Transmutação
10/09/2019 | 12h32
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Acordou e olhou o relógio pendurado na parede: 5h50. Estava cedo ou tarde? Não se lembrava da última vez em que tinha observado aqueles ponteiros. A noite se transmutava em manhã nos primeiros feixes de luzes que surgiam no céu. Haveria nuvens ou sol durante este dia? Era tudo tão incerto. Ele não sabia. Nunca sabia.
Respirou fundo. Cinco horas e cinquenta e dois minutos. Levantou e caminhou pelo quarto de tons claros e escuros. Parecia perdido. Desconhecia a data, a casa, a cama, seu rosto. Passou a mão e sentiu a barba por fazer. Mas ainda era cedo. Ou já estava tarde? Os pelos endurecidos faziam pinicar os dedos. A sensação parecia percorrer todo o corpo do homem, mas ele não sabia o porquê. Nunca sabia.
Bocejou em frente ao guarda-roupa. Eram, agora, 5h53. Quais as roupas ainda permaneciam escondidas por trás daquelas portas? Entre cabides, blusas, calças, shorts, frio, meias, cuecas e, talvez, calcinhas. Será que ainda havia alguma perdida? Tentava puxar pela memória as cores dela, que se espalhavam sobre as suas, mas não conseguia. Era como se falhasse a cabeça. Pareciam lembranças distantes, de outras vidas, mescladas a um adeus, talvez, quem sabe? Ele não sabia. Nunca sabia.
Agora, o relógio marcava 5h55. Detestava números repetidos e horas repetidas e dias repetidos e vidas repetidas. Não. Não era isso a que ele fora destinado, se é que havia sido destinado a algo. Santa ilusão cristã. Novamente, passou os dedos nos pelos duros da barba e sentiu a sensação percorrer o seu corpo. Mas qual era a sensação? Agonia misturada à tensão e misturada a certo asco pela barba por fazer. Houve, em tempos remotos, certas vaidades a que ele cedia. Mas isso está em um passado que o homem, hoje, desconhecia. “Por quê?”, perguntou a si mesmo. Não sabia.
Às 5h58, as memórias pareceram saltar de sua cabeça em uma corrida desordenada. Ela vinha para se deitar em sua cama, abraçando-o carinhosamente. Entregava-se a uma dança única dos corpos unidos em calores e suores. Em seguida, emitia um riso alto, seguido por um sorriso manhoso, como gostava de fazer quando se sentia amada e protegia. E ele? Quando se sentiria amado e protegido para rir e sorrir? Ele nunca sabia.
Sabia, sim, uma única coisa. E esta lembrança, vinda às 5h59 de uma manhã perdida, amanheceu o homem. Ela partira, sem despedidas ou avisos. Voou, como ele costumava dizer a quem o perguntava. Acordou, um dia, e não a viu na cama. As roupas pareceram nunca ter composto o armário. As cores dela não estavam mais sobre as suas. Quaisquer rastros tinham sido apagados. Assim como ela havia chegado até ele, em uma noite escura, deixou-o inundado por estes mesmos tons.
Os raios de sol invadiram o quarto de modo repentino, fazendo doer os olhos dele. Não esperava a súbita luz que, agora, consumia o espaço. O homem, em pé, observando o mundo que pulsava à sombra da janela, transmutou-se em luz.
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O Encontro - O silêncio no caos
03/09/2019 | 19h30
Divulgação
Em conversas sobre cinema, é comum ouvir que, entre os filmes americanos e europeus, geralmente, há grande diferença de ritmo de narrativa. Os primeiros costumam ter mais diálogos e momentos de ação se comparados aos segundos, conhecidos pelo desenrolar mais vagaroso de seus enredos. Para confirmar que toda regra tem exceção, no entanto, o longa-metragem “O Encontro” (“Time out of mind”, 2014), marcado por uma fotografia acinzentada e ambientado em uma Nova York vista e compreendida pela ótica dos marginalizados, pode ser considerado um dos pontos de divergência da teoria colocada em prática. 
