Meio dia
04/08/2017 | 14h09
Paula Vigneron
Mãos e pernas balançam pelas ruas horas após o amanhecer. Os olhos acompanham ritmos distintos. Pessoas mergulhadas em pensamentos. Uma mulher passa na calçada, calada e séria. Caminha enquanto coça o rosto. Não se perturba com os carros correndo. Mais à frente, policiais em uma viatura se alternam entre distrações e patrulhamentos.
Minutos antes, na esquina, um homem, em sua cadeira de rodas, observava os transeuntes. Ao avistar outro, alto e forte, brinca: “você é grande, mas não é dois”. A seriedade é quebrada momentaneamente pela sagaz ousadia do rapaz. Risadas provêm dele e de quem ouve a brincadeira. A normalidade volta à cena em seguida.
Os assuntos são permeados pelas pautas jornalísticas. Política tem sido alvo de debates vãos. Ninguém se entende. Ninguém entende. Todos respiram apatia. Servidores públicos reunidos na sede de uma universidade estadual lamentam os descasos do governo. “O Estado, hoje, instituiu a escravidão”, afirmou uma trabalhadora. Há tempos, passa por dificuldade junto aos seus parceiros de profissão. Lutam para serem ouvidos enquanto se organizam para a distribuição de cestas básicas que auxiliam colegas desamparados pelo poder público.
A despeito deles, à beira de uma rodovia que corta o município, outros trabalhadores prosseguem em seus papéis. Varrem, cuidam de jardins e plantas e, vez ou outra, param para analisar veículos e rostos em movimento e enxugam as primeiras gotas de suor e traços de desânimo. Todos parecem cansados.
O trânsito conturbado. O rádio saudando os ouvintes. Pedestres atravessando as ruas, com seus cigarros, celulares e sono. Conversas paralelas. Um idoso, seguro com sua bengala, conta causos a um rapaz uniformizado. Um cachorro preto caminha, calmamente, entre pequenos e grandes veículos na descida de uma ponte. Velocidades reduzidas para aguardar o passante.
Entre cobranças e desgastes cotidianos, pouca ou nenhuma compreensão; entre casas, carros, motos, homens, mulheres e crianças, os semblantes perdidos; entre medos e dúvidas; nós. E nós? Pelos alto-falantes, ecoam as vozes de Milton e Elis, respostas e lembretes à consciência: “nem vá dormir como pedra e esquecer o que foi feito de nós”.
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Branco e preto
31/07/2017 | 13h32
Mas mantinha-o no mesmo lugar, com o mesmo retrato em branco e preto
Mas mantinha-o no mesmo lugar, com o mesmo retrato em branco e preto / pixabay
— Pai Nosso que estais no céu...
— Não adianta — respondeu a voz que o perseguia há noites. Guia de seus dias.
— Santificado seja o Vosso nome — as mãos cruzadas em frente ao peito; os joelhos marcados pelos cortes do piso.
— Estou dizendo: não adianta. Não insista — falou, em tom mais grosseiro, o homem sem rosto.
— Venha a nós o Vosso reino.
— Não será feita a Sua vontade. Você sabe, rapaz. Eu te disse. Não tem por que insistir.
— Seja feita a Vossa vontade — pequenas gotas de suor escorriam pela testa enrugada de tensão.
— Sente-se aqui, na sua cama, ao meu lado.
Cortou a oração. Olhou para trás, onde estava localizado o móvel. Vazio. “Estou enlouquecendo. Esse é o preço?”
Mãos à frente do corpo. Concentrou-se. Agora, estava perdida a oração. Precisava recomeçar.
— Pai Nosso que estais no céu...
Aguardou a interferência. Dez segundos de silêncio.
— Santificado seja o Vosso nome...
— Venha a nós o Vosso reino.
Parou novamente. Respirou fundo. Será que é isso que chamam de consciência? Aquela coisa independente que está dentro de você e julga todos os seus atos-erros-acertos-desistências-bingo! Deve ser. Ou o princípio da loucura inevitável.
— Seja feita a...
— ...Vossa vontade. Assim na Terra como no céu. O pão nosso de cada dia, nos dai hoje...
