A oração em sua melhor forma
24/02/2020 | 16h35
<div><tinymce class="clickTinyMCE" title="{'nm_midia_inter_thumb1':'http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2020/02/24/170x96/1_whatsapp_image_2020_02_24_at_16_14_13-1572108.jpeg', 'id_midia_tipo':'2', 'id_tetag_galer':'', 'id_midia':'5e5421beca228', 'cd_midia':1572108, 'ds_midia_link': 'http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2020/02/24/whatsapp_image_2020_02_24_at_16_14_13-1572108.jpeg', 'ds_midia': '', 'ds_midia_credi': '', 'ds_midia_titlo': '', 'cd_tetag': '1', 'cd_midia_w': '813', 'cd_midia_h': '402', 'align': 'Left'}"><figure class="Left" style="width:813px;height:402px;"> <img src="http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2020/02/24/whatsapp_image_2020_02_24_at_16_14_13-1572108.jpeg" alt="" width="813" height="402"> <figcaption> </figcaption> </figure></tinymce></div> <div>Ontem, a Esta&ccedil;&atilde;o Primeira de Mangueira entrou na avenida para contar a hist&oacute;ria de Jesus Cristo. Uma das mais, talvez a mais famosa biografia do mundo, narrada por um ponto e vista cr&iacute;tico e contempor&acirc;neo. Na Apoteose, Jesus foi homem negro, perif&eacute;rico. Foi gay, foi ind&iacute;gena e foi mulher. Uma mulher, rainha da bateria, que em respeito ao tema de sua fantasia cobriu todo o corpo e atravessou a avenida sem sambar.</div> <div>Mas o samba n&atilde;o &eacute; uma forma de ora&ccedil;&atilde;o?</div> <div>Na vers&atilde;o etimol&oacute;gica oficial, a palavra &ldquo;samba&rdquo; se origina de uma corruptela da palavra &ldquo;semba&rdquo;, que significa &ldquo;umbigada&rdquo;, movimento corporal praticado pelo ato religioso, no idioma quimbundo. Por&eacute;m, alguns linguistas apontam que a etimologia da palavra &eacute; &ldquo;samba&rdquo; mesmo e n&atilde;o &ldquo;semba&rdquo;. E que o idioma quimbundo tem os dois voc&aacute;bulos distintos, assim como seus distintos significados. Segundo estes estudiosos, &ldquo;samba&rdquo; em quimbundo, significa orar, rezar.</div> <div>A Igreja Cat&oacute;lica e seu l&iacute;der na &eacute;poca (1452), o Papa Nicolau V, autorizou aos portugueses, por meio da bula papal <em>Dum Diversas</em>, a conquistar territ&oacute;rios n&atilde;o cristianizados e escravizar perpetuamente os sarracenos e pag&atilde;os que capturassem naquele que hoje conhecemos como continente africano. Inaugurava-se a escravid&atilde;o mercantilista.</div> <div><tinymce class="clickTinyMCE" title="{'nm_midia_inter_thumb1':'http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2020/02/24/170x96/1_whatsapp_image_2020_02_24_at_16_14_13__1_-1572091.jpeg', 'id_midia_tipo':'2', 'id_tetag_galer':'', 'id_midia':'5e5421a11f95c', 'cd_midia':1572102, 'ds_midia_link': 'http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2020/02/24/262x377/1_whatsapp_image_2020_02_24_at_16_14_13__1_-1572091.jpeg', 'ds_midia': '.', 'ds_midia_credi': '.', 'ds_midia_titlo': '.', 'cd_tetag': '1', 'cd_midia_w': '262', 'cd_midia_h': '378', 'align': 'Left'}"><figure class="Left" style="width:262px;height:378px;"> <img src="http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2020/02/24/262x377/1_whatsapp_image_2020_02_24_at_16_14_13__1_-1572091.jpeg" alt="." width="262" height="378"> <figcaption> . / . </figcaption> </figure></tinymce>O colonialismo mercantil e patriarcal atacou os corpos negros desde sua concep&ccedil;&atilde;o. Domesticados pelo trabalho for&ccedil;ado, pela viol&ecirc;ncia dos castigos aos que se rebelavam e violados pelos estupros, o corpo negro foi dominado n&atilde;o somente pelo f&iacute;sico, mas tamb&eacute;m simbolicamente. A mesma igreja que permitiu a escravid&atilde;o espalhou pelo Novo