Resquícios
05/04/2017 | 13h11
Pixabay
Montou em sua bicicleta e seguiu pelas ruas. Vias desertas. / Pixabay
Era pontual. Às sete da manhã, saía de casa. Traçava, em uma pequena caderneta, a rota pela qual passaria nas horas seguintes. Vestiu-se de forma meticulosa. Cueca. Meias. Calça. Blusa. Tênis. Analisou a imagem no espelho. Ajeitou os cabelos com os dedos. Nem se lembrava de onde havia deixado o pente que herdara de sua mãe.  
A bolsa estava jogada na cadeira da bagunça, perto de sua cama. Era onde ficavam os principais acessórios do dia. Sempre acomodava-os ali. Era mais fácil de encontrar todos os objetos dos quais precisaria. Pegou-a. Colocou-a sobre o ombro esquerdo. Estava vazia. Refez o trajeto. Encontrou a caneta. Traçou. Demoraria poucas horas para retornar à sua casa.
Abriu a porta da sala. Estava sol. Um dia mais quente do que esperava. Montou em sua bicicleta e seguiu pelas ruas. Vias desertas. Por trás dos muros, vidas vazias. Prosseguiu. A bolsa balançava enquanto ele andava sobre paralelepípedos. No chão, a característica sujeira de uma noite movimentada.
À medida que fazia o percurso, sentia um peso sobre o ombro esquerdo. Fora jovem e correra por aquele caminho. Mais adiante, havia beijado a primeira garota de sua vida. Aninha. Uma paixão adolescente que ainda acelerava o coração adulto. Agora, perto da esquina, em frente à escada que dava acesso ao hospital, revivia as despedidas. Pensou que poderia ter sido um homem melhor.
O peso sobre o ombro esquerdo aumentava.
Percorreu 100, 200, 300 metros. Um quilômetro entre recantos. Cantos outrora seus. A casa de Aninha. Continuava com as mesmas paredes brancas. Apertou os freios. Do outro lado da rua, via o quarto dela, no segundo andar. Estava fechado. Conseguia sentir, apesar da distância, o cheiro de mofo onde, antes, havia perfume, briga, amor, sabonete e sexo. As cortinas azuis combinavam com lençóis e fronhas de sua cama. Hoje, a janela conservava os vidros trincados.
Aumentava o peso sobre o ombro esquerdo.
Retomou o percurso. Sentiu o calor ao pedalar. Pensou no mar. Seria o final do trajeto. Antes, precisava redescobrir outros espaços. Ziguezagueou pelas tradicionais áreas. Supermercados. Bares. Uma casa onde havia funcionado um cinema alternativo. Os primeiros porres compartilhados com os amigos. Os segredos trocados. As juras de amor eterno. Tantas promessas sopradas ao vento. E, ainda ali, Aninha. O sorriso aberto ao saber das novidades. O cenho franzido denunciando a insatisfação.
Ajeitou a bolsa que pesava sobre o ombro esquerdo.
Poucos metros depois, lembrou-se do último encontro. A despedida dos amigos. Eles iriam para outras cidades. Uns foram aprovados em vestibulares. Outros conseguiram empregos. Um deles conheceu uma moça e queria se casar. Entre eles, Aninha. Havia sido classificada para uma vaga no curso de artes. “Não vá. Fique comigo”, pediu, como uma criança. “Não vou abandonar um sonho. Voltarei um dia. Me espere, querido. O tempo é um sopro.”
Doía, de forma contundente, o ombro esquerdo.
As lembranças gritavam. Ecoavam as vozes da memória. Eram agressivas com o homem que sobrevivia por meio delas. Encontrou o mar. As ondas tranquilizaram-no. O ombro pesado. Doído. Jogou a bolsa na areia. Livrou-se da calça. Blusa. Medos. Meias. Tristezas. Tênis. Culpas. Cueca. Diante do mar, despiu-se da saudade.
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Para ti
20/03/2017 | 19h58
Todos os dias, cometo este mesmo ritual. Um crime contra mim. Sento-me à mesa e traço, em minha cabeça, as primeiras palavras. Para te contar um pouco sobre as histórias. Tantas. Os detalhes perdidos de uma vida. Há quantos anos? Já não me lembro. Não há mais exatidão em mim. É como cortar os pulsos. Foi Fernando Sabino quem disse que esse era o primeiro passo para a escrita? Não sei. Ficamos mais confusos com o passar do tempo.