Protagonizado por Richard Gere e dirigido por Oren Moverman, o filme mostra a história de George, um homem que perdeu a família e os bens e se tornou um morador de rua que tem dificuldades para aceitar a nova condição. Em um quadro de depressão, ele vive em busca de um lugar para se abrigar e de uma possibilidade de um novo encontro com a filha Maggie, interpretada por Jena Malone. Após ser humilhado em diversas situações, ele é orientado a ir para um abrigo público.
Quando é aceito em uma unidade, George conhece Dixon, personagem de Ben Vereen, um homem que afirma ser músico e conta ter recusado uma oportunidade de emprego em outro país por não poder abandonar o seu cão de estimação. Apesar dos conflitos entre os dois, o companheiro de abrigo o encoraja a encarar a realidade e buscar seus direitos. Oposto a George, Dixon tem como principal característica a verborragia. Em um atrito causado por uma de suas tentativas de diálogo com o protagonista, ele é obrigado a deixar o lugar.
Não somente no abrigo, mas também durante o período em que vaga pelas ruas de Nova York, poucos são os momentos em que George dialoga com outros personagens. O espectador acompanha o protagonista em suas caminhadas e é envolvido por gritos, barulhos de carro, risadas, brigas e todos os outros sons possíveis de serem encontrados em uma cidade grande, tal como acontece com o leitor do escritor brasileiro Luiz Ruffato que, no livro “Eles eram muitos cavalos”, é levado a mergulhar na narrativa sobre um dia em São Paulo a partir das vozes da cidade. Somado ao silêncio do homem, que demonstra nos traços toda a sua aflição, inclusive a que é sentida quando ele percebe a partida de Dixon, o cenário de tons escuros de inverno ambienta ainda mais o público na realidade que cabe ao personagem.
Apesar da quietude de George, no entanto, o protagonista parece verbalizar todos os conflitos e sentimentos por meio da bela interpretação de Richard Gere. Não apenas a expressão facial, mas todo o corpo do ator dialoga com quem assiste e faz compreender o complexo universo que envolve o homem, tornando dispensável a comunicação verbal, que, na maior parte do tempo, é utilizada para o entendimento de momentos-chave da história. Esta característica, peculiar para uma produção norte-americana, pode fazer com que o filme seja considerado lento, conforme apontado por parte da crítica à época do lançamento, mas é necessário compreender que, tanto na arte quanto na vida, o silêncio pode falar mais sobre o ser humano do que palavras, verbos e ação.
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Angelina
25/06/2019 | 17h47
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A porta da pequena capela estava entreaberta, como ela encontrava todos os dias pela manhã. Nunca soube quem a deixava assim. Às cinco horas, Angelina se levantava da cama, preparava uma xícara de café e, com o pão da tarde anterior, fazia torradas. Passava manteiga enquanto seus pensamentos vagavam pelas horas à frente. Após comer, vestia o tradicional xale acinzentado pelo tempo e saía pelas ruas. Atravessava duas, virava à esquerda na terceira e caminhava até o final daquela via. Era sem saída. O ponto final era a igrejinha.
Perto da entrada da capela, ela fazia o primeiro sinal da cruz da manhã. Orava ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. Também agradecia pela bênção de respirar por mais um dia. Aprendera com sua avó que deveria ser grata por tudo, até pelos maus momentos. “É deles que você vai tirar os ensinamentos”, dizia repetidamente à neta. Mesmo obediente ao que falava a mulher, a então menina sentia dúvidas. Era necessário aprender assim? Os anos a mostraram que, sim, era necessário.
À porta da igreja, o segundo sinal da cruz entre lembranças da avó. Era engraçado. Com o passar do tempo, Angelina se via mais parecida com ela. Em seus hábitos, crenças e gestos. Entrou na capela pela fresta. Não precisava mais do que isso para caber naquele espaço. Sentou-se. Observou o altar, já destruído pelos anos de abandono. Ainda era capaz de recordar as missas diárias ali celebradas. Na infância, corria entre os muitos fiéis que depositavam sua fé e seus problemas aos pés de Cristo. Em diversas ocasiões, acompanhou suas orações, mesmo sem saber o que era pedido.