— Pelo amor de Deus, cale essa boca — soltou as mãos. Ergueu-se. Os joelhos latejavam. Estava incomodado. Nunca fora dado a orações. Na hora em que sente a necessidade de buscar respostas, ou sopros divinos transformados em calmaria, se depara com algo. Alguém. Uma voz sem fisionomia dizendo-o que não vai adiantar. O discurso vinha sendo repetido há dias. Olhou ao redor. Não havia ninguém no ambiente.
O quarto estava vazio, exceto pela sua presença. A casa também. Há tempos, não sabia o que era receber visitas; pessoas interessadas em vê-lo, ouvi-lo e rir de suas tentativas de piadas. Passava as noites dialogando com televisão e redes sociais. Rindo de idiotices extremas que não faziam o menor sentido, mas preenchiam sua vida de sentido. Qual seria o sentido disso tudo?
Em pé, com as mãos soltas ao lado do corpo, encarou as paredes. Precisava tentar novamente.
— Pai Nosso que estais no céu...
— Quer que eu continue? Ou você prossegue e se decepciona com o resultado?
Rodou ao redor de seu corpo. Continuava procurando a origem daquela voz. Ouvia-a claramente, mas não conseguia saber de onde vinha o som. Soava abafado. De repente, parecia vir de dentro das paredes. Quem poderia estar escondido ali? Dirigiu-se para trás da cama. Tateou os quadros pendurados. Uma risada incômoda tomou todo o quarto. Estava nitidamente sendo ridículo.
— Isso mesmo. Ridículo.
— Mas como sabe? Eu não falei a palavra “ridículo” em momento nenhum.
— Certas coisas não precisam ser faladas.
— Pai Nosso que estais no céu...
— Santificado seja o Vosso nome — complementou.
— Você vai continuar finalizando a minha oração?
— Acho que sim. Você sabe finalizá-la sem depender de mim?
— Mas não sei nem quem é você.
— Vamos continuar, então: Venha a nós o Vosso reino. Seja feita a Vossa vontade, assim na Terra como no céu. O pão nosso de cada dia, nos dai hoje. Prossiga.
— Perdoai as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido.
Parou por uns minutos, encarando o chão. Estava manchado. Sentiu afinidade e desligou-se da oração. Olhou em direção à mesa de cabeceira. Ali, continuava o porta-retrato. O vidro conservava as rachaduras do dia em que ele foi lançado contra a parede. Mas mantinha-o no lugar de origem, com o mesmo retrato em branco e preto.
— É sintomático você esquecer o “Pai Nosso” justamente no momento em que pediria para que Ele não te deixe cair em tentação. Será que conseguirá? — uma gargalhada ecoou pelo ambiente. Sem perceber, ele se dirigiu até a mesa em uma súbita mudança de intenções. Segurou o porta-retrato e, mais uma vez, repetiu a cena: lançou-o contra a parede. Desta vez, o objeto ficou completamente destruído.
Abismado com a ação, correu, entre risadas alheias, em direção ao quadro. Resgatou o retrato. O mesmo sorriso, não destruído pelo tempo e suas reviravoltas. O olhar penetrante. Intrigante. Em branco e preto. Chutou os cacos. Caminhou e colocou a fotografia sob os travesseiros. O silêncio novamente dominou o quarto. “Não nos deixeis cair em tentação. Mas livrai-nos de todo o mal. Amém.”
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Julho, 19
12/07/2017 | 08h49
pixabay
Sempre fui considerado o mau elemento. Todas as mães de todos os colegas de todas as origens rechaçavam a minha presença em suas casas. Doía. Junto a mim, crescia a revolta. Mesmo nos meus bons momentos, havia o olhar de desconfiança.
Aos 11 anos, gritei. Pela primeira vez, reuni todo o fôlego possível e pus para fora, sem dó nem piedade. E olhei nos olhos dos três homens que estavam parados na minha direção. “Vocês são uns merdas”. Onze anos. Em troca, recebi um tapa na cara. Meu pai desferiu o golpe. Doeu menos do que a rejeição. Meus irmãos riram. Mais velhos. Mais sarcásticos. Mais duros.