Por falar nele, vou te perguntar, pela centésima (ou milésima) vez: que fizeste do seu? Ah, o tempo. Queria saber os seus jeitos. Os trejeitos. Se a sua língua presa ainda destoa da voz grossa. Se os cabelos permanecem bagunçados. Ou se apenas permanecem. O que foi feito daquele anel que te dei como lembrança? Memórias de mim. Por onde andas agora? E com quem?
Na noite em que nos despedimos, eu me lembrei de Drummond. Era ele que dizia que o presente é grande. “Não nos afastemos. Não nos afastemos muito. Vamos de mãos dadas.” Você sorriu e concordou. Afirmou que nenhum tempo, longo ou curto, nos afastaria. E aqui estamos. Aqui? Onde? É mais uma das questões diárias que corroem fígado e coração. Acho que o pulmão também. Dizem que é o órgão que somatiza a tristeza. Ou seriam os rins? Pouca diferença faz agora. Todos parecem derreter-se dentro de mim.
Não! Claro que não. Isso não faz parte do meu “tradicional drama mexicano usado para te convencer a ficar”. Foi o médico quem me revelou. Talvez por isso, eu esteja aqui, agora, em busca de ti. De mim. De nós. Por falar na frase, achei-a bastante cafona quando você falou pela primeira vez. “Deus, que homem é este que cria frases tão clichês?”, eu pensei. Era uma forma de parecer forte diante de minha fraqueza. Queria demonstrar um sentimento de pouco caso, que não existia. Meu desejo era que você ficasse. E, como todos os desejos, foi mais um frustrado.
Lembra-se da última noite? Rimos. Tomamos aquele vinho comprado em uma esquina estranha. Comemos queijo. Depois presunto. E, por fim, um sanduíche que me rendeu três dias de horríveis dores no estômago. Ou foi você quem as causou? Quando mordi o último pedaço, você anunciou que precisaria se afastar por uns tempos. Eu, que lia a vida nas entrelinhas, entendi o seu recado. Seria uma loucura continuar te esperando.
Mas, como sempre fui dada a loucuras, aqui estou. Persisto em uma ideia vã como uma forma de morrer lentamente. Dia a dia. Quanto tempo faz? Dez? Quinze? Vinte anos? Um dia? Eu te expliquei que perdi a noção do tempo. Mas ainda me lembro do seu perfume. Do seu sorriso por vezes cafajeste. Do carinho que me acompanha enquanto escrevo estas frases. Como outras tantas que já rabisquei em papéis perdidos. 
Daqui, longe ou perto, desejo que estejas bem. Saudável. Com todos os seus planos em andamento. Aquelas loucuras das quais você falava sempre, sem cessar. Em intermináveis quase monólogos. 
Agora, peço-te licença, meu caro. O tempo – ah, o tempo – passa mais rápido quando menos precisamos. Tenho que guardar esta carta, centésima ou milésima, à espera de um homem que, insistentemente, baterá à porta para levá-la a lugar algum.
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Ritual
16/02/2017 | 16h56
Pinterest
/ Pinterest
Olhou-se no espelho. Havia manchas em sua superfície. Tentou tirá-las com álcool e um pano velho. Esfregou todos os cantos, mas, dali, elas não saíam. Continuou a observar seus movimentos no reflexo. Seriam dela ou do objeto aqueles resquícios de sujeira? Os olhos negros pareciam cansados. Concentrou-se em seus traços. Não era mais uma menina.
— O tempo passa. E não há como fugir dele.
Parou. Seu corpo foi percorrido por uma sensação de frio. Estava arrepiada. De onde vinha aquela voz? Uma estranha conhecida. Olhou ao redor. Estava sozinha.
— Está na hora de olhar para frente e se encarar. Acha que poderá se esconder de si mesma pelo resto da vida?
Continuava a sentir frio. Dizem que a solidão e o medo causam essa sensação. Fechou os olhos.
— Olhe para mim, Diana. Para você mesma.
Abriu-os vagarosamente. Estava diante de si. Pela primeira vez em muitos anos.
— Isso. Exatamente desta forma. É assim que tem que ser.
Essa era a sua voz. Era estranha. Carregava uma ponta de malícia a cada frase formulada. “Você é cruel na forma de falar, Diana”, dissera, há mais tempo do que poderia supor, sua mãe, durante uma briga. E ela rira. Gargalhara com a cara de pavor da mulher. A graça se perdeu em alguma esquina. Agora, só tinha a si mesma naquele lugar. Parecia sufocante, apertado, fétido.
— Não entendo. Não sei como, mas te ouço, embora você diga coisas que eu não diria.