Mundo sua ideologia da superioridade da cabe&ccedil;a sobre o corpo. Segundo o Cristianismo, o corpo &eacute; profano e &eacute; por meio dele que pecamos. Por isso Jesus n&atilde;o samba. Por isso ele nasceu de um corpo virgem, de uma mulher que n&atilde;o pecou. Para ascender e evoluir espiritualmente, primeiro precisamos dominar a carne. Escond&ecirc;-las com roupas. Priv&aacute;-las dos movimentos. N&atilde;o h&aacute; sacralidade poss&iacute;vel quando o corpo &eacute; livre. N&atilde;o h&aacute; sacralidade poss&iacute;vel quando o corpo samba, quando a cabe&ccedil;a se rende aos desejos carnais.</div> <div>Para os povos Bantu, Nag&ocirc;, Geg&ecirc;, Fanti-Ashanti e outras culturas de transe, o corpo &eacute; a ponte para o sagrado. &Eacute; preciso dan&ccedil;ar, movimentos de rota&ccedil;&otilde;es anti-hor&aacute;rios, espiralares, para conectar aos seus antepassados. S&oacute; pelo corpo &eacute; poss&iacute;vel alcan&ccedil;ar o divino.A Festa da Carne, uma brecha pag&atilde; do calend&aacute;rio crist&atilde;o foi aproveitada pelos negros para iludir a perspic&aacute;cia dos brancos opressores e festejar seus reis, suas religi&otilde;es e institui&ccedil;&otilde;es.</div> <div>Os maracatus, o samba, a congada e tantas outras express&otilde;es culturais negras assimiladas pelo carnaval crist&atilde;o eram, na sua ess&ecirc;ncia, um festejo cultural e religioso de diferentes povos de origens e etnias diversas que acreditavam num deus que soubesse dan&ccedil;ar.</div> <div>O s&aacute;bio Zaratrusta, talvez mais s&aacute;bio fosse, ou quem sabe seria menos descrente na vida e nos homens, se conhecesse o samba e as religi&otilde;es que cultuam o corpo como sagrado. Onde os deuses s&oacute; existem porque dan&ccedil;am.</div> <div>A mangueira trouxe para a passarela do samba, um Jesus contempor&acirc;neo, um Jesus &ldquo;poss&iacute;vel&rdquo;.</div> <div><strong>Mas POSS&Iacute;VEL para quem?</strong></div> <div>N&atilde;o penso que os ind&iacute;genas, massacrados pela Companhia de Jesus desde as&nbsp;miss&otilde;es de 1500, precisassem de tal Cristo. N&atilde;o penso que o Cristo neopentecostal que hoje leva a "salva&ccedil;&atilde;o" &agrave;s aldeias seja-lhes necess&aacute;rio. Esta mudan&ccedil;a, apenas est&eacute;tica de quem foi Jesus n&atilde;o significa nada para povos que acreditam no coletivo. Que n&atilde;o v&ecirc;em como imagem e semelhan&ccedil;a divina, porque o divino &eacute; a natureza e o ind&iacute;gena &eacute; a natureza assim como as &aacute;guas, os p&aacute;ssaros, os mam&iacute;feros. N&atilde;o h&aacute; superioridade.&nbsp;</div> <div>Concordo que Jesus pode n&atilde;o ter sido um homem branco. Se nasceu mesmo em Bel&eacute;m como diz a b&iacute;blia, era um homem mouro. Mas nesse Cristianismo tal qual o conhecemos e tal qual a Hist&oacute;ria construiu - usado como instrumento de conquista e domina&ccedil;&atilde;o de um povo sobre outros povos, a &uacute;nica imagem poss&iacute;vel de Jesus &eacute; esta imagem oficial. Um homem loiro e de olhos azuis. Um Europeu, desbravador do Novo Mundo - que &eacute; novo apenas para ele.</div> <div>Esse Cristianismo que autorizou a domina&ccedil;&atilde;o, o epistemic&iacute;dio e o massacre f&iacute;sico de povos ind&iacute;genas e negros n&atilde;o pode ser feminino, nem afro-descendente, muito menos ind&iacute;gena.&nbsp;Jesus Cristo s&oacute; importa aos crist&atilde;os e a mais ningu&eacute;m. E &eacute; este o Cristo poss&iacute;vel. Aquele que n&atilde;o &eacute; hegem&ocirc;nico.&nbsp;</div>
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Sobre o autor

Mariana Luiza

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