Aos 14, eu os mandei para as putas que os haviam parido. Outro tapa. Mais forte. A dor foi equivalente ao desejo de me vingar. Minha mãe, acuada, me olhava com lágrimas nos olhos. O que me restava de bom, eu devia a ela. Mas era pouco. Desgastava-se dia a dia, em uma velocidade diretamente proporcional à sensação de perda que carregava comigo.
Dezessete. Cheguei à minha casa e flagrei meu pai batendo em minha mãe. Seus outros dois filhos não moravam mais conosco. A mulher que, com seu jeito reservado e medroso, deu os dias por mim. Sentia o gosto do sangue em minha boca. A saliva estava impregnada de rancor. Nunca mais permitiria isso. Quem ele pensava que era? Um homem que em nada auxiliou os filhos. Fui à rua. Quis experimentar drogas e bebidas como se fosse o último dia.
E era. Mudanças começaram dentro de mim. Não tinha mais condições de ser menino. Precisava ser homem.
Com 19 anos, andava pelas ruas do meu bairro. Sentia-me perdido. Reconhecer isso era ruim. Perigoso. Como se mais nada me restasse nesse mundo. Após passar em frente a um bar, ouvi um grupo cantando “parabéns para você, nesta data querida”, enquanto olhava em minha direção. Dezenove de julho. Agora, 20 anos. Não conseguia receber carinho. Não me reconhecia. Não sentia o dia como meu. Agradeci e corri.
Corri feito uma criança que se perde dos pais em um supermercado lotado. Eu me perdi. Em ruas vazias. À espera do que não podia nomear. Vinte amargos anos. Será que minha mãe se lembraria da data? Uma ponta de alegria sorriu em meu peito. Novamente, corri para casa. Quem sabe nascia a possibilidade de momentos de paz?
Vinte anos. Poucos sorrisos. Experiências equivalentes a 40. E um menino pronto a receber um abraço. De aniversário. De amor. Ou só de consolo.
Abri a porta. Minha mãe chorava sobre o bolo. Tinha marcas no rosto. “Fazer festinha para vagabundo? Sabe por que você fez? Porque também é uma vagabunda!” Todo o peso da mão de meu pai caia no rosto dela. Não reagia. Sem ação. Morta por dentro.
Não me lembro dos detalhes. Bati a porta. Me lancei sobre ele. Ficou desacordado. O sangue inundou a sala. Os gritos dela. Em choque. Homens fardados entraram. Olharam a cena. Aos pés dele, o filho atormentado. Mãos marcadas. Não havia dúvidas.
“Não precisava ter terminado assim. Uma tragédia. Dor sem fim, meu filho. Meu menino.” Ela repetia as mesmas frases em todas as visitas, desde então. Perturbava-me. Não entendia. Nunca entendi. Vinte anos. Mais dois confinado entre homens, ratos, mijos e o mantra de minha mãe. Todas as noites, no embalo do meu sono, rolam as lágrimas dela.
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Cenas de um crime
05/06/2017 | 15h56
Meninos observam a cena do crime
Meninos observam a cena do crime / Paulo Pinheiro
Início de segunda-feira. Dia 5 de junho de 2017. Na comunidade Sapo I, em Campos, os moradores se agrupavam na porta de uma casa onde uma adolescente foi morta a tiros na madrugada. Três disparos: dois no rosto — um com entrada e saída e outro alojado na face — e um na mão, no momento em que a menina, de 15 anos, tentou se defender.
Na rua, poucas pessoas falavam sobre a história. Uns comentavam possíveis fatos relacionados à vida da família. Outros olhavam a imprensa, com expressão de medo e desafio. Crianças se espalhavam pelas calçadas. Brincando, rindo, correndo. Um celular tocava funk, contrapondo-se ao clima pós-assassinato. Meninos conversavam. Um deles portava um grande pedaço de madeira, que se tornou um cajado durante as brincadeiras.
Foram contabilizadas 30 crianças. Adultos andavam ao redor delas. Dentro da casa, permanecia o corpo. Na sala. No chão. O crime aconteceu na madrugada. Os familiares não falaram sobre o caso. Apenas um irmão transitava pelas calçadas, ora conversando com policiais, ora em silêncio. Horas depois do fato, a mãe da adolescente apareceu no local. Ela passava pelas pessoas enquanto repetia, entre lágrimas, “minha filha, minha filha. Cadê a minha filha? Eu quero a minha filha”.