Jesus continuava ali, mas corroído. Seus pés pareciam mais frágeis do que outrora. Os olhos transpareciam uma tristeza além da que ela percebia na meninice. Os santos que estavam próximos à imagem de Cristo entrelaçavam as mãos à solidão. Anjos vagavam perdidos nas pinturas. Tudo estava fora do lugar. No púlpito, o vazio. Onde antes ecoavam vozes de homens, velhos e novos, entre português e latim, havia apenas sombras criadas pelos parcos raios de sol que invadiam o espaço. Apesar do peso que sentia no ar, o cenário continuava a atraí-la.
Ajoelhou-se. Cruzou as mãos em oração. De olhos fechados, estava novamente correndo pela igrejinha. Tinha oito ou nove anos. Usava um vestido florido, de manga curta, e brincava com amigos. Ainda não havia começado a missa. Sua avó estava lendo a Bíblia, como sempre fazia antes das orações. “Menina, sossegue! Eu não tenho mais idade para correr atrás de você. E nem paciência”, brigou a idosa no momento em que conseguiu alcançar a garota, que se desvencilhou e voltou para a brincadeira.
Os dias foram passando pela sua mente à medida que ela avançava no Pai Nosso. Estava brincando mais uma vez com os colegas, mas, agora, era inverno. Vestia calça jeans, blusa azul e uma jaqueta. Nos pés, os tênis comprados pelos pais. “Venha a nós o Vosso Reino”. Já era adolescente e estava sentada a poucos metros do altar, com a cabeça baixa e pensamentos distantes. Tinha discutido com a avó naquela manhã por um motivo do qual não se lembrava mais e foi para a capela, antes da missa do início da tarde. Estava cansada e queria ficar sozinha por um tempo.
“Seja feita a Vossa vontade, assim na Terra como no céu”. Um barulho a tirou de seus pensamentos. Parecia uma queda seguida de burburinho. Levantou a cabeça e viu que as pessoas estavam amontoadas ao redor de alguma coisa que ela não conseguia decifrar. Afastou crianças que estavam à sua frente e se aproximou. Uma pessoa estava caída. Não sabia quem era. Enfrentava braços, cabelos e ombros até que reconheceu o pequeno sapatinho, já desbotado, de cor preta. “Não respira!”, gritou o padre.
Angelina nunca conseguiu se recordar do que aconteceu após o grito do homem. Todas as memórias se confundem, e a cabeça dói de modo lancinante. “O pão nosso de cada dia nos dai hoje. Perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”, disse e suspirou, secando os olhos e afastando as lembranças.
Finalizou a oração. Observou ao redor, ainda a tempo de ver a menina de vestido florido correndo em direção à imagem de Jesus, que, de repente, parecia sorrir. O ar era mais claro. O dia havia amanhecido de fato. Fez o último sinal da cruz, ergueu seu corpo e caminhou em direção à saída. Antes de se despedir da capelinha, olhou para trás. Padres, cantos, credos, crianças, mães, pais. Sua avó olhava-a do canto, batendo no chão os sapatinhos pretos, e vigiava seus passos, como sempre fazia naqueles tempos. Mas, desta vez, ela desviou os olhos e encarou a neta de cabelos brancos, com um sorriso cúmplice. Angelina compreendeu as palavras nunca ditas e também sorriu. Sim, estava tudo bem. Fechou a porta e seguiu para novos dias.
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Meio dia
04/08/2017 | 14h09
Paula Vigneron
Mãos e pernas balançam pelas ruas horas após o amanhecer. Os olhos acompanham ritmos distintos. Pessoas mergulhadas em pensamentos. Uma mulher passa na calçada, calada e séria. Caminha enquanto coça o rosto. Não se perturba com os carros correndo. Mais à frente, policiais em uma viatura se alternam entre distrações e patrulhamentos.
Minutos antes, na esquina, um homem, em sua cadeira de rodas, observava os transeuntes. Ao avistar outro, alto e forte, brinca: “você é grande, mas não é dois”. A seriedade é quebrada momentaneamente pela sagaz ousadia do rapaz. Risadas provêm dele e de quem ouve a brincadeira. A normalidade volta à cena em seguida.
