Primavera
04/11/2019 | 08h00
pixabay
O cheiro de flores invadiu o quarto. Eram as rosas ou as papoulas ou os lírios? Tantos odores mesclados a tantas memórias que ele se desencontrava em meio aos tantos. Bromélias? Orientava-se por ela, sempre alegre entre o colorido da natureza, quando buscava o frescor dos jardins. Mas, assim como não aprendera sobre o caminho, falhara em absorver seus ensinamentos. Seria de jasmim? Ou era o dela? Ficava perdido nessas horas em que o sol incidia sobre o quintal e emanava luzes e cores e lembranças. Pensamentos ecoavam ao som do silêncio do ambiente. Orquídeas, quem sabe?
Abriu as janelas. O céu, rajado de branco e azul e amarelo, o cegou momentaneamente. E, entre as flores, ele a viu. Tão bela e viva! Como? Repetia os tons de branco e azul e amarelo do céu. Piscava ininterruptamente e continuava a vê-la ao lado de rosas. Ou papoulas? Lírios, quem sabe? Ele não sabia. Por que não aprendera na hora certa? Sobre ela, sobre as flores, as cores e os cheiros. A mulher tocava uma pétala e ria. Ria um sorriso tão bonito, daqueles capazes de se encaixar apenas entre as pétalas de uma orquídea. Isso! Provavelmente, era uma orquídea.
Permanecia piscando, e ela sorrindo e observando a expressão incrédula com que ele a encarava. Que ridículo, pensou o homem, um velho fazendo essa cara de besta. Mas ele também esboçava um sorriso. Tímido, quase inexistente, mas um sorriso. Há quanto tempo não posicionava os lábios em curvas? Ela estava colorida como todos os outros dias em que compartilharam os cinzas da vida. Talvez ele não tivesse reparado esse brilho nos anos que dividiram. Havia uma juventude, outrora perdida, gritando nos olhos da mulher. Os tons do céu ainda o deixavam cego, mas ele a enxergava tão nitidamente que desejou ter, até o fim de seus dias, a incapacidade de ver as demais cores do mundo.
Ela abandonou as orquídeas e foi para as rosas. Ou eram papoulas? Não importava. O cheiro das flores desapareceu. Havia apenas ela, envolta em pétalas e memórias, e nada mais. À medida que os olhos se adaptavam à claridade do sol, perdia-a. Vagarosamente, o branco-azul-amarelo tornava-se transparente. Ele já não a distinguia do verde das plantas ao redor. Tentou pedir que ficasse mais um pouco. Era tão linda quando se confundia com o jardim. Por que não reparou antes? Esticou as mãos para tentar tocá-la no momento em que os últimos traços coloridos da mulher se desfizeram entre orquídeas, jasmins, papoulas, rosas, bromélias e lírios, cujas pétalas murchavam sob tons de cinza de mais um dia nublado.
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Sobre o autor

Paula Vigneron

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