Se a praia fosse de Quixote...
06/06/2011 | 17h46
<div><tinymce class="clickTinyMCE" title="{'nm_midia_inter_thumb1':'http://www.folha1.com.br/_midias/png/2017/12/12/170x96/1_captura_de_tela_2017_12_12_a_s_9_19_35_pm-923324.png', 'id_midia_tipo':'2', 'id_tetag_galer':'', 'id_midia':'5a3064d735275', 'cd_midia':923329, 'ds_midia_link': 'http://www.folha1.com.br/_midias/png/2017/12/12/320x285/1_captura_de_tela_2017_12_12_a_s_9_19_35_pm-923324.png', 'ds_midia': 'Praia do Sancho', 'ds_midia_credi': '', 'ds_midia_titlo': 'Praia do Sancho', 'cd_tetag': '1', 'cd_midia_w': '320', 'cd_midia_h': '285', 'align': 'Left'}"><figure class="Left" style="width:320px;height:285px;"> <img src="http://www.folha1.com.br/_midias/png/2017/12/12/320x285/1_captura_de_tela_2017_12_12_a_s_9_19_35_pm-923324.png" alt="Praia do Sancho" width="320" height="285"> <figcaption> Praia do Sancho </figcaption> </figure></tinymce></div> <div>Era uma travessia, a nado, de ponta a ponta da praia do Sancho. A chance derradeira de provar &agrave;s cinco amigas que eu n&atilde;o era t&atilde;o covarde quanto parecia naqueles quatro dias em que viaj&aacute;vamos juntas pelo arquip&eacute;lago de Noronha. J&aacute; havia fracassado no mergulho com cilindro e sofrido um ataque de histeria ao topar com uma saparia no banheiro do hotel. As cinco amigas se diferenciavam de mim em algumas coisas cruciais para a viagem: nadavam como atletas e gostavam de batr&aacute;quios. A mais m&iacute;stica delas, colecionava porcelanas sapais que beirando a perfei&ccedil;&atilde;o, faltavam s&oacute; coaxar na estante da sala. O guia, que nos acompanhava no passeio &agrave; praia, prometeu um mergulho com os golfinhos, que segundo seus c&aacute;lculos, cruzariam a ba&iacute;a dentro de uma hora. Era esse o tempo que eu tinha para vencer o meu medo de mar, e acompanhar as meninas na travessia mar&iacute;tima. Ao sinal do guia, as cinco destemidas, correram para a rebenta&ccedil;&atilde;o. Eu hesitei no primeiro momento. Ofereci-me a tomar conta de nossas carteiras e roupas que ficariam sozinhas na areia, mas n&atilde;o tive muita persuas&atilde;o, uma vez que a praia estava deserta, seu acesso era dif&iacute;cil e a luz do dia come&ccedil;ava a cair. Provavelmente n&atilde;o apareceria mais ningu&eacute;m para se banhar ou simplesmente pegar nossas coisas.A areia era um lugar seguro, tanto para as carteiras, quanto para mim. As meninas, al&eacute;m quebra mar, insistiam e eu, com os p&eacute;s enterrados na areia movedi&ccedil;a, pensava que agora n&atilde;o me restaria outra alternativa a encarar o mar aberto. O guia percebendo o tamanho do meu medo e o quanto ele poderia atrapalhar o passeio do grupo, se ofereceu a me acompanhar, segurando a minha m&atilde;o, durante toda a travessia. Aceitei de prontid&atilde;o, afinal eu tinha um pequeno e pesado problema e dividi-lo, facilitaria por demais no cumprimento da minha incumb&ecirc;ncia. Ningu&eacute;m na praia tinha percebido, mas eu carregava nas costas toda a gordura de Sancho Pan&ccedil;a, que, ali&aacute;s, n&atilde;o era pouca. Sancho tinha uma miss&atilde;o: Precisava levar umas encomendas para Dom Quixote, do outro lado da praia, e quando me viu relutante na areia, pediu para ajud&aacute;-lo. O guia me dizia para ficar esperta. N&atilde;o pod&iacute;amos dar bobeira com as ondas cada vez mais altas. Era preciso esperar o recuo do mar, mergulhar bem fundo, prender a respira&ccedil;&atilde;o e avan&ccedil;ar assim que a onda gigante passasse por n&oacute;s. Foram duas ondas. O Sancho at&eacute; que colaborou no primeiro mergulho porque ele ainda conseguia ficar de p&eacute;. Mas no segundo, aquele homenzinho pesado pulou das minhas costas e nadou de volta pra areia. Eu soltei a m&atilde;o do guia e fui em dire&ccedil;&atilde;o &agrave; areia, como fazem os amigos leais. N&atilde;o sei se o guia conhecia Sancho Pan&ccedil;a, nem muito menos Dom Quixote, mas seguindo os passos de um fiel escudeiro, ele nadou de volta a areia e juntou-se a n&oacute;s. As meninas j&aacute; estavam em alto mar acenando com ansiedade. Foi quando o guia me olhou nos olhos, repetiu as orienta&ccedil;&otilde;es e perguntou se poder&iacute;amos tentar novamente. &ldquo;Claro que sim!