— A diferença está na coragem. E no meu poder de comando, maior que o seu. Achou que nunca fosse ser necessário olhar para dentro de você? Sei que nunca soube o que encontraria. E isso te assusta.
— Assusta.
A mulher parecia uma criança, paralisada pelo medo. Tentava imaginar maneiras de escapar daquele encontro inesperado. Não era o momento. Em duas horas, estaria no salão para se preparar para o chá na casa de Antônia. À noite, tomaria vinho com Luís Carlos. Depois, retornaria para casa e dormiria. Precisava estar disposta para cumprir a agenda do dia seguinte.
— Não, não, minha cara. Desta vez, só desta, não terá como desaparecer da minha frente. A consciência nos chama ao dever, Diana. Há quanto tempo não faz o exercício de prestar atenção ao que a sua te diz?
A mulher do espelho era sádica.
— Não, Diana. Eu não sou sádica. Sou somente a sua imagem. Está me reconhecendo? — e riu.
— Para de comentar sobre o que não pergunto. Só responda quando ouvir o som de minha voz.
— Como poderia? Mesmo em silêncio, ouço seu som. E continuarei a ponderar sobre o que achar necessário.
Encararam-se. Ambas seguravam o pano. Diana conservava uma expressão de terror infantil. A outra sorria ironicamente.
— Isso é imaginação. Maluquice. Estou ficando muito tempo sozinha — disse, afastando-se do espelho. Deu dois passos e ficou parada. Não conseguia. Uma parte dela sabia que precisava retornar e ouvir.
— Volte, claro. Querida, sabe que é importante este encontro. Afinal, o que seria de você se não restasse o pouco de humanidade que a faz me escutar?
Refez o caminho e parou em frente à mulher, que sorria de modo indecifrável.
— O que quer?
— O que pensa que eu quero?
— Se soubesse, eu não estaria perguntando a você.
— Se eu sei, você sabe. Eu vivo dentro de você, Diana. Nas verdades que você deseja esconder; nos atos que quer disfarçar; nos ruídos silenciosos que percorrem o seu interior quando busca válvulas de escape. Ou você acha que a vida se resume a cafés, chás, comidas e selfies que contam os dias rasos que tem vivido?
Luz e escuridão; alegria e tristeza; profundidade e superfície; amor e ódio; Yin-Yang. Forças opostas e seu equilíbrio que organizam o mundo. Sabia tantas coisas. Estudou sobre diversos temas. Debateu, escreveu. Teorizou. Mas esquecera tudo em troca de uma vida artificial.
— Não disse que você sabia, Diana?
— O que quer?
— Outra vez a mesma pergunta? Parece ter ficado repetitiva com o passar dos anos. Ou quer apenas ouvir o que sabe que não escutará?
— Tenho o direito de optar pelo meu modo de vida sem que ninguém interfira.
— Ninguém? Nem mesmo você, que oculta as insatisfações em taças de vinho? Vê essas manchas entre nós? Tentou limpá-las. Percebeu que não estão na superfície do espelho?
Diana esfregou o pano em seu próprio rosto.
— Não adianta. Estás marcada. Elas estão por baixo, além, dentro de ti, querida. São todos os dias mal vividos. Todas as fugas para não encarar a realidade. Todas as horas desperdiçadas em passeios vãos que não preencheram seus vazios. Diga-me, Diana, se sente acolhida? Aquecida? Amada?
Novamente, o frio.
— Não.
O celular tocou. Era Antônia. Sempre ligava para confirmar as idas aos eventos promovidos em sua casa. Observou. Segurou-o até que a colega desligasse. Ela tentou novamente. Mais uma, duas, três vezes. Desistiu.
— É assim, Diana. As pessoas desistem da gente quando mais precisamos. Já percebeu isso? Ou sua opção por não pensar sobre a vida fez com que deixasse passar esse detalhe?
— O que quer de mim? Por que essa tortura? Sabe que foi isso que me restou. É isso que, hoje, sou. É assim que devo morrer em poucos ou muitos dias.
— Na verdade, minha cara, você morre todos os dias. Eu te vejo fria, rígida. Dura. Com sorrisos insinceros. Palavras levianas. Em discussões que em nada lhe agradam. Viu como a morte caminha a seu lado? Ela é a sua sombra.
Apertou, com toda a força, a garrafa de álcool e lançou-a no espelho. Pedaços do vidro voaram em sua direção. Sentiu arder partes do corpo. Caminhou para o banheiro. Tomou um banho demorado, lutando para afastar de seus pensamentos os momentos recentes.