Desde as 7h, policiais se revezavam na cena do crime. As equipes de reportagem chegaram aproximadamente uma hora depois. Todos esperavam o desfecho da primeira parte do caso. No final da manhã, peritos fizeram uma análise prévia. No momento da retirada do corpo da adolescente, um rapaz, também menor de idade, fumava, encostado a um muro em frente à casa da garota.
Com cabelo parcialmente raspado, reflexos louros e uma tatuagem no pescoço, ele observava a movimentação. Os militares que atuavam na ocorrência foram em direção ao adolescente. Detiveram-no. Questionaram o menino. Havia suspeita de sua participação no crime. Ao redor, os moradores gritavam contra a ação. Era absurda. Não tinha por que levá-lo. Ameaçaram. Houve discussão e irritação dos dois lados.
O menino, que assistia a tudo calado, mantinha o olhar duro. Rígido. Sua expressão não mudou. Não demonstrou reações. Não contestou o ato dos policiais. Não falou. Nem tentou se defender. Continuava em sua observação silenciosa, analisando os detalhes da cena de um crime possivelmente conhecido enquanto se livrava dos últimos tragos de um cigarro.
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Descuidos
02/06/2017 | 08h58
Por mais um milésimo de segundo descuidado, percebi um toque.
Por mais um milésimo de segundo descuidado, percebi um toque. / pixabay
Você estava aqui. Agora. Ao meu lado. Por um milésimo de segundo descuidado, senti sua respiração. E vi seus olhos, que olhavam os meus, fechados. Diferente. Seu brilho parecia intenso. Ora frio. Ora próximo. Ora distante. Ora, as horas se passavam sem que eu soubesse a exatidão do tempo. Da vida. De nós.
Por mais um milésimo de segundo descuidado, percebi um toque. O vento. Um sopro. Quente. Uma sensação que me envolvia de forma inesperada. Ora, quem poderia esperar? Uma aparição breve. Ali. Ao meu lado. Por descuidos, a gente tropeça na vida. E ela esbarra na gente.
Os olhos pousados sobre mim. Eu queria abrir e ver o que seria capaz de encontrar, mas os mantive cerrados. Outros milésimos de segundos descuidados poderiam esbarrar na minha vida de tropeços. O sonho. Um momento para procurar, em terreno seguro, os segundos de descuido e transformá-los em horas de paz.
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A dois
27/05/2017 | 13h42
As primeiras luzes da manhã entravam pelas frestas da janela. Eles dormiam enquanto amanhecia o dia nublado.
As primeiras luzes da manhã entravam pelas frestas da janela. Eles dormiam enquanto amanhecia o dia nublado. / pixabay
As primeiras luzes da manhã entravam pelas frestas da janela. Eles dormiam enquanto amanhecia o dia nublado. A mulher ajeitou-se. Pegou o edredom e jogou sobre si. Abriu os olhos. Observou o homem que estava ao seu lado, mergulhado em um sono profundo. Parecia não se incomodar com os movimentos e com a claridade, que tocava cada parte dos corpos e móveis do cômodo. Concentrou-se na respiração dele. Era como uma criança adormecida que não teme os perigos. Ela também não temia. Ele estava ali.
Lembrou-se da noite anterior. Tinham se encontrado em uma mesa de um desses bares cheios, barulhentos e, paradoxalmente, vazios. Entre risadas histéricas e discussões sobre os possíveis caminhos da humanidade. Entre goles de cerveja e doses de quaisquer outras bebidas usadas como válvulas de escape das realidades que esperavam as pessoas longe do conforto passageiro. Havia mais gente. Seguindo o ritmo da noite, debatiam sobre o que surgisse: política, cultura, tragédias cotidianas e vidas alheias.