&rdquo;. Respondi sem hesitar e l&aacute; fomos n&oacute;s mar adentro. Passada a rebenta&ccedil;&atilde;o, alcan&ccedil;amos as meninas e come&ccedil;amos a trajet&oacute;ria. Todos juntos. O guia de m&atilde;os dadas, e Sancho Pan&ccedil;a se equilibrando nas minhas costas. Ele n&atilde;o podia se molhar porque carregava uma bolsa cheia de roupas, comidas e rem&eacute;dios de Quixote, o que o deixava ainda mais pesado. Por um instante, me esqueci onde estava e nadei com a felicidade daqueles que est&atilde;o prestes a cumprir a mais importante e honrada de todas as tarefas. Debaixo de mim, tubar&otilde;es lixa nadavam a uma curta dist&acirc;ncia, mas eu n&atilde;o me incomodei. A alegria em acompanhar Pan&ccedil;a a uma miss&atilde;o dada por Quixote era maior do que qualquer boca dentada de um tubar&atilde;o. O guia me olhava a toda hora fazendo um sinal de "ok" com os dedos. Eu estava confiante, e percebendo minha calma, ele soltou minha m&atilde;o. Na hora n&atilde;o me importei. Afinal tinha a companhia de Pan&ccedil;a. Eu usava uma m&aacute;scara e um snorkel, s&oacute; olhava para baixo e nadava muito forte. E assim prossegui por alguns minutos. Num momento da trajet&oacute;ria, levantei a cabe&ccedil;a para fora d&rsquo;&aacute;gua e percebi que as meninas se afastavam vertiginosamente a cada bra&ccedil;ada e que o guia j&aacute; tinha desaparecido no horizonte. &ldquo;Calma, est&aacute; tudo sob controle!&rdquo; Eu pensava em n&atilde;o pensar. Mas como &eacute; dif&iacute;cil a proeza de esvair da cabe&ccedil;a o peso do pensamento. Sancho se equilibrando em minhas costas tamb&eacute;m incomodava um pouco. Ele estava bem acima do peso para sua pouca estatura e ainda por cima, carregava consigo as comidas, os rem&eacute;dios e as roupas de Quixote. Ah, e claro, o mais pesado de tudo: sua adaga de ferro maci&ccedil;o. Eu ainda n&atilde;o tinha me dado conta de quanto pesava aquele escudo, que n&atilde;o podia tocar o mar a fim de evitar o sal corrosivo. E ao contabilizar o peso que carregava nos ombros gritei: &ldquo;SOCORRO!!!!&rdquo; Somente minha amiga Nat&aacute;lia ouviu nosso apelo e nadou em nossa dire&ccedil;&atilde;o. Eu disse a ela que precisava voltar pra areia. Ela nadou depressa at&eacute; alcan&ccedil;ar o guia que veio nos salvar. Era o fim da miss&atilde;o de Pan&ccedil;a. As meninas continuaram na &aacute;gua e o guia me deu novas instru&ccedil;&otilde;es para passar a rebenta&ccedil;&atilde;o sem levar um caldo. As ondas estavam bem mais altas do que quando entramos no mar. Sancho se agarrou nas minhas costas com firmeza. Esperamos alguns minutos por uma onda mais fraca. Mergulhamos fundo, e nadamos depressa at&eacute; a beira d&rsquo;&aacute;gua. O guia voltou para trazer as minhas amigas. Era o fim da miss&atilde;o delas tamb&eacute;m. N&atilde;o tinha mais Dom Quixote, nem mergulho com os golfinhos. E como fazem os bons amigos, ningu&eacute;m tocou mais nesse assunto at&eacute; o fim da viagem. Sancho Pan&ccedil;a tinha os p&eacute;s no ch&atilde;o e a realidade na cabe&ccedil;a. Por isso, ele pesava feito chumbo. Carreg&aacute;-lo nas costas foi uma imposs&iacute;vel tentativa de esquecer o meu medo de mar e nadar com os golfinhos. O bom disso tudo &eacute; que assim como Pan&ccedil;a, eu tenho fi&eacute;is escudeiras. Amigas com a leveza dos sonhos de Quixote, que apesar de conseguirem nadar, n&atilde;o se importaram com o peso da minha realidade. Quem sabe noutra praia, com outro nome.</div> <div>&nbsp;</div> <div>&nbsp;<br /></div>
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Sobre o autor

Mariana Luiza

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