“I’m still alive”, e isso pode ser bom o ruim.
06/02/2012 | 19h43
trevo de quatro folhas
trevo de quatro folhas
Tudo na vida é uma questão de ponto de vista. "Não há fatos eternos, como não há verdade absoluta", assim falava Nietzsche. A sorte de um, pode representar o azar do outro. A felicidade de hoje é o motivo da tristeza de amanhã. E vice-versa. Óbvio, não? Pode ser. Mas o óbvio quase nunca é sinônimo de evidente. E ás vezes, percebê-lo é quase impossível. Há algum tempo, Eddie Veder, o compositor e vocalista do Pearl Jam, confessou numa entrevista a um canal a cabo, que a música Alive, tem hoje um sentido completamente oposto do que ele gostaria de dizer no momento em que a escreveu. Alive é música autobiográfica, que narra a angústia de um adolescente ao descobrir que o homem que ele pensa ser seu pai, na verdade não o é. E que seu verdadeiro pai está morto. Diante destas descobertas, para um adolescente que mal se conhece, ele escreve “I’m still alive”. Era um peso estar vivo depois de saber tudo aquilo. “Que droga, ainda estou vivo”. Alguns fãs do Pearl Jam não encaram o refrão como um desabafo ruim. E sim, como uma superação. “Eu ainda estou vivo, graças a Deus”. I, oh, I'm still alive Hey I, oh, I'm still alive Hey I, but, I'm still alive Yeah I, ooh, I'm still alive Yeah yeah yeah yeah yeah yeah Escrevo sobre isso, porque há alguns dias ouvi uma conversa de bar sobre uma história de um amor que acabou. A moça contava com riqueza de detalhes os momentos de felicidade que viveu com o ex-namorado. Ela chorava de soluçar enquanto contava o fim recente. A amiga aconselhava-a a esquecer. "Esqueça, você vai achar alguém melhor, alguém que te mereça...". A amiga fazia planos pro futuro, uma lista de amigos solteiros para apresentá-la, muita noitada com boate e nenhum dia para ficar em casa curtindo a fossa. A menina se animou com a ideia de esquecer para ser feliz novamente. E eu me questionei... Será?                            
Será mesmo que para ser feliz é preciso esquecer um amor acabado? Substituí-lo por outro que a mereça e valorize? Nem sempre. Pode ser que aquele rapaz seja o melhor que a vida lhe reservou. Pode ser que não. Que ela encontre alguém que a faça impossivelmente mais feliz do que ela foi. Pode ser que ela aprenda que, para ser feliz, só precise dela mesma e decida ficar só ou simplesmente, não colocar expectativa no próximo relacionamento. Porém, nada do que acontecer deverá anular a alegria que ela sentiu enquanto estava com o namorado. Nada deverá anular a tristeza que viveu com o fim do romance. Faz parte da vida. Mais do que isso, faz parte do nosso crescimento. Da nossa formação quanto pessoa. I'm still alive é o grito de liberdade, de quem passou pela dor e sobreviveu. E a história da música é o retrato de como a superação muda o sentido das coisas, das palavras. Eddie conta que depois de ver seus fãs cantando Alive com este sentido, conseguiu se libertar das angústias que carregou por muitos anos. O que era sinônimo de tristeza, se tornou semelhança do aprendizado. Faz muito tempo que vi esta entrevista e vira e mexe me pego pensando no significado duplo das coisas. Sobre como nós temos o poder de dar o sentido a cada fato ou palavra que nos é apresentado na vida. A conversa das amigas sobre o fim de um amor é só um exemplo cotidiano disso tudo. As mesmas palavras, mesmas atitudes que carregam sentidos diferentes para quem fala e quem as escuta. “Eu te amo”, “Eu te odeio” nem sempre têm o mesmo sentido e importância para ambas as partes do diálogo. Depende do quanto já viveu, do quanto já amadureceu a pessoa que diz e a pessoa que ouve. Acreditar que o fim de um amor pode trazer boas novas na vida não é tarefa fácil. Mas é bom saber que só nós mesmos somos capazes de transformar os fatos que vivemos e darmos novos significados as palavras que ouvimos. E que às vezes, é o sentido que os outros dão às nossas palavras que nos libertam.
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Sobre o autor

Mariana Luiza

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