O homem se mexeu levemente, afastando-a das lembranças. Voltou a analisá-lo. Era tão bonito ver o outro dormir. Estava entregue aos sonhos e, sem saber, à mulher que o olhava silenciosamente. Não queria que ele percebesse seus olhos concentrados no expirar-inspirar-expirar-inspirar gostosamente ritmado. Esticou a mão. Tocou o rosto dele. Acariciou cuidadosamente. Percebeu a serenidade em sua expressão. Esse era um daqueles momentos que faz um dia valer a pena. Que tornam mais suportáveis as horas ruins. Os dedos passearam por seus cabelos. Em uma conversa, havia dito que não gostava que mexessem neles. Mas, pensou, ele não vai se incomodar agora. Sorriu ao imaginar a indignação que o tomaria se soubesse que ela quebrou uma regra.
Eles se conheceram por acaso. Um daqueles encontros em que nada se ouve e pouco se fala. Tempos passaram. E, entre atalhos nos diferentes caminhos, novos trechos levaram-nos a um ponto em comum da estrada. Desta, seguiram em frente, lado a lado. Como podiam. Enquanto passeia pela pele dele, com toques suaves, recorda cada momento. Esbarros, tropeços. Discussões. Contradições. Debates. Conversas. Confrontos. Tentativas de contornar as desavenças. Sorrisos disfarçados. Mãos no rosto. Olhos que se comunicavam em silêncio. Predominância de sentimentos. Desuso da razão. O beijo inesperado em uma noite fria. Um eterno retorno a um mundo habitado somente por eles. Uma realidade particular.
“É a nossa forma de ser”, ele disse a ela, enquanto observava irritações causadas por motivos dos quais a mulher não conseguia se lembrar. Tudo parecia distante e compassado pelo som da respiração do homem. Teve vontade de acordá-lo. Sacudi-lo. Levar café da manhã. Fazer cócegas. Dar risadas. Mas optou por observá-lo. Não podia. Não agora. Estavam plenos na sonolência dupla. Não seria cruel de afastá-los de seus sonhos.
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Epitáfio
13/05/2017 | 02h36
No dia em que eu partir, não chore. Sorria! Permitirei apenas lágrimas vertidas entre risadas pelas lembranças inventadas de um dia de sol que não vivemos. Aquelas histórias, contadas por outros, sobre os momentos em que dividimos cervejas e memórias, vãs memórias, das horas passadas em lugares distantes. Perdidos entre árvores, músicas e beijos.
Não chore! Recorde-se das horas que não passei falando sobre nós. Os abraços nunca dados. Que permaneceram em sonhos contados às três da manhã, em uma noite fria de um domingo de maio. Se vier a angústia, apague-a com as palavras imaginadas. E, também, com as ditas. Creia-me. Não menti em nenhuma ocasião. Exceto quando neguei um sentimento. Ou uma verdade. Duas ou três mentiras entre tantas frases claras.
O som da voz. Por ora, ligue-se a ela. Em breve, meus tons sumirão no meio de outros que surgirão em seu caminho. Mas não deixe que eu parta com eles por toda a estranha eternidade. Não agora. Não já. Mantenha meu jeito de falar, o mexer dos lábios, em sua mente enquanto ainda me despeço dia a dia. É nossa fonte de união.
Quando vier a dor da ausência, sinta meu cheiro ao seu lado. Na cama. No travesseiro. Nas roupas jogadas no chão. Naquela toalha de banho velha que deixei sobre a cama. Toque meus livros e sinta os meus toques nos seus. Os dedos cansados que folhearam tantas páginas da vida. Há traços de minha fisionomia perdidos em seu rosto sombrio.
Não deixe que o tic-tac dos relógios te torne exausto. Ele será o barulho do meu silêncio. Você se lembra do quanto eu gostava de acompanhar os ponteiros? Olhe-os. Ali, estarei. Siga os meus passos em todos os cômodos. Em cada canto de nossos cantos, encontrará meu sorriso. Se procurar pela casa, restam os bilhetes que deixei naquela noite. E os que não deixei. Nem tudo precisa ser claramente dito. Você também me achará na escuridão.
Na solidão.
No apagar das luzes da cidade.
Das nossas luzes.
Das suas luzes.
E, quando elas sumirem vagarosamente, estarei ali, do outro lado, para te contar sobre um dia de sol que não vivemos. Para lembrar aquelas histórias, inventadas por outros, sobre os momentos em que dividimos cervejas e memórias das horas passadas em lugares distantes. Detalhar as horas que não passei falando sobre nós. Os abraços nunca dados. Os beijos perdidos entre árvores e músicas. E revertê-los em vidas quase vividas.