Os assuntos são permeados pelas pautas jornalísticas. Política tem sido alvo de debates vãos. Ninguém se entende. Ninguém entende. Todos respiram apatia. Servidores públicos reunidos na sede de uma universidade estadual lamentam os descasos do governo. “O Estado, hoje, instituiu a escravidão”, afirmou uma trabalhadora. Há tempos, passa por dificuldade junto aos seus parceiros de profissão. Lutam para serem ouvidos enquanto se organizam para a distribuição de cestas básicas que auxiliam colegas desamparados pelo poder público.
A despeito deles, à beira de uma rodovia que corta o município, outros trabalhadores prosseguem em seus papéis. Varrem, cuidam de jardins e plantas e, vez ou outra, param para analisar veículos e rostos em movimento e enxugam as primeiras gotas de suor e traços de desânimo. Todos parecem cansados.
O trânsito conturbado. O rádio saudando os ouvintes. Pedestres atravessando as ruas, com seus cigarros, celulares e sono. Conversas paralelas. Um idoso, seguro com sua bengala, conta causos a um rapaz uniformizado. Um cachorro preto caminha, calmamente, entre pequenos e grandes veículos na descida de uma ponte. Velocidades reduzidas para aguardar o passante.
Entre cobranças e desgastes cotidianos, pouca ou nenhuma compreensão; entre casas, carros, motos, homens, mulheres e crianças, os semblantes perdidos; entre medos e dúvidas; nós. E nós? Pelos alto-falantes, ecoam as vozes de Milton e Elis, respostas e lembretes à consciência: “nem vá dormir como pedra e esquecer o que foi feito de nós”.
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Branco e preto
31/07/2017 | 13h32
Mas mantinha-o no mesmo lugar, com o mesmo retrato em branco e preto
Mas mantinha-o no mesmo lugar, com o mesmo retrato em branco e preto / pixabay
— Pai Nosso que estais no céu...
— Não adianta — respondeu a voz que o perseguia há noites. Guia de seus dias.
— Santificado seja o Vosso nome — as mãos cruzadas em frente ao peito; os joelhos marcados pelos cortes do piso.
— Estou dizendo: não adianta. Não insista — falou, em tom mais grosseiro, o homem sem rosto.
— Venha a nós o Vosso reino.
— Não será feita a Sua vontade. Você sabe, rapaz. Eu te disse. Não tem por que insistir.
— Seja feita a Vossa vontade — pequenas gotas de suor escorriam pela testa enrugada de tensão.
— Sente-se aqui, na sua cama, ao meu lado.
Cortou a oração. Olhou para trás, onde estava localizado o móvel. Vazio. “Estou enlouquecendo. Esse é o preço?”
Mãos à frente do corpo. Concentrou-se. Agora, estava perdida a oração. Precisava recomeçar.
— Pai Nosso que estais no céu...
Aguardou a interferência. Dez segundos de silêncio.
— Santificado seja o Vosso nome...
— Venha a nós o Vosso reino.
Parou novamente. Respirou fundo. Será que é isso que chamam de consciência? Aquela coisa independente que está dentro de você e julga todos os seus atos-erros-acertos-desistências-bingo! Deve ser. Ou o princípio da loucura inevitável.
— Seja feita a...
— ...Vossa vontade. Assim na Terra como no céu. O pão nosso de cada dia, nos dai hoje...
— Pelo amor de Deus, cale essa boca — soltou as mãos. Ergueu-se. Os joelhos latejavam. Estava incomodado. Nunca fora dado a orações. Na hora em que sente a necessidade de buscar respostas, ou sopros divinos transformados em calmaria, se depara com algo. Alguém. Uma voz sem fisionomia dizendo-o que não vai adiantar. O discurso vinha sendo repetido há dias. Olhou ao redor. Não havia ninguém no ambiente.
