Ritual
16/02/2017 | 16h52
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Olhou-se no espelho. Havia manchas em sua superfície. Tentou tirá-las com álcool e um pano velho. Esfregou todos os cantos, mas, dali, elas não saíam. Continuou a observar seus movimentos no reflexo. Seriam dela ou do objeto aqueles resquícios de sujeira? Os olhos negros pareciam cansados. Concentrou-se em seus traços. Não era mais uma menina.
— O tempo passa. E não há como fugir dele.
Parou. Seu corpo foi percorrido por uma sensação de frio. Estava arrepiada. De onde vinha aquela voz? Uma estranha conhecida. Olhou ao redor. Estava sozinha.
— Está na hora de olhar para frente e se encarar. Acha que poderá se esconder de si mesma pelo resto da vida?
Continuava a sentir frio. Dizem que a solidão e o medo causam essa sensação. Fechou os olhos.
— Olhe para mim, Diana. Para você mesma.
Abriu-os vagarosamente. Estava diante de si. Pela primeira vez em muitos anos.
— Isso. Exatamente desta forma. É assim que tem que ser.
Essa era a sua voz. Era estranha. Carregava uma ponta de malícia a cada frase formulada. “Você é cruel na forma de falar, Diana”, dissera, há mais tempo do que poderia supor, sua mãe, durante uma briga. E ela rira. Gargalhara com a cara de pavor da mulher. A graça se perdeu em alguma esquina. Agora, só tinha a si mesma naquele lugar. Parecia sufocante, apertado, fétido.
— Não entendo. Não sei como, mas te ouço, embora você diga coisas que eu não diria.
— A diferença está na coragem. E no meu poder de comando, maior que o seu. Achou que nunca fosse ser necessário olhar para dentro de você? Sei que nunca soube o que encontraria. E isso te assusta.
— Assusta.
A mulher parecia uma criança, paralisada pelo medo. Tentava imaginar maneiras de escapar daquele encontro inesperado. Não era o momento. Em duas horas, estaria no salão para se preparar para o chá na casa de Antônia. À noite, tomaria vinho com Luís Carlos. Depois, retornaria para casa e dormiria. Precisava estar disposta para cumprir a agenda do dia seguinte.
— Não, não, minha cara. Desta vez, só desta, não terá como desaparecer da minha frente. A consciência nos chama ao dever, Diana. Há quanto tempo não faz o exercício de prestar atenção ao que a sua te diz?
A mulher do espelho era sádica.
— Não, Diana. Eu não sou sádica. Sou somente a sua imagem. Está me reconhecendo? — e riu.
— Para de comentar sobre o que não pergunto. Só responda quando ouvir o som de minha voz.
— Como poderia? Mesmo em silêncio, ouço seu som. E continuarei a ponderar sobre o que achar necessário.
Encararam-se. Ambas seguravam o pano. Diana conservava uma expressão de terror infantil. A outra sorria ironicamente.
— Isso é imaginação. Maluquice. Estou ficando muito tempo sozinha — disse, afastando-se do espelho. Deu dois passos e ficou parada. Não conseguia. Uma parte dela sabia que precisava retornar e ouvir.
— Volte, claro. Querida, sabe que é importante este encontro. Afinal, o que seria de você se não restasse o pouco de humanidade que a faz me escutar?
Refez o caminho e parou em frente à mulher, que sorria de modo indecifrável.
— O que quer?
— O que pensa que eu quero?
— Se soubesse, eu não estaria perguntando a você.
— Se eu sei, você sabe. Eu vivo dentro de você, Diana. Nas verdades que você deseja esconder; nos atos que quer disfarçar; nos ruídos silenciosos que percorrem o seu interior quando busca válvulas de escape. Ou você acha que a vida se resume a cafés, chás, comidas e selfies que contam os dias rasos que tem vivido?
Luz e escuridão; alegria e tristeza; profundidade e superfície; amor e ódio; Yin-Yang. Forças opostas e seu equilíbrio que organizam o mundo. Sabia tantas coisas. Estudou sobre diversos temas. Debateu, escreveu. Teorizou. Mas esquecera tudo em troca de uma vida artificial.
— Não disse que você sabia, Diana?
— O que quer?
— Outra vez a mesma pergunta? Parece ter ficado repetitiva com o passar dos anos. Ou quer apenas ouvir o que sabe que não escutará?
— Tenho o direito de optar pelo meu modo de vida sem que ninguém interfira.
— Ninguém? Nem mesmo você, que oculta as insatisfações em taças de vinho? Vê essas manchas entre nós? Tentou limpá-las. Percebeu que não estão na superfície do espelho?
Diana esfregou o pano em seu próprio rosto.
— Não adianta. Estás marcada. Elas estão por baixo, além, dentro de ti, querida. São todos os dias mal vividos. Todas as fugas para não encarar a realidade. Todas as horas desperdiçadas em passeios vãos que não preencheram seus vazios. Diga-me, Diana, se sente acolhida? Aquecida? Amada?
Novamente, o frio.
— Não.
O celular tocou. Era Antônia. Sempre ligava para confirmar as idas aos eventos promovidos em sua casa. Observou. Segurou-o até que a colega desligasse. Ela tentou novamente. Mais uma, duas, três vezes. Desistiu.
— É assim, Diana. As pessoas desistem da gente quando mais precisamos. Já percebeu isso? Ou sua opção por não pensar sobre a vida fez com que deixasse passar esse detalhe?
— O que quer de mim? Por que essa tortura? Sabe que foi isso que me restou. É isso que, hoje, sou. É assim que devo morrer em poucos ou muitos dias.
— Na verdade, minha cara, você morre todos os dias. Eu te vejo fria, rígida. Dura. Com sorrisos insinceros. Palavras levianas. Em discussões que em nada lhe agradam. Viu como a morte caminha a seu lado? Ela é a sua sombra.
Apertou, com toda a força, a garrafa de álcool e lançou-a no espelho. Pedaços do vidro voaram em sua direção. Sentiu arder partes do corpo. Caminhou para o banheiro. Tomou um banho demorado, lutando para afastar de seus pensamentos os momentos recentes.
Vestiu-se com a roupa mais bonita. Pegou o celular e a bolsa e saiu para encontrar Antônia. Diria à amiga que recebeu uma visita desagradável enquanto estivessem tomando o chá e comendo os maravilhosos biscoitos oferecidos pela anfitriã. Depois, tomaria vinho com Luís Carlos e retornaria para casa e dormiria. Precisava estar disposta para cumprir a agenda do dia seguinte.
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Sobre o autor

Paula Vigneron

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