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Ação
02/05/2017 | 20h30
Via, nas vias, o rosto desejado
Via, nas vias, o rosto desejado
Turbilhões silenciosos invadem o espaço apertado. Gritos abafados ecoam através de portas, janelas, salas, quartos. Cozinhas e banheiros. Estendido sobre o sofá, ele. A inércia dominando os sentidos. Os sentimentos. Os dias. Caminhava, mentalmente, por todas as vielas que era capaz de encontrar. Andava. Pernoitava em penumbras.
Via, nas vias, o rosto desejado. Continuava a seguir. Mentalmente. Buscava para si o pronome pessoal reto que ambicionava. Ela. Para transformá-lo em possessivo. Sua. Quebrar laços, traços. Utilizar verbos a seu favor. Deixar. Ir. Partir. Ficar. Transmutar todos os pronomes retos, possessivos, demonstrativos e indefinidos em nós.
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Resquícios
05/04/2017 | 13h11
Pixabay
Montou em sua bicicleta e seguiu pelas ruas. Vias desertas. / Pixabay
Era pontual. Às sete da manhã, saía de casa. Traçava, em uma pequena caderneta, a rota pela qual passaria nas horas seguintes. Vestiu-se de forma meticulosa. Cueca. Meias. Calça. Blusa. Tênis. Analisou a imagem no espelho. Ajeitou os cabelos com os dedos. Nem se lembrava de onde havia deixado o pente que herdara de sua mãe.  
A bolsa estava jogada na cadeira da bagunça, perto de sua cama. Era onde ficavam os principais acessórios do dia. Sempre acomodava-os ali. Era mais fácil de encontrar todos os objetos dos quais precisaria. Pegou-a. Colocou-a sobre o ombro esquerdo. Estava vazia. Refez o trajeto. Encontrou a caneta. Traçou. Demoraria poucas horas para retornar à sua casa.
Abriu a porta da sala. Estava sol. Um dia mais quente do que esperava. Montou em sua bicicleta e seguiu pelas ruas. Vias desertas. Por trás dos muros, vidas vazias. Prosseguiu. A bolsa balançava enquanto ele andava sobre paralelepípedos. No chão, a característica sujeira de uma noite movimentada.
À medida que fazia o percurso, sentia um peso sobre o ombro esquerdo. Fora jovem e correra por aquele caminho. Mais adiante, havia beijado a primeira garota de sua vida. Aninha. Uma paixão adolescente que ainda acelerava o coração adulto. Agora, perto da esquina, em frente à escada que dava acesso ao hospital, revivia as despedidas. Pensou que poderia ter sido um homem melhor.
O peso sobre o ombro esquerdo aumentava.
Percorreu 100, 200, 300 metros. Um quilômetro entre recantos. Cantos outrora seus. A casa de Aninha. Continuava com as mesmas paredes brancas. Apertou os freios. Do outro lado da rua, via o quarto dela, no segundo andar. Estava fechado. Conseguia sentir, apesar da distância, o cheiro de mofo onde, antes, havia perfume, briga, amor, sabonete e sexo. As cortinas azuis combinavam com lençóis e fronhas de sua cama. Hoje, a janela conservava os vidros trincados.
Aumentava o peso sobre o ombro esquerdo.
Retomou o percurso. Sentiu o calor ao pedalar. Pensou no mar. Seria o final do trajeto. Antes, precisava redescobrir outros espaços. Ziguezagueou pelas tradicionais áreas. Supermercados. Bares. Uma casa onde havia funcionado um cinema alternativo. Os primeiros porres compartilhados com os amigos. Os segredos trocados. As juras de amor eterno. Tantas promessas sopradas ao vento. E, ainda ali, Aninha. O sorriso aberto ao saber das novidades. O cenho franzido denunciando a insatisfação.
Ajeitou a bolsa que pesava sobre o ombro esquerdo.
Poucos metros depois, lembrou-se do último encontro. A despedida dos amigos. Eles iriam para outras cidades. Uns foram aprovados em vestibulares. Outros conseguiram empregos. Um deles conheceu uma moça e queria se casar. Entre eles, Aninha. Havia sido classificada para uma vaga no curso de artes. “Não vá. Fique comigo”, pediu, como uma criança. “Não vou abandonar um sonho. Voltarei um dia. Me espere, querido. O tempo é um sopro.”