O quarto estava vazio, exceto pela sua presença. A casa também. Há tempos, não sabia o que era receber visitas; pessoas interessadas em vê-lo, ouvi-lo e rir de suas tentativas de piadas. Passava as noites dialogando com televisão e redes sociais. Rindo de idiotices extremas que não faziam o menor sentido, mas preenchiam sua vida de sentido. Qual seria o sentido disso tudo?
Em pé, com as mãos soltas ao lado do corpo, encarou as paredes. Precisava tentar novamente.
— Pai Nosso que estais no céu...
— Quer que eu continue? Ou você prossegue e se decepciona com o resultado?
Rodou ao redor de seu corpo. Continuava procurando a origem daquela voz. Ouvia-a claramente, mas não conseguia saber de onde vinha o som. Soava abafado. De repente, parecia vir de dentro das paredes. Quem poderia estar escondido ali? Dirigiu-se para trás da cama. Tateou os quadros pendurados. Uma risada incômoda tomou todo o quarto. Estava nitidamente sendo ridículo.
— Isso mesmo. Ridículo.
— Mas como sabe? Eu não falei a palavra “ridículo” em momento nenhum.
— Certas coisas não precisam ser faladas.
— Pai Nosso que estais no céu...
— Santificado seja o Vosso nome — complementou.
— Você vai continuar finalizando a minha oração?
— Acho que sim. Você sabe finalizá-la sem depender de mim?
— Mas não sei nem quem é você.
— Vamos continuar, então: Venha a nós o Vosso reino. Seja feita a Vossa vontade, assim na Terra como no céu. O pão nosso de cada dia, nos dai hoje. Prossiga.
— Perdoai as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido.
Parou por uns minutos, encarando o chão. Estava manchado. Sentiu afinidade e desligou-se da oração. Olhou em direção à mesa de cabeceira. Ali, continuava o porta-retrato. O vidro conservava as rachaduras do dia em que ele foi lançado contra a parede. Mas mantinha-o no lugar de origem, com o mesmo retrato em branco e preto.
— É sintomático você esquecer o “Pai Nosso” justamente no momento em que pediria para que Ele não te deixe cair em tentação. Será que conseguirá? — uma gargalhada ecoou pelo ambiente. Sem perceber, ele se dirigiu até a mesa em uma súbita mudança de intenções. Segurou o porta-retrato e, mais uma vez, repetiu a cena: lançou-o contra a parede. Desta vez, o objeto ficou completamente destruído.
Abismado com a ação, correu, entre risadas alheias, em direção ao quadro. Resgatou o retrato. O mesmo sorriso, não destruído pelo tempo e suas reviravoltas. O olhar penetrante. Intrigante. Em branco e preto. Chutou os cacos. Caminhou e colocou a fotografia sob os travesseiros. O silêncio novamente dominou o quarto. “Não nos deixeis cair em tentação. Mas livrai-nos de todo o mal. Amém.”
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Julho, 19
12/07/2017 | 08h49
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Sempre fui considerado o mau elemento. Todas as mães de todos os colegas de todas as origens rechaçavam a minha presença em suas casas. Doía. Junto a mim, crescia a revolta. Mesmo nos meus bons momentos, havia o olhar de desconfiança.
Aos 11 anos, gritei. Pela primeira vez, reuni todo o fôlego possível e pus para fora, sem dó nem piedade. E olhei nos olhos dos três homens que estavam parados na minha direção. “Vocês são uns merdas”. Onze anos. Em troca, recebi um tapa na cara. Meu pai desferiu o golpe. Doeu menos do que a rejeição. Meus irmãos riram. Mais velhos. Mais sarcásticos. Mais duros.
Aos 14, eu os mandei para as putas que os haviam parido. Outro tapa. Mais forte. A dor foi equivalente ao desejo de me vingar. Minha mãe, acuada, me olhava com lágrimas nos olhos. O que me restava de bom, eu devia a ela. Mas era pouco. Desgastava-se dia a dia, em uma velocidade diretamente proporcional à sensação de perda que carregava comigo.
