalizadas. Uma projeção do que talvez vejamos pronto em 2026. O ano de centenário da morte de Gaudí, será também o ano de finalização da catedral – segundo a prefeitura da cidade.
Conversava com um amigo, que fumava na calçada de uma rua distante da catedral, quando um repórter da Globo nos pediu para conceder uma entrevista. A pauta da semana era a Sagrada Família, devido a uma recente descoberta de que a catedral não tinha alvará de construção. Aquele dia, era o dia seguinte da primeira publicação do Intercept sobre as mensagens trocadas entre Moro e Dallagnol. Eu, que estava fora do Brasil há alguns dias, perguntei ao repórter sobre a repercussão dos fatos. Ele disse não saber muito. Era residente em Lisboa e as publicações ainda eram recentes. Falamos sobre política e desesperança. Falamos sobre Moro, Lula e Bolsonaro.
O repórter insistia na entrevista mesmo diante da minha refuta. Ele me passou o microfone e perguntou sobre o alvará de construção recém emitido pela prefeitura de Barcelona. Quis saber minha opinião sobre a conclusão de um projeto iniciado há 137 anos. O tom de sua pergunta entregava uma certa dúvida sobre os cálculos estruturais das torres mais altas da cidade. Eu não lembro o que respondi. Mas lembro o que pensava enquanto respondia. Gaudí é conhecido por se inspirar nos elementos da natureza. As colunas da Sagrada Família são frondosos troncos de árvore que se ramificam formando um teto abobadado. Lá dentro, na casa de deus e debaixo das copas das árvores, estamos protegidos pelas intempéries da natureza.
Eu pensava nisso, tentando me convencer da existência da proteção divina.
O repórter perguntou sobre minha expectativa para 2026. Queria saber se em 7 anos eu retornaria à capital da Catalunha para ver a inauguração daquele monumento. Não disse nem que sim, nem que não. Mas respondi em tom autoritário que, se poderes tivesse, jamais deixaria finalizar a construção da Sagrada Família. O eterno canteiro de obras cercado de guindastes é também cartão postal. E apagá-lo do registro só reforça a ideia de uma sociedade que mira no futuro sem se dar conta do presente.
Como se isso fosse possível.
O repórter estranhou minha resposta e palpitou que talvez o editor não a colocasse na edição do jornal. A reportagem era para promover a conclusão da obra e eu dava ideias contrárias. Respondi citando a frase de um escritor português que gosto muito: “O caminho também é lugar” escreveu José Luiz Peixoto no livro Caminho imperfeito.
No voo de volta não reencontrei as amigas marombeiras. Mas lembrei delas ao passar por uma loja repleta de artigos esportivos e facilitadores de dieta.
A vida, a política e a saúde de um corpo são obras inacabadas. E na construção da democracia, o caminho é o único lugar possível.
 
 
 
 

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    Mariana Luiza

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