Vestiu-se com a roupa mais bonita. Pegou o celular e a bolsa e saiu para encontrar Antônia. Diria à amiga que recebeu uma visita desagradável enquanto estivessem tomando o chá e comendo os maravilhosos biscoitos oferecidos pela anfitriã. Depois, tomaria vinho com Luís Carlos e retornaria para casa e dormiria. Precisava estar disposta para cumprir a agenda do dia seguinte.
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Minutos
29/01/2017 | 10h33
A cama continuava bagunçada. O lençol branco, ainda quente e desarrumado, sinalizava a recente partida da mulher. As luzes fracas do ambiente iluminavam os rostos. Semblantes aflitos espalhados pelo quarto, sala e varanda. No portão, um carro com as portas traseiras abertas aguardava a saída de homens vestidos de branco. Eles carregariam os últimos momentos da vida enclausurada, que espiara entre grades e janelas, mas permanecera alheia ao mundo que transcorria fora de seu espaço.
Mais cedo, naquele mesmo dia, um sussurro antecipou a despedida. Quase inaudível. Ao redor, somente memórias preenchiam os seus dias vazios de sentido. As horas transcorriam sem que pudessem ser percebidas. O relógio mostrava o passar de minutos à medida que seu tempo era o retrocesso. Regresso a um passado de marcas e memórias. Elas dominavam o presente e serviam para alimentar o futuro.
Por muitos dias, a mulher se sentou em sua sala de visitas. A cadeira, posicionada entre móveis escuros que ditavam as cores da casa, permitia que ela visse as fotos. O passado em destaque. Marido, filhos, netos. Dali, contabilizava perdas. Ali, morria a cada dia. Enquanto se sentava para reverenciar os bons momentos, escondia o aperto em seu coração. Conduzia os outros, os poucos chegados, para que não tivessem muitas informações sobre o presente. Recebia-os. Enquanto conversava, observava os retratos. Sempre distante da realidade. Em sua cabeça, dialogava com todos os representados por fotografias. Para a idosa, eles eram sua verdadeira companhia.
A mão direita segurava o copo de café. Um prato de bolo estava posicionado sobre o seu colo. Usava um vestido preto. O barulho dos carros, que transitavam em alta velocidade pela rua onde morava, não era capaz de atingir seus ouvidos. Por eles, entravam apenas as músicas de bailes de Carnaval pelos quais passou com o marido. Com quem dançou e comemorou os anos, os filhos, a vida. Para quem se doou e por quem se tornou alheia as dores do mundo.
Concentrada, observava seu retrato. Sentia saudade. Tantos anos que partira, mas sempre parecia ontem. Há poucos minutos. Dizem que o tempo cura tudo. Mas, para ela, apenas exercera o poder de aquietar o coração para que aguardasse o fim de espaçados tic-tac-tic-tac-tic-tac.
Levou o copo à boca. O calor aqueceu seu corpo. Levantou-se, com certa dificuldade, e caminhou para a cama. Era uma tarde de sábado. Mais uma. Uma a mais. Só uma. O corpo cansado. Deitou-se. A cama não estava bagunçada. O lençol branco, frio e esticado, estava preparado para o momento do repouso. Fechou os olhos. Histórias em câmera lenta transmitidas em uma tela inalcançável. Seria capaz de reproduzir os diálogos se sua boca respeitasse a vontade. Tentou emitir sons. Precisava contar aos demais que sua vida ainda existia.
Seus dedos eram tocados por ele. Os sorrisos recíprocos. Ele retornara para ela. Agora, sem adiar mais um minuto, se levantaria para preparar o prato de alface e tomate com bife de que tanto gostava. Ou mingau.
As pernas bagunçavam a roupa de cama. Os movimentos não coordenados. Tentou se levantar. O peso sobre o peito. As mãos perto das dele. Os olhos pousados em seu corpo, que não se mexia em conformidade com os pensamentos.
As pernas agitadas.
Os pés frios.
O prato de salada.
O mingau.
Ele.
O peso no corpo.
Ele.
O sussurro.
Ele.
O suspiro.
Eles.
A cama bagunçada.
O lençol branco, quente e desarrumado.
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Monólogo do adeus
26/01/2017 | 15h20
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“E aqui estou eu que, ao contrário do que esperavam, não fiz tudo por você. Eu que, de maneira egoísta, me tranquei em minha jaula isolada do mundo para esconder a fera que poderia surgir em uma noite densa. Eu que deveria ceder o lugar a outro eu esperado por você. Incapaz de mover a mão para estender em momentos de aflição.