Dezessete. Cheguei à minha casa e flagrei meu pai batendo em minha mãe. Seus outros dois filhos não moravam mais conosco. A mulher que, com seu jeito reservado e medroso, deu os dias por mim. Sentia o gosto do sangue em minha boca. A saliva estava impregnada de rancor. Nunca mais permitiria isso. Quem ele pensava que era? Um homem que em nada auxiliou os filhos. Fui à rua. Quis experimentar drogas e bebidas como se fosse o último dia.
E era. Mudanças começaram dentro de mim. Não tinha mais condições de ser menino. Precisava ser homem.
Com 19 anos, andava pelas ruas do meu bairro. Sentia-me perdido. Reconhecer isso era ruim. Perigoso. Como se mais nada me restasse nesse mundo. Após passar em frente a um bar, ouvi um grupo cantando “parabéns para você, nesta data querida”, enquanto olhava em minha direção. Dezenove de julho. Agora, 20 anos. Não conseguia receber carinho. Não me reconhecia. Não sentia o dia como meu. Agradeci e corri.
Corri feito uma criança que se perde dos pais em um supermercado lotado. Eu me perdi. Em ruas vazias. À espera do que não podia nomear. Vinte amargos anos. Será que minha mãe se lembraria da data? Uma ponta de alegria sorriu em meu peito. Novamente, corri para casa. Quem sabe nascia a possibilidade de momentos de paz?
Vinte anos. Poucos sorrisos. Experiências equivalentes a 40. E um menino pronto a receber um abraço. De aniversário. De amor. Ou só de consolo.
Abri a porta. Minha mãe chorava sobre o bolo. Tinha marcas no rosto. “Fazer festinha para vagabundo? Sabe por que você fez? Porque também é uma vagabunda!” Todo o peso da mão de meu pai caia no rosto dela. Não reagia. Sem ação. Morta por dentro.
Não me lembro dos detalhes. Bati a porta. Me lancei sobre ele. Ficou desacordado. O sangue inundou a sala. Os gritos dela. Em choque. Homens fardados entraram. Olharam a cena. Aos pés dele, o filho atormentado. Mãos marcadas. Não havia dúvidas.
“Não precisava ter terminado assim. Uma tragédia. Dor sem fim, meu filho. Meu menino.” Ela repetia as mesmas frases em todas as visitas, desde então. Perturbava-me. Não entendia. Nunca entendi. Vinte anos. Mais dois confinado entre homens, ratos, mijos e o mantra de minha mãe. Todas as noites, no embalo do meu sono, rolam as lágrimas dela.
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Cenas de um crime
05/06/2017 | 15h56
Meninos observam a cena do crime
Meninos observam a cena do crime / Paulo Pinheiro
Início de segunda-feira. Dia 5 de junho de 2017. Na comunidade Sapo I, em Campos, os moradores se agrupavam na porta de uma casa onde uma adolescente foi morta a tiros na madrugada. Três disparos: dois no rosto — um com entrada e saída e outro alojado na face — e um na mão, no momento em que a menina, de 15 anos, tentou se defender.
Na rua, poucas pessoas falavam sobre a história. Uns comentavam possíveis fatos relacionados à vida da família. Outros olhavam a imprensa, com expressão de medo e desafio. Crianças se espalhavam pelas calçadas. Brincando, rindo, correndo. Um celular tocava funk, contrapondo-se ao clima pós-assassinato. Meninos conversavam. Um deles portava um grande pedaço de madeira, que se tornou um cajado durante as brincadeiras.
Foram contabilizadas 30 crianças. Adultos andavam ao redor delas. Dentro da casa, permanecia o corpo. Na sala. No chão. O crime aconteceu na madrugada. Os familiares não falaram sobre o caso. Apenas um irmão transitava pelas calçadas, ora conversando com policiais, ora em silêncio. Horas depois do fato, a mãe da adolescente apareceu no local. Ela passava pelas pessoas enquanto repetia, entre lágrimas, “minha filha, minha filha. Cadê a minha filha? Eu quero a minha filha”.
Desde as 7h, policiais se revezavam na cena do crime. As equipes de reportagem chegaram aproximadamente uma hora depois. Todos esperavam o desfecho da primeira parte do caso. No final da manhã, peritos fizeram uma análise prévia. No momento da retirada do corpo da adolescente, um rapaz, também menor de idade, fumava, encostado a um muro em frente à casa da garota.
