A luz azul
02/06/2014 | 23h02
Dias atrás levei aquele soco no estômago que de vez em quando a vida dá na gente. Foi um soco bem dado e vergonhosamente público, o que fez a dor se manifestar mais forte. Eu esperava pelo arquiteto de uma loja de revestimentos que estava me ajudando a planejar uma obra no banheiro do apartamento. No meio de todo o estresse que uma obra pode causar, eu tentava me deliciar com a escolha dos revestimentos enquanto simultaneamente repetia a mim mesma que aquela seria a última obra que faria nesta vida. O arquiteto estava atrasado há três horas. E eu e minha mãe, andávamos de um lado para o outro, aflitas, no saguão da loja de revestimentos, loucas para resolver logo a paginação do banheiro e poder pegar a estrada de volta para casa da minha mãe, a três horas do Rio. Tinha perdido uma manhã inteira de trabalho esperando. E perderia mais quatro horas até chegar à casa de mamãe. “Nunca mais, eu juro, nunca mais faço obra na vida”. Ele chegou. Foi andando calmamente até sua mesa no fundo da sala. Cumprimentando com abraços apertados, um a um dos cinco funcionários da loja. Eu observava agitada, sentada à sua mesa de trabalho com um rascunho do banheiro nas mãos. Diogo aproximou-se da mesa. Ele me cumprimentou com um “bom dia” tão calmo que me cortou as palavras, abriu a gaveta da mesa, retirou um retrato e tascou-lhe um beijo. Um beijo de amor. Sobre a mesa tinha uma imagem de Nossa Senhora de Fátima e outra de Jesus Cristo colocados pelo lado de fora de um porta retrato escondendo a foto que parecia não mais importar ao seu dono. Diogo fez uma espécie de cumprimento às imagens e olhou-me nos olhos.
- Desculpe meu atraso. Eu nem iria vir trabalhar hoje, mas não posso deixar de lado meus compromissos...
- Tudo bem, Diogo. Eu estou só com um pouquinho de pressa porque tenho que voltar pra Macaé e estou cheia de trabalho acumulado e além disso...
- É que eu tenho três tumores na cabeça que me causam uma tontura terrível. Hoje de manhã eu quase desmaiei no banheiro. Não deveria nem vir para o trabalho, mas eu não quero e nem posso ficar em casa. Tem pessoas esperando por mim, sabe?
- Sei. Mas você está melhor?
- Não. A dor de cabeça é constante. Mas não tem jeito. O tumor está crescendo e breve irá atingir uma parte do meu cérebro que vai bloquear todos os meus movimentos, daí não vou mais poder trabalhar.
- Mas... não tem tratamento?
- Não. A quimio prolongaria um pouco mais a vida útil, mas é muito evasiva e eu ficaria mais debilitado do que estou agora. Preciso trabalhar enquanto há tempo.
Em seguida, pegou uma folha branca e rascunhou meu banheiro, ignorando meu desenho tão imaturo. Fez um traço mais preciso onde colocaria os revestimentos brancos e desenhou uma luz azul no box onde fica a ducha.
- Essa luz é para você relaxar enquanto toma banho.
Saí da loja em estado de choque. Tenho pensado muito no Diogo desde então e desejando a ele um pouco mais de vida saudável e feliz. Mas no final dos meus pedidos por Diogo, me pego rezando por mim mesma e pelas minhas mesquinharias. Esta crônica está com cara daqueles textos piegas de revista barata de autoajuda. Esses textinhos que sempre terminam com uma lição de vida que já sabemos, mas raramente interiorizamos. Eu só espero reaprender a lição todas às vezes que precisar usar a luz azul do meu banheiro. Sinta-se socado você também.  
Comentar
Compartilhe
Sobre o autor

Mariana Luiza

[email protected]