E, agora, não posso me perdoar por tudo o que não fiz e não disse. Pelas coisas que deixei passar. Pelo que deveria ter mostrado e demonstrado. Fracassei e tenho consciência disso. Perdi tempo com ideias mirabolantes e esdrúxulas para chamar a atenção do mundo. Hoje, vejo que deveria ter te dado atenção. Eu, centrado em minhas coisas, meus medos, meu mundo. Inapto a enxergar que quem me acompanhou também tinha suas necessidades. Estou habituado a respeitar as necessidades físicas e fisiológicas, mas não as emocionais. Não soube, em um mísero minuto, me esquecer e lembrar de você. Agora, velho e sozinho, sinto que não cumpri os meus deveres. Ser humano fracassado. Marido desinteressado. Pai displicente. Amigo egocêntrico. O tempo passou, e não enxerguei o que fazia com a minha vida”.
“Lembra-se da vez em que te disse para seguir sozinha? Você rebateu. Chamou-me de ridículo e ficou. Eu, no seu lugar, teria ido. E, agora, você foi. E não há volta. Não há negociação. Não há o amanhã em que tudo possa ser resolvido. Não existem palavras para consertar todo o estrago. Definhavas ao meu lado, e eu não a olhava. Gemias. Balbuciavas meu nome, e eu fingia não escutar por não saber te abraçar e mentir, dizendo que tudo ficaria bem. Não. E não vai ficar. Respondia às suas queixas com o meu silêncio. Quantas vezes me chamou de egocêntrico? Eu ria de ti e não compreendia. Achava-a exagerada e carente. Chata, por vezes. E isso quando eu parava para te escutar.
Por trás do muro que construí entre nós, apenas sabia que falavas sem parar, mas não me convinha ouvir-te. Suas lamúrias eram vãs. Hoje, teu silêncio eterno domina a casa, a vida e atingiu o muro. Ele não mais existe. Agora, estou desprotegido e solto entre pessoas que não conheço. Entre seres que não me olham, não falam, não sorriem, não se preocupam. Tornei-me invisível como sempre sonhei. Paradoxalmente, queria ser visto, ouvido, abraçado. Punido, censurado e, quiçá, agredido. Sei que era o seu sonho viver a normalidade que não te proporcionei. Notei que sou humano e não sei exercer a minha humanidade. Você me ajudaria nessa descoberta. A única capaz de me abrir os olhos. Lamento por ter enxergado tarde demais. Sessenta anos e a solidão pela frente. A despedida é sempre dolorosa. A incerteza sobre o fim é angustiante."
Enquanto ela era colocada em sua última morada, uma rosa caiu sobre a madeira. A esposa, mulher de palavras certeiras e coração aflito, esperou um gesto de carinho que nunca veio. Sentimento transfigurado em dor. Todas as frases presas em uma mente conturbada. Uma gota molhou a flor. Olhos ardendo e fechados. Não sabia o que acontecia com eles. Não conseguia controlar as sensações involuntárias. Era insuportável o parto da primeira lágrima.
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Feliz ano velho
21/01/2017 | 11h37
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Cinco de janeiro de dois mil e dezessete. Quinto dia de um ano novo para o qual pessoas reuniram esperanças de vivenciar experiências melhores e mais positivas. Vontade de mudar a realidade e encontrar caminhos que as afastassem dos últimos doze meses. Estes entraram para a lista de alguns dos piores da história do Brasil e do mundo. Mas o quinto dia do novo ano amanheceu com ares de um retrocesso que caracterizou 2016.
Os jornais e o Facebook estamparam a foto de um bebê de 16 meses, chamado Mohammed Shohayet, que não conseguiu sobreviver a um naufrágio durante a fuga de Myanmar (ou Birmânia) para Bangladesh. Ele e seus familiares tentavam escapar da perseguição étnica. O corpo da criança, da etnia Rohingya (considerada pelo governo birmanês como grupo de imigrantes ilegais), foi fotografado à margem do rio Naf. Também morreram sua mãe, seu irmão (de três anos) e um tio. Somente o pai sobreviveu.
A foto de Mohammed, tragicamente, traz à lembrança a imagem de Aylan Kurdi, um garoto de três anos encontrado morto em situação semelhante. O corpo da criança foi fotografado em uma praia da Turquia, também após um naufrágio. Na época, o jornal Independent fez um alerta, veiculado em periódicos brasileiros: “se estas imagens com poder extraordinário de uma criança síria levada a uma praia não mudarem as atitudes da Europa com relação aos refugiados, o que mudará?” Passados quase dois anos, a mudança esperada permanece em sonho.