Com cabelo parcialmente raspado, reflexos louros e uma tatuagem no pescoço, ele observava a movimentação. Os militares que atuavam na ocorrência foram em direção ao adolescente. Detiveram-no. Questionaram o menino. Havia suspeita de sua participação no crime. Ao redor, os moradores gritavam contra a ação. Era absurda. Não tinha por que levá-lo. Ameaçaram. Houve discussão e irritação dos dois lados.
O menino, que assistia a tudo calado, mantinha o olhar duro. Rígido. Sua expressão não mudou. Não demonstrou reações. Não contestou o ato dos policiais. Não falou. Nem tentou se defender. Continuava em sua observação silenciosa, analisando os detalhes da cena de um crime possivelmente conhecido enquanto se livrava dos últimos tragos de um cigarro.
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Descuidos
02/06/2017 | 08h58
Por mais um milésimo de segundo descuidado, percebi um toque.
Por mais um milésimo de segundo descuidado, percebi um toque. / pixabay
Você estava aqui. Agora. Ao meu lado. Por um milésimo de segundo descuidado, senti sua respiração. E vi seus olhos, que olhavam os meus, fechados. Diferente. Seu brilho parecia intenso. Ora frio. Ora próximo. Ora distante. Ora, as horas se passavam sem que eu soubesse a exatidão do tempo. Da vida. De nós.
Por mais um milésimo de segundo descuidado, percebi um toque. O vento. Um sopro. Quente. Uma sensação que me envolvia de forma inesperada. Ora, quem poderia esperar? Uma aparição breve. Ali. Ao meu lado. Por descuidos, a gente tropeça na vida. E ela esbarra na gente.
Os olhos pousados sobre mim. Eu queria abrir e ver o que seria capaz de encontrar, mas os mantive cerrados. Outros milésimos de segundos descuidados poderiam esbarrar na minha vida de tropeços. O sonho. Um momento para procurar, em terreno seguro, os segundos de descuido e transformá-los em horas de paz.
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A dois
27/05/2017 | 13h42
As primeiras luzes da manhã entravam pelas frestas da janela. Eles dormiam enquanto amanhecia o dia nublado.
As primeiras luzes da manhã entravam pelas frestas da janela. Eles dormiam enquanto amanhecia o dia nublado. / pixabay
As primeiras luzes da manhã entravam pelas frestas da janela. Eles dormiam enquanto amanhecia o dia nublado. A mulher ajeitou-se. Pegou o edredom e jogou sobre si. Abriu os olhos. Observou o homem que estava ao seu lado, mergulhado em um sono profundo. Parecia não se incomodar com os movimentos e com a claridade, que tocava cada parte dos corpos e móveis do cômodo. Concentrou-se na respiração dele. Era como uma criança adormecida que não teme os perigos. Ela também não temia. Ele estava ali.
Lembrou-se da noite anterior. Tinham se encontrado em uma mesa de um desses bares cheios, barulhentos e, paradoxalmente, vazios. Entre risadas histéricas e discussões sobre os possíveis caminhos da humanidade. Entre goles de cerveja e doses de quaisquer outras bebidas usadas como válvulas de escape das realidades que esperavam as pessoas longe do conforto passageiro. Havia mais gente. Seguindo o ritmo da noite, debatiam sobre o que surgisse: política, cultura, tragédias cotidianas e vidas alheias.
O homem se mexeu levemente, afastando-a das lembranças. Voltou a analisá-lo. Era tão bonito ver o outro dormir. Estava entregue aos sonhos e, sem saber, à mulher que o olhava silenciosamente. Não queria que ele percebesse seus olhos concentrados no expirar-inspirar-expirar-inspirar gostosamente ritmado. Esticou a mão. Tocou o rosto dele. Acariciou cuidadosamente. Percebeu a serenidade em sua expressão. Esse era um daqueles momentos que faz um dia valer a pena. Que tornam mais suportáveis as horas ruins. Os dedos passearam por seus cabelos. Em uma conversa, havia dito que não gostava que mexessem neles. Mas, pensou, ele não vai se incomodar agora. Sorriu ao imaginar a indignação que o tomaria se soubesse que ela quebrou uma regra.
