Angelina
25/06/2019 | 17h47
Pixabay
A porta da pequena capela estava entreaberta, como ela encontrava todos os dias pela manhã. Nunca soube quem a deixava assim. Às cinco horas, Angelina se levantava da cama, preparava uma xícara de café e, com o pão da tarde anterior, fazia torradas. Passava manteiga enquanto seus pensamentos vagavam pelas horas à frente. Após comer, vestia o tradicional xale acinzentado pelo tempo e saía pelas ruas. Atravessava duas, virava à esquerda na terceira e caminhava até o final daquela via. Era sem saída. O ponto final era a igrejinha.
Perto da entrada da capela, ela fazia o primeiro sinal da cruz da manhã. Orava ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. Também agradecia pela bênção de respirar por mais um dia. Aprendera com sua avó que deveria ser grata por tudo, até pelos maus momentos. “É deles que você vai tirar os ensinamentos”, dizia repetidamente à neta. Mesmo obediente ao que falava a mulher, a então menina sentia dúvidas. Era necessário aprender assim? Os anos a mostraram que, sim, era necessário.
À porta da igreja, o segundo sinal da cruz entre lembranças da avó. Era engraçado. Com o passar do tempo, Angelina se via mais parecida com ela. Em seus hábitos, crenças e gestos. Entrou na capela pela fresta. Não precisava mais do que isso para caber naquele espaço. Sentou-se. Observou o altar, já destruído pelos anos de abandono. Ainda era capaz de recordar as missas diárias ali celebradas. Na infância, corria entre os muitos fiéis que depositavam sua fé e seus problemas aos pés de Cristo. Em diversas ocasiões, acompanhou suas orações, mesmo sem saber o que era pedido.
Jesus continuava ali, mas corroído. Seus pés pareciam mais frágeis do que outrora. Os olhos transpareciam uma tristeza além da que ela percebia na meninice. Os santos que estavam próximos à imagem de Cristo entrelaçavam as mãos à solidão. Anjos vagavam perdidos nas pinturas. Tudo estava fora do lugar. No púlpito, o vazio. Onde antes ecoavam vozes de homens, velhos e novos, entre português e latim, havia apenas sombras criadas pelos parcos raios de sol que invadiam o espaço. Apesar do peso que sentia no ar, o cenário continuava a atraí-la.
Ajoelhou-se. Cruzou as mãos em oração. De olhos fechados, estava novamente correndo pela igrejinha. Tinha oito ou nove anos. Usava um vestido florido, de manga curta, e brincava com amigos. Ainda não havia começado a missa. Sua avó estava lendo a Bíblia, como sempre fazia antes das orações. “Menina, sossegue! Eu não tenho mais idade para correr atrás de você. E nem paciência”, brigou a idosa no momento em que conseguiu alcançar a garota, que se desvencilhou e voltou para a brincadeira.
Os dias foram passando pela sua mente à medida que ela avançava no Pai Nosso. Estava brincando mais uma vez com os colegas, mas, agora, era inverno. Vestia calça jeans, blusa azul e uma jaqueta. Nos pés, os tênis comprados pelos pais. “Venha a nós o Vosso Reino”. Já era adolescente e estava sentada a poucos metros do altar, com a cabeça baixa e pensamentos distantes. Tinha discutido com a avó naquela manhã por um motivo do qual não se lembrava mais e foi para a capela, antes da missa do início da tarde. Estava cansada e queria ficar sozinha por um tempo.
“Seja feita a Vossa vontade, assim na Terra como no céu”. Um barulho a tirou de seus pensamentos. Parecia uma queda seguida de burburinho. Levantou a cabeça e viu que as pessoas estavam amontoadas ao redor de alguma coisa que ela não conseguia decifrar. Afastou crianças que estavam à sua frente e se aproximou. Uma pessoa estava caída. Não sabia quem era. Enfrentava braços, cabelos e ombros até que reconheceu o pequeno sapatinho, já desbotado, de cor preta. “Não respira!”, gritou o padre.
Angelina nunca conseguiu se recordar do que aconteceu após o grito do homem. Todas as memórias se confundem, e a cabeça dói de modo lancinante. “O pão nosso de cada dia nos dai hoje. Perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”, disse e suspirou, secando os olhos e afastando as lembranças.
Finalizou a oração. Observou ao redor, ainda a tempo de ver a menina de vestido florido correndo em direção à imagem de Jesus, que, de repente, parecia sorrir. O ar era mais claro. O dia havia amanhecido de fato. Fez o último sinal da cruz, ergueu seu corpo e caminhou em direção à saída. Antes de se despedir da capelinha, olhou para trás. Padres, cantos, credos, crianças, mães, pais. Sua avó olhava-a do canto, batendo no chão os sapatinhos pretos, e vigiava seus passos, como sempre fazia naqueles tempos. Mas, desta vez, ela desviou os olhos e encarou a neta de cabelos brancos, com um sorriso cúmplice. Angelina compreendeu as palavras nunca ditas e também sorriu. Sim, estava tudo bem. Fechou a porta e seguiu para novos dias.
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Sobre o autor

Paula Vigneron

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