E, no Brasil, com cinco dias de 2017, a população engole mortes individuais e coletivas e cenas diárias de violências enquanto vê o início do desaparecimento da esperança em dias mais calmos e positivos, que foram pedidos na passagem do ano.
A melhor definição sobre os sentimentos gerados pelos primeiros cinco dias de 2017 foi feita, por meio de rede social, pela professora e jornalista Jacqueline Deolindo: “Que época triste vivemos... As notícias, que quase nunca comento, são tristes, e a vida de tanta gente é uma tristeza só. Não dá nem pra dizer ‘oi, tudo ótimo’. Dizer ‘tudo ótimo’ é quase um desrespeito a essas dores. Reconheço, agradecida, tudo de bom, todo conforto, toda alegria e liberdade, todas as conquistas da minha família, mas, vendo pela janela o mar de lama que afoga nossos iguais, aqui perto, lá longe, o que circula no fundo da minha alma é compaixão, tristeza e dúvida. Não tem como não sofrer junto com os outros homens nem deixar de pensar na espantosa natureza humana.””
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Marcas
21/01/2017 | 11h37
Não parece, mas tudo que estamos vivendo hoje se transformará em lembranças. Nostalgia. Memórias perdidas em gavetas. Em compartimentos bagunçados. Registros do ontem que formam o amanhã. Trechos de fases que trouxeram bons e maus momentos. Histórias nossas e nossas histórias dos outros. Em todas as partes, rostos, vozes, expressões. Faces. Abraços, sorrisos. Uma palavra que, talvez, ainda ecoe dentro de nós. Um toque. Os nossos traços perdidos por estradas.
Ali, à frente, o professor esbraveja com os alunos de não mais de 14 anos. Todos risonhos, enfadados com as palavras do homem. Estavam no espaço por obrigação. Consideravam-no tedioso. Mas ouviam. E riam das tentativas de ser engraçado. Ou das implicâncias com as meninas e os meninos. Encontravam diariamente novos aspectos ou expressões para risadas a mais.
Em uma manhã de aula, com todos dispersos, ele levantou os braços, estalou os dedos e chamou a atenção da garotada, que não se calava. Enfurecido, reclamou da desobediência e do descaso e bradou:
— Hello, 2007! — os dedos estalavam, e os alunos riam do repentino (quase) acesso de raiva do professor. A expressão virou um bordão entre os estudantes. Naquele momento, a menina, que se sentava constantemente na primeira cadeira, próxima ao quadro, também riu.
E aquela seria mais uma manhã de aula, em uma escola do centro da cidade, na qual permaneceu por quatro anos. Era mais um dia. Mais uma data imperceptível. Sem grandes marcas. Mas a vida assim se faz. Com dias supostamente irrelevantes.
Meses depois, ainda sentada nas cadeiras da frente das salas de aula, experimentou seu primeiro contato com a literatura. Um livro para ser o trabalho do bimestre. A professora de português teve a ideia, que a assustou inicialmente. “Quem vai querer ler o que eu escrevo? E o que vou escrever?” foram perguntas que passaram pela cabeça da adolescente perdida em falas e personagens. E se envergonhou ao entregar o resultado à professora.
Não imaginava, naquele período em que se dedicou ao trabalho, o que aquela memória significaria no futuro. O quanto um simples dia poderia determinar novos caminhos. Mas, na cabeça dela, eram somente mais uns dias. Mais datas imperceptíveis. Sem grandes marcas.
Sentada sob uma árvore, perto de um ponto de ônibus, ela observa o movimento de carros, motos e bicicletas. De diversas direções, é atingida: pelo asfalto, o calor; pelo céu, os raios de sol; pelas lembranças, as histórias que a levaram diretamente à pedra sob a árvore perto do ponto de ônibus. E a certeza de que este, por mais simples que pareça, será mais um momento na marca da memória.
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Os selos de Ruy Castro
21/01/2017 | 11h37
Adriana Lorete/O Globo
Heloísa Seixas classifica o romance como obra de quase-ficção / Adriana LoreteO Globo
No final no ano de 2014, a jornalista e escritora Heloísa Seixas, após reunir memória e ficção baseadas na vida do marido, Ruy Castro, lançou o livro “O Oitavo Selo”, da editora Cosac Naify. O título faz uma referência a um dos grandes cineastas do século XX, o sueco Ingmar Bergman, que levou às telas angústias e dúvidas existenciais com o filme “O Sétimo Selo” (1957), no qual um cavaleiro visa atrasar os planos da Morte por meio de um jogo de xadrez.