Doía, de forma contundente, o ombro esquerdo.
As lembranças gritavam. Ecoavam as vozes da memória. Eram agressivas com o homem que sobrevivia por meio delas. Encontrou o mar. As ondas tranquilizaram-no. O ombro pesado. Doído. Jogou a bolsa na areia. Livrou-se da calça. Blusa. Medos. Meias. Tristezas. Tênis. Culpas. Cueca. Diante do mar, despiu-se da saudade.
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Para ti
20/03/2017 | 19h58
Todos os dias, cometo este mesmo ritual. Um crime contra mim. Sento-me à mesa e traço, em minha cabeça, as primeiras palavras. Para te contar um pouco sobre as histórias. Tantas. Os detalhes perdidos de uma vida. Há quantos anos? Já não me lembro. Não há mais exatidão em mim. É como cortar os pulsos. Foi Fernando Sabino quem disse que esse era o primeiro passo para a escrita? Não sei. Ficamos mais confusos com o passar do tempo.
Por falar nele, vou te perguntar, pela centésima (ou milésima) vez: que fizeste do seu? Ah, o tempo. Queria saber os seus jeitos. Os trejeitos. Se a sua língua presa ainda destoa da voz grossa. Se os cabelos permanecem bagunçados. Ou se apenas permanecem. O que foi feito daquele anel que te dei como lembrança? Memórias de mim. Por onde andas agora? E com quem?
Na noite em que nos despedimos, eu me lembrei de Drummond. Era ele que dizia que o presente é grande. “Não nos afastemos. Não nos afastemos muito. Vamos de mãos dadas.” Você sorriu e concordou. Afirmou que nenhum tempo, longo ou curto, nos afastaria. E aqui estamos. Aqui? Onde? É mais uma das questões diárias que corroem fígado e coração. Acho que o pulmão também. Dizem que é o órgão que somatiza a tristeza. Ou seriam os rins? Pouca diferença faz agora. Todos parecem derreter-se dentro de mim.
Não! Claro que não. Isso não faz parte do meu “tradicional drama mexicano usado para te convencer a ficar”. Foi o médico quem me revelou. Talvez por isso, eu esteja aqui, agora, em busca de ti. De mim. De nós. Por falar na frase, achei-a bastante cafona quando você falou pela primeira vez. “Deus, que homem é este que cria frases tão clichês?”, eu pensei. Era uma forma de parecer forte diante de minha fraqueza. Queria demonstrar um sentimento de pouco caso, que não existia. Meu desejo era que você ficasse. E, como todos os desejos, foi mais um frustrado.
Lembra-se da última noite? Rimos. Tomamos aquele vinho comprado em uma esquina estranha. Comemos queijo. Depois presunto. E, por fim, um sanduíche que me rendeu três dias de horríveis dores no estômago. Ou foi você quem as causou? Quando mordi o último pedaço, você anunciou que precisaria se afastar por uns tempos. Eu, que lia a vida nas entrelinhas, entendi o seu recado. Seria uma loucura continuar te esperando.
Mas, como sempre fui dada a loucuras, aqui estou. Persisto em uma ideia vã como uma forma de morrer lentamente. Dia a dia. Quanto tempo faz? Dez? Quinze? Vinte anos? Um dia? Eu te expliquei que perdi a noção do tempo. Mas ainda me lembro do seu perfume. Do seu sorriso por vezes cafajeste. Do carinho que me acompanha enquanto escrevo estas frases. Como outras tantas que já rabisquei em papéis perdidos. 
Daqui, longe ou perto, desejo que estejas bem. Saudável. Com todos os seus planos em andamento. Aquelas loucuras das quais você falava sempre, sem cessar. Em intermináveis quase monólogos. 
Agora, peço-te licença, meu caro. O tempo – ah, o tempo – passa mais rápido quando menos precisamos. Tenho que guardar esta carta, centésima ou milésima, à espera de um homem que, insistentemente, baterá à porta para levá-la a lugar algum.
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