Semiótica da Escravidão
19/01/2020 | 20h02
<div>Em 2017, fiz uma viagem &agrave; Valen&ccedil;a durante as festas do quilombo S&atilde;o Jos&eacute;. Foi meu namorado quem organizou a viagem e reservou o hotel: uma antiga estalagem colonial. Chegamos de madrugada, o estacionamento lotado. Depois do check-in, caminhamos, num sil&ecirc;ncio sepulcral, por um largo corredor de numerosas portas e janelas de peroba de rigor sim&eacute;trico t&iacute;pico da arquitetura das fazendas de caf&eacute;. Na manh&atilde; seguinte, a euforia das crian&ccedil;as misturadas ao som de talheres e copos de vidro nos indicava o local do caf&eacute; da manh&atilde;. Um sal&atilde;o quadrado, com 20 metros de largura, e um p&eacute; direito de 6 metros, cuja parede lateral, bem ao lado da porta de entrada, adornava um imenso painel fotogr&aacute;fico com 120 metros quadrados de extens&atilde;o.</div> <div>Ao fundo da fotografia, ainda em foco, o casar&atilde;o, ao qual habit&aacute;vamos. Poucos metros &agrave; frente, em destaque, o bar&atilde;o e sua senhora sentados num banco de madeira, debaixo do abano de um leque de plumas agitado por m&atilde;os negras. Ao ch&atilde;o, duas crian&ccedil;as brancas brincavam enquanto a ama de leite observava atenta. Do lado direito da fotografia, um grupo de dezenas de escravizados trabalhavam na lavoura de caf&eacute; debaixo de um calor escaldante que eu poderia sentir mesmo dentro daquele sal&atilde;o devidamente climatizado.</div> <div>Aquela foto era um dos signos do inferno.&nbsp;</div> <div>Debaixo da imagem dos escravizados, pr&oacute;ximo a porta de entrada do sal&atilde;o, uma pequena fila de h&oacute;spedes se formava: uma mulher com duas crian&ccedil;as pequenas, um casal de namorados e uma senhora aposentada aguardavam a vez de serem fotografados ao lado da fam&iacute;lia do Bar&atilde;o. O registro da imortalidade era feito pelo &uacute;nico negro vivo, al&eacute;m de mim, naquele ambiente: o gar&ccedil;om. Das in&uacute;meras iconografias que j&aacute; vi sobre a escravid&atilde;o no Brasil nada me impressionou tanto quanto aquela. N&atilde;o era apenas o tamanho da reprodu&ccedil;&atilde;o, nem a proximidade geogr&aacute;fica e temporal do objeto retratado. Mas tudo isso, somado &agrave; viol&ecirc;ncia simb&oacute;lica de um pa&iacute;s que se representa ao lado dos bar&otilde;es.</div> <div>Tr&ecirc;s anos depois daquele epis&oacute;dio em Valen&ccedil;a, estava eu, numa fila de cinema, assistindo ao v&iacute;deo em que Roberto Alvim parafraseava um discurso do ministro da propaganda nazista, Joseph Goebbels. A est&eacute;tica e semi&oacute;tica nazista j&aacute; n&atilde;o usavam disfarces num governo que sempre flertou com o regime desde a &eacute;poca da campanha eleitoral. Mas ser&aacute; mesmo que Bolsonaro e seus asseclas, algum dia, precisaram ou tiveram ao menos a intens&atilde;o de dissimular tamanha proximidade ideol&oacute;gica e simb&oacute;lica?</div> <div>Desde a campanha eleitoral, os preceitos da Propaganda Nazista foram adequados &agrave; nossa realidade e disparados por rob&ocirc;s que invadiram milhares de celulares brasileiros. A imprensa, o congresso, a justi&ccedil;a eleitoral, todos n&oacute;s, sab&iacute;amos que o crime cometido pelo PSL era suficiente para impugnar a campanha. Mas nada foi feito. Quando ainda era candidato, Bolsonaro e seu vice proferiram in&uacute;meras declara&ccedil;&otilde;es que demonstravam o apre&ccedil;o pelas teorias de darwinismo social e hierarquia racial, o cerne do ideial da superioridade ariana.</div> <div>"Mour&atilde;o tem um neto bonito devido ao branqueamento da ra&ccedil;a."</div> <div>"Os quilombolas s&atilde;o animais sem utilidade nem para procria&ccedil;&atilde;o."</div> <div>"Herdamos a indol&ecirc;ncia dos ind&iacute;genas e a malandragem dos negros."</div> <div><tinymce class="clickTinyMCE" title="{'nm_midia_inter_thumb1':'http://www.folha1.com.br/_midias/png/2020/01/19/170x96/1_captura_de_tela_2020_01_19_a_s_7_16_05_pm-1547015.png', 'id_midia_tipo':'2', 'id_tetag_galer':'', 'id_midia':'5e24d5a0ec374', 'cd_midia':1547015, 'ds_midia_link': 'http://www.folha1.com.br/_midias/png/2020/01/19/captura_de_tela_2020_01_19_a_s_7_16_05_pm-1547015.png', 'ds_midia': '', 'ds_midia_credi': '', 'ds_midia_titlo': '', 'cd_tetag': '1', 'cd_midia_w': '448', 'cd_midia_h': '635', 'align': 'Left'}"><figure class="Left" style="width:448px;height:635px;"> <img src="http://www.folha1.com.br/_midias/png/2020/01/19/captura_de_tela_2020_01_19_a_s_7_16_05_pm-1547015.png" alt="" width="448" height="635"> <figcaption> </figcaption> </figure></tinymce>Nem o presidente, muito menos seu vice se sentiram amea&ccedil;ados pelo crime inafian&ccedil;&aacute;vel e imprescrit&iacute;vel que cometeram.