Cada selo da história de Ruy Castro se refere a uma parte do corpo do jornalista: sangue, nariz, fígado, língua, coração, sexo e cérebro. Os capítulos narram a proximidade do homem com a morte em sete diferentes ocasiões, tanto como personagem ou quanto protagonista. Os relatos mesclam a forte realidade aos delicados toques literários de Heloísa Seixas.
A narrativa é iniciada a partir das memórias de Heloísa Seixas, que retrata um fato da vida do casal em um hospital. Em sequência, são feitas construções do passado, rememorando a infância de Ruy Castro, fase em que já era possível notar o vínculo do jornalista com algo que permearia toda a sua vida: ficção, seja por meio da literatura ou do cinema.
A importância da escrita para o homem, como é tratado na história, é destacada por Heloísa como uma forma de ele se desvencilhar das dores e do temor da morte. Ela compreende o ato de produção ininterrupta como uma maneira de ele saber que deve permanecer vivo por ter trabalhos a concluir, principalmente no momento em que enfrenta um câncer e, paralelamente, escreve “Carmen: uma biografia”, sobre a artista portuguesa Carmen Miranda, lançada em 2005.
Assim como o cavaleiro do longa-metragem de Bergman, vivido pelo ator Max von Sydow, utiliza o tabuleiro de xadrez para adiar a morte, Castro joga com as palavras, na literatura e no jornalismo, para escapar do pânico gerado por ela. “O cavaleiro, então, tentando ganhar tempo, convida a Morte para um jogo de xadrez, que vai decidir se ele vai ou não com ela. A Morte concorda, sabendo que vai ganhar. Mas o cavaleiro joga porque não tem outro jeito. Ele precisa jogar. O jogo é a única possibilidade, mesmo que passageira, para driblar a Morte.”
As opções pela não-linearidade do quase romance, como classifica a própria autora, e por unir a escrita a depoimentos seus e do protagonista tornam a leitura fluida e passível de criar mentalmente, a partir dela, pequenas cenas, sem que o leitor se sinta confuso pela troca repentina de cenários, personagens e enredos.
Em “O Oitavo Selo”, a descrição é um dos elementos-chaves da obra de quase ficção. No entanto, predomina não a descrição de elementos que compõem o cenário, visando ambientar o leitor, e sim a de sentimentos e sensações, proporcionando ao receptor envolvimento pleno com a narrativa.
Escrever sobre memórias, sendo essas quase ou completamente reais, é uma das características da escritora que, em 2007, publicou “O lugar escuro – Uma história de senilidade e loucura”, pela editora Objetiva. No livro, Heloísa remonta o convívio com a mãe, debilitada pelo Mal de Alzheimer, sempre com zelo descritivo e linguagem envolvente, também marcantes em sua mais recente obra.
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Caso do Bar Bodega: os deslizes do jornalismo
21/01/2017 | 11h37
Diariamente, fatos relacionados a crimes são amplamente noticiados em veículos de comunicação, sejam televisivos, radiofônicos, impressos ou online. Grande parte das matérias se refere à editoria de polícia, conforme intitulam os jornalistas. No entanto, apesar da suposta facilidade na apuração desse tipo de notícia, muitos erros (que deveriam ser punidos devido à extensão do prejuízo) dos jornais brasileiros podem ser encontrados nessas histórias, nas quais bandidos e policiais são as principais atrações.
A ausência de apuração mais cuidadosa e aprofundada, vinculada ao pouco tempo dedicado a cada pauta, leva a imprensa a falhas grotescas e, muitas vezes, irreversíveis para as vítimas do “quarto poder”. Livros de jornalistas que se entregaram a um exercício de distanciamento para análise mais imparcial sobre a profissão possibilitam às novas gerações o conhecimento acerca das leviandades cometidas outrora.
Um dos repórteres que trabalhou para reverter crimes de informação cometidos pela imprensa é Carlos Dorneles. Jornalista da TV Globo, Dorneles dedicou-se a buscar os fatos sobre o crime do Bar Bodega, em São Paulo, na década de 90. O autor do livro Bar Bodega – um crime de imprensa, lançado em 2007, revirou os materiais jornalísticos produzidos e publicados na época, teve acesso aos inquéritos e apresentou aos brasileiros a verdadeira história da noite em que foram assassinados dois jovens de classe média no estabelecimento, que pertencia aos atores Luiz Gustavo, Cássio e Tato Gabus Mendes.
