A dois
26/05/2017 | 13h57
As primeiras luzes da manhã entravam pelas frestas da janela. Eles dormiam enquanto amanhecia o dia nublado.
As primeiras luzes da manhã entravam pelas frestas da janela. Eles dormiam enquanto amanhecia o dia nublado. / pixabay
As primeiras luzes da manhã entravam pelas frestas da janela. Eles dormiam enquanto amanhecia o dia nublado. A mulher ajeitou-se. Pegou o edredom e jogou sobre si. Abriu os olhos. Observou o homem que estava ao seu lado, mergulhado em um sono profundo. Parecia não se incomodar com os movimentos e com a claridade, que tocava cada parte dos corpos e móveis do cômodo. Concentrou-se na respiração dele. Era como uma criança adormecida que não teme os perigos. Ela também não temia. Ele estava ali.
Lembrou-se da noite anterior. Tinham se encontrado em uma mesa de um desses bares cheios, barulhentos e, paradoxalmente, vazios. Entre risadas histéricas e discussões sobre os possíveis caminhos da humanidade. Entre goles de cerveja e doses de quaisquer outras bebidas usadas como válvulas de escape das realidades que esperavam as pessoas longe do conforto passageiro. Havia mais gente. Seguindo o ritmo da noite, debatiam sobre o que surgisse: política, cultura, tragédias cotidianas e vidas alheias.
O homem se mexeu levemente, afastando-a das lembranças. Voltou a analisá-lo. Era tão bonito ver o outro dormir. Estava entregue aos sonhos e, sem saber, à mulher que o olhava silenciosamente. Não queria que ele percebesse seus olhos concentrados no expirar-inspirar-expirar-inspirar gostosamente ritmado. Esticou a mão. Tocou o rosto dele. Acariciou cuidadosamente. Percebeu a serenidade em sua expressão. Esse era um daqueles momentos que faz um dia valer a pena. Que tornam mais suportáveis as horas ruins. Os dedos passearam por seus cabelos. Em uma conversa, havia dito que não gostava que mexessem neles. Mas, pensou, ele não vai se incomodar agora. Sorriu ao imaginar a indignação que o tomaria se soubesse que ela quebrou uma regra.
Eles se conheceram por acaso. Um daqueles encontros em que nada se ouve e pouco se fala. Tempos passaram. E, entre atalhos nos diferentes caminhos, novos trechos levaram-nos a um ponto em comum da estrada. Desta, seguiram em frente, lado a lado. Como podiam. Enquanto passeia pela pele dele, com toques suaves, recorda cada momento. Esbarros, tropeços. Discussões. Contradições. Debates. Conversas. Confrontos. Tentativas de contornar as desavenças. Sorrisos disfarçados. Mãos no rosto. Olhos que se comunicavam em silêncio. Predominância de sentimentos. Desuso da razão. O beijo inesperado em uma noite fria. Um eterno retorno a um mundo habitado somente por eles. Uma realidade particular.
“É a nossa forma de ser”, ele disse a ela, enquanto observava irritações causadas por motivos dos quais a mulher não conseguia se lembrar. Tudo parecia distante e compassado pelo som da respiração do homem. Teve vontade de acordá-lo. Sacudi-lo. Levar café da manhã. Fazer cócegas. Dar risadas. Mas optou por observá-lo. Não podia. Não agora. Estavam plenos na sonolência dupla. Não seria cruel de afastá-los de seus sonhos.
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Epitáfio
13/05/2017 | 02h32
No dia em que eu partir, não chore. Sorria! Permitirei apenas lágrimas vertidas entre risadas pelas lembranças inventadas de um dia de sol que não vivemos. Aquelas histórias, contadas por outros, sobre os momentos em que dividimos cervejas e memórias, vãs memórias, das horas passadas em lugares distantes. Perdidos entre árvores, músicas e beijos.
Não chore! Recorde-se das horas que não passei falando sobre nós. Os abraços nunca dados. Que permaneceram em sonhos contados às três da manhã, em uma noite fria de um domingo de maio. Se vier a angústia, apague-a com as palavras imaginadas. E, também, com as ditas. Creia-me. Não menti em nenhuma ocasião. Exceto quando neguei um sentimento. Ou uma verdade. Duas ou três mentiras entre tantas frases claras.
O som da voz. Por ora, ligue-se a ela. Em breve, meus tons sumirão no meio de outros que surgirão em seu caminho. Mas não deixe que eu parta com eles por toda a estranha eternidade. Não agora. Não já. Mantenha meu jeito de falar, o mexer dos lábios, em sua mente enquanto ainda me despeço dia a dia. É nossa fonte de união.
Quando vier a dor da ausência, sinta meu cheiro ao seu lado. Na cama. No travesseiro. Nas roupas jogadas no chão. Naquela toalha de banho velha que deixei sobre a cama. Toque meus livros e sinta os meus toques nos seus. Os dedos cansados que folhearam tantas páginas da vida. Há traços de minha fisionomia perdidos em seu rosto sombrio.
Não deixe que o tic-tac dos relógios te torne exausto. Ele será o barulho do meu silêncio. Você se lembra do quanto eu gostava de acompanhar os ponteiros? Olhe-os. Ali, estarei. Siga os meus passos em todos os cômodos. Em cada canto de nossos cantos, encontrará meu sorriso. Se procurar pela casa, restam os bilhetes que deixei naquela noite. E os que não deixei. Nem tudo precisa ser claramente dito. Você também me achará na escuridão.
Na solidão.
No apagar das luzes da cidade.
Das nossas luzes.
Das suas luzes.
E, quando elas sumirem vagarosamente, estarei ali, do outro lado, para te contar sobre um dia de sol que não vivemos. Para lembrar aquelas histórias, inventadas por outros, sobre os momentos em que dividimos cervejas e memórias das horas passadas em lugares distantes. Detalhar as horas que não passei falando sobre nós. Os abraços nunca dados. Os beijos perdidos entre árvores e músicas. E revertê-los em vidas quase vividas.
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Ação
02/05/2017 | 20h14
Via, nas vias, o rosto desejado
Via, nas vias, o rosto desejado
Turbilhões silenciosos invadem o espaço apertado. Gritos abafados ecoam através de portas, janelas, salas, quartos. Cozinhas e banheiros. Estendido sobre o sofá, ele. A inércia dominando os sentidos. Os sentimentos. Os dias. Caminhava, mentalmente, por todas as vielas que era capaz de encontrar. Andava. Pernoitava em penumbras.
Via, nas vias, o rosto desejado. Continuava a seguir. Mentalmente. Buscava para si o pronome pessoal reto que ambicionava. Ela. Para transformá-lo em possessivo. Sua. Quebrar laços, traços. Utilizar verbos a seu favor. Deixar. Ir. Partir. Ficar. Transmutar todos os pronomes retos, possessivos, demonstrativos e indefinidos em nós.
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Sobre o autor

Paula Vigneron

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