Eles se conheceram por acaso. Um daqueles encontros em que nada se ouve e pouco se fala. Tempos passaram. E, entre atalhos nos diferentes caminhos, novos trechos levaram-nos a um ponto em comum da estrada. Desta, seguiram em frente, lado a lado. Como podiam. Enquanto passeia pela pele dele, com toques suaves, recorda cada momento. Esbarros, tropeços. Discussões. Contradições. Debates. Conversas. Confrontos. Tentativas de contornar as desavenças. Sorrisos disfarçados. Mãos no rosto. Olhos que se comunicavam em silêncio. Predominância de sentimentos. Desuso da razão. O beijo inesperado em uma noite fria. Um eterno retorno a um mundo habitado somente por eles. Uma realidade particular.
“É a nossa forma de ser”, ele disse a ela, enquanto observava irritações causadas por motivos dos quais a mulher não conseguia se lembrar. Tudo parecia distante e compassado pelo som da respiração do homem. Teve vontade de acordá-lo. Sacudi-lo. Levar café da manhã. Fazer cócegas. Dar risadas. Mas optou por observá-lo. Não podia. Não agora. Estavam plenos na sonolência dupla. Não seria cruel de afastá-los de seus sonhos.
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Epitáfio
13/05/2017 | 02h36
No dia em que eu partir, não chore. Sorria! Permitirei apenas lágrimas vertidas entre risadas pelas lembranças inventadas de um dia de sol que não vivemos. Aquelas histórias, contadas por outros, sobre os momentos em que dividimos cervejas e memórias, vãs memórias, das horas passadas em lugares distantes. Perdidos entre árvores, músicas e beijos.
Não chore! Recorde-se das horas que não passei falando sobre nós. Os abraços nunca dados. Que permaneceram em sonhos contados às três da manhã, em uma noite fria de um domingo de maio. Se vier a angústia, apague-a com as palavras imaginadas. E, também, com as ditas. Creia-me. Não menti em nenhuma ocasião. Exceto quando neguei um sentimento. Ou uma verdade. Duas ou três mentiras entre tantas frases claras.
O som da voz. Por ora, ligue-se a ela. Em breve, meus tons sumirão no meio de outros que surgirão em seu caminho. Mas não deixe que eu parta com eles por toda a estranha eternidade. Não agora. Não já. Mantenha meu jeito de falar, o mexer dos lábios, em sua mente enquanto ainda me despeço dia a dia. É nossa fonte de união.
Quando vier a dor da ausência, sinta meu cheiro ao seu lado. Na cama. No travesseiro. Nas roupas jogadas no chão. Naquela toalha de banho velha que deixei sobre a cama. Toque meus livros e sinta os meus toques nos seus. Os dedos cansados que folhearam tantas páginas da vida. Há traços de minha fisionomia perdidos em seu rosto sombrio.
Não deixe que o tic-tac dos relógios te torne exausto. Ele será o barulho do meu silêncio. Você se lembra do quanto eu gostava de acompanhar os ponteiros? Olhe-os. Ali, estarei. Siga os meus passos em todos os cômodos. Em cada canto de nossos cantos, encontrará meu sorriso. Se procurar pela casa, restam os bilhetes que deixei naquela noite. E os que não deixei. Nem tudo precisa ser claramente dito. Você também me achará na escuridão.
Na solidão.
No apagar das luzes da cidade.
Das nossas luzes.
Das suas luzes.
E, quando elas sumirem vagarosamente, estarei ali, do outro lado, para te contar sobre um dia de sol que não vivemos. Para lembrar aquelas histórias, inventadas por outros, sobre os momentos em que dividimos cervejas e memórias das horas passadas em lugares distantes. Detalhar as horas que não passei falando sobre nós. Os abraços nunca dados. Os beijos perdidos entre árvores e músicas. E revertê-los em vidas quase vividas.
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Sobre o autor

Paula Vigneron

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