Na época, a Polícia Civil do Estado de São Paulo acusou erroneamente um menor de idade, chamado Cléverson, de ser o líder do bando que matou um dentista e uma estudante no bar. Após roubarem, os cinco bandidos (incluindo uma mulher, responsável por dar cobertura dentro de um táxi dirigido por ela) fugiram. Antes da partida, no entanto, um deles se envolveu em uma discussão com o dentista, de 26 anos, e o agrediu e matou. Do lado de fora do Bodega, outro assaltante atirou em direção à janela. A bala atingiu a estudante de odontologia, de 23 anos.
A classe média paulistana e a imprensa, revoltadas com o crime, fizeram pressão na polícia para que o caso fosse imediatamente solucionado. Diante da dificuldade de encontrar os assaltantes, agentes incriminaram o adolescente Cléverson que, à época, tinha 17 anos. Ele havia sido apreendido por assalto, dias depois do caso Bodega, e foi confundido por um policial. O menor, ao afirmar que não conhecia o bar e não sabia das mortes, foi brutalmente agredido e torturado pelos militares e civis, sedentos pela confissão do suposto assassino.
À medida que era violentado, Cléverson citou nomes de colegas e conhecidos do bairro onde morava, em São Paulo. Valmir da Silva, Valmir Martins, Luciano, Natal, Jailson, Benedito, Marcelo Nunes e Marcelo da Silva foram detidos após terem sido apontados pelo adolescente. No entanto, nenhum dos jovens tinha participação no crime do Bar Bodega. Enquanto os meninos tentavam se defender, eram cruelmente torturados pela polícia, que coagia o grupo a dar detalhes do caso.
A cada novidade, a imprensa, acrítica e despreparada para noticiar o caso, comparecia em massa para apresentar, posteriormente, à sociedade o resultado das investigações da polícia. Com manchetes sensacionalistas, matérias televisivas e radiofônicas exageradas, aliadas a perguntas para pressionar os detidos e apoio ao ideologicamente frágil movimento Reage São Paulo, o jornalismo brasileiro cometeu um dos mais grotescos erros registrados na história recente da imprensa: acusou, sem provas concretas, e com base apenas na versão da polícia, nove pessoas inocentes, cujas vidas foram seriamente prejudicadas pela cobertura midiática equivocada.
Após a reviravolta do caso, provocada pelo promotor Eduardo Araújo da Silva, o desfecho do caso do Bar Bodega foi mudado. Os verdadeiros assaltantes foram presos e os registros da imprensa, encerrados. No entanto, as consequências da acusação, causadas principalmente pelo jornalismo, foram imutáveis. Situação semelhante ocorreu no caso Escola Base, também nos anos 90, no qual pais de alunos, o motorista de uma Kombi, donos de um colégio infantil e uma sócia, todos de São Paulo, foram erroneamente acusados de abuso sexual – erro este reforçado pela imprensa do país.
Carlos Dorneles volta a buscar os meninos apontados como assassinos depois de 10 anos do fim das investigações. Os relatos resultaram na segunda parte de Bar Bodega – um crime de imprensa. Falta de oportunidades, discriminação, dificuldade financeira devido ao preconceito e as mudanças causadas na família devido à sucessão de erros da polícia de São Paulo e da imprensa são apresentadas no livro.
Apesar de bons elementos para ampliar as histórias dos nove suspeitos, o jornalista perdeu a chance de uma abordagem mais profunda da situação em que viviam os homens no ano de 2006. Apenas a vida do protagonista Cléverson é detalhada no trecho, tornando secundários os demais dramas vividos pelos outros oito rapazes e deixando soltos importantes detalhes que poderiam compor a maior obra jornalística sobre o crime cometido pela imprensa e pela polícia no caso do Bar Bodega.
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Filme com roteiro inédito de Bergman será lançado em 2018
21/01/2017 | 11h37
Ingmar Bergman 1965 Regissör chef för Dramaten Stockholm 
Após nove anos da morte do diretor Ingmar Bergman (“O sétimo selo”, “Gritos e sussurros”. “Persona”, “Sonata de Outono”), um roteiro inédito do sueco foi encontrado e será filmado pela cineasta Suzanne Osten, artista que se opunha às ideias do conterrâneo. A informação em primeira mão foi divulgada pelo jornal “Dagens Nyheter”.
O script resultaria em um projeto, não realizado, de Bergman, do italiano Federico Fellini e do japonês Akira Kurosawa, diretores mortos na década de 90. “Sessenta e quatro minutos com Rebecka” foi escrito no final dos anos 60. O roteiro foi guardado no início dos anos 2000, quando Bergman doou sua coleção a uma fundação que cuida de sua obra. Inicialmente, a história estreará como peça de rádio, em novembro.
A previsão de lançamento do filme é 2018, ano do centenário de Bergman.  
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