</div> <div>Bolsonaro, em entrevista ao Roda Viva, chegou a questionar a d&iacute;vida hist&oacute;rica do pa&iacute;s com os 400 anos de escravid&atilde;o seguidos de um epistemic&iacute;dio e genoc&iacute;dio ainda vigente.</div> <div>Mour&atilde;o foi al&eacute;m, fez uma homenagem em seu Twitter ao sistema das capitanias heredit&aacute;rias, que dividiu este pa&iacute;s, de dimens&otilde;es continentais, em 15 partes para apenas 12 fam&iacute;lias. Uma concess&atilde;o passada de pai para filho, onde os donos nem sequer calejavam as m&atilde;os lavrando as terras, tampouco pagavam sal&aacute;rios aos trabalhadores. &Eacute; isso que o vice presidente chama em seu Twitter de EMPREENDEDORISMO.&nbsp;Mour&atilde;o termina o post com a seguinte frase "&eacute; hora de resgatar a melhor de nossas origens". Reafirmando a pol&iacute;tica genocida de governo para o qual foi eleito.&nbsp;A viol&ecirc;ncia f&iacute;sica e simb&oacute;lica que forjou a na&ccedil;&atilde;o brasileira h&aacute; mais de 500 anos est&aacute; mais do que vigente e presente neste desgoverno atual. Seja no genoc&iacute;dio dos povos ind&iacute;genas do centro-oeste e Amaz&ocirc;nia, na derrubada das florestas para a explora&ccedil;&atilde;o completa de suas capitanias, ou no programa de seguran&ccedil;a do Ministro S&eacute;rgio Moro.</div> <div>O presidente e o vice se sentem confort&aacute;veis em fazer tais declara&ccedil;&otilde;es, sem medo algum de puni&ccedil;&atilde;o. Tampouco se incomoda o dono do hotel que deve achar bonito decorar seu sal&atilde;o com um retrato de um dos crimes mais devastadores contra a humanidade. Tal conforto ainda perdura na postura do casal de namorados, da m&atilde;e com seus filhos, da senhora idosa que posam ao lado de criminosos.&nbsp;Ser&aacute; que a foto tamb&eacute;m vai pro Twitter?</div> <div>O racismo n&atilde;o &eacute; crime nem uma amea&ccedil;a em um pa&iacute;s que ainda romantiza 400 anos escravid&atilde;o reproduzindo a viol&ecirc;ncia e o holocausto de mais de 5 milh&otilde;es de africanos em cart&otilde;es postais, artigos de decora&ccedil;&atilde;o e pain&eacute;is ornamentais nos refeit&oacute;rios de hot&eacute;is coloniais.</div> <div>N&oacute;s n&atilde;o reconhecemos nossa hist&oacute;ria. N&atilde;o tratamos das nossas feridas.&nbsp;E reproduzimos sem questionar os signos do nefasto regime colonial.&nbsp;Mas parafraseando a manchete da Folha de S&atilde;o Paulo, do dia 17 de Janeiro, &ldquo;Cita&ccedil;&atilde;o nazista na cultura e agenda econ&ocirc;mica n&atilde;o se misturam, dizem analistas&rdquo; e a bolsa de valores subiu 1,5% se aproximando de mais um recorde hist&oacute;rico.</div> <div>O governo de Bolsonaro, apesar de ser o que &eacute;, se faz necess&aacute;rio para que Guedes possa, com calma, executar seu plano econ&ocirc;mico de prosperidade para os somente 12 capit&atilde;es heredit&aacute;rios.</div> <div>Eu poderia passar o dia justificando minha tese de que o presidente nunca disfar&ccedil;ou suas ideologias sanguin&aacute;rias. A est&eacute;tica nazista se faz presente neste governo desde uma simples ida ao barbeiro para cortar os cabelos penteados para o mesmo lado de uma famosa foto do f&uuml;hrer, at&eacute; no slogan nacionalista &ldquo;Brasil acima de tudo&rdquo;.</div> <div>Nada &eacute; gratuito. E nem sempre &eacute; sutil.</div> <div>In&uacute;meras vezes Bolsonaro e sua turma escancararam a semi&oacute;tica nazista em seus discursos e atitudes. Os signos da superioridade de ra&ccedil;a est&atilde;o presente at&eacute; mesmo nos sil&ecirc;ncios, nos abandonos das entrevistas. Nas perguntas sem respostas:</div> <div>Quem mandou matar Marielle Franco?</div> <div>Mas como diz nossa suposta futura secret&aacute;ria da pasta de cultura essas semelh&acirc;ncias simb&oacute;licas s&atilde;o bobagens. Bolsonaro &eacute; um homem doce, com bom cora&ccedil;&atilde;o, que faz brincadeiras homof&oacute;bicas e racistas apenas da boca pra fora.</div>
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Sobre o autor

Mariana Luiza

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